CONSERVAÇÃO IN VITRO E EX SITU E VALORIZAÇÃO DE ENDEMISMOS IBÉRICOS DAS APIACEAE PORTUGUESAS

Ana Cristina Pessoa Tavares dos Santos

Taxonomia, fenologia, distribuição geográfica e critérios de conservação

A consulta de material de herbário e de bibliografia de especialidade para a identificação, o reconhecimento da localização geográfica, a caracterização do habitat e a fenologia das espécies vegetais, assumem grande relevância e maior dificuldade no caso de espécies raras, como as endémicas, uma vez que as plantas estão restritas a localizações geográficas específicas e, geralmente, muito limitadas. A Flora Ibérica (Castroviejo et al., 2003) apresenta a revisão mais recente sobre as Apiaceae ibéricas e por isso o trabalho de campo realizado foi baseado nesta obra.
Excluindo Bunium macuca subsp. macuca, foi possível localizar 13 Apiaceae ibéricas endémicas em sete anos de herborizações (2005-2011) em 162 ações para colheitas de campo a 44 localidades, de norte a sul de Portugal. De realçar que 121 herborizações em 36 localidades foram para o estudo dos endemismos, mas visitámos outras oito localidades em mais 41 ações de campo para o estudo das populações das quatro subespécies nativas de D. carota.
Foram elaborados mais de 150 espécimes voucher, que estão depositadas em Herbário COI, e o banco de sementes do Jardim Botânico de Coimbra foi enriquecido com onze taxa, seis destes integrados na coleção e no Index Seminum pela primeira vez, sendo os quatro taxa mais vulneráveis micropropagados e posteriormente integrados nas coleções vivas.
Foi possível constatar que as Apiaceae ibéricas endémicas estão representadas em Portugal por plantas com uma larga faixa edafo-climática e por espécies com grande variabilidade de habitats, desde os solos ultrabásicos de Trás-os-Montes e Alto Douro (Seseli montanum subsp. peixotoanum) (Aguiar, 2001) aos solos calcários do Algarve (barrocal algarvio-Distichoselinum tenuifolium).
Várias diligências com instituições e cientistas da especialidade foram concretizadas para além de uma pesquisa exaustiva em Herbários de Portugal e Espanha relativamente a Bunium macuca subsp. macuca. Como referido, apenas se encontrou um exemplar deste taxon em Herbário COI onde o autor Mateo López Udías (Castroviejo, Flora Iberica, X: 66, 2003) refere a colheita em 1901, em Setúbal, na província de Alto Alentejo, conforme erradamente interpretado na Flora Ibérica, pois esta região localiza-se na Estremadura. Mesmo assim, a planta não pôde ser encontrada nem na área de Setúbal, nem no Alto Alentejo. Além disso, não foi possível encontrar outras referências a este taxon em publicações especializadas, como sejam as obras de vários taxonomistas portugueses (Aguiar, 2001; Lopes, 2001; Silveira, 2001; Honrado, 2003; Ribeiro, 2006; Pinto-Gomes, 2008; Almeida, 2009a). Com base nestes dados, pode ser razoável considerar a forte probabilidade deste taxon estar extinto em Portugal.
Conopodium subcarneum e Eryngium galioides têm sido considerados como taxa muito raros em Portugal (Aguiar, 2001; Pinto-Gomes, 2008). Os nossos estudos confirmam esta constatação, visto que apenas pudemos localizar as duas espécies nas províncias da Beira Alta e do Algarve, respetivamente.
Eryngium galioides está considerado na Lista de Plantas Vasculares Europeias, 2011 (IUCN Red List of Threatened Species, 2011), como LC-Least Concern, mas os resultados das observações efetuadas mostram que deveria ser considerada uma espécie prioritária para conservação, pelo menos em Portugal.
Embora não seja referido na Flora Ibérica, Eryngium duriaei também foi encontrado na província do Douro Litoral, na Misarela, Serra da Freita, para além de outras localidades indicadas: Serra da Estrela e Serra do Gerês e duas populações distintas na Serra do Açor (Mata da Margaraça e Colcurinho). Constatou-se que as populações acima de 1.700 m de altitude apresentavam diferenças morfológicas nítidas, relativamente às outras (700-1.000 m). Esta verificação vem ao encontro da alusão da Flora Ibérica que refere duas subespécies: duriaei e juresianum. Estudos fitoquímicos com base nos óleos essenciais e outras técnicas moleculares puderam esclarecer a caracterização genética e a quimiotaxonomia destes taxa Eryngium duriaei subsp. duriaei e Eryngium duriaei subsp. juresianum (Tavares et al., 2012c), a apresentar de seguida (seção 4.1.1.2.). De igual modo (seção 4.1.1.1.), foi avaliado o teor em DNA e a quimiotaxonomia de populações das quatro subespécies de Daucus carota nativas em Portugal Continental, uma informação importante, dada a grande variabilidade morfológica deste taxon, o que torna muito difícil uma identificação inequívoca. As duas chaves taxonómicas apresentadas na seção de resultados (3.1.3.1. e 3.1.3.2.) foram baseadas no nosso trabalho de campo e nas descrições da Flora Ibérica (2003), para facilitar a melhor identificação e distinção morfológica das 4 subespécies nativas de Daucus carota e das 2 subespécies de Eryngium duriaei.
Embora Angelica pachycarpa não conste na Lista de Plantas Vasculares Europeias, 2011 (IUCN Red List of Threatened Species, 2011) e de acordo com outras referências (Queiroga et al., 2008), verificou-se que esta será uma das espécies endémicas mais vulneráveis em Portugal, uma vez que ocorre exclusivamente nas ilhas Berlengas (Tauleigne et al., 2004; Queiroga et al., 2008). Alguns resultados sobre a micropropagação desta espécie já foram publicados (Tavares et al., 2009-2010), embora a população excessiva de gaivotas na ilha Berlenga tenha dificultado o trabalho de monitorização para a instalação in situ das plantas micropropagadas, conforme descrito na seção 3.2.3.4.
O conjunto de resultados do trabalho de campo efetuado permitiu atualizar os critérios de conservação para algumas das Apiaceae estudadas, nomeadamente:
- Eryngium galioides - embora referida na Flora Ibérica para 5 províncias portuguesas (Ag AAl BA BAl BB (TM)), apenas foi localizada uma população na Nave do Barão, Loulé, numa área muito restrita e com condições edafo-climáticas muito específicas, o que nos leva a incluir esta espécie no grupo 1 – de maior prioridade de conservação.
- Eryngium duriaei - foi detetada uma população, ainda que reduzida, na província do Douro Litoral, na Serra da Freita, não referenciada na Flora Ibérica.
Para além disso, demonstrou-se que as características morfológicas de 4 populações estudadas em diferentes províncias e localidades - Serra da Estrela; Colcurinho, Açor; Serra do Gerês; Mata da Margaraça - apresentam diferenças notórias, consoante se localizem acima ou abaixo dos 1.700m, pelo que foram estudadas outras características químicas e do genoma (a apresentar de seguida, seção 4.1.1.2.), para perceber as relações taxonómicas destas populações, que são descritas em seção própria (3.1.3.2.). As populações da Serra da Estrela são também reduzidas, pelo que sugerimos que este taxon seja considerado prioritário, pertencendo ao grupo 1.
- Bunium macuca subsp. macuca - embora indicado paraPortugal (Castroviejo et al., 2003), este taxon não foi localizado. Após consulta a vários botânicos e coletores portugueses e espanhóis poderemos supor que esta subespécie endémica ibérica possa estar extinta em Portugal.
- Conopodium subcarneumtaxon indicado para cinco províncias portuguesas (BA, (BB), BL, (E), TM); no entanto, as populações encontradas na BA são pouco abundantes, pelo que se sugere a realização de mais estudos na prospeção de campo e localização deste taxon, que por isso é considerado de estudo prioritário, pertencendo ao grupo 1.
- Ferulago capillaris – embora indicado para duas províncias portuguesas, BA, Mi, apenas foi localizado no Minho (Parque Nacional Peneda e Gerês) em populações pequenas e em condições de habitat muito específicas - leito seco do Rio Homem, mata da Albergaria - devendo ser incentivada a sua prospeção em habitat natural, pelo que o critério de conservação será grupo 1 e não grupo 2.
- Laserpitium eliasii subsp. thalictrifolium – uma situação semelhante à anterior foi observada para este taxon, que embora indicado para 3 províncias portuguesas -BA, Mi e TM - apenas parece existir em locais muito específicos, em populações pouco representadas, no mesmo habitat que Ferulago capillaris; deverá ser incentivada a sua pesquisa, pelo que o critério de conservação será prioritário: grupo 1 em vez de grupo 2.
- Thapsia minor - embora indicado para nove províncias portuguesas (AAL, Ag, BA, Bal, BB, BL, DL, E, Mi) este taxon foi localizado sempre em populações muito pequenas, devendo ser feita a avaliação e reconhecimento da sua distribuição geográfica, pelo que se propõe um critério de prioridade de conservação mediano: grupo 2 e não grupo 3.
Com base neste estudo propõe-se uma nova tabela de critérios de conservação dos endemismos ibéricos das Apiaceae portuguesas:

Tabela 41: Endemismos ibéricos das Apiaceae portuguesas: atualização de critérios de conservação prioritária.


Taxa

Províncias
localizadas

Critérios de prioridade de conservação

Localidades
avaliadas

1. Eryngium galioides

Ag

Grupo 3 para grupo 1 –RARO em Portugal

Nave do Barão

2.1. Eryngium duriaei subsp. duriaei

BA

Grupo 2 para grupo 1 – presente apenas acima de 1.700m

Serra da Estrela

2.2. Eryngium duriaei subsp. juresianum

Mi BL DL.

Grupo 2

Serra da Freita
Açor
Gerês
Mata da Margaraça

3. Daucus carota subsp. halophilus

Costa SW, Ag BAl E.

Grupo 1

Cabo S. Vicente
Arrifana
Cabo Sardão
Cabo Carvoeiro
Cabo da Roca
Cabo Espichel

4. Bunium macuca subsp. macuca

AAl.

Grupo 1 – extinto?

Não encontrada

5. Conopodium subcarneum

BA TM.

Grupo 2 para grupo 1 –localizado em populações pequenas

Serra da Arada
Serra da Nogueira, Bragança

6. Conopodium majus subsp. marizianum

AAl Ag BA BAl BB BL DL E Mi (R) TM.

Grupo 3

Tabuaço
Serra da Freita
Lousã
Montemuro

7. Seseli montanum subsp. peixotoanum

TM.

Grupo 1

Alimonde
Samil

8. Angelica major

BA BB Mi TM.

Grupo 2

Serra da Estrela

9. Angelica pachycarpa

Berlenga Islands-E.

Grupo 1

Berlenga

10. Ferula communis subsp. catalaunica

AAl Ag BA BAl BB BL E R TM.

Grupo 3

Guarda
Évora
Loulé
Óbidos

11. Ferulago capillaris

BA Mi TM.

Grupo 2 para grupo 1 – populações pequenas em habitats muito específicos

Celorico da Beira
Guarda
Gerês

12. Distichoselinum tenuifolium

Ag.

Grupo 1

Moncarapacho
Espargal
Burgau

13. Laserpitium eliasii subsp. thalictrifolium

Mi.

Grupo 2 para grupo 1 - populações pequenas em habitats muito específicos

Gerês
Bragança

14. Thapsia minor

BL DL.

Grupo 3 para grupo 2 – localizado em populações pequenas

Mucelão
Queimadela
Piódão, Açor

Para além da necessária monitorização das populações espontâneas, da micropropagação e valorização das espécies, sua recolha e armazenamento de sementes, também a educação e a sensibilização para a importância da biodiversidade é fator indispensável para a sua conservação. Nesse sentido foram realizadas algumas iniciativas abertas a toda a comunidade nomeadamente no acompanhamento da plantação de novas espécies nas coleções vivas do jardim botânico de Coimbra, que divulgámos a nível nacional e internacional (Projeto Inquire).
O trabalho de campo, a pesquisa em micropropagação e o estudo dos óleos essenciais foram concretizados nas mesmas populações, cujos taxa a que pertencem têm exemplar testemunho no Herbário de Coimbra e estão referenciados nos anexos I e II.
Convirá realçar que embora tenha sido realizado um trabalho de campo exaustivo e continuado, nas localidades referidas de norte a sul do país, por um período de sete anos, temos a consciência de que este não é (nem pode ser) um estudo definitivo nem acabado. Outros estudos e abordagens podem acrescentar informação nesta matéria, em regiões que não visitámos ou nas mesmas, em datas diferentes, como decorre de qualquer processo que envolva espécies vivas que, por definição, são sistemas dinâmicos, implicando o seu estudo uma atualização e acompanhamento permanentes.

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