Tesis doctorales de Economía

 

TURISMO, CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO: UMA ANÁLISE URBANO-REGIONAL BASEADA EM CLUSTER

Jorge Antonio Santos Silva

 

 

 

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1.2.5 Crescimento endógeno: o conhecimento, o capital humano e o capital social como motores do crescimento

O crescimento endógeno corresponde à endogeneização do progresso técnico, entendido como o aumento da eficiência na utilização dos fatores convencionais de produção, assentando sua base conceitual na consideração do aumento do estoque de conhecimentos como sendo o verdadeiro motor do crescimento per capita, prioritariamente à acumulação de capital físico ou humano.

O conhecimento é um bem público, portanto apresenta simultaneamente as características da não rivalidade – o seu consumo por um agente não afeta a quantidade disponível para os outros agentes, e da não exclusão – nenhum agente pode excluir os demais de consumi-lo ao mesmo tempo.

A característica da não rivalidade associada ao conhecimento, o torna uma potencial fonte de rendimentos crescentes à escala e de crescimento per capita.

Imagine-se que um dado produtor afeta uma dada quantidade de recursos à produção de conhecimento novo, tendo em vista a produção de um dado bem. Para produzir uma dada quantidade deste último, ele necessitará, para além dos recursos gastos a produzir o conhecimento novo, de dadas quantidades de outros inputs (trabalho, capital, etc.). Se agora considera-se que, num momento subseqüente, N produtores terão acesso gratuito ao conhecimento criado pelo produtor pioneiro, então a produção poderá ser multiplicada por N apenas multiplicando por esse mesmo fator N as quantidades utilizadas de capital, trabalho, etc., mas sem necessidade de se afetar recursos adicionais a criar novos conhecimentos. Este resultado decorre potencialmente do caráter não rival do conhecimento mas exige ainda que ele, conhecimento, apresente tendencialmente a característica da não exclusão, a fim de poder ser utilizado por outros produtores que não o pioneiro, [grifo nosso]. (SILVA e SILVA, 2002, p. 178).

A explicação para a origem do aumento do estoque de conhecimento conduz à consideração que o conhecimento não é um bem público puro, apresentando em certa medida uma característica de exclusão parcial. Isso se deve a que as empresas privadas investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D) tendo como incentivo a capacidade de se apropiarem com exclusividade, mesmo que temporariamente, dos benefícios decorrentes da geração e utilização do conhecimento novo. Assim, a explicação para o aumento do estoque de conhecimento passa pela consideração de algum grau de exclusão, a qual deverá ser temporária, pois, para o conhecimento de fato atuar como motor do desenvolvimento pressupõe-se a difusão e disseminação do seu domínio e uso.

Uma outra perspectiva é considerar que o aumento do estoque de conhecimento é um processo decorrente da existência de externalidades. Alfred Marshall (Principles of economics, 1890), cuja contribuição para a teoria econômica será abordada com maior detalhamento no capítulo 2 deste trabalho, item 2.1.1, enfatizou a idéia de que, embora cada produtor, isoladamente, tivesse a percepção da existência de rendimentos marginais decrescentes do seu investimento em fatores produtivos e pudesse ainda ignorar os efeitos positivos que o seu investimento poderia gerar para os outros produtores, em nível agregado e como resultado das ações simultâneas de todos os produtores, aconteceriam efeitos externos sobre a produtividade de cada produtor, de modo a superar os rendimentos marginais decrescentes. A natureza não rival do conhecimento aliada à sua difusão, o caracteriza como importante fonte de externalidades positivas.

Nos modelos de crescimento endógeno, o conhecimento é visto como objeto de uma difusão instantânea por todos os agentes de um sistema econômico, desde quando não existam barreiras jurídicas, a exemplo da propriedade intelectual e de patentes. Apesar de reconhecer-se o conhecimento como o motor do aumento da eficiência e do crescimento econômico, sua difusão, no entanto, ainda não é um processo automático e democrático, dessa forma, as condições existentes que possibilitam uma efetiva apropriação de conhecimento novo por um número cada vez maior de agentes econômicos passam a ser uma parte relevante da explicação do diferenciado e desigual nível de crescimento econômico de países e regiões.

Dois desafios teóricos se colocam na formulação de um modelo de crescimento endógeno, o primeiro é a compatibilização de retornos crescentes com concorrência perfeita e o segundo é a formulação de modelos de crescimento endógeno com concorrência monopolística. Os recentes esforços de pesquisa, segundo Clemente e Higachi (2000), deram origem a três tipos de modelos:

 de sppilovers, que explicam o crescimento por meio das externalidades positivas da acumulação de capital humano e conhecimento. A Teoria do Crescimento Endógeno, que emergiu a partir dos artigos de P. Romer (1986) [Increasing returns and lon-run growth] e R. E. Lucas Jr. (1988) [On the mecanics of economic development], introduz incentivos para firmas ou indivíduos investirem não apenas em capital físico, mas também em inovações e na acumulação de capital humano;

 lineares, conhecidos como AK, que preservaram a importância do processo de acumulação de capital para o crescimento, mas introduziram novos fatores endógenos, acumulação de capital humano e conhecimento;

 os que consideram a inovação tecnológica como a fonte básica do crescimento, tratando a inovação como resultado deliberado da busca de poder de monopólio temporário ou permanente. [...] estes modelos buscam capturar algumas das fontes mais profundas do crescimento econômico: as inovações de processo e de produto. (CLEMENTE e HIGACHI, 2000, p. 197).

O modelo de Romer fundamenta-se em externalidades positivas, spillovers, tomando como suposição que o conhecimento tecnológico é a única forma de capital (capital de pesquisa). À diferença do capital físico, o conhecimento tecnológico constitui-se em um bem público puro, não sujeito à rivalidade e à excludência em seu consumo. Assim, um conhecimento novo criado por uma empresa apresenta um efeito externo sobre as possibilidades de produção de outras empresas. Neste modelo, o pressuposto básico é que o crescimento econômico de longo prazo origina-se nas externalidades positivas decorrentes da acumulação de conhecimento tecnológico.

Como analisa Clemente e Higachi (2000), o modelo de Lucas apresenta uma estrutura similar à do modelo de Romer. A diferença básica é que o investimento em capital humano proporciona as externalidades positivas, através de aumentos no nível tecnológico. Lucas considera o capital humano como um fator acumulável e como a fonte primária de crescimento. O capital humano pode ser definido como a soma de habilidades dos indivíduos.

“A acumulação de capital humano é uma atividade social envolvendo grupos de pessoas em uma forma que não tem contrapartida na acumulação de capital físico. Desde que se incorpore aos indivíduos, o capital humano é apropriado por eles” (CLEMENTE e HIGACHI, 2000, p. 200).

Uma crítica que se faz aos modelos acima é que eles não conseguem, de acordo com Clemente e Higachi, [...] capturar a idéia schumpeteriana de que a fonte do crescimento econômico é a inovação tecnológica endógena, endógena não por causa das externalidades positivas do capital de pesquisa ou humano, mas porque resulta da busca do lucro do monopólio [...]. (CLEMENTE e HIGACHI, 2000, p. 205).

Uma outra vertente de modelos de crescimento endógeno, os neoclássicos-schumpeterianos, inspiram-se na idéia de Schumpeter de que a principal fonte de crescimento econômico é a inovação introduzida pelas empresas. A inovação é considerada como resultado de esforços de P&D em que as empresas empenham recursos, razão pela qual os usuários deveriam pagar um preço suficiente para cobrir seu custo de produção e ter o direito de monopólio do uso da inovação.

Desse modo, o avanço tecnológico torna-se parcialmente apropriável, o que gera um incentivo a inovar, o que, aliado às externalidades positivas do processo de inovação e sua difusão, daria sustentação a um crescimento ilimitado.

Clemente e Higachi, distinguem dois tipos de modelos de crescimento endógeno baseados na inovação: o de crescente variedade de produtos e o de aumento da qualidade de produtos.

No primeiro tipo, novos produtos são agregados à função de produção ou de utilidade, ao mesmo tempo em que se supõe retornos crescentes dinâmicos de escala ou preferência pela variedade. [...] a fonte de crescimento se encontra em um aumento da divisão do trabalho na economia. [...] o aumento do estoque de capital usado na produção dos bens finais se manifesta por meio do crescimento do número de insumos intermediários, e não da quantidade ou da qualidade de cada insumo. Por sua vez, o aumento do número de bens intermediários é identificado com a maior divisão do trabalho em toda a economia e com o uso crescente de métodos de produção que aumentam a produtividade. [...]

No segundo tipo [...], os novos bens são de qualidade superior e substituem os antigos. O modelo [...] se propõe a captar aspectos de destruição criadora [conceito de Schumpeter]. Em contraste com o modelo [anterior], a mudança técnica não se manifestaria como aumento do número de bens intermediários, mas como uma elevação da produtividade que os bens intermediários permitem na produção dos bens finais. Cada inovação seria, assim, um aperfeiçoamento do setor intermediário. Em suma, a fonte do crescimento econômico consiste na melhoria da qualidade dos bens intermediários. (CLEMENTE e HIGACHI, 2000, p. 215).

A partir da abordagem evolucionária-schumpeteriana, as intervenções econômicas do governo podem ser justificadas não em função de buscar suprir as falhas de mercado, mas diante da possibilidade de dotar os sistemas econômicos de competitividade, atuando o governo, neste sentido, e face às economias externas de natureza tecnológica, na definição de políticas de desenvolvimento regional.

As características dos processos de aprendizagem tecnológica, decorrentes da natureza parcialmente apropriável, cumulativa, tácita e específica em termos espaciais das inovações, são razões sólidas para a adoção de políticas que promovam processos evolucionários ao nível regional [...]. (MELO, 2001, p. 70).

Sobre a formulação teórica original de Schumpeter a respeito do papel da inovação no processo de desenvolvimento econômico e o efeito de destruição criadora, esta será abordada de modo mais específico e detalhado no capítulo 2 desta tese, item 2.1.2.

Em desenvolvimento teórico mais recente, Tenani (2003), argumenta que não há outra maneira de um país crescer de forma sustentada, senão por meio da acumulação conjunta dos dois insumos de produção: capital físico, por meio de poupança e investimento, e capital humano, pela educação; em decorrência afirma que capital humano e investimento em educação não estão ligados apenas ao campo social, mas também ao campo econômico.

O crescimento baseado apenas apenas na acumulação de capital físico enfrenta difícil restrição econômica: é sujeito a retornos decrescentes de escala e, por isso, tende a se extinguir, uma vez que não é possível alocar os mesmos insumos de produção, indefinidamente, de maneira cada vez mais eficiente. A médio prazo, a produtividade marginal desses insumos diminui, exaurindo-se o crescimento econômico, que pode tornar-se insuficiente até mesmo para compensar a depreciação do capital e o crescimento da população.

Daí que, reitera Tenani (2003), sem o acúmulo de capital humano, não existe crescimento econômico sustentado. A dinâmica que surge da interação entre poupança e educação tem por efeito a influência mútua entre a produtividade do capital humano e a do capital físico, resultando em que a lei dos rendimentos decrescentes deixa de ser um fator limitante para o processo de crescimento econômico. Portanto, países que possuem um sistema educacional mais produtivo, gerando mais capital humano e mais qualificado, tendem a crescer mais rapidamente, no médio e longo prazos.

Um paradigma emergente no campo dos estudos relacionados com as questões do crescimento e do desenvolvimento, que surge nos anos 1980, é representado pela teoria do capital social.

Segundo Kliksberg (1999), o Banco Mundial considera a existência de quatro formas básicas de capital:

 o capital natural, constituído pela dotação de recursos naturais de um país ou região;

 o capital construído, aquele gerado pelo ser humano, incluindo as infra-estruturas, os bens de capital, os capitais financeiro e comercial, etc.;

 o capital humano, determinado pelos níveis de nutrição, saúde e educação da população; e

 o capital social, recentemente “descoberto”, que pode vir a constituir-se em valiosa ferramenta de análise do crescimento e do desenvolvimento de base local ou regional.

Alguns estudiosos atribuem às duas última formas de capital [humano e social] uma participação majoritária no desenvolvimento econômico das nações verificado em fins do século XX, indicando que nelas existem chaves decisivas para o progresso tecnológico, a competitividade, o crescimento sustentado, o bom governo e a estabilidade democrática, [tradução livre nossa]. (KLIKSBERG, 1999, p. 87).

Não existe ainda, conforme Kliksberg, uma definição de consenso sobre o capital social, conceito de recente exploração que se encontra em um estágio de delimitação de sua identidade. Apesar das atuais imprecisões, é voz corrente entre os estudiosos das teorias do desenvolvimento, que ao investigar-se o capital social se estará incorporando ao espectro de conhecimentos dessas teorias, um ampliado número de importantes variáveis que até o momento não tinham sido objeto de enquadramento no âmbito convencional de tais teorias.

“Por capital social se entende o conjunto de normas, instituições e organizações que promovem a confiança e a cooperação entre as pessoas, nas comunidades e na sociedade em seu conjunto [...]” [tradução livre nossa], (DURSTON, 1999, p. 103).

Segundo John Durston (2000), o paradigma do capital social, e o neoinstitucionalismo econômico no qual se baseia em parte, coloca que: as relações estáveis de confiança, reciprocidade e cooperação podem contribuir para três tipos de benefícios: reduzir os custos de transação, produzir bens públicos e facilitar a constituição de efetivas organizações de base local, de atores sociais e de sociedades civis saudáveis, [tradução livre nossa]. (DURSTON, 2000, p.7).

Durston (2000), refere-se às formulações fundadoras do conceito de capital social, se reportando a P. Bourdieu e James Coleman como sendo os que mais cedo expressaram-se sobre tal conceito, as quais coincidiam nos aspectos de que o capital social é um recurso, ou via de acesso a recursos que, quando combinado com outros fatores, permite para as pessoas que o possuem alcançar determinados benefícios; e que esta forma de capital se fundamenta nas relações sociais.

Capital social “... é o agregado dos recursos reais ou potenciais ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de reconhecimento mútuo” [tradução livre nossa], (BOURDIEU, 1985, apud DURSTON, 2000, p. 8). Compreende os recursos sócio-estruturais que constituem um ativo de capital para o indivíduo e facilitam certas ações de indivíduos que se encontram no interior dessa estrutura. ... [o capital social] é produtivo, possibilitando o alcance de certos fins que não seriam alcançáveis na sua ausência, [tradução livre nossa]. (COLEMAN, 1990, apud DURSTON, 2000, p. 8).

John Durston (2000), destaca o economista neoinstitucionalista Douglas North como um dos inspiradores do conceito de capital social. Mesmo ele não falando explicitamente de capital social e sim de instituições, Durston analisa que quase todo o marco teórico do capital social se faz presente nas obras de North e, por isso, considera que ele deve figurar entre os principais fundadores do marco teórico do capital social. As instituições são “conjuntos de normas e valores que facilitam a confiança entre os atores” [tradução livre nossa], (NORTH, 1990, apud DURSTON, 2000, p. 8).

Em entrevista à Revista VEJA de 26 de novembro de 2003, o professor Douglas North, vencedor do Nobel de Economia em 1993, declarou que as nações prosperam quando seus governantes se guiam por duas preocupações fundamentais: garantir a competição entre as empresas e fortalecer as instituições. As nações que assim não procederem tenderão a permanecer em situação de atraso econômico e social. Neste sentido, competição e instituições constituem-se em fatores de desenvolvimento mais importantes que riquezas naturais, clima favorável ou agricultura.

Segundo North, nenhum país consegue crescer de forma consistente por um longo período de tempo sem que antes desenvolva de forma sólida suas instituições. Por instituição ele entende uma legislação clara que garanta os direitos de propriedade e impeça o não cumprimento dos contratos firmados, um sistema judiciário eficaz, agências regulatórias firmes e atuantes.

Nesse contexto, North comenta que o papel do governo deve se restringir a criar regras econômicas que garantam a estabilidade, e incentivar a competição para tornar a iniciativa privada mais eficiente. Ele refere-se ainda à questão dos custos de transação, entre os quais estão os gastos com impostos, seguros e operações no sistema financeiro. Esses custos fazem crescer o preço final dos produtos e serviços, mas, para North, são inevitáveis e decorrem do grau de profissionalização que caracteriza as trocas comerciais em uma nação moderna. Sua sentença conclusiva é que a nação que não possuir ou constituir instituições fortes não irá abandonar a condição de atraso e de pobreza.

Outro autor influente no desenvolvimento do conceito de capital social, indicado por Durston (2000), foi Mark Granovetter. Abordando o tema em uma perspectiva de sociologia econômica Granovetter, comentado por Durston, analisou que: os atores econômicos não são átomos isolados, suas interações econômicas estão embedded (incrustadas, enraizadas, imersas, imbricadas) nas relações, redes e estruturas sociais. O conceito de embeddedness e suas diversas implicações faz parte atualmente do conceito de capital social, em relação à racionalidade dos objetivos não econômicos dos indivíduos e em relação à idéia central de que as relações sociais constituem ativos econômicos importantes dos indivíduos e dos grupos, [tradução livre nossa]. (DURSTON, 2000, p. 8).

Em sua síntese analítica da contribuição dos autores considerados precursores na introdução do conceito de capital social no escopo teórico dos estudos sobre o crescimento e o desenvolvimento, Durston (2000) menciona Robert Putnam como o autor mais citado no debate recente sobre capital social, o qual é considerado por outros autores como um revisionista que apenas prolonga o conceito original de capital social.

Conforme Albagli e Maciel (2003), foi Robert Putnam que, de fato, popularizou o conceito de capital social. “Em seu estudo seminal sobre a Itália, Putnam procurou explicar as diferenças de engajamento cívico e de governos regionais efetivos entre o Centro-Norte e o Sul italianos, a partir de seus diferentes estoques de capital social” (ALBAGLI e MACIEL, 2003, p. 425).

Putnam afirma que a superação dos dilemas da ação coletiva e do oportunismo contraproducente daí resultante depende do contexto social mais amplo em que determinado jogo é disputado. Para ele, a cooperação voluntária é mais fácil numa comunidade que tenha herdado um bom estoque de capital social sob a forma de regras de reciprocidade e sistemas de participação cívica. [...] Aqui o capital social diz respeito a características da organização social, como confiança, normas e sistemas, que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas. (PUTNAM, 2002, p. 177).

Putnam relaciona várias das formas existentes de capital social, a exemplo da confiança, à qual Albert Hirschman denominou de recursos morais, ou seja, aqueles recursos cuja oferta aumenta com o uso, em vez de diminuir, e que, ao contrário, se esgotam se não forem utilizados.

Uma das características específicas do capital social, entendido como confiança, normas e cadeias de relações sociais, é que ele geralmente se constitui em um bem público, ao contrário do capital convencional que é tipicamente de caráter privado. Neste sentido, o capital social normalmente deve ser gerado como um subproduto de atividades sociais.

As normas, mesmo que não tenham força legal, constituem-se em regras que fortalecem a confiança social, sendo observadas e seguidas porque resultam na redução dos custos de transação, facilitando a cooperação.

Os sistemas de participação cívica, conforme Putnam, representam uma intensa interação horizontal, se revelando uma forma essencial de capital social: “quanto mais desenvolvidos forem esses sistemas numa comunidade, maior será a probabilidade de que seus cidadãos sejam capazes de cooperar em benefício mútuo [...]” (PUTNAM, 2002, p. 183).

Se os sistemas horizontais de participação cívica ajudam os participantes a solucionar os dilemas da ação coletiva, então quanto mais horizontalizada for a estrutura de uma organização mais ela favorecerá o desempenho institucional na comunidade em geral. A afiliação a grupos horizontalmente organizados (como clubes desportivos, cooperativas, sociedades de mútua assistência, associações culturais e sindicatos) deve estar positivamente relacionada com o bom desempenho governamental. ... [O capital social portanto], corporificado em sistemas horizontais de participação cívica, favorece o desempenho do governo e da economia [e do turismo em particular], e não o oposto: sociedade forte, economia forte; sociedade forte, Estado forte. (PUTNAM, 2002, p. 185-186).

Putnam afirma que os estoques de capital social tendem a ser cumulativos e a reforçar-se mutuamente, resultando em equilíbrio social com elevado níveis de confiança, reciprocidade, participação, civismo e bem-estar coletivo, caracterizando a comunidade cívica. Além da comunidade, tanto o Estado quanto o mercado funcionam e interagem melhor em contextos cívicos. Tais contextos conformam as regiões cívicas, que apresentam como traços distintivos: densa rede de associações locais, ativa participação nos negócios comunitários, modelos de política igualitários, confiança e observância das leis.

A pesquisa realizada por Putnam (2002), deixou para ele duas lições e uma certeza. As lições de que: o contexto social e a história condicionam profundamente o desempenho das instituições; a história institucional costuma evoluir lentamente.

E a certeza de que “para a estabilidade política, para a boa governança e mesmo para o desenvolvimento econômico, o capital social pode ser mais importante até do que o capital físico ou humano [...]” (PUTNAM, 2002, p. 192).

Em relação à análise econômica, o conceito de capital social encontrou espaço não só no pensamento institucionalista, como já anteriormente abordado, no qual integra, em certa medida, o conceito de instituição, o qual não se restringe às estruturas mais formalizadas, tais como governo, regime político e legislação de modo amplo, mas também as relações e estruturas informais, normas e valores inscrustados nos hábitos e costumes de uma população. (ALBAGLI e MACIEL, 2003, p. 429).

Também a corrente evolucionária, que enfatiza o papel da inovação e do aprendizado para a dinâmica econômica, já analisada neste trabalho, contempla questões de interface com o conceito de capital social, desde quando, a capacidade de inovar não se traduz apenas por um somatório de técnicas e produtos teoricamente disponíveis no mercado, mas sim: [...] pela capacidade de uma sociedade, nas relações entre seus agentes, movimentos, organizações e instituições, de: (1) empenhar-se nas escolhas que lhe são mais adequadas dentre as disponíveis e acessíveis; e (2) aplicar os resultados de suas opções como e onde serão mais produtivos social e economicamente. (FREEMAN, 1991; NEWBY, 1992, apud ALBAGLI e MACIEL, 2003, p. 430).

Albagli e Maciel, listam alguns aspectos que podem ser considerados como benefícios econômicos do capital social:

 [...] maior facilidade de compartilhamento de informações e conhecimentos, devido a relações de confiança, espírito cooperativo, referências sócio-culturais e objetivos comuns;

 confirmação de ambientes propícios ao empreendedorismo, o que contribui para a promoção do dinamismo, da competitividade e da sobrevivência sustentada de países, regiões, organizações e indivíduos; a geração de trabalho e renda; e o “empoderamento” de segmentos sociais excluídos;

 melhor coordenação e coerência de ações, processos de tomada de decisão coletivos, bem como maior estabilidade organizacional, o que também contribui para diminuir custos;

 maior conhecimento mútuo, ampliando a previsibilidade sobre o comportamento dos agentes, reduzindo a possibilidade de comportamentos oportunistas e propiciando um maior compromisso em relação ao grupo [...]. (ALBAGLI e MACIEL, 2003, p. 430).

As autoras mencionam ainda, que existem evidências da existência de uma forte relação entre capital social e a formação de aglomerações territoriais produtivamente inovadoras. Isto ocorreria de modo mais especial nos chamados “arranjos produtivos locais”, por envolverem não apenas empresas, mas outros tipos de atores, como organismos governamentais, associações, instituições de pesquisa, educação e treinamento, etc.

Comparando aglomerações produtivas italianas e brasileiras, as autoras demonstram, no entanto, que capital social e arranjos produtivos não se vinculam, ainda, de forma automática.

A capacidade de gerar empreendimentos sistematicamente articulados não depende simplesmente de confiança e interação, mas de um conjunto de fatores: por isso distinguem-se três itálias e vários brasis ... [Os] fatores mais relevantes são: nível educacional; densidade de relações de aprendizado interativo; sentimento de pertencimento; nível de inclusão ou de polarização social; identidade entre interesses individuais e coletivos; lideranças locais; relação Estado/sociedade. (ALBAGLI e MACIEL, 2003, p. 431-432).

Entretanto, o capital social, conforme as autoras, “... pode ser um fator de interação cooperativa para o desenvolvimento local e, portanto, deve ser considerado uma peça importante – mas não a única – na mobilização de arranjos produtivos locais” (ALBAGLI e MACIEL, 2003, p. 432).

Duas questões relevantes devem ser ainda explicitadas. Uma se refere à pertinência da intervenção governamental para estimular o capital social, outra trata do direcionamento dos rumos do desenvolvimento local, se com o predomínio de uma base endógena ou de uma base exógena.

A respeito da primeira questão, conforme as autoras, se argumenta, de um lado, que o capital social pode ter condições mais favoráveis ao seu desenvolvimento se houver a intervenção de políticas públicas que promovam processos decisórios participativos, encoragem atividades voluntária e comunitárias e proporcionem condições socioeconômicas igualitárias, em relação ao emprego, à renda e à inclusão social. Por outro lado, argumenta-se que tal intervenção pode caracterizar um movimento impositivo, de “cima para baixo”, contrário ao movimento de “baixo para cima”, mais condizente com um processo de formação e consolidação do capital e da coesão sociais, fruto dos padrões históricos de construção da dinâmica sócio-cultural de um território e sua comunidade.

Quanto à segunda questão, citando Barquero (1999), as autoras analisam que: a densidade das relações e instituições locais, que ao final expressam a densidade do capital social, contribui [...] para a capacidade de a comunidade dispor de estratégias próprias e exercer controle sobre os caminhos do desenvolvimento local, não atuando como receptora passiva de interesses externos, [o mesmo se aplica à escolha e utilização do modelo de inovações tecnológicas para o desenvolvimento]. (BARQUERO, 1999, apud ALBAGLI e MACIEL, 2003, p. 435).

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