USO EFICIENTE DA ÁGUA: ASPECTOS TEÓRICOS E PRÁTICOS

USO EFICIENTE DA ÁGUA: ASPECTOS TEÓRICOS E PRÁTICOS

Organizador: José Dantas Neto

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6 EXPERIÊNCIAS DO USO EFICIENTE DA ÁGUA EM INDÚSTRIAS BRASILEIRAS

Segue considerações sobre algumas experiências satisfatórias relativas ao uso eficiente da água em indústrias brasileiras.

6.1 O USO RACIONAL E O REÚSO COMO FERRAMENTAS PARA O GERENCIAMENTO DE ÁGUAS E EFLUENTES NA INDÚSTRIA: ESTUDO DE CASO DA KODAK BRASILEIRA

O trabalho em alusão é uma tese apresentada à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, tendo por autoria José Carlos Mierzwa sob a orientação de Ivanildo Hespanhol.

Os objetivos do trabalho foram:

Demonstrar que os conceitos de uso racional e de reúso de água devem ser utilizados como ferramentas básicas em programas de gerenciamento de águas e efluentes na indústria; Avaliar e apresentar estratégias que visem a otimização do uso da água e possibilitem a adoção da prática do reúso; Identificar e apresentar as limitações associadas à prática de reúso de efluentes tratados. (MIERZWA, 2002, i).

Nessa tese foi apresentado um modelo para o gerenciamento de águas e efluentes nas indústrias, onde o autor mostra a importância de se considerar em sua estrutura elementos legais, técnicos e econômicos, assim como aspectos que digam respeito ao tratamento e descarte de efluentes no meio ambiente, porém, dando ênfase a técnica do reúso como uma alternativa a ser observada visando a racionalização do uso da água. Segue considerações sobre o modelo tomando por base (MIERZWA, 2002).

De acordo com o autor supracitado o modelo precisa estar estruturado levando em consideração os seguintes parâmetros básicos: a disponibilidade hídrica da região; a legislação existente sobre o controle ambiental, bem como ao gerenciamento dos recursos naturais; as atividades industriais desenvolvidas; informações sobre a quantidade e a qualidade das águas necessárias para o desenvolvimento das atividades industriais; considerações sobre a prevenção da poluição; considerações sobre a identificação, quantificação e caracterização dos efluentes gerados; aspectos relacionados ao reúso de água; como realizar o monitoramento e o controle dos efluentes a serem dispostos no meio ambiente e finalmente o modelo precisa levar em conta considerações sobre sua viabilidade econômica. Segue breve comentário dos parâmetros desse modelo tomando como referência o autor supracitado.

Disponibilidade hídrica

Representa um dos aspectos de extrema importância a ser considerado quando da instalação de uma indústria, uma vez que as indústrias necessitam de água em quantidade e qualidade para o desenvolvimento de suas atividades. O autor chama a atenção para o fato de que a disponibilidade hídrica não é constante, uma vez que mudanças climáticas na região aliadas as formas de ocupação e utilização do solo podem trazer problemas de escassez no local, podendo até inviabilizar o funcionamento da indústria. É preciso ficar atento a esses aspectos.

Legislação

Para o autor em comento a indústria que tenha como prioridade de sua gestão o uso eficiente da água, precisa levar em consideração as seguintes normas legais: aquelas que cuidam da gestão dos recursos hídricos; normas relativas ao controle da qualidade dos recursos hídricos; normas que digam respeito ao controle da poluição do meio ambiente e em algumas situações, precisa também observar os regulamentos previstos pelas empresas ligadas ao abastecimento de água e a coleta e tratamento de efluentes, desde que estas empresas lhes prestem os respectivos serviços. As principais leis federais a serem observadas seriam: a Lei n. 6.803/80 que dispõe sobre o zoneamento industrial, nas áreas críticas de poluição; a Lei n. 6.938/81 da Política Nacional do Meio Ambiente; a Lei 9.433/97 que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos; a Lei 9.605/98 que dispõe sobre os crimes ambientais; Resolução Conama n. 20/86 que trata da classificação da água em todo o território nacional; Resolução Conama n. 01/86 que determina a realização do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), bem como a elaboração do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), além de observar as legislações estaduais relativas ao estado membro onde se encontram inseridas as respectivas indústrias.

Atividades industriais desenvolvidas

O conhecimento das atividades industriais quando da aplicação de um modelo para racionalização do uso da água torna-se de extrema importância, uma vez que essas informações irão dar os subsídios necessários para a tomada de decisão em relação aos direcionamentos futuros que a empresa precisa seguir no sentido de se utilizar de forma eficiente o recurso água. Dentre as informações mais prementes, estariam: localização dos principais pontos de consumo, quantidade e qualidade necessária a cada processo e os pontos de geração dos efluentes. Essas informações poderiam ser extraídas da literatura existente sobre o processo que se queira pesquisar; informações retiradas da própria documentação da empresa objeto de estudo e visitas de campo como o escopo de verificar a veracidade e possíveis alterações desses dados.

Necessidade de água para a indústria

Representa um aspecto que irá depender do ramo de atividade industrial, bem como da capacidade de produção. Mierzwa (2002) faz referência à Nordell (1961), Shereve, Brink Jr. (1980), Nalco (1988) e Silva, Simões (1999) como forma de enunciar os principais usos da água na indústria, quais sejam: a água pode ser utilizada como matéria-prima; como fluido auxiliar; para geração de energia; como fluido de aquecimento e/ou resfriamento e transporte e assimilação de efluentes. Vale salientar que para cada um desses usos a água precisa estar com a qualidade apropriada. Assim, a água de reúso deve estar em conformidade com as exigências de qualidade envolvidas no processo em questão.

Técnicas de tratamento de água para uso industrial

É outro parâmetro importantíssimo a se considerar quando da operacionalização de um modelo para gerenciamento de águas e efluentes na indústria. Como explanado anteriormente a qualidade da água é diferenciada para cada processo específico, assim exige-se um tratamento de água mais rigoroso para aqueles processos que necessitam de uma qualidade de água mais exigente. As principais técnicas de tratamento de água quando se considera os contaminantes que se deseja remover, seriam: microfiltração, osmose reversa, troca iônica e ultrafiltração. Quando se considera a concentração de sais dissolvidos, as principais técnicas são: destilação, osmose reversa, eletrodiálise e troca iônica. O autor desse modelo chama a atenção para o fato de que um sistema de tratamento de água eficiente para a indústria irá depender dos seguintes aspectos:

Experiência profissional da equipe de projeto; conhecimento dos processos industriais a serem desenvolvidos; qualidade da água disponível; qualificação dos operadores; procedimentos de operação e manutenção dos sistemas; custos dos equipamentos e de operação. (MIERZWA, 2002, p. 117).

Prevenção da poluição

As diversas atividades humanas, em especial, as atividades industriais têm contribuído para a degradação do meio ambiente de diversas formas e em graus variados. Cumprir apenas o que determina a lei em relação a não degradação do meio ambiente não tem sido uma atitude das mais racionais no momento atual, pois vivemos numa sociedade com um grau de urbanização e crescimento polulacional em expansão, o que contribui para acelerar a utilização cada vez mais dos recursos naturais, principalmente o uso da água. Assim, a prevenção da poluição surge como uma opção viável para que as empresas dispensem ao meio ambiente o cuidado que ele merece, bem como estejam isentas de quaisquer responsabilidades e infrações legais que possam vir a cometer contra o meio ambiente. Mierzwa (2002, p. 121-123) traz como referência (PHIPPS, 1995), para enunciar os principais benefícios e barreiras ligados aos programas de prevenção da poluição, tais como: “a redução de custos; a redução da responsabilidade legal; a melhoria da imagem corporativa e a melhoria da segurança dos trabalhadores”. As principais barreiras seriam:

Cultura corporativa e normas institucionais; dificuldades para identificação de oportunidades de prevenção da poluição; custo; falta de ferramentas e metodologia de avaliação; externalidades; falta de planejamento a longo prazo e tomada de decisão; expectativa dos consumidores.

Identificação, quantificação e caracterização de efluentes gerados na indústria

Essas etapas são de extrema importância no sentido de se observar oportunidades para prevenção da poluição, além do mais, ajuda na definição dos meios necessários para a correta captação, condução e tratamento dos variados tipos de efluentes que possam estar sendo produzidos pela indústria. Para a identificação dos efluentes, recomenda-se: análise pormenorizada dos processos envolvidos na atividade, através da análise dos documentos existentes; visitas in loco, assim como a utilização das ferramentas recomendadas em programas de Prevenção de Poluição e Gestão Ambiental.

Reúso de água

Como falado anteriormente representa uma técnica de fundamental importância a ser utilizada como forma de mitigar a escassez de água, que está cada vez mais presente em diversas regiões do Brasil e do mundo, de um modo geral.

Monitoramento e controle dos efluentes

O autor recomenda que seja realizado através das normas de gestão ambiental ou pelas já utilizadas para os programas de prevenção da poluição e se a empresa já implantou um Sistema de Gestão Ambiental ISO 14001, suas normas devem ser integradas ao Modelo de Gerenciamento de Águas e Efluentes.

Viabilidade Econômica

Como qualquer investimento que se queira colocar em funcionamento, a implantação de um Modelo de Gerenciamento de Águas e Efluentes também demanda recursos e essa consideração precisa estar inserida nos itens que compõem os elementos do projeto. O autor desse modelo faz alusão as principais atividades envolvidas no modelo e que irão demandar recursos, quais sejam:

Mão de obra para a avaliação inicial das atividades desenvolvidas na indústria; recursos humanos materiais e financeiros para a elaboração do diagnóstico referente ao uso da água e geração de efluentes; realização de ensaios de laboratório e testes de campo para a verificação da eficiência das alternativas propostas; recursos financeiros para a implantação de alterações de projeto e procedimentos (MIERZWA, 2002, p. 142).

O estudo concluiu que a utilização racional da água, bem como o reúso representam ferramentas básicas e de extrema importância em programas de gerenciamento de águas e efluentes na indústria. O autor alerta ainda que é necessário estar atento as limitações técnicas ou econômicas que possam estar vinculadas as estas ferramentas, apesar dos resultados satisfatórios encontrados no caso das mesmas virem a serem implantas na Kodak brasileira.

Padula Filho (2003) e Grull et al. (2003) in: Mancuso e Santos (2003) apresentam alguns projetos e estudos de casos realizados no Brasil sobre sistemas de reúso de água que apresentaram bons resultados. Segue resumo desses projetos e estudos como forma de referenciar a experiência brasileira no sentido de usar a água de forma eficiente.