DELOS: Desarrollo Local Sostenible
Vol 5, Nº 15 (Octubre 2012)


ARTESANATO DE RENDA DE BILRO E DESENVOLVIMENTO LOCAL: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DE INSTITUCIONALIZAÇÃO DA ATIVIDADE NO MUNICÍPIO DE AQUIRAZ, CEARÁ, BRASIL

 



Mamadu Alfa Djau
Vivianne Pereira Salas Roldan
Augusto Cézar de Aquino Cabral
Sandra Maria dos Santos
Maria Naiula Monteiro Pessoa
Francisco Vicente Sales Melo
Sonia Rebouças da Silva Melo
vicsmelo@gmail.com


 



RESUMO

O presente artigo investigou como se deu o processo de institucionalização do artesanato de renda de bilro como sistema artesanal de produção para o desenvolvimento local do município de Aquiraz, Ceará, Brasil. A pesquisa é descritiva quanto aos fins e quali-quantitativa quanto à abordagem do problema. Como método, utilizou-se do estudo de caso. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com as dirigentes do Centro das Rendeiras Luiza Távora de Aquiraz e, ao final, 30 rendeiras associadas responderam ao questionário do tipo estruturado e fechado. Os resultados revelaram que os principais fatores que promoveram o surgimento e desenvolvimento deste tipo de artesanato foram: natureza nativa da atividade, necessidade de complementação da renda das famílias, demanda turística, acesso facilitado à matéria-prima e ao crédito, apoio do poder público e o clima local. Constata-se que o artesanato de renda de bilro é uma atividade institucionalizada no distrito de Prainha, dada a sua perpetuidade histórica e sua contribuição para o desenvolvimento local da região. Contudo, sua propagação futura está sendo ameaçada por problemas causados pela falta de continuidade nos investimentos por parte do setor público e interesse dos jovens nativos.

Palavras-chave: Desenvolvimento local. Institucionalização. Artesanato. Renda de bilro.

 

HANDCRAFT OF BOBBIN LACE AND LOCAL DEVELOPMENT: AN ANALYSIS OF THE PROCESS INSTITUTIONALIZATION ACTIVITY IN THE CITY OF AQUIRAZ, CEARÁ, BRAZIL

ABSTRACT
This article investigated how was the process of institutionalization of bobbin lace crafts like handmade production system for local development in the municipality of Aquiraz, Ceará, Brazil. The research is descriptive as to the purposes and on the qualitative and quantitative approach to the problem. The method was utilized case study. Semi-structured interviews were conducted with leaders of the Center Rendeiras Luiza Távora Aquiraz and at the end, 30 associated tenants responded to the questionnaire-type structured and closed. The results revealed that the main factors that promoted the emergence and development of such craft were native nature of the activity, need to supplement their household income, tourism demand, easy access to raw materials and credit, government support and local climate. It appears that the craft of bobbin lace is an institutionalized activity in the district of Prainha, given its historical perpetuity and their contribution to local development in the region. However, its spread is being threatened by future problems caused by the lack of continuity in investment by the public sector and interest of young natives.

Keywords: Development site. Institutionalization. Craft. Bobbin lace.


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1. INTRODUÇÃO

A palavra artesanato tem origem no termo francês artisanat, podendo ser definida como uma atividade artesanal realizada com finalidade comercial, onde os produtores são autônomos e estão envolvidos em toda a etapa de produção, desde a obtenção da matéria-prima até o produto acabado, não existindo vínculo empregatício. É uma das formas mais espontâneas de expressão do povo brasileiro. Em todos os quadrantes do país, é possível encontrar uma produção artesanal diferenciada, feita com matérias-primas regionais, criada de acordo com a cultura e o modo de vida local. Esta diversidade faz com que o artesanato brasileiro seja rico e criativo. Antes visto por muitos como uma atividade econômica marginal, hoje é tratado no país como atividade regular e um segmento de mercado competitivo (SANTOS, 2007).
No Brasil, o artesanato movimenta a economia com uma arrecadação de 52 bilhões ao ano, estimando-se a presença de 8,5 milhões de artesãos em atividade no país, com um faturamento médio mensal de um salário mínimo, conforme pesquisa do Vox Populi. Ainda de acordo com esta pesquisa, as mulheres são predominantes no universo artesanal brasileiro e a idade média dos artesãos está acima dos 40 anos. Os artigos utilitários continuam sendo a maior opção de produção, seguido daqueles relacionados à decoração.
Num país onde o investimento na educação não é muito significativo, destaca-se ainda o fato de 41% dos artesãos brasileiros terem o ensino médio completo, 39% terem finalizado o ensino superior e somente 19% terem até o 8º (oitavo) ano primário (RIGUEIRA, 2011). Desse modo, o artesanato brasileiro tem adquirido uma importância crescente na recuperação e preservação da cultura popular e principalmente no incentivo ao desenvolvimento econômico.
A apropriação do artesanato nos estudos organizacionais não é nova, mas é bastante limitada (COX; MINAHAN, 2002). Essa inclusão restrita da produção de artesanato nos estudos organizacionais se dá pelo fato dos pesquisadores da área concentrar sua atenção nos processos industriais e suas consequências econômicas e sociais. Ou seja, o foco maior são as grandes empresas e empreendimentos formais (VERGARA; SILVA, 2007).
Investigando os estudos apresentados em periódicos internacionais, indexados em bases de dados como a Science Direct, constatou-se que os pesquisadores têm abordado as organizações artesanais sob a perspectiva histórica (ROMERO-MARIN, 2001), do empreendedorismo (PARTHASARATHY, 1999; EHMER, 2001; PRAJAPATI; BISWAS, 2011), do turismo (NASON, 1984; SWANSON; TIMOTHY, 2012), globalização (MIDDLETON, 2007), estratégias de competitividade (CASTAÑEDA; HERNÁNDEZ; CASTRO, 2009; PAIGE, 2009), e barreiras para o crescimento do artesanato (PARRY, 2010).
No âmbito dos periódicos nacionais, cadastrados no Scielo e Redalyc, verificou-se que os estudos abordam o artesanato como uma tendência e oportunidade de negócios, que sobrevivem ao processo de industrialização (VERGARA; SILVA, 2007), estratégias de marketing em cooperativas de artesãos (SOUZA, 1993), e a relação entre artesanato, turismo e desenvolvimento sustentável (SANT'ANA; RICCI, 2008; MELO SILVA; BARBOSA NEVES, 2009; ZANETTI; NASCIMENTO, 2010; CAMPOS NEVES, 2011).
Estudar as organizações de produção de artesanato contribui para uma melhor compreensão do tipo ‘ideal’ de organização proposta pelos estudos organizacionais pós-modernos (COX; MINAHAN, 2002). Autores pós-modernistas, como Heydebrand, propõem que a forma organizacional pós-moderna ‘ideal’ seria: pequena; com uso de tecnologia computadorizada; funcionalmente descentralizada; participativa; abordagens clã para controle, onde as atividades e resultados são controlados pelo sistema de valores compartilhados pelos indivíduos, ou seja, não há um controle explícito organizacional; informal; e com forte cultura corporativa para integração das pessoas à missão da organização (MCAULEY; DUBERLEY; JOHNSON, 2007).
O trabalho da arte, como o artesanal, tem caráter essencialmente social. Os estilos artísticos variam conforme a cultura local, assim como os sistemas de produção são influenciados por circunstâncias locais particulares. Essa visão tem sido destacada em muitos estudos da tradição sociológica. Contudo, não se tem feito referência à ação coletiva em si frente às ações das pessoas para se constituir as estruturas de trabalho (BECKER, 1974).
Unindo-se essas duas propostas de trazer uma melhor compreensão da organização ‘ideal’ colocada pelos pós-modernistas dos estudos organizacionais, e de compreender o trabalho da arte como uma construção coletiva e de como se origina, propõe-se no presente estudo uma análise sob a perspectiva da teoria institucional. Investiga-se a origem, o desenvolvimento e o amadurecimento de um sistema de produção artesanal, verificando se de fato ela se constitui hoje numa instituição, que é o resultado final de um processo de institucionalização. A análise com este ponto de vista permitirá também a compreensão da característica de tipicidade do artesanato, o que significa ter historicidade, aceitação e estar respaldado pela tradição e cultura (VERGARA; SILVA, 2007).
Neste sentido, o objetivo deste artigo é investigar o processo de institucionalização do artesanato de renda de bilro do município de Aquiraz, Ceará, Brasil. Como objetivos específicos, procurou-se: 1) determinar os fatores institucionais do ponto de vista histórico, que foram relevantes para o surgimento e desenvolvimento deste artesanato; 2) compreender o grau de consenso dos atores em torno da organização; e 3) analisar os fatores relacionados à atual estrutura desta atividade ao longo do tempo.
O trabalho está estruturado em seis tópicos, incluindo a introdução, referencial teórico sobre organizações artesanais, artesanato local e de renda de bilro, bem como teorias relacionadas ao assunto. Em seguida, apresentam-se os procedimentos metodológicos adotados, resultados e conclusões.

 

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Organizações artesanais

Sobrevivendo ao processo de industrialização, o artesanato é um modelo produtivo que se fundamenta no conhecimento especializado, não massificado, e que se auto-renova. Nas organizações artesanais podem ser visualizadas características inerentes às organizações isonômicas e fenonomias, tipos organizacionais propostos por Guerreiro Ramos (VERGARA; SILVA, 2007).
As isonomias são sistemas comunitários, que alocam colaboradores com vocação para atividades manuais, não existindo tratamento diferenciado por hierarquia. A autoridade é exercida por delegação, sendo função do tipo de problema e da especialização necessária para a produção. São exemplos, as associações, e os grupos religiosos e comunitários com preocupações sociais (VERGARA; SILVA, 2007).
As fenonomias são sistemas sociais temporários, ou com pouca estabilidade, compostos por pequenos grupos que realizam atividades criativas motivadoras. O trabalho é organizado por um consenso estabelecido de regras mínimas, havendo igualdade de condições de atuação. Seu funcionamento se dá em espaços coletivos, ou na estrutura doméstica de um dos seus membros, sendo sua produção passível de comercialização, sendo este um objetivo secundário desse tipo organizacional. São exemplos, os ateliês de artistas (VERGARA; SILVA, 2007).
Tanto nas isonomias como nas fenonomias, a relação interpessoal é componente chave que necessita ser trabalhado para a garantia da qualidade da convivência e abertura, para compartilhamento de conhecimentos e experiências com novos indivíduos (VERGARA; SILVA, 2007).
O artesanato pode ser caracterizado também, como possuidor dos seguintes elementos: 1) manualidade: a atividade manual é predominante, sendo restrito o uso de ferramentas e máquinas; 2)praticidade: o artesanato deve ter uso prático, utilitário, acessível e tangível; 3) tipicidade: ter historicidade e estar legitimada pela sociedade, a tradição e cultura; 4)tridimensionalidade: se refere a durabilidade e volume. Pela durabilidade, se exclui os alimentos típicos, e pelo volume, os bordados e desenhos sem aplicação funcional. 5) seriação em pequena escala (CHITI, 2003).
A concepção e produção dos artefatos artesanais variam conforme a cultura e história local, e é beneficiada pela matéria-prima necessária disponível no território (VERGARA; SILVA, 2007). A produção artesanal é um gerador de renda para a população. Seu uso como fonte de subsistência exige que a compensação financeira seja imediata para o artesão, que em geral, não dispõe de muito tempo e recursos para investir no reconhecimento do mercado, ou na melhoria de suas técnicas e da qualidade do seu produto (VERGARA; SILVA, 2007).
O exercício do artesanato tem sido visto pelos pesquisadores como um fator de continuidade das tradições culturais de uma comunidade. O centro de artesanato pode se tornar uma referência simbólica de sua vocação comercial. Algumas organizações artesanais podem se tornar dependentes da figura do revendedor, fazendo com que tenham que vender os seus produtos a preços baixos. Também pode ocorrer uma padronização da forma de se produzir, levando a uma homogeneização do artesanato, como uma maneira de tornar o artesanato um marcador ético (CAMPOS NEVES, 2011).
A atividade artesanal pode assumir formas de pequenas indústrias informais, localizadas em residências e dirigidas por um empreendedor comerciante, com a especialização e divisão de trabalho inerente a uma organização burocrática. A presença de um empreendedor comerciante pode levar a uma correlação entre o conhecimento produtivo comunitário e a demanda turística local por produtos artesanais, trazendo inovação e desenvolvimento econômico. Contudo, essa forma organizacional pode levar a uma perda de conhecimento tácito de produção (SILVA; BARBOSA NEVES, 2009).
Fatores negativos para as organizações artesanais estão relacionados a dificuldades de acessibilidade dos consumidores potenciais aos centros de artesanato ou ateliês, à falta de divulgação do artesanato local como produto turístico, e ao desinteresse e falta de comprometimento do poder público municipal (SANT'ANA; RICCI, 2008; ZANETTI; NASCIMENTO, 2010). Outras dificuldades são ausência de controle de qualidade, instalações precárias, equipamentos e ferramentas de trabalho limitadas, e  baixo rendimento devido à atuação individual (PERALTA, 2005).
Como fatores positivos podem ser destacados, o potencial turístico local, a disponibilidade de matéria-prima no território, participação em feiras, e a presença de um grupo gestor para organizar o arranjo produtivo artesanal, e conseguir parcerias para divulgação dos produtos (SANT'ANA; RICCI, 2008; ZANETTI; NASCIMENTO, 2010).
Quanto ao apoio do poder público, Parthasarathy (1999) constatou  junto a comunidades artesãs da Índia, que a falta de medidas significativas em prol do desenvolvimento dos artesãos como pequenos empresários, fez com que muitos artesãos abandonassem sua atividade, passando a trabalhar em vocações não tradicionais.
Ressalta-se ainda que mudanças macroeconômicas de nível nacional e internacional podem ter impacto econômico positivo ou negativo sobre os artesãos, como destacado no estudo de Middleton (2007). Certas políticas econômicas pode desencadear o declínio de certas formas tradicionais de produção, ao mesmo tempo em que poderá beneficiar outras cuja atividade seja parte do sistema capitalista local em expansão (MIDDLETON, 2007).
Apesar da escassez de tempo e recursos para investir na melhoria dos resultados de sua atividade, estratégias de melhoria da qualidade do produto e de preço são destacadas no estudo de Castañeda, Hernández e Castro (2009) como os mais utilizados por artesãos mexicanos. As estratégias de entrega e de promoção foram identificadas pelos autores como as menos utilizadas.
Silva (2006) em sua tese de doutorado em torno das organizações artesanais, conclui que predomina no sistema de produção artesanal uma lógica substantiva, mas que este sistema sofre com a influência do sistema dominante que impõe requisitos competitivos e a lógica lucrativa, minando os aspectos relacionais espontâneos da produção artesanal. Argumenta ainda que para superar os impactos da globalização, a atividade de artesanato deve se posicionar como uma cadeia de produção artesanal organizada em função do mercado, atendendo aos segmentos econômicos do seu território de atuação, como o de moda.

2.2 Do Artesanato Brasileiro ao Cearense

Estima-se para o Brasil, o número de 8,5 milhões de pessoas que vivem do trabalho do artesanato, desde a produção até a comercialização do produto (RIGUEIRA, 2011). No âmbito das políticas públicas de incentivo, foi lançado em 1995, o Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), por meio do decreto-lei nº 1.508, com o objetivo de atuar na elaboração dessas políticas, articulando ações com órgãos do governo federal, municipal e estadual, e entidades privadas. A atuação do PAB se dá por meio de coordenações estaduais de artesanato, sendo de competência do MIDC- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, e Comércio Exterior (MDIC, 2012).
De acordo com Deonilda Machado, presidente da Federação dos Artesãos do Paraná, atualmente o PAB está inoperante, e a categoria dos artesãos possui maior afinidade com o Ministério da Cultura, tendo em vista que eles são mais produtores de cultura do que empresários. Já foi aprovado pela categoria, em 2008, documento solicitando a transferência do setor de artesanato do MDIC para o MINC (BRITO, 2012).
Com relação às feiras e eventos de artesanato, explica Deonilda que são muito caras, e que só os comerciantes conseguem ter acesso. Ela destaca ainda que o setor de artesanato do país é dominado por pessoas que lucram com o trabalho do artesão, realizando as feiras e promovendo a exportação dos produtos (BRITO, 2012).
No Nordeste, o artesanato é atividade presente em mais de 600 municípios, sendo classificada em onze tipologias e 57 segmentações. Estima-se para a região a existência de aproximadamente 3,3 milhões de artesãos (SEBRAE, 2011, a). O grande potencial turístico dos Estados nordestinos é um dos fatores que tem potencializado o desenvolvimento do artesanato como atividade econômica (SEBRAE, 2011, a; SANTOS, 2007).
Na região nordeste, o Ceará se destaca em segundo lugar em termos de percentual de municípios com atividade artesanal (76,1%), ficando atrás apenas de Sergipe que possui 86,7% dos municípios com atividade artesanal. As tipologias mais freqüentes de artesanato no Ceará são: rendas e bordados; tecelagem; e cerâmica (SEBRAE, 2011, a).
Na década de 60, o artesanato cearense envolvia cerca de 650 mil indivíduos. Em 2007, esse número está reduzido a 400 mil pessoas e envolve 140 municípios do Estado do Ceará. Como pontos fortes do artesanato cearense, podem ser destacados: a diversidade cultural, a demanda turística, o preço baixo, a criatividade e simplicidade dos artesãos, e as políticas de incentivo do governo (SANTOS 2007).
O CEART (Central de Artesanato do Ceará) é quem representa os artesãos cearenses no PAB (Programa do Artesanato Brasileiro), e executa o Programa Estadual de Artesanato no Ceará. Sua missão é promover o desenvolvimento do artesanato cearense, por meio do fomento à produção artesanal (financiamento), comercialização, e à capacitação gerencial e técnica, com ênfase na inovação do design (SANTOS, 2007).
O BNB (Banco do Nordeste do Brasil) é outro ator que se destaca no cenário cearense, beneficiando os artesãos com um programa de desenvolvimento de artesanato, o CrediArtesão (SEBRAE, 2011, a). Os artesãos do Ceará também contam apoio do SEBRAE, que tem contemplado determinados grupos de artesanato com programas de capacitação gerencial e tecnológica (MACHADO, 2012).
Outros órgãos de apoio aos artesãos cearense são: a Secretaria de Ação Social do Estado, por meio do Núcleo de Desenvolvimento da Produção Artesanal; a Secretaria de Cultura do Estado, que criou o Centro de Design do Ceará, e um Centro de Aperfeiçoamento para o Artesanato (SEBRAE, 2011, b; OLIVEIRA; VEIGA NETO, 2008).
Como principais empecilhos ao desenvolvimento do artesanato cearense, podem ser destacados: falta de padronização, pequena quantidade produzida, escassez de recursos e falta de conhecimento mercadológico. Outro fator é a dificuldade de adaptação aos novos paradigmas trazidos pela globalização e abertura econômica, como o aumento da competitividade, tornando a intervenção do poder público essencial para fortalecer o setor de artesanato (VIDAL, 2010).
O perfil dos artesãos nordestinos foi caracterizado pelo Banco do Nordeste (2011), por sexo, naturalidade, escolaridade, qualificação, faixa etária e renda. De acordo com o estudo da instituição: 1) a tipologia do artesanato é determinante para a distribuição do artesanato por sexo: a maior parte das mulheres se dedicam a rendas e bordados, tecelagem e tecidos, enquanto os homens às atividades em couro, metal, madeira e cerâmica; 2) naturalidade: as atividades dos artesãos se concentram na sua terra natal; 3) escolaridade: a maior parte dos artesãos possui ensino fundamental incompleto, e muitos ainda são analfabetos; 4) qualificação: o ofício do artesão é predominantemente aprendido em ambiente familiar; 5) faixa etária: predomina a faixa etária entre 25 e 50 anos, sendo esporádicos casos com faixa etária de 10 a 18 anos; 6) renda: as rendas das mulheres têm sido inferiores as dos homens, o que pode ser explicado pelo fato das tipologias de artesanato exercidas por eles, possuírem maior valor de comercialização (BANCO DO NORDESTE, 2011).
A cadeia de comercialização do artesanato nordestino envolve como agentes: artesão produtor, feirantes (artesãos e/ou comerciantes), lojistas, distribuidor internacional, comercial exportadora, instituições de fomento e consumidor final (BANCO DO NORDESTE, 2011). p

2.3. O Artesanato de Renda de Bilro no Ceará

A renda é uma forma de artesanato têxtil, cuja origem histórica remonta dos séculos XV e XVI, e cuja paternidade é reivindicada por Flandres e Itália. Flandres se intitula com inventora da renda de bilro e a Itália exige a patente da renda de agulhas, de onde se originou a renda renascença (SEBRAE, 2011, b).
Como primeira categoria de renda, se encontram as rendas confeccionadas com o bilro, denominadas “rendas de bilro” (Figura 1). O bilro é um pequeno instrumento composto por uma curta haste cuja ponta apresenta um formato esférico. Na outra ponta da haste é presa uma quantidade de linha, que no manuseio do artesão, vai sendo presa a um design padrão ou desenho da renda a ser desenvolvido. A produção desse tipo de renda requer o uso de vários bilros, cuja quantidade varia conforme a complexidade do desenho. A renda de bilro é produzida em cima de almofadas repousadas sobre o colo da artesã, ou assentada em cavalete de madeira à sua frente (SEBRAE, 2011, b).
O fio usado pelas rendeiras de bilro é o algodão, predominando o uso da cor branca, pela tradição e por não dificultar a visão. O molde utilizado é denominado “pique”. Os modelos de desenho são antigos, sendo repassado de uma geração para outra. Para obter modelos novos, as rendeiras emprestam os piques entre si, ou conseguem amostras de outros lugares. Algumas raras rendeiras fazem a renda de cabeça, sem utilizar molde (FRADE, 2011).
As rendas criadas podem tomar diversas formas: 1) bicos ou pontas que irão ser usados para enfeitar beiras de tecidos, ou para ser aplicado entre dois pedaços de tecido; 2) colchas, toalhas, centros de mesa e guardanapos; 3) rendas na forma de flores, corações, leques, entre outros, para aplicações em tecido, para enfeitá-lo; 4) palas: peças inteiras, que serão utilizadas sobre decotes de camisolas, blusas e vestidos (FRADE, 2011).
As atividades de renda e bordado constituem o artesanato predominante no Ceará, presente em cerca de 104 municípios (SEBRAE 2011, a). Conforme o Sistema de Acompanhamento da Central de Artesanato do Ceará SAC–CEART, quanto a tipologia “renda de bilro” estão cadastrados 700 artesãos, onde nesse universo, 99,4% são mulheres e 0,6% são homens. Registros apontam que essa tipologia existe no Ceará desde a colonização, tendo se espalhado pelo interior e em áreas do litoral, concentrando-se principalmente nos municípios de Aquiraz, Aracati, Beberibe, Acaraú e Trairi  (LEMOS, 2011).
O desenvolvimento do artesanato pode se tornar uma marca da região. Assim ocorre para o distrito da Prainha com a Renda de Bilro, situada no município de Aquiraz (SANTOS, 2007). O município de Aquiraz possui mais de três séculos de existência, e uma população estimada de 72.628 pessoas residentes. O forte apelo turístico e um histórico relacionado ao artesanato destacam-se como suas características relevantes (LEMOS, 2011).

2.4. Teoria institucional

Em termos gerais, o Institucionalismo investiga como o comportamento social e político influencia a estrutura das instituições (NORTH, 1990). Sob o adjetivo de velho e novo institucionalismo, a teoria institucional se apresenta nas vertentes política, econômica e sociológica, focando esta última, as organizações e suas relações com o ambiente (CARVALHO et al., 2005).
Na vertente sociológica, a teoria institucional pode ser definida como “uma abordagem simbólico-interpretativa da realidade organizacional, apresentando uma posição epistemológica predominantemente subjetivista, em que é salientada a construção social da realidade organizacional” (FACHIN; MENDONÇA, 2003, p. 29).
O novo institucionalismo traz uma mudança radical na forma de se compreender a estrutura formal das organizações e a natureza do processo decisório por meio do qual essa estrutura foi produzida. Enquanto o velho institucionalismo encorajou o estudo das mudanças estruturais como resultado das pressões ambientais, o novo institucionalismo foca a natureza simbólica das organizações (TOLBERT; ZUCKER, 1994).
É na década de 70 que surge o neoinstitucionalismo, em meio a um processo de mudanças conceituais importantes na análise da influência do ambiente sobre a dinâmica organizacional. Abordagens diversas vão sendo desenvolvidas em torno do ambiente das organizações, dentre elas: o ambiente como um nicho de recursos, como uma rede de relações de mercado, formas de regulação pela política e lei, entre outros (ABRUTYN; TURNER, 2011). Os trabalhos de Meyer e Rowan (1977), DiMaggio e Powell (1983), Zucker (1977), e Scott e Meyer (1983) são considerados formulações iniciais do novo institucionalismo (HININGS;TOLBERT, 2008).

2.4.1 Processo de institucionalização

São identificadas na literatura quatro correntes que definem e explicam de maneira distinta as instituições e o processo de institucionalização, de acordo com Scott (1987).
A primeira corrente corresponde aos estudos de Philip Selznick e seus colaboradores. Para Selzick (1996), a institucionalização é uma idéia neutra, que pode ser definida como a emergência de uma ordem, estabilidade e integração social de tendências de atividades instáveis frouxamente organizadas, ou estreitamente técnicas. Afirma Selzick que talvez o aspecto de maior importância da institucionalização é a introdução de valor nas exigências das tarefas, além dos aspectos técnicos. Contudo, não desconsidera a prevalência ou importância de outros processos de institucionalização, como a criação de uma estrutura formal, o surgimento de normas informais, o recrutamento seletivo, ideologias, dentre outros, resultantes de uma história determinada por busca de metas, resolução de problemas e adaptação.
Da segunda corrente, conforme Scott (1987) se destacam os estudos de Berger e Luckmann.  Esses autores constataram que a institucionalização é o centro do processo de criação e perpetuação de grupos socialmente duradouros. De acordo eles, uma instituição é o estágio final de um processo de institucionalização, podendo ser definida como “uma tipificação de ações tornadas habituais por tipos específicos de atores” (BERGER; LUCKMAN, 1967, p.54 apud TOLBERT; ZUCKER, 1998). O fato das ações serem “tipificadas” significa que as mesmas são realizadas com base em significados compartilhados entre os atores que se tornaram generalizados (TOLBERT; ZUCKER, 1998).
A terceira corrente que define e explica as instituições e o processo de institucionalização, tem os estudos de Meyer e Rowan como referência (SCOTT, 1987). Esses autores oferecem uma mudança nas explicações tradicionais sobre a estrutura formal das organizações, assim como na maneira de se pensar a natureza do processo decisório que produz a estrutura. Introduz-se a concepção de que as estruturas são dotadas de propriedades simbólicas, chamando a atenção para as limitações da abordagem apenas racional das estruturas (TOLBERT; ZUCKER, 1998).
Finalmente a quarta corrente que aborda as instituições e o processo de institucionalização é aquela que aprimora o entendimento dos aspectos simbólicos das instituições,  pela consideração de que a sociedade compreende diferentes esferas sociais, que são possuidoras de diferentes sistemas de crenças, assim como diferentes tipos de relações sociais. Ou seja, enfatiza-se a existência de diferentes esferas institucionais, com variado conteúdo substantivo, sendo importante estudar não apenas como as organizações dão início a adoção de crenças e práticas, mas também “porque as arenas institucionais são padronizadas na forma como estão ou as condições sobre as quais as novas formas institucionais se desenvolveram” (FRIEDLAND AND ALFORD, 1987, p.18 apud SCOTT, 1987, p.501).

2.4.2 O Processo de Institucionalização sob a ótica de Tolbert e Zucker 

A partir do modelo de estudos de Berger e Luckman (2004), Tolbert e Zucker constroem um modelo de institucionalização com foco nas organizações. Os atores organizacionais se diferenciam por propriedades, tais como, autoridade hierárquica, período de vida, responsabilidades legais, entre outros, o que irá gerar formas distintas de realização dos processos institucionais, no interior e entre as organizações (TOLBERT; ZUCKER, 1998).
Na abordagem de Tolbert e Zucker (1998), a institucionalização é composta pelos processos, conforme figura 2: habitualização, objetificação e sedimentação.

O processo de habitualização consiste na criação de novos arranjos estruturais por meio  de um processo de mudança ou inovação organizacionais, assim como na formalização daqueles em termos de políticas e normas. A inovação surge como atividade independente, partindo de uma base comum de idéias dos decisores de uma ou mais organizações, associadas pelo interesse de resolver um problema comum. Na busca por soluções, as organizações podem procurar adotar aquelas desenvolvidas por outros, contudo, essa adoção dependerá do quanto essas organizações estão receptivas para a mudança (TOLBERT; ZUCKER, 1998).
Dessa forma, nesse estágio o qual Tolbert e Zucker (1998) denominam de pré-institucionalização, as organizações poderão ou não adotar uma nova estrutura, ficando essa adoção comumente restrita a um pequeno número de organizações similares, não sendo o processo de mudança objeto de teorização formal. Na adoção de uma nova estrutura, podem ocorrer práticas de isomorfismo entre as organizações, conforme abordagem de DiMaggio e Powell (1983), em decorrência de estarem submetidas a um mesmo contexto organizacional.
Como fatores que levam à mudança ou inovação são destacados: 1)           mudanças relacionadas à reorientação técnica ou tecnológica; 2) alterações na legislação; e 3) forças do mercado, relacionados a fatores econômicos (TOLBERT; ZUCKER, 1998).
O segundo processo de institucionalização tratado por Tolbert e Zucker (1998) é a objetificação, sendo aquele onde a inovação passa a ser objeto de crescente interesse e adoção pelas organizações, fundamentado no consenso social por parte dos seus decisores. Esse consenso pode advir de um mecanismo onde as organizações colhem evidências de diversas fontes para avaliar o risco da adoção de determinada mudança, acompanhando a generalização dos seus resultados nas demais empresas, em termos de custos/benefícios (mecanismo de monitoramento interorganizacional). Também pode advir por um mecanismo de teorização, onde os champions, comumente um conjunto de atores com interesse material na estrutura, atuam em prol promoção da mudança.
A sedimentação consiste no processo de institucionalização total, fundamentado na continuidade histórica da estrutura. Ocorre uma completa propagação da estrutura entre os atores teorizados como aptos a adotá-la, sendo ela perpetuada por um período longo do tempo. Nesta etapa, é importante identificar os fatores que afetam a propagação e perpetuação da estrutura, com a finalidade de compreender o processo de sedimentação. Tolbert e Zucker (1998) citam três fatores: a atuação de grupos de defensores, visando a disseminação e perpetuação da estrutura; a existência de grupos de resistência, formados por aqueles que são afetados de forma adversa pela estrutura, e que se articulam contra ela; e a correlação positiva entre a estrutura e os resultados desejáveis.

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A pesquisa se caracteriza como descritiva quanto aos fins, e quantitativa quanto à abordagem do problema, conforme classificação de Roesch (2006). O processo de institucionalização é predominantemente descrito por meio da utilização de dados quantitativos padronizados. O estudo inclui, ainda, a utilização de métodos qualitativos, que tiveram finalidade exploratória para definição dos objetivos da pesquisa, construção dos instrumentos de coleta de dados, e dar maior profundidade aos resultados quantitativos obtidos.
 Para o alcance dos objetivos propostos, foram coletados dados de natureza primária e secundária, o que classifica essa pesquisa como bibliográfica, documental e de campo, com relação aos meios utilizados. O artesanato da renda de bilro em Aquiraz/CE é o objeto de estudo. A referida atividade está distribuída em várias partes do município, concentrando-se em localidades como Prainha e Iguape. Dada essa realidade, decidiu-se utilizar o método do estudo de caso, focando o distrito da Prainha, escolhido pela maior dedicação histórica da comunidade ao artesanato de renda de bilro, conforme orientação solicitada à presidente do Sindicato dos Artesãos Autonômos do Estado do Ceará (SIARA), Marrie Araújo.
A amostra pesquisada consistiu em 30 rendeiras que realizam a produção da renda na Associação de Rendeiras da Prainha, intitulada “Centro das Rendeiras Luiza Távora de Aquiraz”. Conforme a atual presidente da Associação, Maria Cleide dos Santos Costa, 80 rendeiras estão cadastradas na entidade, sendo que parte delas realizam a produção em suas residências, devido limitação de espaço da Associação.
O primeiro passo da pesquisa foi a pesquisa bibliográfica e documental, para levantamento de informações em torno da atividade do artesanato do Ceará. Foram consultados livros, revistas acadêmicas, dissertações, e jornais, tanto no meio impresso, como eletrônico. Após esse conhecimento prévio do setor, foi escolhido o campo do artesanato da renda de bilro, pelo fato da figura da mulher rendeira, assim como a do jangadeiro, ser um dos personagens-símbolo do Ceará (DIÁRIO DO NORDESTE, 2011).
Contudo, como o campo da renda cearense envolve cerca de 104 municípios, o segundo passo da pesquisa foi a realização de entrevistas semi-estruturadas com atores chaves do campo do artesanato, para a escolha de uma unidade de estudo. No caso foram entrevistados a presidente do Sindicato dos Artesãos Autonômos do Estado do Ceará (SIARA), Marrie Araújo, e o técnico de produção do CEART (Centro de Artesanato do Ceará), artesão e pesquisador, Flávio Sampaio.
Os entrevistados destacaram Aquiraz como o município de maior número de artesãos trabalhando com a renda de bilro. Essa realidade e a proximidade de Fortaleza foram os motivos da escolha de Aquiraz, como campo de estudo.
A terceira etapa da pesquisa foi a elaboração de um questionário e roteiro de entrevista semi-estruturado, para levantar informações sobre o processo de institucionalização do artesanato de renda de bilro no distrito da Prainha, Aquiraz, Ceará.  A estruturação dos instrumentos utilizou o modelo de processo de institucionalização de Tolbert e Zucker (1998) como base, assim como as informações levantadas por meio do estudo exploratório realizado no início da pesquisa. O questionário é composto por 49 sentenças em escala likert, distribuídas em três blocos, que são os estágios de institucionalização propostos por Tolbert e Zucker (1998): habitualização, objetificação e sedimentação. Para cada sentença, os respondentes tiveram que determinar o grau de concordância: 1= discordo totalmente;  2 = discordo; 3= nem concordo, nem discordo;  4 = concordo; 5= concordo totalmente.
A coleta de dados foi a quarta etapa da pesquisa, sendo aplicado o questionário com as 30 artesãs em atividade na Associação de Rendeiras da Prainha. Apesar da Associação ter uma lista de 45 rendeiras que deveriam estar trabalhando na própria entidade, 15 delas não estão mais freqüentando a associação, devido razões como: óbito, velhice, mudança de endereço, e abandono da atividade. A aplicação da entrevista semi-estruturada foi realizada com a presidente e vice-presidente da Associação das rendeiras, e também com a secretária da Associação, Sra. Ozenir, que por informação da própria presidente é a pessoa que melhor conhece o histórico da entidade e da atividade da renda de bilro. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas, tendo duração de 20 a 30 minutos. Também, com a permissão das dirigentes da Associação, foram feitas fotos do local, e a entrevista com a secretária da entidade foi filmada.
Para dar maior profundidade à pesquisa, escolheu-se aleatoriamente 5 artesãs do grupo pesquisado, com as quais foi também aplicada uma entrevista semi-estruturada. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas, tendo duração de 20 a 30 minutos. Também, com a permissão das dirigentes da Associação, foram feitas fotos do local, e a entrevista com a secretária da entidade foi filmada.
Finalizando o estudo, partiu-se para a etapa de análise dos dados, sendo as informações coletadas por meio do questionário analisadas com uso da estatística descritiva, por meio do software SPSS 19.0. Para os dados levantados nas entrevistas utilizou-se a análise de conteúdo de Bardin (1977), sendo utilizadas como categorias de análise: surgimento da renda de bilro; fatores determinantes para o desenvolvimento da renda de bilro;  principais parceiros institucionais envolvidos e seus papéis; interesses e relações entre os atores; associação das rendeiras: função e atividades; barreiras à comercialização da renda de bilro; e o futuro da atividade artesanal.

4. RESULTADOS

4.1. Perfil dos sujeitos da pesquisa

Neste tópico será descrito o perfil dos respondentes do questionário sobre o processo de institucionalização do artesanato da renda de bilro, quanto à faixa etária, sexo, escolaridade, tempo na associação e na atividade rendeira.
Em relação à faixa etária constata-se que 3,3% dos respondentes estão entre 25 a 35 anos, 10% se apresentam entre 35 e 45 anos e 86,7% figuram acima de 45 anos. No que diz respeito ao sexo, todos os atuantes dessa atividade no distrito da Prainha são do sexo feminino. As rendeiras pesquisadas trabalham, em média, 44 anos, com a renda de bilro, sendo o tempo mínimo levantado, de 15 anos, e o tempo máximo, 70 anos. Em média, as rendeiras atuam ha 25 anos na associação, sendo o tempo mínimo 5 anos, e o máximo, 35 anos.

4.2. O processo de institucionalização do artesanato da renda de bilro

Nesta seção serão apresentados os resultados da análise do processo de institucionalização do artesanato da renda de bilro no distrito da Prainha, levantados por meio da aplicação de questionário e entrevistas. Sob a perspectiva de Tolbert e Zucker (1998), esse processo ocorre em três estágios: habitualização, objetificação e sedimentação.

Pré Institucionalização

No estágio de habitualização, ou pré-institucionalização, são analisados os fatores que levaram ao surgimento e desenvolvimento do artesanato de renda de bilro no distrito de Prainha, como sistema de produção artesanal. Na tabela 1 são apresentados os resultados da aplicação dos questionários das rendeiras, que serão complementados com os dados das entrevistas com a presidente, vice-presidente e secretária da Associação das Rendeiras da Prainha.
Segundo 96,7% das Rendeiras, a atividade de renda de bilro é uma atividade nativa da região, passada de pais para filhos. Surgiu, dessa forma, como uma ocupação sem fins lucrativos, tendo depois se tornado uma fonte de renda (Q6), como confirmado por 73,3% das rendeiras.
Com o tempo, a necessidade de uma alternativa de geração de renda para a comunidade impulsionou o desenvolvimento da atividade no distrito de Prainha, conforme as entrevistadas da Associação. Esse argumento é confirmado por mais de 80% das rendeiras, que concordaram que a atividade surgiu como um meio de subsistência das famílias locais (Q4), e como renda complementar (Q5).
Explicam as dirigentes da Associação que a única fonte de recursos financeiros para a maioria da população era a pesca, e que esta era uma atividade exclusivamente masculina. Isso fez com que as mulheres buscassem ocupação na atividade rendeira. Como detalhado pelas dirigentes entrevistadas, a disseminação da atividade provocou a elevação de sua produção, levando a criação do Centro das Rendeiras para viabilizar a comercialização dos produtos das artesãs em outros mercados, assim como firmar acordos com outras entidades jurídicas para facilitar o acesso a esses mercados e aos financiamentos.
Para cerca de 90% das rendeiras, o Centro das rendeiras foi criado por iniciativa da própria comunidade (Q2), com contribuição do poder público local (Q3). A Presidente e a Secretária da Associação confirmam a participação do governo local na criação do Centro, que ocorreu por iniciativa da primeira-dama Luiza Távora, no período do governo Virgílio Távora. A construção do centro das rendeiras foi positiva, pois viabilizou uma melhor organização do trabalho das artesãs, concentrando-as em um único lugar.
As dirigentes entrevistadas, destacam que o Centro das Rendeiras foi transformado em uma Associação em 1989, como uma entidade civil sem fins lucrativos, cujo objetivo é formalizar as ações de comercialização da renda de bilro pela comunidade, melhorar as condições de trabalho dos artesãos, buscar parcerias com outras entidades jurídicas, em Aquiraz e fora dela, e facilitar para as artesãs, o acesso ao crédito junto às instituições financeiras.
A certidão de registro da Associação destaca que são suas finalidades: a promoção humana através do aprimoramento, coordenação, proteção e divulgação do artesanato regional; desenvolver atividades sociais, culturais e de trabalhos com valorização da pessoa humana como um todo; e realizar atividades que possibilitem o aprendizado, aprimoramento do artesanato, através de cursos, escolas, exposição, festas ou quaisquer outras iniciativas. A entidade é administrada por uma diretoria e um conselho fiscal, cabendo a presidente sua representação ativa, passiva, judicial e extrajudicial com relação a terceiros.
O governo e outros atores como o SEBRAE tiveram papel relevante para o desenvolvimento do artesanato da renda de bilro, com o que concordam fortemente 63,3% das rendeiras. Contudo, conforme a secretária da Associação, o apoio vindo da Prefeitura, atualmente, é muito baixa.
Segundo a presidente da associação, a existência e o acesso facilitado à matéria-prima local, associada à demanda turística contribuíram positivamente para o desenvolvimento do artesanato da renda de bilro na Prainha, com o que concordam fortemente 53,3% e 100% das rendeiras, respectivamente (Q13 e Q08). O clima da região é apontado pela secretária da associação como um fator positivo para a atividade.
Outro fator que contribuiu para a melhor estruturação da atividade de renda de bilro foi o acesso facilitado ao crédito nos bancos, conforme concordam fortemente, 70% das rendeiras.

O grau de concordância entre as rendeiras pesquisadas em torno da relação entre o vínculo mercantil com Fortaleza e outras cidades, e o desenvolvimento da renda de bilro foi baixo. Sobre o vínculo mercantil com Fortaleza, o somatório dos percentuais de concordância e discordância demonstram que o grupo pesquisado se divide em 43,4% de discordância, 33,4% de concordância, e 23,3% de indecisas (Q09). Com relação ao vínculo com outras cidades, as rendeiras se dividem em 43,4% de concordância, 36,6% de discordância, e 20% de indecisas. Esse resultado sugere que o vínculo mercantil com outras cidades tem sido mais significativo para as artesãs do que o vínculo com o município de Fortaleza.
Para 53,3% das artesãs a criação do Sindicato dos Artesãos Independentes do Ceará não contribuiu para um maior reconhecimento do artesanato de renda de bilro como atividade econômica no distrito da Prainha (Q12).

Semi-Institucionalização

No estágio de objetificação se busca compreender o grau de consenso dos atores em torno da organização e estrutura da atividade, e o desenvolvimento desta a partir desse consenso. Também é observado se as artesãs pesquisam as práticas realizadas em outros locais, para trazer essas novidades ao grupo, e como se dá a relação com parceiros externos para melhoria de suas atividades. Nesse estudo, foi dada atenção especial a influência da associação das rendeiras sobre a produção artesanal e sua comercialização.
De acordo com as dirigentes da Associação e artesãs entrevistadas a construção do Centro das Rendeiras trouxe muito benefícios para elas, por permitir que se reúnam em um mesmo local para vender os seus produtos, e por ter sido construído em um local estratégico de tráfego de turistas. Antes da construção do centro a produção da renda de bilro era realizada na residência das artesãs, que tinham que vender os seus produtos de porta em porta, ou na beira da praia.  Com o centro, as rendeiras tiveram oportunidades de maior lucro e crescimento, que perdurou por um tempo.
A secretária da Associação explica que todo o processo de transformação do Centro das Rendeiras numa Associação e a criação de seu Estatuto foi realizado em consenso com as rendeiras, sendo solicitado a elas opiniões e sugestões. Antes haviam líderes que dirigiam o Centro, mas não era formalizada. Haviam muitos conflitos em torno da liderança, e com a Associação, ela passou a ser determinada por meio de eleições.
Atualmente, de acordo com as dirigentes da associação, a falta de apoio da prefeitura de Aquiraz na manutenção do centro, faz com que as rendeiras tenham que vender seus produtos em barracas improvisadas sob a areia, devido à deterioração dos quiosques construídos com alvenaria, assim como do calçamento. Essa situação provocou uma divisão entre as rendeiras, mantendo-se uma parte trabalhando na associação, e dois grupos passaram a alugar espaço de um bar e pousada para realizarem a venda de seus produtos. Como conseqüência, houve uma redução do fluxo de turistas para o Centro das rendeiras, surgindo à figura do bugueiro como uma espécie de atravessador, para quem as artesãs pagam uma comissão de 10% quando trazem clientes do Beach Park para comprarem seus produtos na Associação.
A comercialização da renda de bilro é predominantemente local. Explicam as dirigentes que não são realizadas vendas por meio do CEART, pois o pagamento demora a chegar, e as rendeiras precisam de um retorno imediato. Vendas para outros locais são realizados por meio de participação de feiras (pelo menos uma vez por ano) e solicitações de encomendas.
Como detalhado na tabela 2, para 50% das rendeiras existe influência da Associação na determinação do preço final dos produtos comercializados, feito em consenso com elas (Q01). Já para 40% das rendeiras isso não ocorre. Com relação ao tipo de produto a ser confeccionado e comercializado pelas rendeiras (Q05), para 53,3% delas não há interferência da Associação para determinar essa decisão. Quanto à padronização dos produtos feitas pelas rendeiras (Q06), há uma divisão de opinião entre as respondentes quanto à sua existência. Pelo somatório de concordâncias e discordâncias, para 46,6% das rendeiras pesquisadas não existe padronização, contra 40% que pontuou existir. O mesmo ocorre com relação à escolha do mercado-alvo da comercialização dos produtos (Q08).
A entrevista com as dirigentes da Associação sobre a atuação do Centro junto às rendeiras permite esclarecer melhor os resultados levantados com as artesãs. Conforme as entrevistadas, a associação atua com a finalidade de tornar o trabalho coletivo local viável, sendo realizadas reuniões: para padronização dos preços dos produtos das artesãs, buscando-se evitar conflitos entre elas no momento da comercialização; enfatizar a necessidade de se construir uma relação de respeito mútuo e solidariedade entre as artesãs; cuidados quanto ao bom atendimento dos turistas; e demais diretrizes de boas práticas, estabelecidas no Estatuto da entidade. O Estatuto também determina os dias e horários de funcionamento da Associação.
Entre as rendeiras, 76,7% confirmam a existência de um Estatuto, com normas e regulamentos estabelecidos em assembléia, que devem ser seguidos pelos associados. Isso é uma constatação de que a maior parte do grupo tem conhecimento da existência do Estatuto, e da necessidade do seu cumprimento.

Outra ação das dirigentes da Associação é a manutenção constante de parcerias com o SEBRAE e CEART para a realização dos cursos de capacitação para as rendeiras. O técnico Flávio Sampaio, do CEART, explica na entrevista que o departamento de produção artesanal da entidade orienta as rendeiras para que fundem associações e trabalhem em cooperativismo. Os cursos realizados pelo CEART têm como finalidade o aperfeiçoamento do trabalho das artesãs, com atenção para um design que seja aceito pelo mercado, que siga as tendências da moda e de sustentabilidade, e ao mesmo tempo, não descaracterize o produto artesanal cearense. As artesãs também são orientadas quanto à adequada gestão do negócio, viabilizando a comercialização da renda a um preço justo.
Por meio da entrevista com as cinco artesãs e as dirigentes da Associação, levantou-se evidências de um comprometimento do grupo para a inovação constante, no que se refere a criação de novos modelos e de seguir as tendências do mercado e da moda, conforme orientação recebida pelo CEART e SEBRAE. A secretária da Associação afirma que as artesãs se organizam para participação em feiras fora do Estado, e algumas delas já participaram de eventos no exterior, como em Mônaco, Portugal, e Itália. Há um evento em Minas Gerais que todo ano uma das rendeiras participam, intitulado Feira “Mão de Minas”. Para a realização dessas viagens, as rendeiras buscam patrocínio, principalmente do CEART e SEBRAE.

Institucionalização total

Na etapa de sedimentação ou institucionalização total são analisados os fatores relacionados à propagação da atual estrutura do artesanato da renda de bilro entre os indivíduos adotantes da prática, e sua perpetuação ao longo do tempo. É analisada a percepção de valor do grupo quanto à atividade da renda de bilro, a existência de grupos favoráveis e de resistência à atual estrutura.
Com relação à percepção de valor, 76,7% das rendeiras afirma que atividade de renda de bilro tem trazido elevado retorno monetário para a comunidade (Q01 – tabela 04). As artesãs entrevistadas, porém, afirmam que o lucro das artesãs foi muito maior no passado, pois os problemas atuais com a estrutura da Associação têm prejudicado as vendas aos turistas, e provocado cisões no grupo de rendeiras vinculadas a ela.
Como pode ser observado na tabela 04, no que diz respeito aos resultados trazidos pela Associação para a melhoria da comercialização dos produtos (Q03), 40% das rendeiras concordam fortemente que esses resultados tem sido positivos, e 23,3% apenas concordam. A quase totalidade das artesãs confirma que a atuação do governo e de outros parceiros como SEBRAE, CEART e BNB contribuiu para o melhor desenvolvimento da renda de bilro como atividade econômica (Q05).
Sobre a existência de uma ampla divulgação do artesanato de renda de bilro na cidade e fora dela (Q09), 63,3% das artesãs concordaram fortemente (tabela 04). Contudo, algumas artesãs entrevistadas reforçam que a divulgação para comercialização local precisa ser melhorada, com maior apoio da Prefeitura.

As entrevistas com a presidente, vice-presidente e secretária da Associação revelam há existência de grupos de resistência entre as rendeiras quanto à estrutura atual, apesar de 63,3% dos participantes deste grupo concordar que as atividades desenvolvidas pela Associação são bem aceitas pelas rendeiras associadas (Q02).
Afirmam as dirigentes entrevistadas que algumas rendeiras só se importam em vender, e resistem em obedecer aos estatutos da associação quanto ao respeito com as demais colegas artesãs, provocando intrigas e disputas; a manter um preço padronizado dos produtos; a cumprir o horário de abertura de trabalho do centro, a partir de 9hs; a participar das reuniões da associação; e inclusive de participar dos cursos trazidos pelo SEBRAE e CEART. Informa a presidente da Associação que tem conseguido contornar esse comportamento, de forma que não tem trazido forte impacto sobre o grupo. As rendeiras que desobedecem as regras do estatuto são penalizadas com suspensão da atividade do Centro, por até três dias.
As dirigentes da associação informam que apesar do CEART e SEBRAE trazerem cursos para capacitação relacionada à gestão e qualidade dos produtos, algumas artesãs não aproveitam os novos conhecimentos, e mantém o mesmo comportamento. A presidente da associação afirma que realiza reuniões para que haja um consenso entre as artesãs pelo menos quanto ao preço, para evitar conflitos, pois quanto à produção dos produtos, não há como se padronizar, cada artesã prefere manter sua autonomia quanto à criação, modelos, cores e material a ser utilizado. A secretária da Associação complementa:
[...] aqui é livre, cada um fabrica e vende o seu próprio produto. Apesar de sermos uma associação, nós não interferimos muito. Mas quando chega um cliente pedindo uma encomenda, nós temos que ter prazo e qualidade do trabalho para entregar. Aí entra a Associação, orientando as artesãs a cumprir no prazo certo os pedidos, e a dividir o trabalho com o grupo.
Apesar da resistência a padronização de qualidade repassada pelos órgãos capacitadores, como dito no estágio de institucionalização anterior, o grupo se compromete com relação a inovar os seus produtos, diferenciá-los, como explicado por uma das artesãs: “[...] antes eu só sabia fazer bicos para colocar em vestidos, e outras peças, agora sei fazer blusas, camisetas, biquinis... até uma encomenda de calças para São Paulo consegui fazer em parceria com outras colegas”.
Essa resistência não significa falta de aceitação do grupo de rendeiras para com a atuação desses parceiros externos, pois 93,3% das artesãs afirmam que o apoio de parceiros externos como o CEART e SEBRAE é bem aceito entre elas (Q05).
A propagação da estrutura ao longo do tempo está sendo ameaçada pelos problemas de estrutura da Associação das artesãs, a falta de apoio da Prefeitura local, e principalmente pela falta de interesse dos jovens da comunidade em aprender a renda de bilro. Dirigentes e artesãs entrevistadas apontam esse cenário. Uma das artesãs diz que algumas jovens até aprendem a fazer a renda, mas não desejam exercer a atividade como meio de subsistência. Querem estudar, exercer outras profissões. Outra artesã diz que as próprias famílias das rendeiras não estão incentivando mais seus filhos para o ofício da renda.
A secretária da Associação acredita que a construção de um centro de aprendizado de renda de bilro contribuiria para a inserção dos jovens no mundo das rendas, criando-se um espaço onde elas se sentissem motivadas para aprender. Nesse centro, poderiam ser realizadas não só oficinas de renda de bilro, mas também de corte e costura, de forma que as artesãs pudessem confeccionar suas próprias peças de roupa para a aplicação das rendas.

 

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os principais aspectos que promoveram o surgimento e desenvolvimento do artesanato de renda de bilro na região analisada foram: 1) históricos: atividade nativa, passada de geração para geração; 2) econômicos: necessidade de complementação da renda das famílias demanda turística e acesso facilitado à matéria-prima e ao crédito; 3) políticos: apoio do poder público federal e estadual; e 4) geográficos: clima local. Esses resultados são semelhantes aos encontrados em outros estudos realizados com organizações artesanais. Geralmente destacam, principalmente, a importância do poder público (PARTHASARATHY, 1999; SANT'ANA; RICCI, 2008; ZANETTI; NASCIMENTO, 2010) no processo de institucionalização, bem como no desenvolvimento local.
Procurou-se também compreender o consenso dos atores em torno da organização e estrutura da atividad, e o desenvolvimento decorrente. Constatou-se que as rendeiras da região se organizam por meio de uma Associação, através da qual se busca o consenso dos atores na forma de conduzir os negócios, definindo-se, para tanto, normas e regras de conduta. Por meio da Associação, ocorre também uma formalização da liderança, que se torna legitimada, reduzindo os conflitos. Para 63,3% das artesãs, as atividades do Centro das rendeiras são bem aceitas pelo grupo. A existência de um grupo gestor para organizar o arranjo produtivo artesanal é destacada nas pesquisas empíricas como um fator positivo para o seu desenvolvimento (SANT'ANA; RICCI, 2008; SILVA; BARBOSA NEVES, 2009; ZANETTI; NASCIMENTO, 2010).
A organização artesanal analisada apresenta características de ‘isonomia’ proposto por Guerreiro Ramos (VERGARA; SILVA, 2007). Isso porque se percebe a preocupação das dirigentes da Associação quanto à relação interpessoal das artesãs, para que o grupo permaneça unido numa convivência cordial e respeitosa, onde exista a cooperação e o compartilhamento de conhecimento, de forma que o retorno positivo do negócio traga benefícios para todos. Na atividade desenvolvida pelas artesãs, observaram-se as características inerentes ao artesanato proposta por Chiti (2003), sendo predominantemente manual, tangível e durável, com finalidade utilitária, fabricado em pequena escala, e apresentar historicidade e legitimação na sociedade e cultura local.
O consenso alcançado pelas dirigentes da Associação ocorre em torno da precificação dos produtos, forma de comercialização, respeitando prazos, qualidade no atendimento do turista e compartilhamento do atendimento de pedidos, bem como o cumprimento do horário de chegada e saída na Associação. Viu-se ainda que há uma boa aceitação do grupo com relação à participação em feiras nacionais e internacionais. Na parceria com o SEBRAE e CEART, as dirigentes da Associação buscam uma padronização da produção objetivando obter qualidade dos produtos. Neste processo de capacitação, as artesãs motivaram-se para inovar nos seus produtos, com uso de novas cores, matéria-prima e modelos sintonizados com o mercado e a moda.
Como encontrado no estudo de Castañeda, Hernández e Castro (2009), as estratégias mais utilizadas pelas artesãs são a melhoria do preço e da qualidade no produto, apesar da resistência à padronização proposta pelo CEART. Percebe-se também que o Centro das Rendeiras se tornou uma referência simbólica da vocação comercial da comunidade do distrito da Prainha, como encontrado na pesquisa empírica de Campos Neves (2011) em outra organização artesanal. Com a Associação, as artesãs se livram da dependência de revendedores, mas as dificuldades atuais ameaçam essa autonomia, iniciando-se uma dependência da colaboração de terceiros.
Por fim, constatou-se que o artesanato da renda de bilro é uma atividade institucionalizada no distrito da Prainha, dada a sua perpetuidade histórica na comunidade, comprovada pelo tempo médio de 44 anos de atividade. Mais de 70% das rendeiras pesquisadas afirmam que a produção do artesanato de renda de bilro tem trazido elevado retorno para a comunidade, apesar do lucro atual não ter o mesmo volume de outrora. Como fatores positivos para a propagação futura da atividade do artesanato se destacam: 1) apoio do CEART, SEBRAE e BNB; 2) ampla divulgação do artesanato na cidade e fora dela; 3) atuação da Associação; e 4) boa aceitação das rendeiras em torno das atividades da Associação, e do apoio de parceiros externos. Contudo, a propagação futura da atividade está sendo ameaçada por problemas causados pela falta de continuidade nos investimentos por parte do setor público e interesse dos jovens nativos.
Estudos como os de Peralta (2005), Sant'ana e Ricci (2008), e Zanetti e Nascimento (2010) fazem destaque para as duas primeiras dificuldades, que prejudicam o atendimento da demanda turística pelos artesãos. Como observado pelas próprias artesãs pesquisadas, as mudanças do mundo moderno têm afetado a juventude local, afastando-as do interesse pela preservação da cultura da comunidade. Diante das dificuldades pelas quais passam as artesãs, as próprias famílias das rendeiras se desestimulam em perpetuar o artesanato para as novas gerações.
 Como destacado por Vidal (2010), Middleton (2007) e Parthasarathy (1999), a falta de apoio do poder público traz dificuldades de adaptação do setor de artesanato aos impactos trazidos pela globalização e abertura econômica, e leva os artesãos a abandonarem sua atividade, dedicando-se a outras vocações. Destaca-se aqui, que o interesse das artesãs pesquisadas em adaptar os seus produtos às necessidades do mercado e da moda é um fator que ajuda o grupo a combater esses impactos (SILVA, 2006).
Foram identificadas algumas resistências entre as artesãs, mas segundo as dirigentes, elas não têm representado uma séria ameaça para o grupo. Chama-se a atenção o fato de que as dirigentes da Associação indicam que algumas rendeiras só querem vender, negando-se a cumprir as normas de cooperação da entidade. Talvez isso ocorra devido a influência do sistema capitalista dominante que, com sua lógica lucrativa e de competitividade, realmente desestrutura o caráter colaborativo predominante nas organizações artesanais, conforme indica Silva (2006). Por outro lado, foi possível observar a contribuição relevante da atividade para o desenvolvimento da região.

 

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Recibido el 8 de Septiembre de 2012.

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