USO EFICIENTE DA ÁGUA: ASPECTOS TEÓRICOS E PRÁTICOS

USO EFICIENTE DA ÁGUA: ASPECTOS TEÓRICOS E PRÁTICOS

Organizador: José Dantas Neto

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5 O PAPEL DA TECNOLOGIA NA CONFIGURAÇÃO DE DISTINTOS CENÁRIOS DE USO DA ÁGUA NO NORDESTE SEMI-ÁRIDO

A idéia de que a condição semi-árida está diretamente relacionada com a baixa produtividade agrícola é totalmente falsa, comparando-se suas condições com os exemplos mencionados, os quais mostram o contrário. A região semi-árida do Brasil não é pior, em termos de potencialidades agrícolas, que muitas outras áreas semi-áridas do mundo, notadamente o Oeste dos Estados Unidos. A existência de ilhas de sucesso e prosperidade no contexto semi-árido do Nordeste brasileiro indica ser extremamente viável a ocorrência de significativas e positivas mudanças no seu cenário agrícola (SILVA, 1996, p. 103).

Na perspectiva de um aproveitamento com racionalidade do potencial hídrico existente, várias são as ações com tal intuito. Muitas podem ser consideradas, carregadas de pleno êxito, a exemplo da agricultura irrigada do vales férteis possibilitados pela construção de represas e as margens dos rios perenes. Sobre estas atividades produtivas, Rebouças (2001, p. 353) se refere:

Os ressaltos orográficos (Serra de Baturité-CE, Serra dos Martins-RN, Triunfo-PE/PB, Brejo das Freiras-PB, dentre outras) e/ou condições hidrogeológicas especiais (entre as quais Serra do Araripe, Ibiapaba) engendram uma variedade de condições edafoclimáticas, de tal forma que configuram um arquipélago de zonas úmidas ou brejos dentro de um contexto semi-árido (ANDRADE, 1968). Além disso, a região é percorrida por dois importantes rios perenes (São Francisco e Parnaíba), cujas nascentes ficam fora do contexto semi-árido e tem descargas regularizadas de 2.060 m3/s – Sobradinho – e 700 m3/s, respectivamente.

Além disso, já se registram providências por parte das políticas públicas e iniciativas de organizações não governamentais com o propósito de efetivarem um melhor aproveitamento das águas, através de atividades compatíveis com a oferta e, principalmente, adequadas a qualidade, muitas vezes não potáveis. Algumas destas práticas são elencadas na seqüência deste trabalho.

Uma delas é o Sistema Integrado de Reuso dos Efluentes da Dessalinização, que consiste na produção de água potável e no reaproveitamento do sal extraído da dessalinização para a criação de tilápia rosa, uma espécie adaptada as condições climáticas do semi-árido. Noutra etapa do processo, a água salgada já utilizada na piscicultura é reaproveitada para o cultivo de uma planta conhecida como erva-sal, comumente aproveitada na alimentação de caprinos e ovinos.

O sistema é todo integrado, com o rejeito sendo insumo produtivo para outra atividade. Neste tipo de iniciativa, proposto por uma fundação pública, cerca de mil pessoas que vivem da agricultura familiar e da criação de cabras e tilápias e são beneficiadas pela fonte de abastecimento de água inaugurada na localidade denominada Atalho, povoado de Petrolina (PE), no dia 28 de abril, dia da Caatinga (EMBRAPA, 2007).

O projeto, incluído no programa Água Doce, desenvolvido pela Secretaria de Recursos Hídricos do ministério e instituições parceiras, permite fixar o homem na região e ainda gerar renda para o sertanejo. Este conjunto de ações tem como meta possibilitar o fortalecimento nutricional da população, melhorando as condições de vida das pessoas e garantindo a segurança alimentar, oferecendo água de boa qualidade.

Numa etapa seguinte, o sistema avaliará os resultados do uso do rejeito da dessalinização na criação de Tilápia Rosa e, dependendo do êxito alcançado, projeta-se expandir a experiência com a criação, nos mesmos moldes, do Camarão Branco do Pacífico.

Uma alternativa que merece destaque é a da construção de cisternas de placas para acumulação de águas das chuvas. Essa experiência é, num primeiro momento, válida, pois é um deposito protegido da alta evaporação, comumente incidente na região. Contudo, estudos mostram que ela por si só, não é capaz de resolver a problemática da demanda por água, em virtude, principalmente, da dependência dos baixos volumes precipitados, muitas vezes incerto, bem como sua pouca capacidade de armazenamento, insuficiente para um longo período estio. A conseqüência imediata e a batalha diária, travada pela população do semi-árido em busca de uma fonte d’água que satisfaça suas necessidades mais básicas.

Segundo Andrade (1988, p. 62) esta carência está sempre se repetindo em função de que existem dois tipos de seca no semi-árido nordestino. Um anual e de cerca de sete a oito meses; o outro, de caráter cíclico, cuja ocorrência se repete de dez em dez anos, aproximadamente. Este último tem efeitos catastróficos sobre a população humana, os rebanhos e a cobertura vegetal. No que refere aos impactos, a falta d’água, é um dos mais danosos forçando a população a percorrer grandes distâncias em busca desse recurso. Os programas de assistência, visando suprir a falta d’água funcionam de forma precária, tanto quantitativa quanto qualitativamente. Entretanto se corporificam num exemplo clássico da origem social da escassez de água caracterizado pelo fenômeno da “indústria da seca” do nordeste, onde o domínio sobre as fontes de água consolidou a construção do poder de segmentos da sociedade sobre outros (GALIZONI, 2005, p. 13). Todavia, algumas ações visando recuperar e conservar a capacidade produtiva e a melhoria da vida nas comunidades já pode ser observadas. A construção de barragem subterrânea, a captação de água chuva, de poços artesianos e amazonas e o controle efetivo do excesso das águas salobras oriundas dos dessalinizadores em contato com o solo, que causam a salinização de vastas áreas têm sido realizadas, mesmo que em ações pontuais.

Nesta perspectiva, dois programas servem de exemplo no que refere a prática de manejo integrado das bacias hidrográficas. O primeiro, diz respeito ao programa Base Zero, concebido como uma abordagem sistêmica do problema ambiental do semi-árido nordestino. Segundo o seu autor, o engenheiro mecânico e agropecuarista José Artur Padilha, aquele projeto constitui uma “mudança de paradigma na produção agroambiental nos trópicos secos”. Representaria, portanto, uma nova forma de convivência do homem com o semi-árido, pois propiciaria o ecodesenvolvimento baseado no uso comunitário dos recursos naturais (DUARTE, 2007).

Outro projeto que merece destaque refere-se as Técnicas Agrícolas para Contenção de Solo e Água, realizado pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) que contempla algumas ações de manejo como: barramento com pneus usados para a construção de em nível, cujo objetivo é reter solo e água; Barragens subterrâneas utilizando lona plástica; anéis pré-moldados para a captação de água no leito dos rios e riachos e terraceamento com tiras de pneus usados com o intuito de conter a erosão de vertentes por ocasião das fortes enxurradas (BARACUHY et al., 2007). Os programas mencionados objetivam a conservação dos recursos naturais da caatinga, seja por contemplar uma visão sistêmica do ambiente, como e o caso do Base Zero, seja por reaproveitar materiais de difícil decomposição na natureza, em benefício dela própria, no caso do segundo exemplo.

Todos esses exemplos configuram a existência, na região em análise, de dois cenários distintos: o primeiro, que pode até ser designado de pré-capitalista e outro de agricultura moderna. Em ambos existe a confluência de um conjunto de aspectos integrados, que determinam a nível de vulnerabilidade local.

No primeiro, tem-se alta vulnerabilidade socioeconômica por parte da população, decorrente da expropriação dos bens de produção e de consumo, que remonta ao período colonial, o que implica em uso de tecnologias arcaicas e, no que se refere aos recursos hídricos, vincula-se a dependência de fontes de abastecimento de caráter rudimentar e sem nenhuma forma de tratamento para remoção de poluentes, tornando a população vulnerável também do ponto de vista da saúde humana; quanto ao segundo cenário, trata-se, portanto, da inserção de pequenas manchas de modernidade no interior de um contexto mais amplo, provenientes de uma agricultura altamente tecnificada, voltada para a exportação e que faz uso da irrigação, o que vai ocasionar a ascensão econômica de um pequeno segmento de produtores rurais. Para esses empresários, a água não representa um fator limitante, o que mostra que a seca não é um fenômeno limitante para a região, ao contrário, serve de redenção para uma classe política privilegiada, que se promove à custa do fenômeno natural.