CONSERVAÇÃO IN VITRO E EX SITU E VALORIZAÇÃO DE ENDEMISMOS IBÉRICOS DAS APIACEAE PORTUGUESAS

Ana Cristina Pessoa Tavares dos Santos

Enquadramento do tema da tese

Dizer-se que a vida na Terra depende das plantas pode ser considerado um lugar-comum, mas é de facto uma verdade incontornável. Na realidade, as plantas são a base dos ecossistemas terrestres onde são os produtores primários e geram os hidratos de carbono para as cadeias alimentares. Para além disso, libertam oxigénio, essencial para a sobrevivência, servem de abrigo a outros organismos, condicionam o clima e são responsáveis, em grande parte, pela estabilidade e composição dos solos (Bilz et al., 2011).
As sociedades humanas e os seus antepassados mais longínquos sempre foram dependentes das plantas, não apenas no que à alimentação diz respeito, mas também para a construção de abrigos, obtenção de combustível, vestuário, fibras e para fins medicinais, ornamentais e culturais.
Atualmente é facto incontestável que a biodiversidade dos habitats naturais está ameaçada, o que é parcialmente devido a ações antropogénicas, daí resultando uma redução significativa no número de espécies e populações selvagens em muitos ecossistemas (Primack, 2001; Thomas et al., 2004; Malcom et al., 2006; Hawkins et al., 2008; Pereira et al., 2010; Sharrock e Jones, 2011; Bilz et al., 2011). A título de exemplo, pode referir-se que a redução calculada de 30% do coberto florestal na Europa foi consequência da expansão da agricultura e de outras atividades humanas (Sharrock e Jones, 2009).
Outro aspeto pertinente está relacionado com as alterações climáticas atuais, já consideradas por Davis e Shaw (2001) e Truiller et al. (2005) como um dos fatores que mais impacto poderá ter na extinção de muitas espécies a nível local, bem como na migração de espécies para áreas onde atualmente não são nativas (Bergmann et al., 2010). Avaliações recentes de Pereira et al. (2010) sobre o impacto das mudanças globais na biodiversidade e nos ecossistemas, e o consequente reflexo no desenvolvimento socioeconómico global indicam, consistentemente, que a biodiversidade continuará a diminuir ao longo do presente século.
No entanto, a gama de alterações projetadas pode ser muito mais ampla do que a maioria dos estudos sugere, em parte, por causa de grandes incertezas nas próprias projeções (Pereira et al., 2010).
Em Portugal Continental, os relatórios da Agência Portuguesa do Ambiente (APA, 2007; 2008) referem que se têm registado intensas alterações climáticas nos últimos anos; as ondas de calor e as inundações verificadas desde 2005 revelam que o país tem sido afetado por fenómenos meteorológicos extremos, podendo a redução de espécies vegetais e o risco de incêndio vir a ser consequência destas alterações. Segundo os estudos de Monteiro-Henriques e Espírito-Santo (2010), o cenário de alteração climática até 2080 prevê uma modificação das condições bioclimáticas, com aumento de temperaturas e verões mais secos, do sul para o norte do país, sendo importante implementar estratégias de ação, por exemplo, a interligação entre as boas práticas agrícolas e a biodiversidade (IA, 2005). Na previsão para a mesma data, 2080, Thuiller et al. (2008) referem que as alterações climáticas possam conduzir à perda de 27-42% de espécies vegetais, com potenciais extremos de 2,5-86% para a redução da diversidade florística.
Face a esta realidade, a conservação e a valorização da flora, e em consequência, dos ecossistemas, são dos maiores desafios que as sociedades modernas enfrentam. É obrigação dos governos, e da sociedade em geral, intervir através da promoção e aplicação do conhecimento científico interdisciplinar e da educação para a sustentabilidade (Tavares, 2010; 2011). Só assim se podem incentivar as boas práticas de cidadania, fundamentais para a preservação dos recursos, dos ecossistemas e do património genético natural. Perante as ameaças a que a natureza está sujeita, o futuro das próximas gerações depende muito daquilo que soubermos fazer na preservação da diversidade biológica. Cada espécie que se perde é irrecuperável, pois não pode ser substituída por outra e o seu potencial biológico, e muitas vezes económico, perde-se para sempre.
Neste contexto, deverá ser prioritária a conservação de espécies raras e/ou ameaçadas, como as endémicas, que estão restritas a habitats muito específicos, e de plantas silvestres relacionadas com as espécies cultivadas, vulgarmente designadas por CWR (Crop Wild Relatives). Estas plantas representam uma reserva genética importante, não apenas pelo seu valor intrínseco, mas também por poderem vir a ser utilizadas como reservatórios de genes de interesse para a agricultura e para outras aplicações industriais e de investigação científica (Frese e Nothangel, 2008; Hawkins et al., 2008; Canhoto, 2010; Bilz et al., 2011).
Nos últimos anos tem aumentado a pesquisa para a preservação do valioso património genético natural ameaçado (Almeida et al., 2005) e a preocupação das sociedades por estes problemas tem-se acentuado, criando condições favoráveis para a implementação de programas de investigação que minimizem o impacto do desenvolvimento económico e social nos ecossistemas (BGCI, 2000; Secretariat of the Convention on Biological Diversity 2002; 2010; Frese et al., 2008; Maxted e Dulloo, 2008; Sharrock e Jones, 2009; 2011). De facto, nas últimas duas décadas, o constrangimento público em relação à perda de espécies e de muitos habitats conduziu ao aumento da pressão social para o desenvolvimento de procedimentos mais efetivos para a redução dos prejuízos ambientais e da extinção das espécies (Vitousek et al., 1997; Dobson, 1998; Meyers et al.,2000; Kjær et al., 2004; Hawkins et al., 2008). A sublinhar estas preocupações estão também as medidas adotadas pela Assembleia Geral das Nações Unidas ao declarar 2005-2014 como a "Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável" e 2011-2020, a “Década da Biodiversidade (Living in Harmony with Nature)”, impulsionando a implementação e o desenvolvimento de programas de conservação.
Nos últimos 10-15 anos, a instituição Botanic Gardens Conservation International (BGCI, 2000)propôs um conjunto de Estratégias Globais para a Conservação de Plantas (Secretariat of the Convention on Biological Diversity 2002; 2010) e anunciou 16 metas de ação prioritária para os jardins botânicos de todo o mundo, promulgadas na Agenda Internacional para a Conservação de Plantas (Wyse Jackson e Sutherland, 2000; Wyse Jackson, 2004; Global Strategy for Plant Conservation, 2003). Para o efeito, o BGCI implementou uma base de dados das plantas cultivadas nos jardins botânicos como um instrumento facilitador e para monitorizar o progresso de conservação a nível global (Sharrock e Jones, 2009).
Foi também com o intuito de melhorar a conservação e a utilização sustentável dos recursos naturais que a IUCN (International Union for Conservation of Nature) elaborou a Lista Vermelha de Plantas Ameaçadas, com a primeira versão a ser editada em 1963, sendo sucessivamente atualizada (IUCN, 2001; 2011). Nesta publicação anual é avaliado, numa escala global, o estado de conservação dos taxa e criado um critério de risco de extinção.

Cerca de metade das espécies vegetais do planeta são endemismos, estando presentes em apenas 6% da sua área terrestre, em pequenas populações e, muitas vezes, sobrevivendo em zonas restritas, sendo muito sensíveis a alterações nos seus habitats e por isso muito vulneráveis à extinção. Publicações recentes sobre a diversidade vegetal na Europa indicam a existência de 20.000-25.000 espécies de plantas vasculares, tendo sido identificadas 1.826 espécies na Red List, num total de 24 centros de diversidade vegetal, dos quais nove ocorrem na Península Ibérica (Bilz et al., 2011; IUCN, 2011; Sharrock e Jones, 2011).
Em consonância com a resposta da União Europeia aos princípios da Convenção de Berna sobre a Vida Selvagem e os Habitats Naturais na Europa foi adotada em Portugal, em 1992, a Diretiva Habitats. Esta Diretiva refere-se à preservação dos habitats naturais da fauna e da flora selvagens e inclui as espécies endémicas com estatuto vulnerável ou em perigo, com distribuição localizada e com efetivo populacional baixo, para as quais o Plano Setorial da Rede Natura 2000 (PSRN, 2000) identifica a necessidade de conservação ex situ e/ou de incremento da população.

Em 2010 foi criada em Portugal a primeira lista de todas as plantas vasculares - autóctones, endémicas e introduzidas - de todo o território Português (ALFA, 2007-2010). O inventário indica um total de 3.995 plantas, 3.314 espécies no Continente, 1.006 no arquipélago dos Açores e 1.233 na Madeira, região que alberga o maior número de endemismos: 157 na Madeira, 78 nos Açores e 150 no Continente.
Portugal, enquanto parte da Península Ibérica, está integrado na região da bacia mediterrânea, um hotspot de biodiversidade a nível mundial. O conceito hotspot foi criado em 1988 pelo ecólogo inglês Norman Myers para resolver um dos maiores dilemas dos conservacionistas relativamente às áreas mais importantes para preservar a biodiversidade na Terra. Refere-se às regiões que contêm pelo menos 1.200 plantas vasculares endémicas e que perderam pelo menos 70% do seu habitat original (Hawkins et al., 2008; CI, 2012). Em 2005 procedeu-se a uma atualização dos hotspots tendo sido identificadas 34 regiões, que abrigam mais de 50% das espécies vegetais endémicas e 42% dos vertebrados terrestres endémicos ao nível mundial. No entanto, somando a área de todos os hotspots temos apenas 2,3% de superfície terrestre (CI, 2012).
A Região do Mediterrâneo, um dos 34 hotspots da biodiversidade mundial (Hawkins et al., 2008; CI, 2012), corresponde à área fitogeográfica mais rica da Europa (IUCN 2011), sendo a Grécia o país com a maior concentração de espécies vegetais nativas, por unidade de área. Só a Península Ibérica e as Ilhas Baleares contêm cerca de 7.500 espécies e subespécies, e a Península abriga o maior valor de endemismos da Europa com 63 espécies encontradas apenas em Portugal Continental e 51 somente na Espanha Continental (IUCN, 2011). De realçar que estes dados europeus relativamente a Portugal, embora recentes (IUCN, 2011), estão desajustados dos valores apurados pelas instituições portuguesas (ALFA, 2010), o que releva a necessidade urgente de articular e atualizar trabalho em rede, incluindo todas as instituições ligadas à conservação.
Portugal Continental está próximo da região do mediterrâneo, de elevado interesse devido ao grande número de espécies de plantas endémicas e ao grau de ameaça a que se encontram sujeitas por destruição do seu habitat (Myers et al., 2000). As áreas protegidas foram consideradas relevantes para a conservação da biodiversidade, no entanto, não existe nenhum programa de monitorização que permita determinar a eficiência do sistema nacional de áreas protegidas e de outras medidas destinadas à conservação dos recursos biológicos (Proença et al., 2009). Todas as ações que possam contribuir para a congregação de esforços para a conservação da biodiversidade serão de considerar.

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