USO EFICIENTE DA ÁGUA: ASPECTOS TEÓRICOS E PRÁTICOS

USO EFICIENTE DA ÁGUA: ASPECTOS TEÓRICOS E PRÁTICOS

Organizador: José Dantas Neto

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5 USO EFICIENTE DA ÁGUA NA INDÚSTRIA

A indústria, através das atividades desenvolvidas em seu interior, representa um setor de atividade grande usuário de água. Dessa forma, carece estar atento aos meios disponíveis para se utilizar de forma eficiente esse recurso natural.

De acordo com Arreguín-Cortés (1994) os usos da água na indústria podem ser divididos em um dos grupos a seguir: transferência de calor, geração de energia e aplicação a processos. Segue comentários de cada um desses grupos com base no autor supracitado.

Transferência de Calor

É apropriada em processos de aquecimento ou esfriamento. Para o aquecimento, em geral se utiliza a geração de vapor através de caldeiras que aplicam a combustão de carbono, petróleo, gás ou produtos de resíduo. Em relação ao esfriamento se utiliza a circulação de água através de torres ou tanques de esfriamento.

Geração de Energia

Em sua grande maioria a geração de energia tem origem, em muitos países, em plantas termoelétricas que utilizam o vapor d’água com o propósito de mover turbinas adaptadas a geradores.

Aplicação a Processos

Os processos produtivos, em sua maior parte, são grandes usuários de água. Dentre alguns desses processos podem ser referenciados os de transporte de materiais onde são utilizados tubos ou canais para o seu transporte. As indústrias que mais se utilizam desse sistema são as de papel e celulose, as enlatadoras de alimentos, as carboníferas e os engenhos açucareiros.

O autor em comento também faz menção as técnicas que podem ser aplicadas como forma de se obter o uso eficiente da água no setor indústrias, quais sejam: recirculação, reúso e a redução do consumo. Para os três casos são imprescindíveis que sejam cumpridas as ações de medição e o monitoramento da qualidade da água. Veja considerações a seguir de cada uma dessas técnicas.

Recirculação

É uma técnica que apresenta por objetivo a utilização da água no processo onde inicialmente se usou. Freqüentemente quando a água é utilizada pela primeira vez desencadeia mudanças em suas características físicas e químicas, e dessa forma pode demandar alguma modalidade de tratamento. Assim, torna-se fundamental ter conhecimento da qualidade requerida em todo processo produtivo, bem como o grau de degradação de sua qualidade e finalmente o tratamento apropriado.

A recirculação pode ser utilizada em esfriamento de equipes que geram calor; em processos de lavagem com o intuito de retirar resíduos ou elementos contaminantes dos produtos ou equipes fabricantes; nos processos de transporte de materiais e na fabricação de papel.

Reuso

É uma técnica em que o efluente de um processo, com ou sem tratamento, é aproveitado em outro processo que demanda qualidade diferenciada de água. Assim, é importante saber qual a qualidade requerida em cada processo antes de se utilizar essa técnica, bem como, determinar qual seria o tratamento mínimo exigido e definir os meios de transporte da água. Pesquisas apontam que as águas de reuso de engenhos açucareiros são apropriadas para lavagem de pisos, sistema de esfriamento, serviços sanitários e rega agrícola, desde que sejam observados os seguintes critérios:

O tratamento dos efluentes dos sistemas de geração de vácuo e de processos da destilaria; reatores anaeróbios de fluxo ascendente, de sedimentação primária e secundária e de biodiscos; o tratamento dos efluentes de serviços sanitários e outros processos por meio de lagoas de oxidação e o esfriamento dos efluentes do processo de condensação de vapor. (ROMERO; GONZÁLEZ, 1990, p. 44, In: ARREGUÍN-CORTÉS).

Redução do consumo

Pode ser obtida através de várias ações, dentre as quais podem ser elencadas: otimização dos processos, melhoramento da operação ou modificação das equipes ou a modificação de atitude dos usuários da água.

No que se refere às indústrias, atitudes simples e continuadas podem fazer grande diferença na utilização racional da água. Entre as medidas mais usuais, algumas seriam: plantar espécies nativas nos locais onde se instalam as indústrias; utilizar-se de rega noturna; eliminação de fugas nos serviços sanitários, bem como a utilização de redutores de fluxo em privadas; o uso de regadeiras de baixo consumo.

Brown e Caldwell (1990) In: Arreguín-Cortés chamam a atenção para o fato de que o desenvolvimento de um programa de uso eficiente de água numa indústria exige a participação de todos que fazem parte da empresa. Essa é uma condição de extrema importância a ser observada.

Dentre as técnicas explanadas anteriormente o reúso de água tem se destacado como uma forma apropriada nos programas de uso eficiente de água em muitas indústrias brasileiras. Dessa forma serão feitas considerações adicionais sobre essa técnica no sentido de se alcançar uma visão mais detalhada dos elementos que lhes dão sustentação.

Questões como: O que é o reúso de água? Quais os tipos de reúso? Quais as principais alternativas para o reúso de água na indústria? Qual o potencial de reúso na indústria brasileira? Quais as diretrizes legais no Brasil sobre o reúso de água? Responder esses questionamentos representa uma forma de se alcançar uma visão abrangente de aspectos que necessitam serem levados em consideração pelas indústrias quando se deseje implantar essa técnica em suas unidades produtivas.

Para Lavrador Filho (1987, p. 25) In: Brega Filho e Mancuso (2003) reúso “é o aproveitamento de águas previamente utilizadas, uma ou mais vezes, em alguma atividade humana, para suprir as necessidades de outros usos benéficos, inclusive o original”.

Brega Filho e Mancuso (2003, p. 23) fazem alusão ao conceito da Organização Mundial da Saúde (1973) quando diferenciam entre reúso indireto, reúso direto e reciclagem interna.

Reúso indireto: ocorre quando a água já usada, uma ou mais vezes para uso doméstico ou industrial, é descarregada nas águas superficiais ou subterrâneas e utilizada novamente a jusante, de forma diluída; reúso direto: é o uso planejado e deliberado de esgotos tratados para certas finalidades como irrigação, uso industrial, recarga de aqüífero e água potável; reciclagem interna: é o reúso da água internamente à instalações industriais, tendo como objetivo a economia de água e o controle da poluição.

Os autores acima ainda fazem referência a Cecil no sentido de evidenciar que reciclagem não é sinônimo de reúso, embora represente um tipo especial de reúso em que recupera os esgotos gerados por um uso no sentido de servir ao mesmo uso.

Plínio Tomaz (2001) In: Silva et al. (2003, p. 42) afirma que “o reúso de água é subentendido como o aproveitamento dos esgotos sanitários tratados”.

A literatura sobre os tipos de reúso é bastante extensa. Brega Filho (2003) expõem a classificação adotada por Westerhoff (1984) e que também tem sido a utilizada pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES). Segue considerações acerca dessa tipologia tomando por base as referências acima.

Reúso potável

Pode ser dividido em direto e indireto. O direto ocorre no momento em que o esgoto recuperado através de um tratamento avançado é diretamente reutilizado no sistema de água potável. O indireto se dá quando o esgoto depois que é tratado é jogado nas águas superficiais ou subterrâneas passando pelas etapas de diluição, purificação natural, sendo posteriormente captado, tratado e por fim utilizado como água potável.

Reúso não potável

O reúso não potável pode ser utilizado para fins agrícolas (o objetivo maior é a irrigação de plantas alimentícias); para fins industriais (usos de refrigeração, águas de processo, utilização em caldeiras, dentre outros); para fins recreacionais (irrigação de plantas ornamentais, parques, jardins, dentre outros); para fins domésticos (água para ser utilizada em regas de jardins residenciais, descargas sanitárias, etc.); para manutenção de vazões (tem por escopo permitir o uso planejado de efluentes tratados com o intuito de prevenir a poluição); para aqüicultura (tem por propósito conseguir alimentos e/ou energia através dos nutrientes que encontram-se nos efluentes tratados) e para recarga de aqüíferos subterrâneos com efluentes tratados.

De acordo com Mierzwa (2002) vários especialistas apontam como opções mais usuais para o reúso da água na indústria as indicadas no quadro a seguir.

Em relação às possibilidades de reúso macroexterno (reúso efetuado por meio de companhias municipais ou estaduais de saneamento) em indústrias brasileiras, Hespanhol (2003) enumera as seguintes possibilidades viáveis: torres de resfriamento; caldeiras; lavagem de peças e equipamentos, especialmente nas indústrias mecânica e metalúrgica; irrigação de áreas verdes de instalações industriais, lavagem de pisos e veículos; processos industriais.

Quanto ao reúso macrointerno, a própria conjuntura brasileira atual, que apresenta custos altos em relação às águas industriais, aliado aos novos instrumentos de outorga e cobrança, exigidos por lei, quando da utilização dos recursos hídricos são aspectos extremamente motivadores para que as indústrias passem a adotar em seu gerenciamento práticas de racionalização da água através do reúso interno em seus processos produtivos.

O autor faz referência ainda ao reúso interno específico que significa “a reciclagem de efluentes de quaisquer processos industriais, nos próprios processos nos quais são gerados, ou em outros processos que se desenvolvem em seqüência e que suportam qualidade compatível com o efluente em consideração”. (HESPANHOL, 2003, p. 49-50).

Parafraseando o autor o reúso interno específico é apropriado, entre outros processos, em atividades de pintura em indústrias automobilísticas e de eletrodomésticos, onde as águas utilizadas para as lavagens intermediárias podem ser recicladas no próprio processo de lavagem, logo após o tratamento específico.

Considerando-se a legislação brasileira em relação ao reúso de água Fink e Santos (2003) fazem alusão a algumas leis que estão intrinsecamente ligadas ao reúso de água, vejamos a seguir.

A Lei n 6.938/81 da Política Nacional do Meio Ambiente que ao tratar dos princípios norteadores das ações governamentais estabelece em seu Art. 2 “incentivos ao estudo e pesquisa de tecnologias orientadas para o uso nacional e a proteção dos recursos ambientais” e no seu Art. 9 “racionalização do uso da água”;

No Art. 2 da Lei n. 9.433/97, inciso II, o reúso da água fica caracterizado quando se enuncia nesse inciso “a utilização racional e integrada dos recursos hídricos, incluindo o transporte aquaviário, com vistas ao desenvolvimento sustentável” como sendo um dos objetivos da Política Nacional de Recursos Hídricos.

Ainda no Art. 7 desta lei, quando discorre sobre os Planos de Recursos Hídricos estabelece que seus programas e projetos terão, entre outros aspectos, o seguinte conteúdo mínimo: inciso IV – metas de racionalização de uso, aumento da quantidade e melhoria da qualidade dos recursos hídricos disponíveis. No Art. 19 que trata da cobrança pelo uso de recursos hídricos, onde no inciso II se enuncia incentivar a racionalização do uso da água como sendo um dos objetivos da cobrança de água.

Pode-se ainda encontrar relações do reúso com as leis quando da classificação das águas pela Resolução Conama n. 20 de 1986, art. 1, I. Para os autores citados anteriormente, esta resolução quando da classificação das águas, não só indica mas também define os usos preponderantes e traz subjacente o reúso indireto. Ao definir a destinação das águas de Classe 1, Classe 2, Classe 3 e Classe 4 sinaliza para o reúso indireto, entre outros, nos seguintes casos: águas destinadas ao abastecimento doméstico após tratamento simplificado (reúso potável indireto – Águas de Classe 1); abastecimento doméstico, após tratamento convencional (reúso potável indireto – Águas de Classe 2); ao abastecimento doméstico, após tratamento convencional (reúso potável indireto – Águas de Classe 3); águas destinadas à navegação; à harmonia paisagística; aos usos menos exigentes (Águas de Classe 4).