MANIFESTAÇÃO RELIGIOSA DA IGREJA CATÓLICA: A FESTA DE SÃO TIAGO NO MUNICÍPIO DE MAZAGÃO VELHO – AP

Ione Vilhena Cabral
Tatiane da Silva Cardoso
Roberto Carlos Amanajás Pena

1.3. ETNOGRAFANDO A FESTA DE SÃO TIAGO

“Não é tarefa fácil construir um painel histórico das festas brasileiras desde o período colonial, principalmente se considerarmos a diversidade cultural que elas abrigam, espalhando-se por tão vasto território. Também não há uma lógica evolutiva das festas, pois muitas permanecem tal qual surgiram, há centenas de anos” (Mary Del Priore: 1999: 53).

Assim é a festa de São Tiago, uma manifestação religiosa-folclórica que é protagonizada por pessoas comuns que, sem nenhuma técnica de interpretação, conseguem emocionar turistas, nativos e curiosos com suas coreografias, cores, garra e desenvolvimento. Os “atores” deste espetáculo são filhos e moradores de Mazagão Velho que participam da encenação das lutas entre cristãos e mouros, mantendo viva a lenda, motivados pela fé em São Tiago e pelo respeito à tradição. Portanto, a festa de São Tiago é um palco a céu aberto que representa as batalhas ocorridas no século XVIII pela disputa da hegemonia da fé no continente africano.
Uma semana antes da realização da festa, a comunidade, em parceria com o governo e com a prefeitura organiza a limpeza da vila, da praça, da igreja e enfeitam as ruas com bandeirinhas coloridas. Então, a festa de São Tiago se inicia no dia 16 e vai até 28 de julho, nesse período, vários acontecimentos da festa são narrados. Do dia 16 a 23, ocorrem programações internas para a comunidade, nesse intervalo, todos os dias, a partir das 18:00h, são rezadas ladainhas e novenas em homenagem a São Tiago e São Jorge, após isto, temos, nos barracões, festas e arraiais, programação esportiva na praça local e lazer no balneário do município.
Dessa forma, dando continuidade ao calendário de programações, temos, a partir do dia 24 de Julho, as 05:00h da manha a alvorada festiva, as 15:00h saída do arauto pelas ruas da Vila anunciando o início da encenação da entrega dos presentes, que se dá as 16:00h e as 20:00h o baile de máscaras. No dia 25 de julho, as 06:30h, novamente saída do arauto convocando as “figuras” para o Círio, 08:00h missa solene, 11:00h dança do vominê nas residências locais e leilão no barracão de São Tiago, 11:30h entrega de premiação aos vencedores da programação esportiva, 12:00h passagem do bobo velho (vigilante dos mouros) para espionar os cristãos, 14:00h saída do arauto anunciando o início da batalha, cujo episódio se desenvolve na seguinte ordem:

  1. Descoberta do atalaia.
  2. Morte do atalaia.
  3. Armadilha.
  4. Captura e venda dos meninos cristãos e partilha do dinheiro entre os mouros.
  5. Troca do corpo do atalaia pela bandeira moura.
  6. Batalha entre mouros e cristãos, tomada do estandarte dos mouros e batalha final.
  7. Vominê (toque de vitória dos cristãos).

As 20:00h ocorre o Recírio, 20:30h ladainha de São Tiago, 21:00h show pirotécnico (fogos) e 22:00h baile dançante. No dia 26 de julho, 08:00h temos a salve rainha em louvor a Santa Ana e procissão, 09:00h baile da melhor idade e 20:00h baile dançante. Em 27 de julho se inicia a festa de São Tiago das crianças, mas 28 de julho é o dia oficial da festa de São Tiago das crianças e o término geral da festa.

 OS PRESENTES

De acordo com a programação, a encenação da batalha de São Tiago só começa a partir do dia 24 de julho, esse período apresenta maior relevância, porque nesse dia são entregues os presentes envenenados aos cristãos. Aqui, dá-se início, de fato, a manifestação religiosa da igreja católica. Essa passagem se dá logo após vários dias de batalhas com grande vantagem para os lusitanos, os mouros, chefiados pelo rei Caldeira, vendo que não venceriam seus adversários, armaram uma cilada que consistia em entregar aos capitães cristãos presentes em forma de iguarias. Ao receberem estes presentes, os cristãos suspeitaram que eles estivessem envenenados e, se comessem, morreriam. Sendo constatados que os mesmos estavam envenenados, jogaram uma parte da comida na granja dos mouros, onde ficavam os animais, e guardaram a outra parte para armarem uma contra ofensiva. Vejamos esta passagem na ilustração abaixo, onde uma das moradoras de Mazagão Velho recebe os presentes envenenados dos soldados mouros.

           

Foto 10: Entrega dos presentes envenenados pelos mouros aos moradores.

Após a entrega dos presentes, por volta das 19:00h na igreja de Nossa Senhora da Assunção – Mazagão Velho –, são rezadas ladainhas e novenas em homenagem aos santos Tiago e Jorge, após isso são apresentadas as pessoas que representarão os santos no dia 25 de julho, assim como, as roupas que serão usadas pelos mesmos. Este ano os representantes das “figuras” principais foram, Zebedeu Queiroz de Jesus foi São Tiago, Adriano Carlos Reis foi São Jorge e Alexandre Queiroz de Jesus foi o atalaia. Na apresentação das roupas, mostrousse a camisa, a calça, a espada de São Tiago e São Jorge, o manto verde (do primeiro santo) e o manto amarelo (do segundo santo), o capacete e o escudo. Como mostra a figura abaixo. Assim, dando seqüência a festa, no barracão de São Tiago, temos o baile de máscaras.

                                                     

Foto 11: Vestimenta de São Tiago.

Foto 12: Vestimenta de São Jorge

 O BAILE DE MÁSCARAS

Sem nada saber da desconfiança dos cristãos, os mouros, confiantes do envenenamento dos capitães portugueses, à noite, organizaram um baile de máscaras e estenderam o convite aos cristãos que quisessem passar para o lado deles, pois eram seus antigos correligionários e conterrâneos. A essa festa compareceram os cristãos fiéis, também mascarados, para armarem uma cilada para os mouros, como queriam fazer aos cristãos, levando, para eles, parte dos presentes envenenados que tinham recebido, distribuindo, assim, aos seus inimigos que dançavam, bebiam e comiam sem nada saber.
Quando amanheceu, algumas autoridades mouras que costumeiramente visitavam a granja, depararam com os animais mortos e chegaram a ver os restos da comida oferecida por eles aos cristãos. Imediatamente correram para despertar os soldados, ainda ressacados da festa, e constataram um espetáculo pavoroso, muitos soldados jaziam mortos por haverem comido o presente dos cristãos e entre eles estava o rei Caldeira, seu chefe supremo.
Atualmente, observou-se, no período da festa, que desse baile somente os homens podem participar, as mulheres não podem, além disso, nesse dia não pode haver outro baile ou festa em nenhum dos barracões da comunidade, pois esse baile faz parte de uma das passagens da batalha entre cristãos e mouros.
Para este baile, os homens usam, além das máscaras, fantasias coloridas e/ou vestimentas femininas. Os visitantes, homens, podem participar, no entanto, precisam está devidamente fantasiados e mascarados e, assim, dançam, cantam e fora do barracão bebem a famosa “gengibirra”. Esse espetáculo vai até a madrugada do dia 25 de julho, quando é ofertado, aos participantes da festa “um caldo”, uma espécie de sopão, que é feito por uma das moradoras de Mazagão Velho com o objetivo “de repor as energias daqueles que participaram do baile de máscaras”.
A
O MENINO CALDEIRINHA

Com a morte do rei Caldeira, os mouros compreenderam que se tratava da vingança dos cristãos, então, o trono foi ocupado pelo seu filho, ainda adolescente, chamado Menino Caldeirinha que substitui seu pai, por ter morrido na madrugada do baile de máscaras. Na manhã seguinte, aproveitando a situação de desespero dos mouros, os cristãos decidiram atacá-los. Mas, como de costume, antes da batalha, os cristãos (vestidos de branco com uma cruz ao peito) confessavam os seus pecados em preparação a “guerra”, já que estavam dispostos a lutar até a morte.
Após a confissão, os cristãos fizeram, junto com São Tiago, o seguinte juramento: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, juro pela cruz de minha espada que só a colocarei na bainha, quando findar esta batalha com a nossa vitória”. Assim, animados pela fé e devoção, os cristãos cheios de coragem, começaram uma violenta batalha contra os mouros (vestidos de vermelhos), no dia 25 de Julho.

O DIA DA FESTA DE SÃO TIAGO E O BOBO VELHO

Chegado o dia 25 de julho, dá-se, então, início a celebração a São Tiago e São Jorge, então, bem cedo, as 04:00h da manhã, começa, em   Mazagão   Velho,  a   alvorada    festiva 1,   com músicas e fogos pirotécnicos, as 06:30h saída do arauto pelo vilarejo convocando a população mazaganense e os visitantes para o Círio. A 08:00h missa solene em homenagem a São Tiago, 09:00h ocorre o juramento de São Tiago, simbolizado por um dos moradores da comunidade que faz a figura do santo e passeata do mesmo acompanhando o Círio que passa por todas as ruas da comunidade junto com as imagens de Tiago e Jorge. Após o Círio, por volta das 11:30h, temos a entrega de premiação aos vencedores da programação esportiva.
Dando continuidade as encenações, seguiremos com a passagem do bobo velho que se dá às 12:00h em ponto. Durante o descanso do meio-dia, quando a luta cessou um pouco, os mouros mandaram um vigia até o acampamento cristão, o bobo velho. O objetivo do bobo era tentar persuadir seus conterrâneos, que haviam se convertido ao cristianismo, a passarem novamente para o lado mouro. Observe na figura abaixo o momento da passagem do bobo velho.

Foto 13: Passagem do Bobo velho.

Além disso, cabia ao bobo velho espionar o estado em que se encontrava a força militar dos seus inimigos. Os cristãos, por sua vez, perceberam que o bobo velho era mais uma cilada dos mouros, então, deixaram ele se aproximar do acampamento e, quando chegou perto, os cristãos começaram a apedrejá-lo e a jogar qualquer objeto que encontravam em sua frente, o bobo em contra partida saiu correndo assustado, retornando para o acampamento mouro.

O ATALAIA: DESCOBERTO E MORTO

Assim como os mouros tinham um espião, que era representado pelo bobo velho, os cristãos também possuíam o seu, que era o atalaia. Então, dando continuidade a batalha, às 14:00h novamente sai o arauto anunciando o início da guerra. No fim da tarde, antes de iniciar o conflito, os cristãos mandaram o atalaia espionar os mouros, foi quando este     descobriu  a bandeira moura e arrebatou-a. Entretanto, foi descoberto pelos seus inimigos que conseguiram lhe acertar um tiro, mesmo ferido pelos mouros o atalaia conseguiu chegar próximo a seu acampamento atirando a bandeira a seus companheiros cristãos dando gritos de alerta: “Alerta! Alerta!Alerta!” despertando-os do inimigo. Os mouros conseguiram pegar o corpo do atalaia e por vingança cortaram a sua cabeça e a espetaram em uma vara, pois a erguiam junto do muro do acampamento dos cristãos cada vez que estes levantavam a bandeira moura. Faziam isso na tentativa de amedrontar os cristãos que não cediam as suas chantagens.
Comenta Pereira Nunes 1951:

“Outro motivo era a defesa e posse das bandeiras do Divino Espírito Santo, de S. Tiago e de S. Jorge, com suas espadas cruzadas sob o símbolo da cruz, uma área central do pano, ou êste mais: a morte do Atalaia mouro, cujas as vestes o povo cristão enlameava e sujava com tisna....No meios desses episódios, frente aos santos, estava sempre o Menino da Cadeirinha, que era o “Rei dos Mouros”....Entao impulsionados por qualquer desses motivos, Cristaos e Mouros pelajavam, sob suas bandeiras, com todo ardor da sua fé e toda a veneração ás sua divindades”. (PEREIRA, pg. 104/105)

 O ROUBO DAS CRIANÇAS CRISTÃES E A TROCA DO CORPO DO ATALAIA

Ainda com o objetivo de vencer os cristãos, o rei Caldeirinha recorreu a mais uma cilada e mandou que seus soldados fizessem uma passeata ao redor do acampamento cristão a fim de roubar as crianças que, curiosas, foram facilmente apanhadas. O plano foi executado com êxito, as crianças foram vendidas e, o dinheiro que arrecadaram, os mouros compraram armas e munições, além disso, corromperam os cristãos indecisos, convidando-os a passarem para o seu lado. Vejamos esta passagem da ilustração abaixo que mostra a tentativa dos mouros em convencer os indecisos a passarem para o seu lado e o roubo das crianças cristães.


















Foto 14: O roubo das crianças pelos mouros

Então, o rei Caldeirinha ficou muito satisfeito com o êxito de seu plano e com a adesão cristã. Quando os cristãos souberam do roubo de suas crianças, iniciaram uma violenta batalha cheia de heroísmo e fé. Dessa forma, o menino Caldeirinha não convencido da situação, recorreu a mais uma cilada e propôs a troca do corpo do atalaia pela bandeira moura em poder dos cristãos. Estes aceitaram a troca, mas não entregaram a bandeira.

A ÚLTIMA BATALHA

Em virtude desse fato, deu-se início a ultima batalha entre cristãos e mouros travada na Mazagão africana. Ao anoitecer, os cristãos pediram a Deus que prolongasse o dia a fim de que pudessem vencer tão desesperada luta. Assim, parecia que o dia estava se prolongando e os cristãos iam vencendo as batalhas, derrotando os mouros que fugiam em retirada, deixando para traz o rei Caldeirinha que logo foi aprisionado pelos cristãos. De acordo com os moradores, São Tiago em função da batalha final, saiu para defender seus companheiros, muitos soldados mouros (infiéis) morreram e os cristãos venceram a batalha, jubilosos pela vitória agradeceram a Deus e, na passeata, levaram o rei mouro derrotado.

Foto 15: Soldados cristãos

Foto 16: Soldados mouros


O vominê

Por fim, depois de terminado o conflito, à noite, o povo em agradecimento a Deus, organizou uma procissão onde desfilavam com seus capitães e o menino Caldeirinha. Organizaram um baile, o qual denominaram de Vominê, que simboliza, hoje, a vitória alcançada pelos cristãos, passando a noite toda cantando, dançando e convidando todos a participarem do baile.
Todos estes acontecimentos fazem parte da história, da lenda, cultura e tradição da comunidade de Mazagão Velho e são encenados e representados por seus próprios moradores. Os fatos citados são expressões da festa dos adultos que termina no dia 25 de julho. Após as apresentações que encerram por volta das 19:00h se dá novamente início ao Círio, chamado pelos moradores da comunidade de Recírio, com missa solene, ladainha e novenas, às 22:00h dá-se início ao arraial e as festas profanas nos barracões com shows de bandas locais para animar a população.
No dia 26, temos, o baile da melhor idade, criado para alegrar os moradores mais antigos de Mazagão Velho, já os dias 27 e 28 de julho são dedicados a festa de São Tiago das crianças, o qual realizam o espetáculo tal qual a festa dos adultos. Estes últimos foram criados atualmente, prolongando assim, o período da manifestação religiosa da igreja católica.


1 De acordo com informações do Sr. Antônio José Pinto, 38 anos, a alvorada geralmente ocorre na madrugada. Os caixeiros com seus tambores passavam por todo o acampamento cristão, chamando os soldados para a batalha. Na realidade seria uma espécie de “despertador” com a finalidade de acordar os soldados para guerra.

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