PATRIMÓNIOS E LAZERES TURÍSTICOS

Paulo Carvalho. Coordenação

PATRIMÓNIO, LAZERES TURÍSTICOS E DESENVOLVIMENTO: DOS LUGARES ÀS REDES

Susana Maria Pereira da Silva
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território Faculdade de Letras. Universidade de Coimbra

1. Património e lazeres turísticos: novas direções no processo de desenvolvimento territorial

 

Da apreensão do conceito de desenvolvimento territorial enquanto processo complexo e dinâmico, a reflexão centra-se hoje nos principais elementos tangíveis e/ou intangíveis que se afiguram como estruturantes na concretização deste processo, cuja complexidade não se dilui, antes se adensa, conforme se tornam cada vez mais voláteis as dinâmicas dos territórios e as necessidades das sociedades que dele se apropriam.
A passagem do fordismo para o pós-fordismo dá corpo a um conjunto de mutações que há muito vinham ganhando contornos. O lazer e o tempo a ele associado assumem-se como orientação central no quotidiano da população (SANTOS, 2005).
As novas procuras têm suscitado novas ofertas e proporcionado novas práticas turísticas que demonstram a relevância de produtos, que configuram novas escolhas geográficas como o campo, os planos de água ou a montanha (CAVACO, 2006a; CARVALHO, 2009), na sequência de novas formas de utilizar o território (CRAVIDÃO, 2006), e que têm influenciado a valorização de recursos culturais, onde o património surge como recurso diferenciador dos territórios, utilizado de forma crescente para obter vantagens comparativas entre lugares, por via de estratégias inovadoras e na delineação de novos produtos de turismo cultural destinados a captar segmentos específicos da procura turística (CARVALHO, 2006).
Nesta linha, as pressões e solicitações dos aspetos caracterizadores de cada cultura e os seus elementos diferenciadores têm provocado a mercantilização dos bens culturais (BARROS, 2004), nomeadamente do património, que se tem transformado em bem de consumo turístico traduzido em tendências várias que abarcam desde o turismo ecológico, rural, de aventura, ao religioso, de saúde e cultural, entre outros.
A consciência da esgotabilidade dos recursos do planeta, tem proporcionado um renovado olhar sobre o património natural e cultural. As questões relacionadas com o valorizar da história no seu sentido lato, por uma sociedade mais instruída e interessada e com vontade de investir bem o seu tempo de lazer, têm estado em voga.
Estamos perante o novo paradigma do património e do “uso cultural” da cultura que procura “dar um lugar ao lugar” (CARVALHO, 2005; CRAVIDÃO, op. cit.), tomando o património como argumento competitivo nas estratégias de desenvolvimento.
Entende-se pois a relação de proximidade entre os parâmetros em jogo, tal que “tourism constitutes an acceptable path to development, and cultural heritage constitutes na accepted tourist resource” (ASHWORTH, 1994: 207), onde o turismo, encarado atualmente como um dos veículos mais importantes para as trocas culturais (ICOMOS, 2007), trata o património como o sistema produtivo peculiar ao qual “se incorpora continuamente culturas, gente, lugares, comportamentos e cenários pouco conhecidos e não convencionais” (BRITTEN, 1991: 454, citado em CZERNY, 2006: 183). E é neste sentido que o turismo, como refere COSTA (1999), se vem destacando progressivamente do caráter de frívola indústria e de superficialidade, evidenciando cada vez mais razões e motivações sólidas e profundas, materializadas no plano da aprendizagem cultural.
Embora a interpretação do património constitua, segundo CUEVAS (2003), um conceito na moda, é tão antigo como a origem da Humanidade. Contudo, salienta-se hoje a importância da cultura, na sua aceção mais ampla, e os itinerários culturais desenhados em redes, que abraçam um infindável conjunto de modalidades patrimoniais, como vias promotoras de uma imagem positiva e atrativa dos territórios, dando a conhecer e a afirmar o produto cultural.
É neste sentido que novas trajetórias de desenvolvimento ganham expressão, nomeadamente nos territórios rurais, na sequência da renovada forma de encarar e reviver a ruralidade, num cenário mais diverso, complexo e multifuncional, integrando expectativas e interesses ambientais, de fruição e utilização (CAVACO, 2005). Será neste contexto que se vem (re) descobrindo o mundo rural, uma realidade incontornável, e todas as suas potencialidades através da atividade turística, que lhe vem conferindo alguma visibilidade e posição privilegiada no conjunto das regiões turísticas. Assim sendo, depois de um período em que dominaram as perspetivas produtivistas, demasiado redutoras, e na sequência da autonomização do espaço rural em relação à agricultura, que já não assegura a vitalidade da sociedade rural nem hegemoniza a utilização do espaço, consolidam-se as perspetivas territorialistas, oportunamente reconhecidas no relatório “Futuro do Mundo Rural” (1988), um dos primeiros sinais de mudança de paradigma para o mundo rural, com a descoberta e valorização de novas funções para estes territórios nomeadamente o lazer e o recreio (CARVALHO e SILVA, 2010), sendo encarado agora como “guardador de paisagens e memórias” (FIGUEREDO, 1999: 266). Muito embora o turismo não seja novo nas áreas rurais, certo é que, as funções recreativas das mesmas se diversificaram social e espacialmente (CAVACO, 2006a).
Reaviva-se o mundo rural em consequência da invenção de um novo sentido para as paisagens e os lugares, que é alheio aos residentes, novas funções e vocações, pelos turistas (CAVACO, 2006b). Contrariando o antagonismo de que rural e desenvolvimento eram revestidos, identifica-se a atividade turística, há muito considerada como um promissor vetor de desenvolvimento rural, estando inclusive presente, hoje mais do que nunca, nos planos estratégicos delineados para estes territórios (RIBEIRO, 2003). Contudo, muitos são os que acautelam que o turismo não é o remédio universal e não contém a solução definitiva para os problemas de marginalização económica e social de muitas zonas rurais, devendo ser promovido em equilíbrio com outras atividades, dentro de um modelo integrado de desenvolvimento rural (LEADER MAGAZINE, 1993, citada em LEAL, 2001).
A Iniciativa Comunitária LEADER, nas suas três fases, configura essa atmosfera de mudança, onde através dela se procurou conferir ao rural e aos atores locais um papel mais dinâmico, mais autónomo e com capacidades de escolha e intervenção no seu próprio processo de desenvolvimento. Estava aberto caminho para a consolidação do caráter multifuncional do rural sustentado pela diversidade de recursos endógenos de que dispõe, onde o património se vem assumindo como referência âncora no seio dessa mesma estratégia, não só no sentido da sua valorização e divulgação, mas cada vez mais no sentido da preservação do valor material e, tão ou mais importante que isso, do valor simbólico e culturalmente identitário. De facto, o simbolismo do património rural sobrepõe-se ao seu real valor económico, constituindo um espaço que instiga às memórias e às vivências, que são de forma crescente os atrativos para o desenvolvimento de uma imagem turística com vista a captar os segmentos de mercado emergentes.
Para MÍNGUEZ (2003) o território e o património cultural são eixos prioritários do desenvolvimento local e rural. Começou-se a valorizar o território e o património cultural a partir da última década do século XX, onde a consideração do património territorial e cultural como recurso económico advém do renascimento do interesse pelo mundo rural em busca de legado histórico e das singularidades de cada espaço, e a sensibilidade da sociedade rural mudou impedindo a ruína do património e a perda de memória coletiva através da adaptação a novos usos.
No mundo rural (re) nascem modalidades de oferta turística que tomam como base os diversos recursos endógenos, materiais e imateriais assim como a paisagem. Referem-se o touring cultural, o golfe, o turismo gastronómico, o enoturismo, o turismo fluvial e náutico, o turismo termal, o TER, o turismo desportivo, entre outros que polarizam cada vez mais segmentos da procura (CAVACO, 2006a). É na sequência das novas procuras, dos novos usos da cultura e dos vastos patrimónios, e na necessidade de dar respostas, que surge a integração, a associação em rede materializada na oferta de rotas turísticas, que se pretendem requalificar através do turismo cultural.
GUZMÁN e CAÑIZARES (2008: 160) afirmam que “La clusterización de atividades y atracciones, y el desarrollo de rutas turísticas, estimula la cooperación y relación entre las diferentes empresas de las áreas rurales”. Desta forma o turismo e a criação de rotas (diversas nos recursos base que incluem) constituem uma alternativa para levar a cabo estratégias de desenvolvimento e regeneração económica e social das área rurais, constituindo esta dimensão cooperativa uma das formas organizativas com mais futuro no campo do turismo rural pois podem adaptar-se de maneira mais rápida às exigências da procura (MÉNDEZ e MARTÍNEZ, 2002, citados em GUZMÁN e CAÑIZARES, op. cit.).
E é nesta linha de pensamento que se encara o turismo organizado em diversas modalidades de rotas, itinerários, circuitos e percursos desenhados em redes, que articulam sítios e lugares, configuradas a várias escalas, e alcandoradas frequentemente nos patrimónios, valores patrimoniais e culturais, como modelo de desenvolvimento económico sustentável e integrador de determinados produtos turísticos e territórios (ou microterritórios), e de desenvolvimento de um sentido de pertença, capazes de dinamizar a competitividade de um território, incrementar e melhorar a produção e proteção da cultura e melhorar as condições de vida das populações.

 

2. Dos lugares às redes – os novos paradigmas de desenvolvimento territorial

O conceito de rede está em voga mais que nunca quando estamos perante um paradigma da valorização dos territórios não de forma isolada pois, segundo FERNANDES (2005), os lugares hoje não podem ser percecionados como pontos isolados, ilhas individuais sem qualquer tipo de relação, mas sim embrenhados numa estratégia de cooperação e integração cada vez mais horizontal.
A rede é encarada como uma forma de organização flexível composta por um conjunto de nós e conexões em construção, que estabelecem constantes relações de troca e partilha entre si, portanto que interagem e evoluem (JOHANSON e MATTSSON, 1992, citados em CORREIA, 2005; CARVALHO, 2005).
É neste sistema organizativo que se encontram diversos patrimónios, agora não apenas reduzidos ao lugar ou ao sítio mas organizados numa teia de relações que se afiguram cada vez mais complexas. As rotas turísticas, que integram modalidades várias de patrimónios, constituem hoje um dos principais argumentos dos territórios.
Podemos definir rota como a criação de um cluster de atividades e atrações que incentivam a cooperação entre diferentes áreas e que servem de veículo para estimular o desenvolvimento económico através do turismo (BRIEDENHANN e WICKENS, 2003, citados em GUZMÁN e CAÑIZARES, op. cit.). As rotas consubstanciam uma rede de recursos, com características e potencial turístico e organização própria que, articulados entre si, proporcionam o produto/oferta turística de determinados territórios (CORREIA, op. cit.). O conceito de rota turística assume assim um caráter unificador e implica a integração de uma série de elementos que as transformem em destino turístico.
Crescem de forma exponencial, em quantidade e em diversidade, as rotas e circuitos, incluindo uma série de elementos patrimoniais, dos mais evidentes aos mais insólitos. É caso para dizer que hoje quase tudo é motivo para organização em rede e para a constituição de uma rota turística. Pensamento assumido por DOWER (1997) citado em CARVALHO (op. cit.) que sublinha que diversos elementos patrimoniais se integram facilmente em itinerários turísticos ou circuitos temáticos.
Há, de resto, vários exemplos documentados, a nível europeu e também nacional, baseados em elementos tão diferentes como os vikings, fantasmas, lugares geográficos relacionados com a literatura, caminhos de peregrinos, caminhos de ferro a vapor, canais e vias navegáveis, o vinho, percursos da transumância, dos contrabandistas, entre outros (GUZMÁN e CAÑIZARES, op. cit.; CARVALHO, op. cit.; CAVACO, op. cit.).
A importância destas rotas e destes itinerários é hoje assumida como crucial na integração e aproximação dos territórios e na construção de estratégias suprarregionais e nacionais de valorização, promoção e preservação do património, da cultura, da identidade, cada vez menos confinados à realidade microterritorial e cada vez mais assumidos como bens universais.
Ao nível europeu destaque para os “Itinerários Culturais das Regiões da Europa” que constituem desde os anos 80 um significativo impulso para a descoberta e desenvolvimento do segmento de turismo cultural. Segundo a mais recente lista publicada, são já 29 os “Itinerários Culturais” do Conselho da Europa divididos em 5 grandes temáticas: Personagens Europeias, Os Caminhos de Peregrinação, A Influência Monástica, Património Industrial na Europa e ainda nove itinerários sem qualquer integração temática, que cruzam realidades diversas mas que têm o mesmo objetivo, divulgar um território, um lugar a partir da sua identidade cultural, dos seus vestígios do passado, e fazer com que seja procurado e apreciado por turistas ativos e participativos, no presente, para que esses valores culturais se perpetuem no futuro.
Turistas que procuram a concretização das suas expectativas imaginárias e simbólicas sobre a temática eleita, sendo movidos pela vontade, embora que simbólica e ficcionada, de seguir as pautas musicais de Mozart (Itinerário de Mozart), as conquistas de D. Quixote (Rota de D. Quixote), peregrinar pelos caminhos de Santiago de Compostela (Caminhos de Santiago de Compostela), conhecer a cultura judia (Itinerário Europeu do Património Judeu) ou a pré-história (Caminhos de Arte Rupestre Pré-Histórica), como a única forma de se poderem transportar para um mundo, um cenário que, em muitos casos, já somente reside no seu imaginário, de poderem sentir como se estivessem de facto a viver, experienciar e presenciar acontecimentos e vivências, ao tempo real das mesmas. Nesta linha, podemos afirmar que os turistas encaram estes percursos como forma de recuperar uma identidade cultural, uma pertença à história, que em algum momento, ou sentem que perderam, ou somente querem (re)conhecer e dela fazer parte ativa.
Por cá, os últimos anos têm sido profícuos em exemplos deste tipo de organização, tanto à escala interna (confinada somente a elementos nacionais) como a uma escala transnacional (abrangendo não só elementos nacionais, mas internacionais, nomeadamente europeus).
A nível nacional destaque para o papel do Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico que, através dos “Itinerários e Inventários Temáticos”, tem contribuído para a implementação e divulgação deste tipo de estruturas (CARVALHO, op. cit.), nomeadamente com os exemplos “Pontes Históricas do Alentejo – Um Itinerário Cultural”, “Itinerários de Cister”, “Património Industrial – Arquitetura Industrial Moderna (1925-1965) ”, “Itinerários Arqueológicos do Alentejo e Algarve” e “Património Industrial”, que procuram acima de tudo salvaguardar e dinamizar o património através de circuitos turísticos interpretativos.
Nesta esfera de valorização dos contextos territoriais e dos seus recursos e da formação de redes territoriais, no âmbito principalmente do 3º Quadro Comunitário de Apoio (2000-2006), uma referência se nos merece a constituição da “Rota dos Escritores do século XX da Região Centro” que partiu da base literária e ainda, os exemplos das Aldeias Vinhateiras, as Aldeias Históricas de Portugal, as Aldeias de Água, as Aldeias com Castelo e Património, as Aldeias de Minas, as Aldeias do Algarve e, com mais visibilidade, as Aldeias do Xisto, um projeto de intervenção integrada com vista à requalificação de um conjunto de 24 aldeias serranas localizadas na região Centro de Portugal. A sua configuração em rede, “Rede de Aldeias do Xisto, liderado pela ADXTUR, perspetivou a criação de um novo produto turístico, inovador e que se integrasse na geografia dos destinos turísticos de uma procura exigente, sustentado pela cooperação e integração a diversos níveis nomeadamente em estratégias de promoção, afirmação e consolidação de uma Marca (CARVALHO, 2009). 
Nomeadamente a “Rede das Aldeias do Xisto” e a “Rede de Aldeias Históricas”, constituem iniciativas que proporcionam uma nova imagem e uma atitude mais positiva em relação às aldeias e ao mundo rural, concorrendo para relançar a autoestima das populações e afirmação de territórios deprimidos a vários níveis (BOURA, 2002/2004).
Para além destas, referem-se ainda os exemplos da Rota do Minério, Rota do Azeite (CAVACO, op. cit.), Rota dos Castelos (Castelos do Mondego, Muralhas e Torres de Dão-Lafões, Castelos Templários), Histórias com sabor a Sal, Rota do Românico do Vale do Sousa, Rotas dos Vinhos (Vinho Verde, Porto, Cister, Dão, Bairrada, Beira Interior, Ribatejo, Oeste, Bucelas, Carcavelos e Colares, Costa Azul e Alentejo), entre as rotas mais divulgadas.
À parte desta, cada vez mais diversa, panóplia de redes, rotas e circuitos turísticos congregando recursos e territórios nacionais, é interessante, contudo, constatar que esta integração de elementos patrimoniais é feita a uma escala cada vez mais transnacional, extravasando frequentemente as fronteiras administrativas das nacionalidades.
Constituem exemplo a “Rede Europeia de Turismo de Aldeia”, uma parceria constituída inicialmente por cinco regiões – Alentejo (Portugal), Arad (Roménia), Lapónia (Finlândia), Lomza (Polónia) e Trentino (Itália) – e às quais já se juntaram outras cinco regiões da Grécia, Eslovénia, Bélgica e Itália (Toscânia e Piemonte). Trata-se de um produto turístico baseado numa rede de aldeias que oferecem serviços turísticos em áreas como o património, ambiente e cultura tradicional, um projeto de promoção do desenvolvimento local que utiliza o turismo como instrumento catalisador de integração e sustentabilidade e que perspetiva o desenvolvimento do conceito de Turismo de Aldeia, a participação ativa dos atores locais e o desenvolvimento do conceito de Turismo do Imaginário – cultura, magia e natureza alicerçada em temáticas como o Megalitismo (Alentejo), Bruxaria (Itália), Shamanismo (Lapónia), Árvore da Vida (Lomza) e Lendas da Montanha (Arad). É desde 2003 apoiada pelo programa comunitário INTERREG III, e pressupõe um conjunto de atividades das quais se destacam o desenvolvimento de Planos de Aldeia, de um Documento Orientador para a Seleção de Aldeias, de um Plano Estratégico da Rede e de ações de promoção e animação turística, edição de materiais promocionais e ações de formação profissional (RODRIGUES e RODRIGUES, 2009).
A “Rede Europeia do Património Termal e das Cidades Termais”, um dos Itinerários Culturais do Conselho da Europa, desde 2010, foi criada em 2005 e tem crescido com a participação de representantes de diferentes localidades, onde as Caldas da Rainha e S. Pedro do Sul constituem as representantes portuguesas, que anualmente se reúnem por ocasião da Feira de Ourense. Aí apresentam as suas experiências e estratégias, os seus avanços na área da prática termal e sobretudo na capacitação dos seus núcleos urbanos, materializando à escala europeia um plano de intercâmbio e potenciação do interesse económico e cultural das cidades termais europeias. A cultura termal constitui o eixo estruturante deste projeto (ANTUNES, 2007).
Mais recentemente, quatro cidades portuguesas, Aveiro, Figueira da Foz, Rio Maior e Castro Marim, passaram a integrar a “Rota Turística Europeia de Cidades Salineiras” juntamente com localidades de Espanha, França e Inglaterra constituindo o traço principal do projeto “Ecosal Atlantis – Ecoturismo nas Salinas Atlânticas”, aprovado pela União Europeia, com um investimento de três milhões de euros e a duração de três anos (COSTA, 2010). O principal objetivo reside no desenvolvimento conjunto, integrado e sustentável do turismo baseado no património cultural e natural dos espaços salineiros tradicionais do Atlântico que se articula em torno de três conceitos - chave: património, desenvolvimento territorial e biodiversidade e turismo natural. Um projeto que vai permitir que a “Rota do Atlântico/Sal Tradicional” saia do papel e se transforme num circuito turístico pelos ecomuseus de sal destes quatro países, respondendo a um objetivo global de cooperação territorial europeia, e mais concretamente de cooperação transnacional.
A uma outra dimensão, a do denominado “turismo negro”, refere-se a “Rota Europeia de Cemitérios”, também um dos Itinerários Culturais do Conselho da Europa, desde 2010. A procura destes espaços como espaços de lazer, sobretudo por turistas do Norte e Centro da Europa e asiáticos, ao contrário do que se possa imaginar, e embora seja recente, tem progredido muito em Portugal, já que os cemitérios portugueses são considerados dos mais ricos em termos de oferta de arte romântica do século XIX (ROPIO, 2010). Os cemitérios do Prado do Repouso e o Agramonte, no Porto, constituem os únicos representantes nacionais a fazerem parte desta rota, onde figuram desde 2005. Fundada em 2001, congrega mais de 60 exemplares deste tipo particular de património provenientes de 22 países da Europa e visa promover os cemitérios europeus como lugares significativos pelo seu património cultural e como partes fundamentais da herança cultural da humanidade, cooperar para proteger, restaurar e assegurar a manutenção dos cemitérios e implementar o conhecimento dos cidadãos europeus sobre a importância e significado dos cemitérios (ASCE, 2011).

 

3. Notas finais

Apesar da velocidade e da densificação dos fluxos, continuamos ligados a lugares, a geografias e a territórios. É neste plano que se jogam também as estratégias de desenvolvimento, este agora entendido enquanto processo de mudança e (re) construção de novos contextos (FERNANDES, op. cit.) que se configuram em novas lógicas de desenvolvimento bottom-up centradas nos territórios e nas suas especificidades, onde se destaca o património e os valores patrimoniais.
O mundo rural, cada vez menos reduzido à produção agrícola, desenha-se como um espaço multifuncional com inúmeros recursos passíveis de serem explorados numa ótica de fortalecimento e inserção na realidade global competitiva, que se tem consumado, cada vez mais através da atividade turística. O património constitui um dos elementos diferenciadores nos percursos de desenvolvimento traçados para o rural e a materialização do património e valores culturais em produto turístico tem passado, de forma crescente, pela sua associação e integração em rede.
A constituição de redes territoriais, que toma o património cultural como recurso base, tem promovido a constituição de diversos itinerários que, desde o natural, ao religioso, à música, à literatura e transversalmente, à história, procuram conferir ao lugar um lugar e o interesse pelo próximo lugar da rede que, através de rotas turísticas têm configurado novas formas de ler, interpretar, turistificar e consumir patrimónios.
As políticas do atual período de programação e execução (2007-2013) configuram novas e diversas oportunidades neste sentido. Destaque para o PRODER (Programa de Desenvolvimento Rural do Continente) que, através do seu eixo 3 “Dinamização das Zonas Rurais” e da medida 3.1. “diversificação da economia e criação de emprego”, tem na ação “desenvolvimento de atividades turísticas e de lazer” uma via para potenciar a valorização dos recursos endógenos dos territórios rurais, nomeadamente ao nível da valorização dos produtos locais e do património cultural e natural, contribuindo para o crescimento económico e criação de emprego através do desenvolvimento de produtos turísticos, alojamento turístico e infraestruturas de pequena escala, tais como, centros de observação da natureza/paisagem, rotas/percursos e animação turística. E, a medida 3.2 “melhoria da qualidade de vida” através da ação “conservação e valorização do património rural” que prevê a valorização do património rural na ótica do interesse coletivo, enquanto fator de identidade e de atratividade do território, tornando-o acessível a toda a comunidade, no âmbito de uma estratégia local de desenvolvimento através da preservação do património rural construído, da refuncionalização de edifícios de traça tradicional e da preservação e recuperação de práticas e tradições culturais (MADRP, 2007).
Já o PROVERE (Programa de Valorização Económica de Recursos Endógenos), inserido nas Estratégias de Valorização Económica de Base Territorial, é uma das estratégias de eficiência coletiva previstas no QREN. No âmbito do PO Centro são considerados oito PROVEREs que, baseados em princípios de parceria e de cooperação, pretendem estimular iniciativas dos agentes económicos orientadas para a melhoria da competitividade territorial de áreas de baixa densidade que visem dar valor económico a recursos endógenos e tendencialmente inimitáveis do território: recursos naturais, património histórico, saberes tradicionais, entre outros (MAOTDR, 2007).
Do exposto depreendemos que este paradigma de desenvolvimento rural, que há uns anos se vem desenhando, com base na valorização, organização, integração e promoção dos seus recursos endógenos, nomeadamente dos seus patrimónios e valores culturais, se vem consolidando e aproveitando os caminhos nesse sentido. Prova disso são as oportunidades contempladas no atual quadro de políticas públicas que configuram um crescente interesse pelos territórios de baixa densidade, e que privilegiam mais do que nunca a cooperação e articulação entre territórios e atores territoriais como forma de assim se promover a sua unidade e o seu desenvolvimento em moldes sustentados e sustentáveis.

 

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Endereços eletrónicos:
•   Association of Significant Cemeteries in Europe – ASCE: www.significantcemeteries.org/ (consulta a 03/02/2011); 
•   Câmara Municipal do Porto: www.cm-porto.pt (consulta a 04/02/2011); 
•   Ecosal Atlantis: www.ecosal-atlantis.ua.pt (consulta a 03/02/2011); 
•   Genuineland – Rede Europeia de Turismo de Aldeia: www.gemuineland.com (consulta a 02/02/2011);
•   Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico: www.igespar.pt/pt/patrimonio/itinerarios/ (consulta a 02/02/2011);
•   Instituto de Turismo de Portugal: www.iturismo.pt (última consulta a 04/02/11);
•   Instituto Europeu dos Itinerários Culturais do Conselho da Europa: www.culture-routes.lu (consulta a 04/02/2011); 
•   Internacional Council on Monuments and Sites: www.international.icomos.org (consulta a 04/02/2011); 
•   Jornal de Notícias: www.jn.pt (consulta a 02/02/2011); 
•   Jornal do Oeste: www.oesteonline.pt/noticias (consulta a 03/02/2011); 
•   Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas: www.min-agricultura.pt (consulta a 02/02/2011); 
•   PASOS – Revista de Turismo e Património Cultural: www.pasosonline.org (consulta a 02/02/2011);
•   PRODER: www.proder.pt (consulta a 02/02/2011); 
•   Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN): www.qren.pt (consulta a 02/02/2011);
•   Turismo do Centro de Portugal: www.turismodocentro.pt (consulta a 04/02/2011); 
•   Viniportugal: www.viniportugal.pt (consulta a 04/02/2011). 

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