PLANEAMENTO TURÍSTICO EM MIRANDA DO CORVO CONTRIBUTO DE UMA ANÁLISE GEOGRÁFICA

Luísa Daniela Moreira Adelino

2.2.2. Significado actual do turismo para o espaço rural

 

De um modo geral, o turismo que se processa nestes espaços rurais pode acarretar um conjunto bastante vasto de benefícios. De facto, além da valorização dos diferentes tipos de património que aí se encontram, também se poderá verificar a valorização de actividades tais como o artesanato, a produção agro-alimentar, actividades de animação, de organização de eventos, a criação de postos de trabalho, e necessidade de instalação de mais infra-estruturas e até a possibilidade de fixar mais mão-de-obra qualificada (FONSECA e RAMOS, 2008).
Nas áreas de baixa densidade localizadas em ambientes de montanha, estes benefícios adquirem uma particular importância. De facto, devido às suas especificidades, a implantação de indústrias e a implementação de uma agricultura de carácter intensivo com a finalidade de comercialização dos produtos em larga escala não é possível. Esta impossibilidade acentua ainda mais a vulnerabilidade destes territórios e é neles que o turismo vai desempenhar um papel excepcionalmente importante.
De facto, valorizado pela CE (1998), consubstanciado em vários documentos estratégicos nacionais tais como o Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território (2007), o Plano Estratégico Nacional de Desenvolvimento Rural (2007) e o Plano Estratégico Nacional do Turismo (2007) – (FONSECA e RAMOS, 2008), o turismo tem sido o eixo de intervenção mais privilegiado pelas políticas e estratégias de desenvolvimento rural. A actividade turística foi a que mais beneficiou, nos últimos anos, dos apoios financeiros de programas comunitários, sobretudo em territórios onde é mais difícil atrair investimentos (MORENO, 1999, cit. em PAIS e GOMES, 2008).
Uns mais optimistas, outros mais moderados, são vários os autores que reflectem a propósito do potencial do turismo em áreas rurais (CAVACO, 2003; COSTA, 2003; RIBEIRO e MERGULHÃO, 2004; CARVALHO, 2005; FONSECA, 2005; BORGES e LIMA, 2006; FONTES, 2006; FONSECA e RAMOS, 2008; PAIS e GOMES, 2008; entre outros). Embora sendo “minoritário no conjunto do mercado turístico”, este tipo de turismo poderá dar uma contribuição valiosa para as economias das áreas rurais (RIBEIRO e VAREIRO, 2007, cit. em JESUS et al. 2008). As razões que levam a que o turismo possa ser um impulsionador do desenvolvimento rural, com particular importância nas zonas em ambiente de montanha são as seguintes:
Em primeiro lugar, porque o turismo é função das especificidades de cada região e só é viável quando existem valores locais que garantam uma vocação turística, é a actividade que melhor pode “endogeneizar” os recursos locais, sejam eles naturais, humanos, históricos ou culturais, proporcionando desta forma um maior valor acrescentado ao espaço rural e ao património natural e cultural (JESUS et al., 2008).
Em segundo lugar, o turismo opera uma transferência de rendimentos das regiões mais desenvolvidas para as menos desenvolvidas e pode ocasionar uma exportação de bens e serviços do interior da região (JESUS et al., 2008).
Em terceiro lugar, o turismo a nível das regiões mais interiores e deprimidas, obriga e justifica o lançamento de infra-estruturas e de equipamento social que, servem não só os turistas mas também a população local e que de outro modo seria difícil de instalar (JESUS et al., 2008).
Em quarto lugar, o turismo contribui para a dinamização e modernização da produção local ao apoiar a arte e o artesanato local, entre outros sectores (JESUS et al., 2008).
Em quinto lugar o turismo permite o aproveitamento de instalações e equipamentos abandonados ou obsoletos, garantindo-lhes uma nova função (JESUS et al., 2008). É o que acontece com a utilização para fins turísticos de casas e aldeias abandonadas.
Em último lugar, mas não menos importante, o turismo rural em área de montanha pode contribuir para a diversificação das actividades ligadas à exploração agrícola e permitir o aumento de postos de trabalho (JESUS et al., 2008).
Porém, alguns estudos afirmam que o turismo (por si só), não é uma boa base de desenvolvimento regional (RIBEIRO e MERGULHÃO, 2004 cit. in PAIS e GOMES, 2008). Esta debilidade assenta em factores de variada ordem.
A introdução de uma nova actividade produtiva num meio conservador, actividade que ainda por cima encaminha estranhos para partilhar espaços de uma comunidade pouco habituada a conviver com forasteiros é sempre um factor de risco e, à medida que a actividade turística se desenvolve e que mais turistas são encaminhados para partilhar esse espaço, mais se agravam os problemas com as comunidades locais e com os agentes económicos e sociais tradicionais. Em contrapartida, o crescimento do negócio turístico também gera expectativas junto dos operadores turísticos que ali concentram as suas operações, expectativas de que dificilmente estão dispostos a abdicar (FONTES, 2006).
A expansão da actividade turística pode ocasionar a destruição do próprio recurso que torna o lugar turístico (paisagens paradisíacas), por meio de construções e usos inadequados, originando o “paradoxo da degradação” (FONSECA, 2005).
É preciso considerar que para os espaços complementares assumirem a função turística, o meio físico não mercantilizado precisa de ser conservado. Caso contrário, se a refuncionalização turística ou as demais actividades desenvolvidas no entorno provocarem uma degradação ambiental, os espaços complementares poderão perder a sua função produtiva – a função turística – uma vez que o meio natural deixará de ser atraente como local de visitação e de consumo turístico  (SÁNCHEZ, 1991, cit. em FONSECA, 2005).
A predação indevida de espécies cinegéticas e a pesca abusiva vão comprometer o sucesso reprodutor da fauna local. A construção e presença de infra-estruturas (nomeadamente estradas), cuja beneficiação tem como consequência directa o acesso de mais pessoas a locais remotos, (o qual devia ser restrito para se privilegiar a protecção da natureza), acabam por provocar desequilíbrios. O aumento da pressão humana, a abertura abusiva de trilhos e a prática indiscriminada de alguns desportos são apenas alguns exemplos práticos que vão aumentar a poluição (do ar e sonora), favorecer a erosão das vertentes, perturbar as espécies faunísticas e a população residente (FONSECA et al, 2006; PAUL, 2006).
Além dos factores acima mencionados, também existem outros que podem ditar a insustentabilidade de uma área rural fragilizada inserida em ambiente de montanha ou simplesmente gorar as expectativas daqueles que apostarem no turismo como forma de desenvolvimento. Em primeiro lugar destacamos a desarticulação entre as diferentes entidades que actuam nos territórios, a fraca singularidade de alguns atractivos (patrimoniais ou ambientais) que, num mercado cada vez mais competitivo, pode levar ao fracasso do investimento; a dificuldade em preservar os atractivos (muitas vezes a própria actividade turística gera dinâmicas de degradação devido ao consumo excessivo dos recursos e a incompatibilidade entre usos, ou seja, a existência de uma actividade turística associada a características ecológicas inviabiliza, logo à partida, a fixação de outras actividades mais rentáveis mas que destruam essas mesmas características, levando os municípios e ter de recusar esses mesmos investimentos (PAIS e GOMES, 2008).
Neste contexto, FONSECA (2005), afirma que o espaço turístico deve ser pensado dentro de um contexto territorial mais amplo, inserido no espaço regional, pois o desempenho satisfatório da actividade turística dependerá não só da forma como se processa a refuncionalização turística de uma dada localidade (intraterritório), mas também das demais actividades desenvolvidas no âmbito regional (extraterritório). Deverá ocorrer a compatibilização do conjunto das actividades, pois, se alguma das actividades desenvolvidas agredir o meio ambiente, esse facto irá repercutir negativamente nos atractivos turísticos naturais, nos elementos que fazem do espaço um factor de produção, podendo comprometer o espaço enquanto meio de produção, inviabilizando a existência dos espaços complementares que permitem à localidade o desempenho da função turística.
O conjunto dos actores do desenvolvimento turístico tem o dever de salvaguardar o ambiente e os recursos naturais, na perspectiva de um crescimento económico “são”, contínuo e sustentável, e que seja capaz de satisfazer equitativamente as necessidades e as aspirações das gerações presentes e futuras (OMT, 1999).

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