TURISMO E DESENVOLVIMENTO ESTUDOS DE CASO NO CENTRO DE PORTUGAL

Paulo Carvalho

2. O turismo no contexto das novas oportunidades para o desenvolvimento do mundo rural

2.1 O turismo e os turistas: principais tendências evolutivas

É sobretudo a partir dos anos 70 do séc. XX, que emerge a procura de novas actividades e de novos espaços, face aos problemas que se começaram a verificar nos locais tradicionais de turismo de massas e face à “inadequación de los productos turísticos propuestos y las necesidades, siempre en evolutión de las clientelas turísticas” (Torres, 1998: 148).
“Desenham-se novas tendências, a partir da diversificação e segmentação dos interesses dos turistas” (Carvalho, 2006: 5), e surge o designado “turismo alternativo” ou complementar, que na opinião de Sirgado (2001: 77), citando autores como Pearce (1989) e Smith e Eadington (1992), se traduz “na afirmação de um novo paradigma, que podemos formular como um turismo ambiental e humanamente responsável, orientado por um imaginário de simbiose turista-ambiente-comunidade de acolhimento”. Na opinião de Torres (op. cit., 150), o turismo alternativo configura “toda aquella oferta turística diferente a la existente (sol y playa) sin limitación espacial, pues todos los espacios pueden ser considerados potencialmente turísticos, ni temporal ya que tampoco tiene uma duración específica, puede demandarse para un sólo dia, incluso sin pernoctatión, para una semana o incluso para la totalidad de las vacaciones anuales”.
A afirmação deste novo turismo, por oposição a um turismo vinculado a férias padronizadas, dirigidas a uma clientela indiferenciada e massificada (Poon, 1993), decorre da crescente liberalização aérea, reestruturação económica, preocupação ambiental e flexibilização das férias, e não pode ser dissociada das mudanças de comportamento dos turistas.
Com efeito, em relação às novas atitudes dos turistas, um estudo da Organização Mundial do Turismo (publicado em 2003), citado por Barros (2004: 88), considera que “os turistas são hoje mais activos do que no passado. Para além disso, os interesses vão-se diversificando e segmentando, a saber: o maior interesse na recreação, nos desportos, na aventura, no conhecimento da história e da cultura, na natureza e na vida selvagem das áreas visitadas”. Por outro lado, os turistas são cada vez mais participativos e exigentes, mais preocupados com a sustentabilidade dos territórios e a preservação dos bens patrimoniais, e menos influenciados pelas perspectivas da oferta turística massificada (Carvalho, op. cit.). Entre outros autores, também Neto (1998) afirma que o turista será cada vez mais exigente e culto, que procurará orientar as suas escolhas em função da qualidade, que sentirá uma necessidade absoluta de informação, que procurará a originalidade, a diferença e que quererá desenvolver férias activas, deslocando-se preferencialmente para locais aprazíveis e com pouca densidade turística.
A Direcção Geral do Turismo (2002), também apresenta algumas características do turista do futuro, e que vão enfatizar os seguintes vectores determinantes: necessidades de informação; exigência de qualidade; necessidade de férias activas/desportivas; uso crescente da segunda residência ou apartamento de férias; recurso mais forte a férias individuais; recurso mais frequente a pequenas “pausas” e a férias secundárias fora da época alta, além da redução da duração das férias principais; sofisticação dos padrões de consumo dos potenciais turistas; interesse pela vivência de experiências de índole cultural; e por fim, a consciência e exigência do “value for money”.
Em síntese, como refere Cavaco (1996: 11), “estamos a assistir a uma maior atenção a novas formas de turismo, perspectivadas numa lógica de equilíbrio e de respeito nas vertentes natural, social e psicológica”, e assim, como assinala Mcgettigan (2005), emergem novos produtos/tipologias em resposta ao facto de os consumidores serem cada vez mais especializados, exigentes, esclarecidos e predispostos a participar nas actividades turísticas.
Portugal não foi alheio a este fenómeno, e a partir da década de 80 (século XX) consolida-se como destino turístico, vindo progressivamente a encontrar novos caminhos para a sua oferta (Cravidão, 2006).
Na actualidade é inquestionável a importância do turismo para a sociedade e economia portuguesa, colocando o país, segundo a OMT, entre os 15 maiores receptores de turistas a nível europeu e os 25 maiores a nível mundial, ocupando em 2006, a 12ª posição no ranking europeu (quota de 2,47%) e o 19º lugar em termos mundiais (quota de 1,34%), (ICEP, 2008: 53).
Segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística, no mesmo ano, entraram em Portugal 11,3 milhões de turistas estrangeiros, ou seja, mais 6,3% do que no ano anterior. O número de dormidas na hotelaria global ascendeu a 25,2 milhões (um acréscimo de 5,6% em relação ao ano 2005), e as receitas turísticas também mantiveram uma tendência crescente (+ 7,3% em 2006) (ICEP, op. cit.).
As tendências recentes do turismo influenciaram as orientações nacionais para este sector. Não esquecendo documentos de grande relevância, como é o exemplo do Plano Nacional de Turismo (1986), importa referir o Plano Estratégico Nacional do Turismo (PENT) – aprovado em 2007 (Resolução do Conselho de Ministros nº. 53/2007). Este instrumento orientador do desenvolvimento para o sector do turismo nos próximos anos, pretende contribuir para a criação de uma nova imagem de Portugal e das suas regiões enquanto destinos turísticos, no sentido de divulgar algo mais que o “sol e a praia”.
A visão para o turismo de Portugal é sedimentada em pilares como o crescimento de forma sustentada do país1 como destino turístico (acima da média europeia, particularmente em termos de receitas); o aumento da contribuição do turismo para o PIB nacional e para o emprego qualificado e a dinâmica do turismo interno; e a articulação do turismo com outras áreas, nomeadamente o ordenamento do território, o ambiente, o desenvolvimento rural, o património cultural, a saúde, o desporto, as infra-estruturas e o transporte aéreo.
Para responder aos desafios, o PENT definiu cinco eixos de intervenção (território, destinos e produtos; marcas e mercados; qualificação de recursos; distribuição e comercialização; e inovação e conhecimento), cuja concretização requer a implementação de 11 projectos2, a vários níveis e englobando diversas entidades (administração central, regional e local; associações sectoriais, empresariais e regionais; e empresas directa ou indirectamente relacionadas com a actividade turística),
No que diz respeito à estratégia de produtos, o PENT define a consolidação e o desenvolvimento de dez produtos turísticos3 que abrangessem todas as regiões (Norte e Porto; Centro; Lisboa; Alentejo; Algarve; Açores; e Madeira), embora com o propósito de desenvolver ofertas diferenciadas, capitalizando na vocação natural de cada região e desenvolvendo factores de qualificação. De igual modo, é considerado estratégico desenvolver seis novos pólos turísticos (para além do pólo região Açores): Douro, Serra da Estrela, Oeste, Alqueva, Litoral Alentejano e Porto Santo. 
A título de exemplo, podemos referir, segundo o PENT, que os “produtos chave para o crescimento da Região Centro de Portugal são o circuito turístico (touring) cultural e paisagístico (rotas arqueológicas e de património arquitectónico e artístico) e o turismo de natureza, completados por quatro produtos – conjuntos turísticos (resorts) integrados e turismo residencial, golfe, saúde e bem-estar, e gastronomia e vinhos. (…) Das acções necessárias para o desenvolvimento da região, destaca-se a criação de rotas temáticas para o circuito turístico (touring)”.
A tentativa de alterar a imagem turística, através da diversificação e diferenciação dos produtos turísticos, em conformidade com as características e as potencialidades de cada uma das regiões, parece estar em linha, entre outros indicadores, com as alterações nos hábitos de férias dos Portugueses. O aumento do nível de vida e do rendimento, a democratização das viagens, a melhoria das vias de comunicação, a crescente urbanização do país e o encurtamento das distâncias relativas associadas ao aumento da taxa de motorização dos portugueses, foram factores decisivos para que, do lado da procura, se gerassem condições para o crescimento da actividade turística fora dos destinos tradicionais, localizados no litoral (Cavaco, 1999-b; Cravidão, op. cit.; Novais, 2006).
Em trabalho recente, a respeito das férias dos Portugueses por tipo de ambiente, reconhecemos o potencial do turismo na arquitectura de destinos alternativos. Embora com valores reduzidos, começa a evidenciar-se um crescimento da procura de novos tipos de ambientes, como é o exemplo das Montanhas (5.3%), das Termas (2.5%) e das Cidades (12.1%) (Carvalho e Correia, 2009). O Campo, apesar de um ligeiro decréscimo entre 2005 e 2006 (de 13.6% para 12.2%), permanece como a primeira opção no âmbito dos ambientes de férias alternativos (DGT, 2006). Contudo, a Praia continua a ser o destino preferencial dos turistas para gozo das suas férias, mantendo inalteráveis os valores comparativamente ao ano de 2005, de quase 67% (DGT, 2007).
Em relação ao ambiente preferido para os residentes no Continente, com 15 ou mais anos, que não gozaram férias no referido ano, a Praia continua a ser o alvo preferencial da sua escolha (51,7%), seguido do ambiente do Campo (22,9%) e das Termas (12,7%) – (DGT, op. cit.).
Segundo dados oficiais da Direcção Geral do Turismo (2007), esta desigualdade nos diferentes tipos de ambiente, reflecte verdadeiramente, os principais destinos de férias dos Portugueses no seu próprio país. Deste modo, no ano de 2006, destacam-se como áreas preferenciais de férias pelos Portugueses, em primeiro lugar, a região do Algarve (28,7%), seguindo-se a região Norte (17,2%) e, por fim, a região Centro com 8,6%. Os arquipélagos da Madeira e dos Açores4 também se encontram no quadro de destinos preferidos pelos Portugueses, de cerca de 7,8% e 8,3%, respectivamente (Carvalho e Correia, op. cit.).
A importância do espaço rural como destino e produto turístico alternativo merece uma análise mais detalhada, com o propósito de explicar a sua evolução recente.

1        De acordo com o PENT, Portugal ambiciona crescer o número de turistas em 5% ao ano (de forma a ultrapassar os 20 milhões de turistas estrangeiros em 2015) e as receitas em cerca de 9% (de modo a superar o patamar dos 15 mil milhões de euros nesse ano). A prossecução destas metas permite pensar que o turismo represente, em 2015, mais de 15% do PIB e 15% do emprego do país.

2        1) Produtos, destinos e pólos; 2) Intervenção em zonas turísticas de interesse (urbanismo, ambiente e paisagem; 3) Desenvolvimento de conteúdos distintos e inovadores; 4) Eventos; 5) Acessibilidade aérea; 6) Marcas, promoção e distribuição; 7) Programa de qualidade; 8) Excelência no capital humano; 9) Conhecimento e inovação; 10) Eficácia no relacionamento Estado-empresa; 11) Modernização empresarial.

3        Os produtos turísticos subdividem-se em sol e mar; circuito turístico (touring) cultural e paisagístico; estadias de curta duração em cidade (city break); turismo de negócios; turismo de natureza; turismo náutico (inclui os cruzeiros); saúde e bem-estar; golfe; conjuntos turísticos (resorts) integrados e turismo residencial; e gastronomia e vinhos.

4        A respeito da atracção turística dos arquipélagos portugueses, note-se que em 2007, numa selecção de 111 ilhas ou arquipélagos, os Açores obtiveram o 2º lugar na votação dos mais atractivos destinos do Mundo, uma iniciativa da National Geographic Traveler que reuniu um painel de 522 peritos em turismo sustentável. Num total de 100 pontos possíveis, os Açores receberam 84 pontos, face aos 87 pontos que as Ilhas Faroe, as mais votadas, receberam (ICEP, op. cit., 53).

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