Tesis doctorales de Economía

 

TURISMO, CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO: UMA ANÁLISE URBANO-REGIONAL BASEADA EM CLUSTER

Jorge Antonio Santos Silva

 

 

 

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2.3. Outras abordagens para o conceito de cadeias

Para explicitar o conceito de cadeia produtiva, Dantas, Kertsnetzky e Prochnik (2002), partem da noção de indústria, que no entender dos autores é definida

[...] pelos grupos de empresas voltadas para a produção de mercadorias que são substitutas próximas entre si e, desta forma, fornecidas a um mesmo mercado. [...] para uma empresa diversificada a indústria pode representar um conjunto de atividades que guardam algum grau de correlação técnico-produtiva, constituindo um conjunto de empresas que operam métodos produtivos semelhantes, incluindo-se em uma mesma base tecnológica [...]. (DANTAS, KERTSNETZKY e PROCHNIK, 2002, p. 35).

Em geral, conforme Dantas, Kertsnetzky e Prochnik, mercado e indústria representam espaços de concorrência cuja delimitação não é estanque, nem no que se refere à definição do produto, nem quanto aos objetivos concorrenciais e de expansão. Para os autores, a questão metodológica é a definição do corte analítico – qual é efetivamente o grupo de produtos que compõem o mercado e que conjunto de empresas integra a concorrência. O desenvolvimento dos conceitos de cadeia produtiva e complexos industriais, como extensões da noção de setor econômico, decorrentes da crescente interdependência econômica e social entre os agentes, representa uma tentativa na direção dessa definição.

Segundo Dantas, Kertsnetzky e Prochnik, na medida em que a competitividade das empresas depende do seu meio ambiente ou entorno, amplia-se o âmbito concorrencial, deixando de referir-se apenas aos mercados imediatos de vendas de mercadorias e serviços e compras de insumos, para incorporar mercados acima e abaixo da cadeia relacionada à atuação da empresa.

As cadeias produtivas resultam da crescente divisão do trabalho e maior interdependência entre os agentes econômicos. Por um lado, as cadeias são criadas pelo processo de desintegração vertical e especialização técnica e social, Por outro lado, as pressões competitivas por maior integração e coordenação entre as atividades, ao longo das cadeias, ampliam a articulação entre os agentes. [...] Cadeia produtiva é um conjunto de etapas consecutivas pelas quais passam e vão sendo transformados e transferidos os diversos insumos. (DANTAS, KERTSNETZKY e PROCHNIK, 2002, p. 36-37).

Os autores destacam dois tipos principais de cadeias:

 Cadeia produtiva empresarial, onde cada etapa representa uma empresa, ou um conjunto de poucas empresas que participam de um acordo de produção. Este tipo de cadeia é útil para a realização de análises empresariais, estudos de tecnologia e planejamento de políticas locais de desenvolvimento;

 Cadeia produtiva setorial, onde as etapas são setores econômicos e os intervalos são mercados entre setores consecutivos.

De acordo com Dantas, Kertsnetzky e Prochnik, duas cadeias concorrem entre si quando seus produtos finais atendem a um mesmo mercado e elas são relativamente independentes. Cadeias concorrentes fabricam produtos substitutos, por exemplo: cadeia de calçados de couro e cadeia de calçados de materiais sintéticos, manilhas de concreto e manilhas de cerâmica.

O entrelaçamento de cadeias é comum. Muitas cadeias se repartem e outras se juntam. Mas não há porque presumir que a teia de cadeias produtivas se espalhe, de maneira uniforme, sobre a estrutura econômica. Ao contrário, as cadeias de uma economia nacional podem ser agregadas em conjuntos, ou blocos, de forma que o valor médio das compras e vendas entre os setores constituintes de um bloco seja maior do que o valor médio das compras e vendas destes mesmos setores com os setores de outros blocos. Os blocos assim formados são denominados complexos industriais, [grifo nosso]. (DANTAS, KERTSNETZKY e PROCHNIK, 2002, p. 37).

Dantas, Kertsnetzky e Prochnik, mencionam a existência de três formas de concorrência entre cadeias:

 1ª - concorrência entre empresas de uma mesma indústria;

 2ª - concorrência entre indústrias de uma cadeia – em cada cadeia, as empresas de uma indústria competem contra as empresas das demais por uma maior parcela do valor adicionado;

 3ª - concorrência entre diferentes cadeias – envolve duas ou mais cadeias, implicando na análise da disputa entre diferentes indústrias motrizes, onde as empresas das demais indústrias passam a depender dos resultados da competição entre as indústrias finais, ocorrendo o confronto entre as cadeias produtivas.

Nota-se, segundo os autores, a coexistência de competição e cooperação.

As empresas de uma indústria competem entre si, mas têm interesses comuns frente às empresas das outras indústrias. As indústrias de uma cadeia, por sua vez, apesar de competirem entre si, são solidárias na disputa com outras cadeias, como mostra o debate sobre o uso do cimento ou do aço na construção civil. (DANTAS, KERTSNETZKY E PROCHNIK, 2002, p. 39).

A metodologia de delimitação de cadeias produtivas e complexos industriais utilizada por Haguenauer e Prochnik (2000), em seu trabalho sobre a “Identificação de cadeias produtivas e oportunidades de investimento no Nordeste”, compartilha uma estutura conceitual similar à da abordagem de Dantas, Kertsnetzky e Prochnik (2002), integrando uma outra vertente da análise econômica, o estudo de clusters ou agrupamentos de empresas. À diferença da abordagem que tem como foco de análise a concorrência entre empresas de um setor econômico, o estudo de agrupamentos, segundo os autores, visa estudar as formas de concorrência e cooperação que ocorrem em um conjunto de setores.

A análise de uma cadeia produtiva possibilita uma visão integrada de setores que trabalham de forma interrelacionada. Ao trabalhar em um nível intersetorial, a análise de agrupamentos dá especial relevância às diferentes formas de interdependência entre os setores. (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 21).

Da citação anterior, se pode depreender, que para os autores os agrupamentos contém uma determinada quantidade de cadeias produtivas, de distinta tipologia e diferenciados padrões de qualidade.

Neste sentido, Prochnik afirma que “[...] em um nível mais agregado e geograficamente localizado, distritos industriais e pólos industriais são, na prática, aglomerações urbanas e conjuntos de instituições em torno de uma cadeia produtiva [...]” (PROCHNIK, 2001, p.6).

Originada nos trabalhos franceses de filiére, a exemplo do de B. Bellon (La filiére de production: um concept de crise, 1983), a pesquisa sobre cadeias produtivas e agrupamentos de empresas experimentou um expressivo impulso nos anos 1990. Embora comentando sobre uma forte sobreposição de metodologias, Haguenauer e Prochnik (2000) distinguem duas fontes distintas para esse novo dinamismo da investigação científica sobre o tema: os estudos sobre os distritos industriais da Itália e a abordagem dos sistemas nacionais de inovação, citando ainda o que eles consideram uma metodologia relativamente simples de análise intersetorial, o modelo do diamante de Michael Porter. Resultou deste esforço de pesquisa, segundo os autores, uma série de técnicas de análise voltadas para o entendimento da estrutura e do comportamento de grupos de empresas e setores, as quais podem ser resumidas conforme a classificação apresentada no (Quadro 2.1).

NÍVEL DE ANÁLISE CONCEITO DE AGRUPAMENTO FOCO DA ANÁLISE

Nível nacional (macro) Ligações de grupos de indústrias na economia como um todo Padrões de especialização de uma economia nacional/regional

Nível do setor econômico (meso) Ligações intra e interindústrias em diferentes estágios da cadeia de produção de produtos finais similares Benchmark de indústrias

Análise de competitividade

Oportunidade de investimentos

Geração de inovações, difusão e transferência de tecnologia

Nível de empresa (micro) Fornecedores especializados em volta de uma ou mais empresas-chave (ligações entre firmas) Desenvolvimento estratégico de negócios

Análise e gerência de cadeias

Desenvolvimento de projetos de inovação colaborativos

Quadro 2.1 Técnicas de Estudo de Agrupamentos em Diferentes Níveis de Análise

Fonte: Roetlandt e Hertog, 1999, apud Haguenauer e Prochnik, 2000, p. 22.

Em uma primeira aproximação, Haguenauer e Prochnik conceituam cadeia produtiva como sendo

[...] uma seqüência de setores econômicos, unidos entre si por relações significativas de compra e venda. Há uma divisão do trabalho entre estes setores, cada um realizando uma etapa do processo de transformação. [...] Um complexo industrial, por sua vez, é um conjunto de cadeias. Assim, as cadeias produtivas são partes dos complexos industriais [agrupamentos ou clusters], [grifo nosso]. (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 22-23).

Diante deste posicionamento, se pode inferir que, para Haguenauer e Prochnik, o conceito de complexo industrial é equivalente ao conceito de cluster, pois ele é constituído por uma série de cadeias produtivas, do mesmo modo que os agrupamentos (clusters). Seguindo com a análise de Haguenauer e Prochnik, os mesmos comentam que na prática, mesmo que marginalmente,

[...] todos os setores fazem algum tipo de transação econômica com todos os setores existentes (incluindo as transações intrasetoriais). Assim, qualquer método de delimitação de clusters, em geral, ou cadeias e complexos industriais, em particular, tem algum grau de arbitrariedade, na decisão de qual é o ponto de corte, isto é, na definição do que são relações significativas, fortes e fracas, entre setores, [grifo nosso]. (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 23).

A noção de cadeia produtiva, continuam os autores, é utilizada sem muito rigor. “No âmbito industrial, uma cadeia tem o significado de uma sequência de etapas sucessivas pela qual passam e vão sendo transformados os diversos materiais [...]” (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 25).

Em uma cadeia produtiva, entre cada dois mercados pode estar uma indústria, ou parte de uma indústria. Indústria aqui, conforme os autores, entendida como um conjunto de estabelecimentos produtivos que produz o mesmo bem ou bens similares entre si, estabelecimentos esses que concorrem uns com os outros. Em um conceito mais restrito, uma indústria pode ser considerada como o conjunto de produtores que atendem o mesmo mercado. “Duas ou mais indústrias são concorrentes quando suas fábricas produzem para o mesmo mercado e usam [...] insumos substancialmente diferentes ou em proporções desiguais [...]” (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 25).

Esta definição dos autores, estabelece uma correspondência entre indústrias e cadeias produtivas, desde que, produtos substitutos, fabricados com tecnologias diferentes, originam-se de indústrias diversas.

Embora a noção de indústrias concorrentes auxilie a precisar as cadeias produtivas, persiste, na visão dos autores, o problema de especificação das cadeias.

Estas, em geral, entre seu início, na extração de matérias-primas, até o seu final, em setores cujo destino preponderante das vendas é a demanda final, freqüentemente se unem a outras [cadeias] ou se bifurcam abrindo o leque de percursos possíveis. [...] Devido a estas frequentes uniões e bifurcações relevantes, é mais apropriado usar o termo para designar segmentos de cadeias produtivas. [...] A segmentação pode ser vertical ou ao longo da cadeia [neste caso] marca-se um início ou um fim arbitrários para a cadeia. [...] Também se pode fazer uma segmentação longitudinal [quando subdividi-se uma cadeia principal em várias cadeias paralelas]. [...] o que interessa para a delimitação empírica das cadeias produtivas é o grau de agregação dos dados. A delimitação depende dos dados disponíveis – matrizes de transações intersetoriais mais desagregadas ou menos – e dos objetivos da análise que se pretende realizar. (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 26).

A definição anterior de indústria, de acordo com Haguenauer e Prochnik, permite a inclusão do mercado como elo de articulação entre as indústrias. “A intensidade da relação entre duas indústrias, uma como vendedora e outra como compradora, é medida pelo volume de negócios realizado no mercado entre as duas [..]” (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 27).

Já a noção de cadeia produtiva associa-se à noção de processo produtivo, formando uma rede de interligações complexas. Algumas cadeias se unem enquanto outras se subdividem, com seus ramos indo em diversas direções.

Não há porque supor que esta trama de relacionamentos se espalha uniformemente por toda a economia. Ao contrário, observa-se a existência de conjuntos de indústrias fortemente articuladas entre si e que mantêm fraca ligação com as demais indústrias. Estes conjuntos são definidos como as cadeias produtivas ou complexos industriais. Eles surgem a partir do reatamento dos segmentos que compõem cadeias produtivas interligadas. (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 28).

Neste sentido, a articulação do mercado define um espaço novo – mais amplo do que a indústria, mais amplo mesmo que a cadeia produtiva. O complexo industrial é exatamente este espaço novo, criado a partir da articulação do mercado. [... Assim,] um complexo industrial [caracteriza-se] como um conjunto de indústrias que se articulam de forma direta ou mediatizada, a partir de relações significativas de compra e venda de mercadorias a serem posteriormente reincorporadas e transformadas no processo de produção. (HAGUENAUER et al, 1984, apud HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 28-29).

A análise de cadeias e complexos, de acordo com os autores, destaca os vínculos de interdependência entre empresas de setores diferentes. Neste sentido, se pode constatar que o conceito de cadeia produtiva apresenta estreita relação com a propensão ao investimento.

Em um mesmo espaço econômico, ou região, as indústrias existentes formam mercados para a possível instalação de empresas fornecedoras de matérias-primas. Assim como este ‘efeito para trás’, também é relevante o ‘efeito para frente’, isto é, os produtos das indústrias existentes constituem as matérias-primas para o investimento de empresas situadas à jusante das cadeias produtivas. [...] A disponibilidade de mercado e/ou matérias-primas é apenas uma parte da questão. Tão ou mais importantes são os vínculos técnicos e econômicos entre os setores e os impulsos que decisões em uma indústria ou expectativas sobre comportamento futuro acarretam sobre as demais. (HAGUENAUER e PROCHNIK, 2000, p. 30-31).

Na ótica adotada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - MDIC, no seu programa Fórum de Competitividade, cadeia produtiva é “o conjunto de atividades que se articulam progressivamente desde os insumos básicos até o produto final, incluindo distribuição e comercialização, constituindo-se em elos de uma corrente [..]” (MDIC, 2002, p.2).

Para o MDIC, entre outras possibilidades, o uso do conceito de cadeia produtiva permite:

 visualizar a cadeia de modo integral;

 identificar debilidades e potencialidades nos elos;

 motivar articulação solidária dos elos;

 identificar gargalos, elos faltantes e estrangulamentos;

 identificar os elos dinâmicos, em adição à compreensão dos mercados, que trazem movimento às transações na cadeia produtiva.

No âmbito da economia nacional, as possibilidades acima revestem-se de estratégica importância para o planejamento das articulações intersetoriais, tendo em vista o nível de competitividade do país no contexto mundial, desde quando, conforme o MDIC, a competição internacional se faz entre cadeias.

Há uma série de outras questões econômicas relevantes que, segundo Prochnik (2001), estão diretamente associadas à composição e estruturação das cadeias produtivas, por exemplo: formação de preços, custos de transação e coordenação de investimentos.

Já para Albagli e Brito (2003), cadeia produtiva é o encadeamento de atividades econômicas pelas quais passam e vão sendo transformados e transferidos os diversos insumos, incluindo desde as matérias-primas, máquinas e equipamentos, produtos intermediários até os finais, sua distribuição e comercialização. Resulta de e implica em crescente divisão de trabalho, na qual cada agente ou conjunto de agentes especializa-se em etapas distintas do processo produtivo. Uma cadeia produtiva pode ser de âmbito local, regional, nacional ou mundial. (ALBAGLI e BRITTO, 2003, p. 8).

As cadeias produtivas, segundo Albagli e Britto, podem ser identificadas a partir da análise de relações interindustriais expressas em matrizes insumo-produto, a partir da análise das transações de compra e venda entre fornecedores e compradores de um determinado ramo industrial.

Para Albagli e Britto (2003), “um arranjo produtivo local” (conceito que será explicitado no item 2.4 deste capítulo) pode conter uma cadeia produtiva estruturada localmente ou fazer parte de uma cadeia produtiva de maior abrangência espacial, de âmbito nacional ou mundial, desde quando, com a globalização, identifica-se uma maior dispersão espacial das cadeias produtivas.

Cadeia de valor, cadeias de suprimentos e cadeias produtivas globais, são conceitos similares ou distintos? Referem-se a configurações semelhantes de processos e sistemas produtivos? Carvalho e Laurindo (2003), indicam como uma fonte de confusão conceitual sobre esses termos o fato de estudiosos e autores pertencentes a diferentes áreas do conhecimento abordarem o mesmo tema: a ligação dos vários elos de uma cadeia, desde os insumos de produção até a comercialização final em mercados globais.

O conceito de cadeia de valor referenciado por Carvalho e Laurindo, é tomado de acordo com a formulação de Michael Porter, a qual já foi apresentada no item 2.2 deste capítulo. Resumidamente, a “cadeia de valor” (value chain) compreende o conjunto das atividades tecnológicas e economicamente distintas que a empresa utiliza na realização dos seus negócios, com cada uma dessas atividades se constituindo em uma atividade de valor. Uma ampliação deste conceito corresponderia à noção de “sistema de valor”, ou seja, contemplando as cadeias de valor de uma indústria, desde os fornecedores até o consumidor final. Para Carvalho e Laurindo, o conceito de cadeia de valor, na abordagem porteriana, está contido nas fronteiras da organização, enquanto que o conceito de sistema de valor é o que mais se aproxima dos conceitos de cadeias de suprimentos e cadeias produtivas.

O conceito de cadeia de suprimentos, mais utilizado por pesquisadores da área de logística, consiste no “conjunto de todas as atividades relativas ao fluxo físico e ao processo de transformação de produtos, desde o estágio original da matéria-prima (natureza) até o usuário final (consumidor), assim como o fluxo das informações relativas” (BOWERSOX e CLOSS, 2001, apud CARVALHO e LAURINDO, 2003, p. 112).

Segundo Carvalho e Laurindo, embora este conceito tenha alguma semelhança com o de sistema de valor, na cadeia de suprimentos não existe uma preocupação em diferenciar a atividade-meio e a atividade-fim, pois o que se enfatiza é o processo logístico.

Já o conceito de cadeias produtivas globais caracteriza-se pela “produção e comercialização de mercadorias, envolvendo a tomada de decisões estratégicas e a formação de cadeias internacionais de suprimentos” (GEREFFI, 1994, apud CARVALHO e LAURINDO, 2003, p. 114).

As cadeias produtivas globais, de acordo com Gereffi, citado por Carvalho e Laurindo (2003), apresentam-se em dois formatos básicos: as dirigidas pelo produtor (producer-driven chain), nas quais os ativos-chave são de caráter produtivo, permitindo a grandes indústrias coordenarem redes internacionais e utilizarem intensivamente capital e tecnologia, a exemplo da indústria automotiva e da aviação; e as dirigidas pelo comprador (buyer-driven chain), onde os ativos-chave são de natureza comercial, como marcas ou canais de comercialização e distribuição.

Os coordenadores desse tipo de cadeia são grandes varejistas, designers e redes de exportadores (trading networks), que controlam como, quando e aonde a produção irá acontecer e qual parcela de lucro deve ser auferida a cada estágio da cadeia, apesar de não possuírem nenhum aparato produtivo. Essas cadeias geralmente envolvem fornecedores do Terceiro Mundo, tais como [os de] calçados e brinquedos. (GEREFFI, 1999, apud CARVALHO e LAURINDO, 2003, p. 114).

Carvalho e Laurindo, citando ainda Gereffi, comentam sobre o aparecimento de uma nova configuração de cadeia, denominada de internet-oriented chain, ou, cadeias produtivas dirigidas pela Internet.

Na década de 1990, a economia mundial, segundo Dall’Acqua, se caracterizou por substanciais mudanças na natureza das atividades industriais, com a demanda por produtos passando a ser atendida no cenário de uma economia mundial integrada. Nesse contexto, as cadeias produtivas também passaram por mudanças conceituais.

Cadeias produtivas são, assim, formadas pelas ligações intersetoriais; e, a maior importância de seu efeito será função da riqueza do conjunto dessas relações. Maior distribuição de renda e maior desenvolvimento serão resultados do maior adensamento das cadeias [que pode ser propiciado pela introdução da demanda por turismo], com multiplicação e diversificação das atividades e estrutura de consumo. Diferentes tipos de cadeias produtivas geram diferentes efeitos multiplicadores no circuito regional [...]. (DALL’ACQUA, 2003, p. 82).

As cadeias podem ser entendidas, conforme Dall’Acqua, como a síntese da atividade econômica, correspondendo ao conjunto de distribuição de insumos, processo, produtos e comercialização de produtos.

Referindo-se à abordagem de Porter sobre as cadeias produtivas a autora a qualifica como sendo de natureza “[micro]econômica, empresarial e de caráter estratégico” (DALL’ACQUA, 2003, p.90).

Mais recentemente, a formação de cadeias produtivas tem sido abordada, de acordo com Dall’Acqua, a partir de três principais enfoques conceituais: uma abordagem técnico-organizacional centrada na idéia do Just-in-Time; uma análise de caráter microeconômico baseada nos custos de transação; e uma análise envolvendo as questões de poder.

[...] as cadeias globais de produção têm as seguintes dimensões: a) uma estrutura de input-output, isto é, um conjunto de produtos e serviços ligados numa seqüência de atividades, que adicionam valor econômico; b) territorialidade, isto é, a dispersão ou concentração espacial da produção e de redes de marketing, compreendendo empresas de diferentes tamanhos e tipos; e c) estrutura de comando, isto é, as relações de poder e autoridade que determinam como os recursos financeiros, materiais e humanos são alocados num fluxo dentro de uma cadeia, [grifo nosso]. (GEREFFI, 1997, apud DALL’ACQUA, 2003, p. 94).

A dimensão de territorialidade das cadeias globais assume destaque na análise de Dall’Acqua, com a autora tomando como referência o conceito de território explicitado por Milton Santos, para quem,

[...] a noção de território, na atualidade, transcende a idéia apenas geográfica de espaços contíguos vizinhos que caracterizam uma região, para a noção de rede, formada por pontos distantes uns dos outros, ligados por todas as formas e processos sociais; o espaço econômico, nesse sentido, é organizado hierarquicamente, como resultado da tendência à racionalização das atividades e se faz sob um comando que tende a ser concentrado em cidades mundiais (onde a tecnologia da informação desempenha um papel relevante) e por suas bases em territórios globais diversos. (SANTOS, 1994, apud DALL’ACQUA, 2003, p. 81).

Cadeia produtiva ou filière, na abordagem de Pires (2001, p. 75), corresponde a “[...] um conjunto articulado de atividades econômicas integradas como conseqüência da relação em termos de mercados, tecnologia, organização e capitais [...]”.

Uma cadeia produtiva, segundo Pires, pode ser visualizada sob três enfoque complementares:

 como uma sucessão de operações de transformação dissociáveis, capazes de serem separadas ou ligadas entre si por um encadeamento técnico;

 como um conjunto de relações comerciais e financeiras que estabelecem um fluxo de trocas, de montante a jusante, entre todos os estados de transformação e entre fornecedores e clientes; e

 como um conjunto de ações econômicas que regulam a valorização dos meios de produção e asseguram a articulação das operações.

Para o conhecimento da estrutura de uma cadeia produtiva deve-se, conforme Pires, partir da identificação do produto acabado e seguir o encadeamento, de jusante a montante, das operações técnicas, comerciais e logísticas necessárias à sua obtenção, ou seja, se vai do mercado final do produto acabado em direção aos insumos que lhe deram origem. Este tipo de análise corresponde ao estudo dos efeitos de encadeamento para trás, segundo formulação pioneira de Albert Hirschman.

A análise de uma cadeia produtiva, de acordo com Pires, caracteriza-se por ser de natureza meso competitiva, desde quando aborda os diferentes elos do tecido institucional regional que apresentam algum tipo de vinculação com a cadeia analisada, como pode ser visualizado na (Figura 2.2, p. 178).

Justificando sua afirmação, Pires indica que a mesoanálise visa preencher a lacuna existente entre a análise microeconômica e a análise macroeconômica. Enquanto a primeira estuda o comportamento individual dos agentes econômicos, unidades familiares e empresas, abstraindo um modelo explicativo do comportamento do todo e a segunda busca explicar o funcionamento das partes com base no funcionamento do todo, nos grandes agregados econômicos, a abordagem mesoanalítica possibilita equacionar-se tanto os problemas referenciados ao processo de concorrência e às opções estratégicas das empresas como os que dizem respeito ao processo distributivo entre os agentes econômicos.

Figura 2.2 Composição Típica do Tecido Institucional

Fonte: Pires, 2001, p. 77.

A análise de cadeias produtivas propicia, portanto, conforme Pires, a criação de um espaço mesoanalítico que favorece a compreensão da dinâmica dos segmentos econômicos, numa perspectiva sistêmica relacionada com o desenvolvimento regional (Quadro 2.2, p. 179).

Pires (2001), distingue dois níveis de cadeias, a cadeia principal, onde as atividade são diretamente vinculadas ao objetivo central da cadeia e as cadeias auxiliares, que realizam atividades de suporte e são indiretamente ligadas ao objetivo central da cadeia principal.

Pires também comenta que existem dois tipos de leitura das inter-relações de uma cadeia produtiva regional, a leitura técnica e a leitura econômica. A leitura técnica permite identificar as operações elementares de produção, ou de transformação de insumos, e suas seqüências lógicas de encadeamento, do início ao fim da cadeia. Já a leitura econômica analisa as relações que se originam da inserção de transformações intermediárias de natureza comercial na estrutura técnica da cadeia, devido à existência de produtos com valores de troca, em cada estágio do processo de transformação de insumos, que são negociados em mercados específicos.

[...] o maior benefício do estudo de uma cadeia produtiva é a possibilidade de ampliação da compreensão do contexto onde as empresas estão inseridas, fazendo com que as mesmas caminhem no sentido de ter uma visão sistêmica de sua competitividade. No momento em que os atores regionais começam a perceber as inter-relações existentes entre os diferentes elos da cadeia produtiva, os seus “gargalos” começam a ficar mais claros, isto é, os pontos de estrangulamento da competitividade regional e das próprias empresas, onde esforços conjuntos podem produzir ganhos para todos os envolvidos. (PIRES, 2001, p. 80).

Quadro 2.2 Níveis e Critérios de Análise do Perfil Competitivo Regional

Fonte: Pires, 2001, p. 106.

Dentro dessa concepção sistêmica da competitividade regional, configura-se um ciclo de causalidade, o qual, no caso de ser negativo e não havendo uma ação conjunta dos atores envolvidos que possibilite sua ruptura, refletirá na conformação de regiões atrasadas e não competitivas.

A este respeito, Pires coloca que o sistema como um todo é um problema a ser compartilhado por toda a comunidade regional, porém, nas regiões que não conseguem romper o ciclo de causalidade, a percepção dos atores ocorre de forma particularizada, corporativa e não integrada. Apresenta-se na (Figura 2.3) o esquema do ciclo de causalidade, na visão do autor.

Figura 2.3 Ciclo de Causalidade

Fonte: Pires, 2001, p. 26

Os empresários percebem apenas um dos ângulos deste sistema, a questão da qualificação da mão-de-obra, mas como não possuem um mercado exigente e capital disponível (baixa lucratividade), não realizam os investimentos necessários para a sua qualificação. Já o governo percebe o sistema do prisma das deficiências de formação e qualificação de sua população. Tenta melhorar a infra-estrutura de educação e as instituições de apoio competitivo, no entanto, não possui recursos para investimentos em virtude da baixa arrecadação. Desta forma, o problema é comum [e circular], mas cada grupo de atores tenta resolvê-lo através de uma ação limitada e isolada, partindo de uma percepção fragmentada do mesmo, quando a ação conjunta poderia ser muito mais efetiva. (PIRES, 2001, p. 27).

O ciclo de causalidade acima abordado por Pires, encontra sua base conceitual na teoria sobre o “círculo vicioso da pobreza”, conforme formulação de Ragnar Nurkse em sua obra Some aspects of capital accumulation in under-developed countries (1952). Para as referências que se efetua em seguida sobre esta teoria, se recorreu à edição brasileira do livro de Nurkse, de 1957.

Implica ele [o círculo vicioso da pobreza] numa constelação circular de forças, tendendo a agir e reagir uma sobre a outra de tal modo a conservar um país pobre em estado de pobreza. Não é difícil imaginar exemplos típicos destas constelações circulares: um homem pobre não tem o bastante para comer; sendo subalimentado, sua saúde é fraca; sendo fisicamente fraco, sua capacidade de trabalho é baixa, o que significa que ele é pobre, o que, por sua vez, quer dizer que não tem o bastante para comer; e assim por diante. Tal situação, transposta para o plano mais largo de um país, pode ser resumida nesta proposição simplória: um país é pobre porque é pobre. (NURKSE, 1957, p. 7-8).

As mais importantes destas relações circulares para Nurkse, são as que dificultam a acumulação de capital em países economicamente atrasados. As relações circulares determinantes de problemas de acumulação de capital nos países pobres existem tanto do lado da oferta quanto do lado da procura, haja vista que a oferta de capital é determinada pela habilidade e propensão a poupar, e sua demanda pelos incentivos a investir, aspectos esses pouco dinâmicos e estruturalmente comprometidos nesses países. Essas relações circulares podem ser descritas conforme as seqüências abaixo, nas palavras do próprio Nurkse:

Do lado da oferta, há pequena capacidade de poupar, resultante do baixo nível da renda real. A renda real baixa é o reflexo da baixa produtividade, que, por sua vez, é devida em grande parte à falta de capital. A falta de capital é o resultado da pequena capacidade de poupar e, assim, o círculo se completa.

Do lado da procura, pode o estímulo para investir ser baixo em virtude do pequeno poder de compra da população, conseqüência de reduzida renda real, o que também ocorre por causa de baixa produtividade. Entretanto, o baixo nível de produtividade é conseqüência do modesto montante de capital aplicado na produção, que pode ser, por sua vez, causado, ao menos parcialmente, pelo pequeno estímulo para investir.

O ponto comum em ambos os círculos é o baixo nível de renda, refletindo baixa produtividade. (NURKSE, 1957, p. 8).

Com base nas abordagens de Pires e Nurkse, constata-se que a verificação dessas relações circulares em países em desenvolvimento, afeta o desempenho de todas as atividades que integram a economia desses países, embora não com a mesma intensidade e de forma linear. Baixos investimentos em qualificação de recursos humanos e em inovações tecnológicas resultam em ineficiência no suprimento de capital humano e social e na falta de conhecimentos e habilidades que possibilitem a capacidade de absorção ou adequação de novas tecnologias, o que irá influir na condição de competitividade desses países.

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