INTRODUO A EPISTEMOLOGIA DA CIENCIA

INTRODUO A EPISTEMOLOGIA DA CIENCIA

Christian Jos Quintana Pinedo(CV)
Karyn Siebert Pinedo (CV)

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1.2.1.2 As teorias.

Como bvio, os filsofos no se limitam a enunciar problemas intrincados e sutis. Querem tambm resolv-los. por isso que constroem teorias, tambm elas muitas vezes intrincadas e sutis. No entanto, se no percebermos que problemas procuram eles resolver altamente improvvel que compreendamos e possamos apreciar o valor das suas teorias: o mais natural ficarmo-nos pela aceitao ou rejeio epidrmica (e que muitas vezes falsamente identificada com uma postura esttica, como se gostar realmente de uma sinfonia pudesse ser uma atitude a crtica e epidrmica). "Penso, logo existo" a frmula mgica da teoria de Descartes. Mas que significa isto realmente? Por que se deu ele ao trabalho de escrev-lo? Que procurava ele resolver com o cogito (o termo com que a sua teoria conhecida)? Estas so as perguntas prvias que tm de orientar a nossa compreenso de uma teoria filosfica.

Posteriormente, temos de tentar compreender os labirintos da teoria que estamos a estudar. Como que a teoria funciona? E funciona? No ter alguns problemas de concepo? Por exemplo, poder Descartes, na situao em que se coloca, saber realmente que pensa e que existe? E tratar-se- a expresso que enuncia o princpio da sua teoria ("penso, logo existo") de uma inferncia, como o indica a palavra "logo"? Ou querer ele apenas dizer que, por mais que duvide de tudo, a condio de possibilidade para poder duvidar existir e pensar? E como se articula o resto da sua teoria com este princpio to bsico? Como consegue ele inferir a existncia de Deus e do mundo a partir deste princpio to bsico? Estaro essas inferncias corretas? Ou ter cometido erros? Este o tipo de avaliao crtica que o estudante ter de fazer, de forma progressivamente mais minuciosa e sistemtica, ao longo do seu estudo.

1.2.1.3 Os argumentos.

Muito bem, estive a fazer um bocadinho de batota . no comecei por falar do mais importante de tudo em filosofia - os argumentos. Mas espero que, depois de ler esta seo, se perceba subitamente que todo o trabalho que descrevi nas sees anteriores no possvel realizar sem argumentos. Precisamos de argumentos para nos convencer que o problema do conhecimento de Descartes realmente um problema e no uma fantasia de um soldado aborrecido fechado num quarto aquecido. Precisamos de argumentos para nos convencer que as causas filosficas de certo problema so estas e no aquelas, e que as suas conseqncias no so estas mais aquelas. E precisamos de argumentos para nos convencer que a teoria consegue realmente resolver o que pretendia resolver e que verdadeira e no apenas um agregado de frases talvez atraentes mais escandalosamente afastadas da verdade.

E o que so argumentos?

Os argumentos so razes que apresentamos para sustentar uma qualquer afirmao. H vrios tipos de argumentos: dedutivos, por analogia, causais, de autoridade, atravs de exemplos. Para todos eles h regras que nos ajudam a apreciar o seu valor. por isso que estudar um livro como A Arte de Argumentar importante.

Muitas vezes os filsofos so lidos mais ou menos com a mesma atitude com que os gregos consultavam o orculo e os portugueses lem o horscopo: acriticamente. Esta atitude muito bizarra porque, tal como as profecias oraculares e as prescries dos horscopos, os filsofos contradizem-se. De maneira que muito difcil l-los a todos como fontes de verdade: no podem ter toda a razo. Pode ser que um deles tenha razo; mas mesmo que queiramos tomar a atitude arriscada de defender que era Kant, ou Descartes, ou Aristteles, ou Russell, ou Frege que tinha razo, se o quisermos fazer de forma razoavelmente racional teremos de mostrar que tm de fato razo. A alternativa aceitar aquele filsofo cujas teorias vo ao encontro dos nossos pr-conceitos. Mas isto , claramente, o contrrio de uma atitude crtica, que exatamente o que caracteriza, supostamente, a filosofia.

muito mais provvel que todos os filsofos, como todos os cientistas e todas as pessoas em geral, tenham a sua cota de verdade e falsidade - misturadas, como sempre. Tambm aqui, o que se impe o estudo cuidadoso das suas teorias e argumentos, com o objetivo ltimo de destrinchar um bocadinho mais a verdade da falsidade, do erro e da iluso - essas constantes humanas a que alguns, talvez tocados pelos deuses, dizem ter escapado.