ANTECEDENTES DO CAPITALISMO

ANTECEDENTES DO CAPITALISMO

Carlos Gomes

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3.2 FIAO, TECELAGEM, VESTURIO

A fiao, a tecelagem, a fabricao de vesturio e a tinturaria de tecidos desenvolveram-se por etapas sucessivas nas diversas partes do mundo. A produo txtil comeava na fiao e tecelagem caseira para consumo familiar, mas antiqussima a profisso artesanal autnoma constituda por teceles e tecedeiras. A actividade no sector txtil assentava numa produo individual, acompanhada do seu agregado familiar, que se desenvolvia com o emprego de meios de trabalho que ou eram pertena exclusiva dos prprios produtores ou estavam na posse das classes senhoriais.

Para fiar deve-se ter comeado por torcer fios entre as mos ou contra a perna sem o auxlio de qualquer instrumento. Com o aparecimento do fuso, a fibra era enrolada em volta dum pau o que permitia retorc-la e prender as fibras enrolando-as sobre a coxa, mtodo este que ainda empregue. A fase seguinte foi conseguida quando se descobriu que o fuso podia rodar sobre si prprio, bastando para isso deixar cair o fio, mant-lo em suspenso e continuando a fiar. Os fusos de roca eram aproveitados de fragmentos de objectos de cermica talhados em forma de disco com um orifcio no meio para serem utilizados como contrapesos. A roda de fiar, que substituiu o fuso, foi uma inovao tcnica com grande reflexo na produtividade, datada do sculo XIII. Permitia fazer girar com a mo esquerda uma roda que torcia as fibras enquanto a mo direita puxava o fio. No sculo XV, foi acrescentado um pedal roda que deixou as mos livres ao fiandeiro. Como consequncia de outros aperfeioamentos entretanto conseguidos, no sculo XVIII, foi introduzida uma mquina de fiar algodo com a qual um s operador podia accionar um grande nmero de fusos. Esta inveno podia ser aplicada tanto no trabalho ao domiclio como, para grandes produes, nas grandes oficinas ento nascentes.

A tecelagem de txteis sucedeu aos processos de entranamento empregues na cestaria, que produzida base de fibras mantidas no estado natural, no tendo que ser fiadas. As fibras de cactos e de caule de juncos eram utilizados na produo de cesto, esteiras, cordas, redes e outros artefactos. A tcnica da tecelagem exigia uma vida sedentria pois os vrios processos e e instrumentos de fabrico eram dificilmente transportveis por comunidades em movimento.

Nos pequenos teares, que permitem tecer mo, a tecedura feita com os dedos; mais tarde foram utilizadas varas de cruzamento de fios para os separar. A principal inovao no ofcio txtil foi o tear de pedal vertical que permitia estender melhor a urdidura e facilitar a sua passagem. A adio de pedais ao tear veio substituir a simples estrutura de tecer, assegurando o progresso da tecelagem. Ao tear manual sucedeu o tear de pedais. O seu aparecimento e divulgao esteve relacionado com o desenvolvimento do artesanato urbano e de oficinas integradas em domnios senhoriais, embora a tecelagem manual tenha sobrevivido at aos nossos dias.

O aperfeioamento das mquinas de tecer esteve ligado ao das mquinas de fiar. O princpio bsico da tecelagem consistia em entrelaar uns fios com outros por meio duma lanadeira. No sculo XVI, na Europa ocidental, o tear era j uma mquina bastante complexa, mas sempre accionada ao p e mo. O problema s foi solucionado na poca em que tudo passou a fazer-se mecanicamente com um tear movido pela fora motriz.

As invenes na tcnica de tecelagem foram completadas com a mecanizao do apisoar do tecido. O pisar com os ps foi substitudo por maos de madeira e depois por um piso de madeira, movido pela fora humana ou pela fora da gua, com a introduo do moinho piso.

A tcnica tintureira estava intimamente relacionada com a manufactura txtil. As matrias-primas usadas para tingir tecidos eram principalmente de origem orgnica; as cores utilizadas eram extradas de plantas e, por vezes, de minerais. A arte de estampar difundiu-se rapidamente, tornando-se a chita estampada uma importante variedade entre os tecidos indianos. Com a divulgao dos corantes, os panos de cor expandiram-se por um maior nmero de compradores. A indstria txtil passou a estar estreitamente ligada indstria qumica. As tcnicas usadas no eram adaptveis mecanizao, exigiam uma grande habilidade e eram sempre efectuadas mo.

A ascenso da indstria do algodo encontra-se directamente ligada ao comrcio do algodo indiano e otomano na Europa. A vantagem destes pases estava no s na tecnologia, tecelagem, colorao e confeco, mas tambm no baixo preo das matrias-primas e na mo-de-obra menos dispendiosa. O tecido de algodo revelou-se benfico para a gente comum ao melhorar a qualidade do vesturio. A manufactura do algodo marca o incio de uma longa tradio. Chegou a desempenhar um papel, adicional e muito importante, na Coreia, como meio de troca. Com a inveno da mquina para desembaraar o algodo dos seus gros, o algodo foi largamente cultivado nas plantaes americanas durante a poca colonial. Os avanos na fiao do algodo permitiram ampliar a indstria algodoeira e assegurar o seu sucesso na competio com outros txteis. A procura do algodo aumentou rapidamente. A aplicao da fora motriz encorajou a unificao das diversas operaes e a criao na Inglaterra de grandes fbricas txteis.

A l uma fibra espessa e frisada, bastante longa e propcia fiao, proveniente da tosquia dos carneiros e outros ruminantes. Pressupe a existncia de uma actividade de criadores de gado langero e de tosquiadores. O moinho pisoador a gua representou um progresso importante em comparao com o sistema primitivo em que o trabalhador batia com um pau os fios de l molhados. A l era muito apreciada para o fabrico de inmeros artigos manufacturados, tais como: mantas, cobertas, cortinas, almofadas, tapetes, sacos e vesturio. Os artfices nmadas utilizavam a l para fazer feltro como ainda fazem nos nossos dias; teciam a l das ovelhas para a construo das tradicionais grandes tendas redondas. A produo de mantas de l permitiu a especializao de alguns teceles

A fibra de linho muito fina e muito robusta, obtendo-se um fio suave e resistente. Era tecida em rsticos teares para produzir o bragal, actividade que ocupava inicialmente apenas uma populao rural dispersa assente sobretudo no trabalho feminino. A produo pouco excedia as necessidades de autoconsumo familiar e a parte obrigatoriamente entregue s entidades senhoriais a ttulo de renda. Posteriormente, a tcnica de tecelagem do linho foi um pouco alterada de forma a apresentar um tecido com inmeras texturas, podendo ser to fino como a seda ou grosso para fazer as cordas e as velas das embarcaes ou dos moinhos. As cordas feitas em geral com tranas de linho serviam para completar e reforar os instrumentos agrcolas e as armas e para a construo naval. Com o cnhamo e o linho fazia-se o cordame ou as redes de pesca.

O plo de ovelha, como o de cabra, no era susceptvel de ser fiado ou tecido quando estes animais foram domesticados, necessitando primeiro de sofrer mutaes. As peles foram utilizadas como matria-prima no fabrico de vesturio, embora perdendo gradualmente a sua importncia com o aumento de produo da l. Alguns artesos dedicaram-se, no todo ou em parte, a este ramo de produo acumulando-o com a l. O trabalho desdobrava-se em mltiplas operaes desde a fiao at confeco e acabamento de peas de vesturio. O aparecimento das primeiras oficinas txteis indicia claramente que a tecelagem e o acabamento se destinavam j a uma comercializao.

As tcnicas de fiao e tecelagem de tecidos de seda atingiram um nvel bastante elevado e remontam aos alvores da civilizao chinesa. A seda foi considerada um bem de luxo, o vesturio era usado pela elite aristocrtica, pois o povo vestia geralmente roupa de linho. A seda servia tambm para ofertas diplomticas, para pagamento parcial de salrios e como valioso artigo de exportao. A seda pura era usada como suporte de escrita. A seda de melhor qualidade era, em geral, produzida em oficinas estatais. Os governos estimulavam o desenvolvimento tecnolgico. Como meio de troca, a seda desempenhava um papel to importante na economia que chegou a servir de moeda em importantes transaces.

Durante milnios o ser humano confeccionou as suas prprias vestes, antes de ter surgido o arteso especializado. Os tecidos manufacturados eram utilizados na confeco de vesturio que variava e se adaptava s condies climatricas. Coser e bordar, antes considerados como ofcios caseiros, acabaram por dar lugar profisso de alfaiate. Os profissionais que se dedicavam confeco de trajes que implicava um labor mais cuidado, para servir a aristocracia, adquiriram uma certa especializao na arte de alfaiataria que se reflectiu na formao de organizaes profissionais. O traje distinguia os estratos sociais, religies e diferenciava-se tambm por regies.

O processo produtivo estava cindido atravs de uma diviso de trabalho, cabendo a uns artesos a fiao e a outros a tecelagem ou vrias operaes complexas a requerer muitas fases. Porm no parava a, pois um papel muito importante cabia a todos quantos fabricavam os instrumentos de trabalho utilizados no artesanato txtil e que constituam os seus meios de produo. Entretanto, foram introduzidas algumas inovaes, resultantes da execuo mquina de alguns trabalhos, embora estes progressos tenham avanado muito lentamente.

Muitos artesos eram independentes e trabalhavam por conta prpria. Havia artesos que trabalhavam no domiclio, trazendo o fio do armazm do palcio ou do templo e entregando o tecido acabado. Alguns grupos de produtores dispersos ganhavam a vida tecendo panos grosseiros, utilizando principalmente a l como matria-prima. Os utenslios para fiar e tecer o linho e a l, para cardar, para tingir os panos, eram pertena pessoal e directa dos obreiros. Um dos meios de produo, o piso, dado o seu carcter fixo, propiciava classe dominante a obteno duma renda, o mesmo acontecendo com os teares.

Uma grande parte dos teceles trabalhava nas manufacturas ou corporaes e tambm em fbricas, autnticas empresas privadas reais, pertencentes a templos ou a ricos negociantes. Os teceles empregados nas manufacturas pertenciam aos dois sexos; muitas vezes eram escravos. O seu trabalho era rigorosamente controlado atravs do registo da quantidade de fio recebido, da quantidade e qualidade do tecido feito por cada um. Igualmente eram registados os pagamentos em espcie que, no caso dos escravos, eram constitudos apenas por raes alimentares.

Na regio dos Andes, a combinao do algodo com a l obtida dos cameldeos possibilitou a obteno duma grande variedade de fibras e as tcnicas utilizadas permitiram a obteno de diferentes tecidos com um acabamento excepcionalmente refinado. Os incas sabiam j tingir os tecidos e, embora os seus segredos no tenham sido descobertos, um certo nmero de novas matrias corantes chegaram Europa, entre outros a cochonilha e o pau-brasil.

No Norte de frica, a fiao de plo de camelo era uma das actividades artesanais de maior importncia. Na frica Subsariana, os teceles eram mestres na arte de tecer, a partir do algodo, de simples folhas de rfia ou de palmeira, panos bordados de um colorido notvel, semelhantes a veludo ou cetim aveludado. A tinturaria fazia-se em buracos escavados no solo ou em grandes jarras. A indstria de tecelagem e tinturaria floresceu em vrias regies, com excepo das sociedades onde existia a nudez, onde o vesturio era muito escasso, usando-se apenas cascas de rvore no fabrico de tangas.

Na China, sculo XVI, o sector txtil conheceu um desenvolvimento muito significativo. No mercado podiam encontrar-se toda a variedade de teares para a tecelagem de diferentes tipos de tecido, o que beneficiou os artesos aumentando bastante a sua produo. Entretanto, o governo mandou construir fbricas txteis que produziam apenas para o Palcio Imperial, reunindo os melhores teceles para o fabrico de seda para a corte real. Existia uma gama completa de produtos de elevada qualidade sendo grande a sua procura. Nas zonas rurais, os camponeses no s trabalhavam a terra como tambm fabricavam txteis. Nas reas mais remotas, produziam apenas para seu uso exclusivo, mas nas zonas limtrofes das cidades eram tambm fabricados com objectivos comerciais.

A primeira indstria importante que se desenvolveu na Europa, no sculo XVI, foi a dos txteis. A existncia duma manufactura em grande escala obrigava a constituir um estoque importante de matrias-primas, a transform-lo em produtos acabados, utilizando para isso um grande nmero de trabalhadores. Fora da jurisdio das guildas, fugindo s restries por elas impostas, criaram-se empresas com grandes capitais. A especializao era desde h muito uma regra, trabalhando cada operrio na sua especialidade. Uma importante inovao consistia em reunir no mesmo local certas operaes sob a direco e vigilncia dum chefe da empresa. A diviso do trabalho permitiu o aumento da produo e unidade de direco. Crescia a rapidez de execuo mas, em contrapartida, a habilidade dos operrios diminua e as suas tarefas tornavam-se montonas face repetio sem cessar da mesma operao.