PLANEAMENTO TURÍSTICO EM MIRANDA DO CORVO CONTRIBUTO DE UMA ANÁLISE GEOGRÁFICA

Luísa Daniela Moreira Adelino

2.3. A importância do planeamento turístico

            A consciência crescente em relação aos impactes de longo prazo do turismo no destino e sobre a natureza compósita do produto turístico espacial, leva alguns autores à sugestão de um planeamento estratégico do destino mais coordenado (KASTENHOLZ, 2006).
            Defendemos a tese de que o planeamento se afigura como a chave para a resolução de muitos problemas mencionados ao longo deste relatório. Deixámos este subcapítulo para o fim propositadamente, pois esta questão reveste-se de transversalidade relativamente às questões aqui abordadas.
            De acordo com ADELINO (2007), no contexto de crescente importância do turismo ao nível mundial, o estudo dos produtos/recursos turísticos constitui-se como um passo fundamental na definição de uma estratégia de desenvolvimento integrado do turismo.
            “O planeamento deve garantir a sustentabilidade dos modelos territoriais, assegurando a viabilidade económica e financeira da produção de bens e de serviços e a sua adequação à procura, promovendo a participação e o empenho de todos os agentes no processo de (re)construção do território e da sua evolução equilibrada, como pilar de governância num projecto de efectivo desenvolvimento. Os territórios ganham ou perdem em função da sua articulação e competência e não tanto em função da distância a espaços de decisão político-administrativos, tendo-se consolidado processos de recomposição social e económica na presença de novos actores (públicos e privados), novos valores (materiais e imateriais), diversas culturas territoriais e diferentes visões e prioridades num contexto cada vez mais segmentado e plural. A cultura dos territórios é cada vez mais percebida como factor de competitividade e alavanca para o seu desenvolvimento. Contudo, é frequente a adopção de uma postura conformista, parcialmente vinculada a uma cultura individualista e assistencialista, em detrimento de uma mentalidade produtiva e de cooperação” (FERNANDES, 2010).
            Desta forma, planear o turismo assume-se como uma estratégia fundamental: é necessário perceber quais as potencialidades de um território para este atrair mais turistas e cativar mais divisas. É necessário também fazer um levantamento dos recursos, produtos e equipamentos que um determinado território possui ou deve possuir.
Antes de mais, há que proporcionar actividades que se adaptem às especificidades do território e à tipologia do público-alvo (VIEIRA, 2005, cit. em JESUS, 2008). Por outro lado, importa também ter presente que em destinos rurais localizados em ambientes de montanha o turista procura actividades com elevado grau de autenticidade, integradas nas particularidades da vida local. Além disso, e tal como foi mencionado no capítulo anterior deste relatório, os investimentos feitos não vão só servir os turistas, mas também os habitantes das áreas a intervir. Portanto é importante garantir a colaboração da população, através da sua participação, numa gestão conjunta e partilhada de forma a valorizar identidades e os recursos existentes, sem permitir a sua destruição, ou seja, sem por em causa qualidade de vida rural e o equilíbrio ambiental (CORREIA, 2005, cit. em JESUS, 2008).
A utilização desregulada e arbitrária de um recurso turístico sensível pode levantar questões do foro da conservação ambiental, entre outras. Sem uma devida contextualização dos turistas, sensibilizando-os para a salvaguarda e a valorização dos valores naturais em presença, podem surgir actos de negligência, para não dizer de vandalismo, extremamente pernicioso no tocante ao objectivo de promover uma relação saudável entre os turistas e as comunidades locais. Acresce que a actividade turística em ambientes de montanha só tem a beneficiar com uma correcta gestão dos recursos naturais, na exacta medida em que o seu crescimento sustentado dependerá sempre do bom estado de conservação desses mesmos recursos (FONTES, 2006).
De facto a capacidade de carga nas áreas rurais em ambiente de montanha, apesar de estas dependerem bastante do turismo, é bastante baixa, pelo que é importante que hajam visitantes, mas também é muito importante que existam regras, restrições. Esta situação terá benefícios importantes, na medida em que, se por um lado manterá os recursos locais em bom estado, por outro, o facto de evitar a massificação vai forçosamente evitar a banalização destes espaços, logo, os valores de mercado manter-se-ão elevados.
Além destas vantagens que o planeamento poderá trazer, um destino cuidadosamente planeado tem mais probabilidades de se tornar mais rentável aos intervenientes. A ausência de sentido estratégico na atribuição dos financiamentos foi agravada pelos problemas que se vivem no interior, de baixa densidade de actores, iniciativas e oportunidades. Com efeito, a relativa disponibilidade dos apoios públicos acabou por ser um convite à dispersão das ajudas, com consequências nefastas ao nível da própria sustentabilidade das iniciativas turísticas (FONTES, 2006).
Muitos investidores desbarataram capitais próprios ou acabaram mesmo por ficar nas mãos da banca. Os projectos de iniciativa pública ou associativa, que não foi possível assumir politicamente o fracasso, ficaram presos a lógicas de político-dependência, permanecendo em operação graças à disponibilidade de apoios que o país continuou a negociar (idem). Estudos demonstram que a maioria dos promotores de empreendimentos de Turismo em Espaço Rural possui outras fontes de melhor rendimento, como é o caso dos salários ou das reformas, encarando a actividade como um certo hobby, para ganhar mais algum dinheiro. Além disso, esses empreendedores normalmente têm uma idade avançada, logo têm menos apetência para se envolverem em projectos com maior envergadura ou mais ambiciosos. Além disso destaca-se o facto de que muitos deles não se associam nem procuram complementar a sua oferta com a promoção de animação, deixando esta última a cargo de alguém que tome a iniciativa (JESUS et al. 2008).
Infelizmente as consequências destas experiências falhadas foram mais graves do que o simples insucesso individual dos investidores e a desbaratar fundos. A lógica do subsídio sobrepôs-se, muitas vezes, à lógica empresarial e comercial (FONTES, 2006).
Paralelamente, verificamos que o património emerge frequentemente no centro de diversos programas de promoção do desenvolvimento, envolvendo uma tipologia ampla de iniciativas e actores (turismo cultural, ecológico, parques temáticos, museus, entre outros mais relevantes). É reconhecida a desarticulação funcional da maioria desses programas e a fragilidade de mecanismos de participação pública dos cidadãos nas diversas fases do processo de planeamento, em particular na fase de avaliação das iniciativas, pelo menos a partir dos elementos disponibilizados e/ou publicados pelas instituições com responsabilidade na matéria (CARVALHO e CORREIA, 2008).
Uma outra razão que reforça a nossa teoria sobre a necessidade de planeamento turístico prende-se com a necessidade de conhecer o perfil dos turistas. Quem são, de onde vêm, o que procuram e se estão satisfeitos com o que encontraram. São apenas algumas questões-chave, que muitos agentes intervenientes no território teimam em não fazer.
Vários autores dedicaram-se a esta questão e realizaram inquéritos num contexto académico de simples conhecimento científico. Após a análise dos resultados obtidos, eles chegaram a conclusões muito interessantes, organizando grupos com tendências e gostos diferenciados, logo, com necessidades diferenciadas.
Ora o planeamento nesta fase passa a ser estratégico, porque conhecendo melhor quem visita estas áreas de baixa densidade em ambiente de montanha, será possível fazer os ajustes necessários na oferta turística para responder melhor às suas necessidades. Além disso, dependendo dos resultados, será possível criar num território áreas “adaptadas” aos diferentes grupos de turistas, criando-se assim um mosaico variado, valorizando as características endógenas e promovendo a diferenciação dessas mesmas áreas.
Também é importante que os vários actores que intervêm no território criem mecanismos de cooperação e de comunicação entre si, levando a cabo estratégias coerentes e concertadas de forma a não se verificar a desarticulação dos investimentos. Está mais do que visto que a teoria “das capelinhas” não tem pernas para andar. A integração de vários projectos e a actuação em rede só terão consequências positivas, protegendo os recursos naturais e o património.
Por fim, e não menos importante num processo de planeamento estratégico é a elaboração de uma estratégia de marketing.
O marketing pode ser compreendido como uma orientação ou filosofia de gestão que prossegue os objectivos de uma empresa/organização através da satisfação do seu mercado-alvo. Apesar de inicialmente utilizado somente no contexto de produtos e serviços, pode ser perfeitamente aplicado a destinos turísticos. Aliás, cada área de destino aplica, de forma mais ou menos consciente, ferramentas de marketing. Neste contexto, uma boa compreensão do processo de marketing e um melhor aproveitamento do seu potencial podem contribuir para um planeamento e gestão mais eficazes e eficientes, particularmente numa perspectiva de desenvolvimento sustentável do destino e sobretudo quando os recursos disponíveis são escassos (KASTENHOLZ, 2006).
O marketing poderá, em primeiro lugar, contribuir para uma eficaz “gestão da procura”, no sentido de atrair os turistas que mais valorizam o que o destino tem para oferecer, trazem o maior benefício ao destino, medido não somente em termos monetários, mas considerando também os custos e os impactes resultantes deste fluxo de turistas, tendo em conta as competências e os recursos, actuais e potenciais, do destino (KASTENHOLZ, 2006).
Além destes factores, há que ter em conta que uma estratégia de marketing eficiente pode levar a imagem de um território muito longe, aumentando e melhorando a percepção das pessoas e captando assim mais potenciais alvos. Associado a uma imagem de marca eficiente, podemos falar num empowerment territorial, na medida em que este ganha um lugar entre outros lugares centrais.
Desta forma as áreas de baixa densidade inseridas em ambientes de montanha terão que seleccionar muito bem o tipo de turista a atrair, evitar a massificação e a concentração espacial e temporal de turistas, assegurando sempre a prioridade da preservação do património. Neste sentido o marketing destes destinos é algo mais condicionado e depende muito da correcta definição do mercado-alvo (KASTENHOLZ, 2006).
Embora muitos governos foquem, principalmente, os benefícios económicos positivos, tem-se vindo a reconhecer os potenciais custos a nível social e ambiental e a necessidade de investigação cuidadosa a nível dos efeitos não económicos. A necessidade da realização de planeamento estratégico em turismo e da intervenção do governo, no processo de desenvolvimento, são as respostas típicas para os efeitos não desejados do desenvolvimento em turismo, particularmente a nível local (KASTENHOLZ, 2006).
O planeamento estratégico, no sentido amplo de um processo orientado, deve estar apto a minimizar os potenciais impactes negativos, a maximizar os retornos económicos do destino turístico e a encorajar uma resposta mais positiva da comunidade local relativamente ao turismo, em termos de longo prazo. “O planeamento está preocupado com a antecipação e a regulamentação das mudanças no sistema, em promover ordenadamente o desenvolvimento, assim como em incrementar os benefícios ambientais, sociais e económicos resultantes do processo de desenvolvimento”. Por esse motivo, o planeamento deve ser visto como um elemento crítico, que garanta, a longo prazo, o desenvolvimento sustentado do destino turístico (KASTENHOLZ, 2006).
Destinos cuidadosamente planeados e geridos têm maior probabilidade de obter sucesso a longo prazo do que os não planeados. O planeamento mantém a vitalidade dos recursos e o desenvolvimento responde às expectativas dos residentes e dos mercados. O planeamento turístico aplica-se a qualquer tipo de destino – muito ou pouco desenvolvido.


Nos destinos pouco desenvolvidos permite a melhoria, a expansão ou o seu redireccionamento para obter melhores resultados (KASTENHOLZ, 2006).
Desta forma o planeamento turístico apresenta-se, antes de mais, como um processo contínuo, que envolve algum grau de experimentação e aprendizagem de exemplos. Contudo, apesar de relativamente flexível, a abordagem deve reflectir os princípios básicos de alcançar o desenvolvimento sustentável, o respeito pelos valores culturais e a distribuição dos benefícios económicos (KASTENHOLZ, 2006).
Um território que tenha elaborado uma estratégia adequada no que toca ao turismo, goza de mais benefícios do que sofre consequências nefastas, na medida em que, além dos seus produtos turísticos terem maior estabilidade e durabilidade, cria-se mais riqueza e verifica-se um maior desenvolvimento (ADELINO, 2007).

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