Revista: CCCSS Contribuciones a las Ciencias Sociales
ISSN: 1988-7833


REPRESENTAÇÕES DA TORTURA: DENÚNCIA, HUMANIZAÇÃO E REMISSÃO PELO ESPAÇO LITERÁRIO

Autores e infomación del artículo

Cleber José de Oliveira*

Universidade do Extremo Sul Catarinense, Brasil

cleber101578@gmail.com

Resumo
Neste artigo discuto a hipótese de que os romances Em câmara lenta (1977), de Renato Tapajós, Batismo de Sangue (1982), de Frei Betto, Volto semana que vem (2015), de Maria Pila, e Ainda estou aqui (2015), de Marcelo Rubens Paiva, atuam como espaço de remissão para seus autores e leitores e também como registros denunciativos das práticas de tortura promovidas pelo regime militar brasileiro, sobretudo, pós- AI-5. Sem ser exaustivo, aponto o caráter verossímil que entrelaça o contexto de vida destes autores e suas obras, isso por meio um painel analítico-comparativo com foco nos trechos, dessas obras, em que são narradas cenas de suplício.

Palavras-Chave: Literatura. Espaço de remissão. Representação da tortura. Denuncia.

 


Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:

Cleber José de Oliveira (2017): “Representações da tortura: denúncia, humanização e remissão pelo espaço literário”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, (julio-septiembre 2017). En línea:
http://www.eumed.net/rev/cccss/2017/03/tortura-espaco-literario.html

http://hdl.handle.net/20.500.11763/cccss1703tortura-espaco-literario


O que se lê a seguir são reflexões desenvolvidas sobre romances brasileiros contemporâneos, mais especificamente dos trechos que retratam os atos de tortura promovidos pelo regime militar brasileiro. Isso, para entrever em que medida essas narrativas pode atuar como espaços de humanização (Candido, 1972; 2004) e consequentemente de remissão, seja para seus autores (que não raro foram vítimas de tortura) seja para leitores. 
Para tanto, considera que o período entre 1964 a 1985 (instauração e ocaso da ditadura militar), como se sabe, foi marcado, sobretudo, pela desestabilização democracia nacional e cerceamento das liberdades de expressão. Sua face mais cruel se dá a partir da instauração do AI-5 em 1968 até 1973, reconhecidamente o momento mais violento do golpe (Vieira, 2014; Comissão Nacional da Verdade - CNV, 2014). 
  Partindo desses pressupostos, traça-se um panorama comparativo sob a perspectiva de compreender como cada autor (dos romances selecionados), com sua sensibilidade e habilidade literária, tratou em seu texto, a barbárie da tortura sofrida – ora por eles próprios, ora por parentes e/ou amigos – durante o regime. Nesse sentido, a perspectiva de recorte analítico deste artigo se dá sobre os trechos em que são narradas as cenas de tortura. Isso para sustentar a hipótese de que os autores, dos romances já citados, configuram sua narrativa como um espaço de remissão e acolhimento, para si próprios e para os que foram e são atingidos direta ou indiretamente pelos atos de tortura da ditadura militar e por que não para os que a promoveram.
As obras que serão analisadas são Em câmara lenta (1977), de Renato Tapajós; Batismo de Sangue (1982), de Frei Betto; Volto semana que vem (2015), de Maria Pila; e Ainda estou aqui (2015), de Marcelo Rubens Paiva, respectivamente nesta ordem. As discussões estão dispostas da seguinte maneira: um tópico inicial com algumas considerações teóricas sobre o conceito de tortura, seguido de uma discussão sobre  representação literária da tortura e por fim as analises comparativas dos trechos,

Sobre a tortura

É fato notório que a tortura foi o método de coerção mais utilizado pelo regime militar brasileiro. Essa repressão, na forma de tortura, não teve nada de improvisado, não foram excessos de um ou outro militar mais violento. Foi algo planejado e estruturado realizado sob o comando das Forças Armadas, que empregaram seus homens, instalações e conhecimentos para esse fim (Vieira 2014; CNV, 2014).
No livro Brasil: nunca mais (1996, Hélio Pellegrino expõe que

a tortura busca, à custa do sofrimento corporal insustentável, introduzir uma cunha que leve à cisão entre o corpo e a mente. E, mais do que isto: ela procura, a todo preço, semear a discórdia e a guerra entre o corpo e a mente. O projeto da tortura implica numa negação total – e totalitária – da pessoa, enquanto ser encarnado. [...] o discurso que ela busca, através da intimidação e da violência, é a palavra aviltada de um sujeito que, nas mãos do torturador, se transforma em objeto (Pellegrino, 1996, p. 282).

Pellegrino expõe quais são as etapas do projeto de torturar. Explicita que centralmente esta a ideia de – desumanização do ser. Seguido da desconfiguração da identidade social e familiar dos torturados. Por fim, ser se torna objeto; muitos torturados tiveram a vida levada a cabo ainda na primeira etapa (CNV, 2014). Nesta mesma linha de reflexão, Viñar e Viñar, em Exílio e Tortura, apontam também que o objetivo da tortura pode ser definido como “provocar a explosão das estruturas arcaicas constitutivas do sujeito, isto é, destruir a articulação primária entre o corpo e a linguagem” (1992, p. 73). Os autores mapearam o que seria as três etapas e os objetivos de uma seção de tortura, a saber: 1- a destruição dos valores e convicções do indivíduo; 2- a desorganização da relação do sujeito consigo mesmo e com o mundo; 3- a resolução desta experiência-limite na degradação da memória.
As teses de Pellegrino, Viñar e Viñar, são confirmadas em diversos relatos, de sobreviventes da tortura, aqui retomo alguns como os de Maria Amélia Teles (ex-militante do Partido Comunista do Brasil- PCB): – Me amarraram na cadeira do dragão, nua, e me deram choque no ânus, na vagina, no umbigo, no seio, na boca, no ouvido; os de Gilse Cosenza (ex-militante da Ação Popular-AP): – Eles usavam e abusavam. Só nos interrogavam totalmente nuas, juntando a dor da tortura física à humilhação da tortura sexual; e também os de Maria do Carmo Serra Azul (conhecida pelos ativistas como Cacau): – É como se eles corrompessem sua alma, destruindo o que você tem de bom (...). Eles querem, através do massacre, da desumanidade, que você traía, que você rompa todos os vínculos que tem, como no caso que eu vi, de uma menina que entregou o próprio pai”. Como se vê a crueldade foi e ainda é, devido aos traumas e sequelas deixados, incomensurável.  Estes, e tantos outros registros, são parte integrante do relatório final da CNV(2014).
Ainda sobre essa barbárie da tortura, Alves (1996) pondera que toda violência de tortura empregada pelos torturadores não tiveram eficácia em relação à confirmação de supostas informações sobre os grupos de resistência

O emprego generalizado de torturas contra presos políticos provou, mais uma vez, que a flagelação de prisioneiros é método pouco eficiente de obter segredos e informações.  Pois, em inúmeros casos, aos torturados não lhes foram sequer feitas perguntas objetivas e concretas. As engrenagens da dor chegaram a um tal grau de automatismo que os carcereiros colocavam os inquiridos automaticamente na máquina de destruição e quando lhes ofereciam vagar para responder às perguntas seu estado era tão débil que  nada podiam dizer [...] O processo das torturas é também o processo da sociedade brasileira. Quando mais intensas eram as notícias dos maus tratos infligidos aos que superpovoavam nossas prisões, uma senhora católica, possuidora do que se convenciona chamar de “boa educação” e, pessoalmente, bastante generosa, disse-me: “está na hora de taparmos os ouvidos, calarmos a boca e fecharmos os olhos e deixarmos que eles acabem com os comunistas”. Não percebia ela a indignidade de suas palavras, Mas, em uma frase, sintetizou o pensamento das classes dominantes, prontas a compactuar com atrocidades a fim de preservar a aparente paz em que vive e, sobretudo, os imensos privilégios e poder de que dispõe (ALVES, 1996, p.19-21)

Como se vê no trecho o autor explicita o caráter de ódio político nos atos de tortura. Aponta ainda a ineficácia desses atos em relação ao objetivo de obter informações a respeito de outros grupos de resistência, no entanto sabe-se que os próprios insurgentes, em geral, não se conheciam e as informações sobre ações a serem realizadas chegavam horas antes – estratégia utilizada para autoproteção – e isso acabava por atiçar a sanha dos torturadores. Não é demais ressaltar que a tortura foi o método de coerção mais utilizado pelo Estado brasileiro contra seus adversários políticos e também contra a parte da sociedade que não figurava como protagonista nos planos do status co.
Além disso, ao retomar o posicionamento da senhora “cidadã de bem”, Alves nos faz olhar e refletir sobre o cenário sociopolítico atual. O que se vê neste cenário é preocupante, pois a todo o momento, em atos públicos, são manifestadas atitudes de louvor à barbárie, de defesa do ódio, de eliminação do outro. Não raro se vê discursos odiosos proferidos por representantes do estado e também por representantes das classes sociais mais abastadas. O perigo destes posicionamentos para o corpo social é que se admita, como normal, que ações de representantes do Estado (agentes da segurança pública) pagos pelos contribuintes sejam mais violentas e cruéis do que a daqueles que julgamos que deveriam estar presos justamente por serem violentos.   
Nesse sentido, entendo que os romances selecionados podem ser entrevistos também como possibilidades de combate ao crescente louvor à tortura e a barbárie, que ideologicamente são (e foram) inseridos na tessitura das relações sociais brasileiras. Considerando todas essas ponderações, cabe o questionamento: como a literatura pode atuar como um espaço de amenização da dor causada por traumas relacionados à tortura sofrida e a possibilidade de configurar-se como espaço de reconciliação psicológica? 

Literatura e representação da tortura

Agora, pensando sobre a literatura e sua(s) função(es) tais como: a representação, a humanização, a remissão, entre outras. Sobre isso, Auerbach (1971) direciona nosso olhar para a mimesis, ou seja, a representação dessa realidade passa a buscar o essencial das coisas mediante uma narrativa que tenta apanhar um instante qualquer da vida de uma personagem ou instantes distintos de diferentes personagens.
Nessa busca, certamente o registro literário pode ser entendido como uma técnica mimética de percepção do humano, dos fatos sociopolíticos e culturais que ocorrem na vida cotidiana, as quais transcendem o simples relato e/ou descrição dos mesmos. Para tanto, a sensibilidade na escrita literária contemporânea, alcançada por alguns de seus escritores, muito tem contribuído para um olhar panorâmico, mas não raso, das mazelas promovidas pelo Estado brasileiro. Nesse sentido, entendo que a literatura contemporânea, pelo menos em parte, tem nos proporcionado enfoques interessantes sobre as relações de poder na esfera sociopolítica e as tensões e conflitos que surgem daí e que promoveram rupturas que marcam negativamente história recente do país. A instauração legalizada dos meios de tortura, pelo Estado, é, certamente, exemplo dessas rupturas sócio-institucionais que desestabilizaram o estado democrático de direito.     
Ainda sobre a literatura e suas possíveis formas de intervenções na esfera social, pode-se dizer que o fazer literário nos faz olharmos de outra perspectiva as belezas e também as mazelas que ocorrem na vida social, pois está consubstanciada em fatos ocorridos na vida real, ou seja, o fio de Ariadne que liga ficção e realidade é a verossimilhança.
Para mais, Antonio Candido aponta que, por função, a literatura provoca ou pode provocar no homem o processo de humanização. Essa é a principal função da literatura na sob a ótica de Candido.  Por humanização pelo fazer literário o autor define

é o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante (CANDIDO, 2004, p.180) 

Esta ponderação de Candido ajuda-me, e muito, na sustentação da hipótese proposta neste artigo – a literatura como espaço de remissão. Isso no sentido de que sem humanização não pode haver remissão. Por remissão entenda-se ser o processo de conciliação entre personagem e suas angústias, corpo e memória, autor e seus traumas, torturados e torturadores, o sentimento de perdão se sobrepondo ao ódio e a vingança.   
 Nesse sentido, a discussão agora caminhará sob a perspectiva de entrever em que medida a literatura, por meio da característica de verossimilhança, aproxima o real e o ficcional em relação aos momentos de tortura pelo qual passaram algumas personagens dos romances já citados. Outra questão é como ela (a literatura) pode se configurar como espaço de humanização (nos moldes traçados por Candido), de remissão e de registro denunciativos dos momentos – sejam eles de natureza física, sentimental ou psicológica – que marcam profundamente a existência do ser humano que esteve envolto à tortura praticada pelo regime militar.  
Isto ponderado, vejamos agora como autores, personagens e obras se inter-relacionam no interior do espaço de representação literário. 

Em câmara lenta

Dos romances selecionados Em câmara lenta, de Renato Tapajós é, sem dúvida, o que mais expõe os atos de tortura em suas minúcias. O trecho a seguir é uma das cenas mais emblemática da obra, isso dentro da perspectiva do recorte analítico proposto neste artigo.  Na cena, são narrados os atos de tortura que culmina na morte, por esmagamento de crânio devido ao uso do instrumento de tortura coroa-de-cristo, da personagem “ela”. Quem narra é a personagem “ele” (companheiro amoroso e de resistência ao regime de “ela”)

Cercaram-na e caíram sobre ela, acertando socos em seu rosto, pontapés em suas costas, tentando segurá-la. Ela se debateu com violência, mas uma forte coronhada em sua nuca a fez tontear. Um policial segurou-a firmemente, enquanto outro fechava as algemas em seus pulsos delicados. Puxaram-na pelas algemas: ela caiu ao chão e foi arrastada, rasgando a roupa e a pele macia de encontro às pedras do terreno [...] Ela tentava se defender, atingindo um ou outro agressor, mas eles a lançaram no chão, já nua e com o corpo coberto de marcas e respingos de sangue. O canto de seus lábios estava rasgado e o ferimento ia até o queixo. Eles a seguravam no chão pelos braços e pernas, um deles pisava em seu estômago e outro em seu pescoço sufocando-a. O que a pisava no estômago perguntou-lhe novamente o nome. O outro retirou o pé do pescoço para que ela pudesse responder, mas ela nada falou. Nem gemeu. Apenas seus olhos brilharam de ódio e desafio. O policial apertou-lhe o estômago com o pé, enquanto outro chutou-lhe a cabeça, atingindo-a na têmpora. Sua cabeça balançou, mas quando ela voltou a olhar para cima, seu olhar não havia mudado. O policial enfurecido sacou o revólver e apontou para ela, ameaçando atirar se continuasse calada. Ela continuou e ele atirou em seu braço. Ela estremeceu quando a bala rompeu o osso pouco abaixo do cotovelo[...] Procurava contrair o braço sadio, para evitar que o peso repousasse sobre o outro, enquanto eles amarravam os terminais de vários magnetos em suas mãos,pés, seios, vagina e no ferimento do braço. Os choques incessantes faziam seu corpo tremer e se contrair, atravessavam-na como milhares de punhais e a dor era tanta que ela só tinha uma consciência muito tênue do que acontecia. Furiosos, os policiais tiraram-na do pau-de-arara, jogaram-na ao chão. Um deles enfiou na cabeça dela a coroa-de-cristo: um anel de metal com parafusos que o faziam diminuir de diâmetro. Eles esperaram que ela voltasse a si e disseram-lhe que se não começasse a falar, iria morrer lentamente. [...] Ele continuou a apertar os parafusos e um dos olhos dela saltou para fora da órbita devido à pressão no crânio. Quando os ossos do crânio estalaram e afundaram, ela já havia perdido a consciência, deslizando para a morte com o cérebro esmagado lentamente (TAPAJÓS, 1977, p. 169-172).

A representação da tortura, neste trecho, se dá de forma nua e crua, contudo a narração não se configura na esfera do mero relato panfletário, pois o transcende. Ao transcender o simples relato, por meio de sua expertise e sensibilidade literária, o autor provoca – a catarse – que permite a cada indivíduo-leitor conhecer uma situação-limite que pode gerar tanto o temor quanto à piedade. A verossimilhança é outra característica literária forte da narrativa, sobretudo, quando colocada em paralelo aos relatos colhidos pela Comissão Nacional da Verdade, são impressionante o detalhamento e a proximidade com o real. Impossível não notar os detalhes que se manifestam por meio do movimento narrativo de aproximação metonímica tais como: O canto de seus lábios estavarasgado e o ferimento ia até o queixo e em: mas quando ela voltou a olhar para cima, seu olhar não havia mudado; e de afastamento hiperbólico como O policial enfurecido sacou o revólver e apontou para ela, ameaçando atirar e em Furiosos, os policiais tiraram-na do pau-de-arara, jogaram-na ao chão.
Esse movimento configura uma espécie de vai e vem do foco narrativo, como se fosse um zoom que ora se aproxima e capta, por exemplo, o olhar da vítima e ora se distância para que, de forma ampla, se veja a vítima por inteiro e quão desumano são as ações dos torturadores. Isso marca a tessitura literária do trecho no que diz respeito à sua capacidade representação da dor do outro. Certamente o verossímil talvez seja a característica que mais marca a narrativa.
O registro não se manifesta em primeira pessoa, todo o trecho é apresentado ao leitor a partir da perspectiva da personagem “ele. Ou seja, as cenas do suplício sofrido por “ela” é, na verdade, como “ele” acredita ter acontecido. Essa construção psíquica do como aconteceu ou teria acontecido, de como os policiais a espancaram, a interrogaram e a mataram faz com que o narrador construa seis réplicas desta cena. Cada uma é reproduzida, sob o vai e vem do pensamento-imaginação do narrador, com mais detalhes de como teria sido o martírio sofrido por “ela”. Em cada uma das cenas é adicionado mais e mais  detalhes fazendo com que a narrativa passe, ao leitor, a impressão de estar ocorrendo em  câmara lenta.  Isso pode ser tomado como uma característica do fazer literário que se sobrepõe ao simples relato e à mera descrição, pois a “força de Em câmara lenta provém do teor estético da linguagem usada e de uma técnica ficcional avançada” como já atestou Antonio Candido (1981). 
Este atestado de ficcionalidade emitido por Candido foi peça crucial na defesa de Tapajós para que novamente fosse preso pelos militares. Registre-se que Em câmara lenta foi escrita clandestinamente ainda quando o autor se encontrava preso e sendo torturado. Pouco depois de sair da prisão a publicou e isso gerou muito tumulto à época. Certamente, Tapajós usou a literatura para denunciar a barbárie a qual foi submetido, mais também, principalmente, como forma de remissão ao ódio que lhe foi imputado (retomarei isso mais adiante).      

Batismo de Sangue

Mesmo abordando o mesmo tema do romance anterior – a ditadura militar no Brasil e seus desdobramentos – Batismo de sangue oferece ao leitor este assunto sob a perspectiva dos freis dominicanos que apoiaram a resistência ao regime. Nesse sentido, a narrativa constitui-se como um registro do engajamento de parte dos religiosos dominicanos contra o regime autoritário militar, pelos direitos humanos e no limite para manterem-se vivos.
Nessa obra é narrado o ativismo político, a prisão, as diversas sessões de tortura, o exílio, até o suicídio de Frei Tito (devido às profundas sequelas psicológicas deixadas pela tortura), e também toda articulação, perseguição e assassinato do líder ativista Carlos Marighela.  Dos trechos, encontrados no livro, em que são registrados e explicitados os atos tortura, certamente, às empregadas em Tito são as que dão, ao leitor, a dimensão da crueldade e sadismo dos torturadores, como é possível constatar no trecho

Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao pau-de-arara. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a descarga de 220 volts a fim de que eu falasse antes de morrer [...] (BETTO, 1982, p.263).

 

O registro literário continua
 
Diante de minhas negativas aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. Revestidos de aparatos litúrgicos, os policiais me fizeram abrir a boca ‘para receber a hóstia sagrada’. Introduziram um fio elétrico. Fiquei com a boca inchada sem poder falar direito (BETTO, 1982, p.264).

No trecho Frei Tito narra os primeiro momentos nas mãos dos torturadores. Note-se que estamos diante da perspectiva do torturado que narra sua própria dor. Já de início esse é um ponto de descontinuidade em relação ao foco narrativo do trecho de tortura de Em câmara lenta.
A violência que é empregada é descomunal. Até o momento de sua prisão e tortura Tito gozava da prerrogativa de cidadão portador de uma vida passível de luto, ou seja, socialmente seu status de cidadão que tem o Estado como responsável pela sua segurança lhe era assegurado constitucionalmente. Condição essa abolida pelo AI-5. Na mão dos militares e em meio à tortura essa condição de ser reconhecido como uma pessoa humana digna de luto é revogada. Na cena pode ser visto em ação o esquema teorizado por Viñar e Viñar (1992) e por Pellegrino (1996). Nesse sentido, o estatuto de cidadão livre e com prerrogativa de inocência é usurpado, devido a sua prisão arbitraria. E em meio a tortura sua condição humana negada.
Além disso, um depoimento real de Frei Tito, redigido por ele mesmo na prisão, em fevereiro de 1970, é retomado e incorporado por Frei Betto em Batismo de Sangue. Este depoimento saiu clandestinamente da prisão (assim como os manuscritos de Em câmara lenta) e foi publicado pelas revistas Look e Europeo, no mesmo ano. Segue um trecho do texto
[...]no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: "Você agora vai conhecer a sucursal do inferno". Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.
Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.
Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me "telefones" (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do "pau-de-arara". O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pesada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo[...]Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas. (BETTO, 1982, p. 199[TITO, Brasil, 1970])

O relato-denúncia de Frei Tito fala por si só. As amarras com a realidade são muito marcantes e concretos. Esse é um registro que mostrou ao mundo toda a barbárie que estava acontecendo no Brasil. Por tudo isso, não conseguiu se desprender da tortura psicológica
Ademais, Frei Tito escreveu uma vasta gama de poemas que, de modo geral, tratam de temas como o perdão, a devoção, as memórias da tortura. Talvez os escreveu como forma de libertação dos traumas e angústias psicológicas que se mantiveram vivas e latentes em sua memória.  Mesmo já estando ele num lugar seguro (Éveux/França), suicida-se (por enforcamento) em 1974, aos 28 anos.  
Entre tantos outros, o poema Quando secar o rio de minha infância escrito em Paris, a 12 de outubro de 1972, poucos meses antes de sua morte, parece ser emblemático da consolidação da literatura como espaço de humanização e de remissão. Segue o poema
 
Quando secar o rio de minha infância
secará toda dor.
Quando os regatos límpidos de meu ser secarem
minh'alma perderá sua força.
Buscarei, então, pastagens distantes
— lá onde o ódio não tem teto para repousar.
Ali erguerei uma tenda junto aos bosques.
Todas as tardes me deitarei na relva
e nos dias silenciosos farei minha oração.
Meu eterno canto de amor:
expressão pura de minha mais profunda angústia.
Nos dias primaveris, colherei flores
para meu jardim da saudade.
Assim, externarei a lembrança de um passado sombrio.

É possível constatar que o literário, sobretudo a poesia, para frei Tito serviu-lhe, sem dúvida, como espaço de remissão. O ficcional é utilizado pelo poeta como um lugar possível de não violência, do não ódio. Dentro da esfera poética o desejo de liberdade dos traumas psicológicos causados pela tortura se torna algo possível. Por meio de suas convicções religiosas e da possibilidade do perdão o poeta manifesta o desejo de cantar o amor lá onde o ódio (referencia direta aos atos de martírio promovidos pelo DOPS, sob o comando do delegado Sergio Fleury) não tem possibilidade de chegar.
Sobre o ficcional nos ajudar a suportar a realidade Ferreira Gullar ponderou que a literatura existe porque a vida não basta, porque o real é muito duro e limitado. Nesse sentido é possível que a resistência de Frei Tito às ações de suplício real a que foi submetido por dias e dias seguidos, como se viu em seu relato-denuncia, tenha encontrado força na possibilidade de escrever seus poemas durante o cárcere e fora dele.
Desse modo, é possível entrever que Batismo de Sangue se configura não só como um discurso literário que se propõe a denunciar a barbárie promovida pelo regime militar, mais também, sobretudo, como espaço de busca pela essência humana por meio da capacidade de perdão e compaixão ao outro. Por isso, configura-se também como espaço de remissão aos sentimentos de ira, asco e de vingança para Frei Tito (que na narrativa é incorporado como personagem protagonista juntamente com Carlos Marighela) como para o autor Frei Betto (que também esteve preso e foi torturado pelo regime).

Volto semana que vem
Volto semana que vem(2015), segundo a autora Maria Pila esta é uma obra de ficção autobiográfica na qual é narrada sua militância política sua prisão e seu exílio em paralelo a história de dois outros militantes. As passagens ocorrem nas cidades de Buenos Aires, Paris, São Paulo, Porto Alegre. A citação a seguir é o capítulo completo intitulado “2003/A gatinha do edredom” do romance de
Enfiaram um capuz na minha cabeça e me levaram. Dios mio, que macana, pensei para disfarçar o terror. Estava com medo de que a identidade falsa fosse descoberta? Não, nada disso. O capuz. Ele anunciava alguma coisa terrível, que eu não conseguia nem imaginar, mas que tornava irrisório todo o resto, a identidade falsa, o endereço de araque, o sotaque. De repente sentia meu corpo caindo, caindo. Ao redor, as vozes eram muitas. Mais tarde, o silêncio. O telefone – trim trim trim! – não parava de tocar, e ninguém atendia. Tive uma louca esperança: e se eu avisasse alguém do meu desaparecimento? Quem sabe fosse socorrida. Aterrorizada pelo silêncio e pelo capuz, não me mexi, continuei quieta no meu canto. Trim trim trim!, insistia o telefone. Virei-me debaixo do edredom e lá estavam os olhos arregalados da gatinha – como sempre fazia –, esperando minha reação. Engano, número errado, respondeu a voz. Quis abraçar o corpo quente e macio do animalzinho. Era só um pesadelo, repetia, contente da vida. Senti uma fisgada aguda no pé e levantei o edredom, agora muito sujo e com cheiro de urina. Debaixo dele, em vez da gatinha, vi meus pés manchados de sangue e estrangulados pela corda. O cheiro: inesquecível cheiro de roupa suja misturado a um vago odor de pele queimada pelos fios desencapados (PILLA, 2015, p.45)

A narrativa é construída em primeira pessoa. Configura-se numa espécie de pesadelo que acomete a personagem trazendo à tona as angustias e sofrimento dos momentos nos momentos de martírio. No limite do consciente e do inconsciente no vai e vem de sua memória a personagem faz com que a imagem narrada ganhe singularidade ao compararmos às outras já analisadas aqui. O trecho é metonímico, ou seja, a cena toda construída a partir da parte pelo todo, procedimento metonímico em que a narradora parece convidar o leitor a constituir, a partir do sugerido, a imagem do martírio. Os detalhes da tessitura narrativa cria um efeito sinestésico podendo levar o leitor a sentir a um vago odor de pele queimada pelos fios desencapados.
O leitor é um dos componentes centrais narrativas. Esse procedimento pode ser entendido como uma característica da literatura contemporânea, pois “nunca fomos tão invocados pela literatura. É à nossa consciência que se dirigem esses narradores hesitantes, essas personagens perdidas, aguardando nossa adesão emocional ou ao menos estética” (Dalcastagnè, 1996, p. 30).
Para compor com mais profundidade esta reflexão, retomo a entrevista com Maria Pila, publicada em novembro de 2015, no jornal Sul 21. De tantas perguntas pertinentes à obra feitas a autora, três são relevantes para pensarmos o contexto que esta sendo aqui discutido, segue perguntas e respostas
Sul21– Como vês o teu livro como criação literária?
MP – Alguma coisa eu criei, não tinha o foco na história. Quero continuar escrevendo. Gosto de escrever, de ler, de conversar sobre essa coisa da criação.
Sul21 – Como era a tortura nas delegacias?
MP – Em geral todas as possibilidades, do estupro ao submarino, aos espancamentos, aos choques elétricos.  Onde eu estava era mais a picana (máquina de choques).
Sul21 – O que resta da tortura? Raiva, revolta?
MP – Eu sei bem o que resta. Foi chocante ver pessoas com um comportamento bárbaro, aos gritos. Não é possível que essas coisas existam. O filme “Cidadão Boilesen” narra o prazer (que o empresário tinha) com isso, ele trazendo de presente (para a Oban) uma maquininha de tortura.  Graças a Deus fiz oito anos de análise para elaborar isso, senão ficaria com uma raiva muito grande. Consegui elaborar, controlar essa raiva. Tanto que escrevo o livro sem marca de amargura.

A priori o que se vê na entrevista é uma autora que tem na literatura uma possibilidade de acolhimento.   A narrativa embora apresente passagem como a do capítulo reproduzido acima, parece sugerir um sossegar das angustias, uma amenização da dor em relação às memórias traumáticas, (re)vividas pelo autora-personagem, isso na medida em que do tempo vai fazendo seu trabalho.
 Apesar de boa parte das memórias que compõem essa narrativa serem momentos de angústia e violência (como se vê no fragmento acima), é possível entrever, sobretudo, que há uma declaração de alegria irredutível e um louvor à vida. Isto considerado, entendo não ser possível não atrelar essa alegria pela vida renovada como ao acolhimento possível da esfera ficcional. Ou seja, é possível dizer que literatura esta atuando, sobretudo, como um espaço de humanização e de remissão para a autora, pois afirma estar se reencontrando com a paz, ainda que parcial, quando se debruça no seu fazer literário.
 
Ainda estou aqui

Ainda estou aqui (2015), de Marcelo Rubens Paiva. O ponto de partida do romance é o primeiro grande trauma da sua vida ocorrido ainda quando era criança – o desaparecimento do pai, o deputado federal Rubens Paiva, cassado no golpe de 1964.

O sensato seria nos mudarmos para Londres ou Paris. Minha irmã Vera passava férias em Londres. Deveríamos ter ficado dois ou três anos por lá, como fez o Gasparian. Meu pai perdeu o timing. Onipotência e teimosia que minha mãe nunca perdoou. Queria lutar quixotescamente numa guerra já perdida. Arriscou a família.Tinha cinco crianças. E tenho certeza de que, destroçado pela tortura, deve ter pensado nisso. Talvez a dor da tortura nãochegasse aos pés da descoberta de que tomou decisões erradas, arriscou a vida da mulher e dos filhos, crianças ainda. Deve ter sido a sua derradeira tortura [...] Agora não dá para fugir da morte. Eu vou morrer, sinto que vou, espero que me perdoem. O que fiz prova minha vulnerabilidade, falhas do meu caráter, que pôs tudo a perder e causa muito sofrimento. Que pena que estou indo embora, que triste que não posso ficar, não me deixam ficar, é inevitável que eu vá, eu não queria, eu não queria, estou tão triste. Tenho que morrer agora. Morreu repetindo o seu nome. Meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é - Rubens Paiva... Dizem que foi torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos, música que a minha irmã Eliana se lembra de ter escutado enquanto estava lá. [...] 20 de janeiro de 1971. Meu pai apanhou por dois dias seguidos. Apanhou assim que chegou na 3a Zona Aérea, interrogado pelo próprio brigadeiro João Paulo Burnier. Apanhou no DOI-Codi, no quartel do I Exército. Meu pai era um homem calmo, bom, engraçado, frágil fisicamente [...] Imaginar este sujeito boa-praça, um dos homens mais simpáticos e risonhos que muitos conheceram, aos quarenta e um anos, nu, apanhando até a morte... É a peste, é a peste. Dizem que ele pedia água a todo momento. No final, banhado em sangue, repetia apenas o nome. Por horas. Rubens Paiva. Rubens Paiva. Ru-bens Pai-va, Ru... Pai. Até morrer. (PAIVA, 2015, p. 69-70)

O trecho é comovente e dramático. Embora não haja cena tortura propriamente dita, o sugestivo metonímico nos leva a entender a angustia do narrador. Parece haver dois instantes narrativos simultâneos que oscilam entre uma espécie de revolta comedida do filho para com seu pai, devido à demasiada teimosia e o romantismo pela causa.  Em outro o sentimento de compaixão do filho pelo sofrimento do pai.
 Como se vê no trecho, o narrador afirma que seu pai, em a tortura, repetiu diversas vezes o próprio nome até morrer, isso talvez numa tentativa de resistir à última etapa do projeto de tortura – “experiência-limite na degradação da memória” (Vinãr e Vinãr, 1992).     O narrador é quem nos fala sobre o que o pai poderia ter pensado, as palavras que poderia ter usado frente ao martírio. Em alguns momentos parece não se conforma com as escolhas feitas pelo pai. Em outro momento, por outro lado, parece ter desenvolvido a capacidade de suportar, não sem dor, a violência acometida contra seu pai.
Vejamos outro trecho

A tortura é a ferramenta de um poder instável, autoritário, que precisa da violência limítrofe para se firmar, e uma aliança sádica entre facínoras, estadistas psicopatas, lideranças de regimes que se mantêm pelo terror e seus comandados. Não é ação de um grupo isolado. A tortura é patrocinada pelo Estado. A tortura é um regime, um Estado. Não é o agente fulano, o oficial sicrano, quem perde a mão. É a instituição e sua rede de comando hierárquica que torturam. A nação que patrocina. O poder, emanado pelo povo ou não, suja as mãos. Tortura também serve para inspirar ódio dos próprios torturados por eles mesmos, que se sentem culpados por não resistirem à pressão e a dor e entregar companheiros, comparsas, a família, inventar até o que não fizeram. O torturado se sentirá então o próprio repressor, o próprio torturador. Na ditadura, torturaram freis, freiras, bispos, padres brasileiros e estrangeiros, velhos, bebês, grávidas, pais com filhos, mães amarradas diante de filhos, por uma causa torpe (PAIVA, 2015, p.70).

O que se tem aqui é um trecho Ainda estou aqui, no qual o narrador versa sobre a tortura e seus objetivos. Neste registro literário o autor explicita no trecho seu juízo de valor sobre a instrumentalização da tortura pelo estado. Juízo este que se aproxima, em muito, das definições teóricas, obtidas anteriormente.  Ressalta-se que Marcelo não foi preso, nem vítima de tortura direta, no entanto, é afetado profundamente pelo desaparecimento e assassinato de seu pai.
Registre-se que em 1974, em plena ditadura militar é publicado Oposição no Brasil, hoje, de Marcos Freire, primeiro livro de não-ficção editado de forma legal no Brasil (CNV, 2014). Neste são reproduzidos discursos e debates dos parlamentares sobre a questão da tortura. O capítulo 2, intitulado “Em defesa dos direitos humanos”, traz denúncias sobre o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, reproduzindo depoimento de sua esposa, Eunice Paiva, além de abordar vários outros casos de pessoas presas e desaparecidas e de denúncias de torturas.
Recentemente, investigações promovidas pela Comissão Nacional da Verdade, elucidou este caso a partir de depoimentos de alguns dos militares que participaram da ação de prisão que culminou na tortura e a morte de Paiva, como se pode ver neste registro: “no segundo dia de tortura, Rubens Paiva não resistiu e seu corpo foi enterrado e desenterrado antes de ser lançado ao mar” (CNV, 2014).  É preciso ressaltar que até então a família Paiva, assim como tantas outras famílias, foram torturadas psicologicamente devido à ausência de informações sobre o paradeiro do corpo e a omissão do Estado sobre isso. Somente em 2014, com o relatório conclusivo da Comissão Nacional da Verdade, o autor conclui o romance expressando numa espécie de simbiose entre desabafo e alivio  “torturado e morto por militares”.
Em recente entrevista Marcelo Rubens Paiva afirmou que “A única forma de resolver essa angústia (desaparecimento do pai) era escrever”. Com isso, o autor consolida minha hipótese inicial de que a literatura atua com espaço de remissão; ou seja, ao resolver sua angústia o autor liberta-se do ódio e do rancor sendo capaz de criar compaixão para com os torturadores que assassinaram de seu pai.  

Diálogos verossímeis

Como vimos anteriormente, romances e autores têm muito em comum, ainda mais quando observados sobre as perspectivas de seus temas e a biografia de seus autores. E são, sobretudo, literatura, pois transcendem o simples relato da tortura e a mera descrição dos espaços e objetos. Fazem isso por meio da técnica, dos signos e da sensibilidade empregadas, por cada autor, de modo singular em cada narrativa, ainda que abordando o mesmo tema e o mesmo momento socio-histórico. 
Nesse sentido, essas narrativas podem ser entendidas ainda sob o viés de Dalcastagné(1996), em que pondera   

Esses romances são documentos imprescindíveis de um tempo que ainda não nos foi revelado por inteiro, de uma história que se tem de continuar fazendo, múltipla e indefinidamente. [...] Documentos que se estabelecem não como analise dos jogos do poder ou descrição de torturas, mas como acolhida à dor de suas vítimas, como espaço onde a história dos vencidos continua se fazendo, lugar onde a memória é resguardada para exemplo e vergonha das gerações futuras (DALCASTAGNE, 1996, p. 24-5).  
E ainda
[...]são a expressão de uma grande dor. Dando voz aos vencidos, eles acolhem também suas feridas, seus gemidos, sua derrota. [...] Das suas paginas não surgem mártires, nem heróis, mas pessoas comuns (DALCASTAGNE, 1996, p. 137).    

É possível entrever nos trecho que o texto literário serviu e serve também como espaço de registro das lutas e resistências contra toda e qualquer forma de violência E exclusão. Para a autora a literatura, por autores que de algum modo tiveram sua vida atingida direta ou indiretamente pela barbárie do regime, pode ser configurada num espaço onde estes encontraram acolhimento tantas vezes negado ela dura e concreta realidade da vida real.  É fato que a literatura serviu e serve como um espaço de aconchego, de acolhimento das dores, angústias, medos, ou seja, das fragilidades humanas como um todo. 
Com isso, é capaz de atrair um conjunto de comiserações que busca (re)afirma no homem a sua cota de humanidade (Candido, 2004). O literário se liga à vida cotidiana real por meio da verossimilhança que é, pois, uma propriedade interna da obra literária, mesmo quando se apresenta um quadro inteiramente descritivo ou avaliativo. A obra literária caracteriza-se, como já se observou, pelo emprego da linguagem verbal, o que a diferencia, por exemplo, da música e da pintura. Essa linguagem expressa o que a fantasia e a imaginação do escritor nos sugere, o que define sua natureza ficcional. Contudo, o imaginário mais fértil sofre a contenção da verossimilhança, que determina os limites lógicos e aceitáveis de uma criação literária. A verossimilhança apresenta-se como lei interna, já que a coesão depende do arranjo dos fatos e das palavras que os manifestam. Mas a verossimilhança igualmente estabelece a relação entre o mundo representado em uma obra e o universo do leitor, que reconhece a validade de um texto de um lado por considerá-lo coerente e de outro por firmar o nexo entre o que é ali mostrado e o que ele sabe por experiência própria.
No caso de Renato Tapajós: esteve preso por cinco anos (1969 a 1974) e foi tortura, “Em Câmara Lenta”, nasceu em 1973, enquanto estava preso. Para que o livro pudesse ser escrito, seus pais iam visitá-lo e levavam os minúsculos originais escondidos na boca. Quando lançado, em 1977, Tapajós foi novamente preso e o livro censurado. No tocante a Frei Betto: esteve preso por dois anos e quinze dias e foi torturado pelo DOI-CODI. Np caso de Maria Pilla: esteve Presa em Buenos Aires em 1975, foi torturada e passou mais de dois anos encarcerada. Expulsa do país em 1977, recebeu asilo da França mais uma vez. De volta ao Brasil com a Anistia de 1979, optou por permanecer em Paris até 1992, quando voltou para o Brasil. Já Marcelo Rubens Paiva: teve seu pai Rubens Beyrodt Paiva (Deputado Federal) morto pelo regime militar, e seu corpo até este momento ainda não foi localizado, cerceando a família do direito ao luto. Por isso, estes autores, ligados entre si pelos atos e efeitos do suplício (mas não só estão também pela literatura), buscam resistir a esses traumas por meio da “arma fraca” que notadamente dominam – a literatura. Com isso, a meu ver, configuram o seu fazer literário como um espaço não só de denuncia da barbárie, mais antes de tudo – de remissão; ou seja, conseguiram desenvolver, na longa e árdua experiência literária de suas obras, a capacidade de suportar os traumas físicos e psicológicos por meio do exercício da compaixão e do perdão para com seu próprio carrasco.
Do ponto de vista da esfera democrática que é constituída somente na consolidação do Estado Democrático de Direito, em todas as suas instâncias nacionais e internacionais, esse tipo de ação – a tortura – que feriu de morte as vidas humanas foi e deve ser sempre condenada.  Contudo, o que se vê no conjunto das imagens literárias aqui apresentadas é justamente o que coloca em xeque os direitos constitucionais, as liberdades democráticas, o Estado de Direito pleno no Brasil. Os discursos e práticas de ódio são formas de violência que estão arraigadas no proceder das ações sociopolíticas de grande parte da sociedade brasileira, sobretudo, à parte ligada ao grande capital e ao poder político que querem manter seus privilégios a todo custo.
Por fim, ressalto que para combater essa ideologia do ódio e da violência se faz imprescindível o discurso literário que é capaz de se configurar no espaço de denúncia e principalmente de remissão. Isso é possível a partir do entendimento de que a natureza da literatura, do texto literário esta na sua – capacidade de confirmar no homem sua humanidade (Candido,1972; 2004). Já que a mesma literatura que é usada para nortear ideologias e pensamentos pode criar atitudes subversivas, no individuo, aos regimes totalitaristas.
 
Considerações finais

De modo geral, ao longo das ponderações expostas aqui, ponderei que a literatura atua como um espaço de remissão, acolhimento e humanização em face aos traumas físicos e psicológicos, ao passo que as denuncia à sociedade. Atua ainda como espaço de acolhimento para frutos da violência da tortura, servindo assim para o autor e o leitor como uma espécie de válvula de escape e afago. O que a configura também como lugar de combate à instauração, legalização e naturalização social da barbárie. Isso, sobretudo, nas perspectivas de Dalcastagné (1996) e Candido (1972; 2004). A inserção de narrativas que tratam deste tema no espaço simbólico de poder que é a literatura torna-se importantíssima no sentido em que são registros da memória socio-histórica brasileira.                                 
Para mais, o panorama comparativo nos explicitou que as personagens, de todas as obras, entrecruzam-se numa espécie de dialética da verossimilhança com a vida de seus autores, isso no tocante às dores, aos traumas e remissões constituídas nas narrativas. Pois, para além das personagens, os autores entre si apresentam algo em comum em suas vivências – todos, sem exceção, foram e ainda são vítimas, direta ou indiretamente, da barbárie promovida pelo regime militar brasileiro.
No tocante à tortura, esta foi instituída e aplicada, pelo regime militar brasileiro, como forma de barrar o avanço dos insurgentes. Estas ações foram referendadas pelo Estado brasileiro. Visava promover o horror e a barbárie para desconstituir nos torturados sua identidade social e sua condição humana. Contudo, apesar disso os resistentes, não sem dor, se sobrepuseram à ditadura. Ademais, Nesse sentido, foi possível entrever que toda violência advinda daí ligou-se à manutenção do status co naquele momento, com resquícios que se alongam até os dias atuais. E que por isso não é coerente que a sociedade atual admita, como normal que ações de representantes do Estado, agentes da segurança pública, pagos pelos contribuintes sejam mais violentas e cruéis do que a daqueles que julgamos que deveriam estar presos justamente por serem violentos. Isso, sob pena de caminharmos a passos amplos para a uma barbárie coletiva ainda maior que a ditadura.  
Por fim, sustento que a arte literária atua como espaço de remissão e acolhimento no sentido em que busca resgatar, em autores e leitores, sentimentos como a empatia, a compaixão, o perdão, e, ainda promove uma reconciliação entre autor e seus traumas psicológicos, sequelas deixadas pelo martírio sofrido. Ao desvelar múltiplas experiências humanas permite-nos, ainda que em partes, compreender o medo e a coragem do outro, sentir o que o outro sente. Nesse sentido, pode desenvolver em nós possibilidades novas de (con)viver e lidar com as angústias e os traumas (individuais e coletivos) pelos quais passamos ao longo da vida. Assim, do ponto de vista de outras vivências possíveis ela (a literatura) continua tendo muito a nos ensinar sobre reconciliar-se consigo mesmo e com o outro.

Referências
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BETTO, Frei. Batismo de Sangue. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. São Paulo: Edusp, 1972.
________________.O direto a literatura. In: Vários Escritos. São Paulo: Ouro Sobre Azul, 2004.
COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Relatório – Volume I-II-III. Dezembro de 2014. Disponível em: http://www.cnv.gov.br/images/pdf/relatorio/volume_1_digital.pdf
DALCASTAGNÉ, Regina. O espaço da dor: o regime de 64 no romance brasileiro. Brasília: UNB, 1996.
______________________. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado.Vinhedo:Horizonte, 2012.
GINZBURG, Jaime. Crítica em tempos de violência. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2012.
PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro:Objetiva, 2015.
PELLEGRINO, Hélio. Brasil: nunca mais. São Paulo:Vozes,1996.
PILA, Maria. Volto semana que vem. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
TAPAJÓS, Renato. Em câmara lenta. São Paulo: Alfa Omega, 1977.
VIÑAR, Maren & VIÑAR, Marcelo. Exílio e tortura. São Paulo: Escuta, 1992.
VIEIRA, Rosângela de Lima. Ecos da ditadura na sociedade brasileira (1964-2014)/ Rosângela de Lima Vieira (org.). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014.

* cleber101578@gmail.com Doutorando em Letras pela Universidade Nacional de Brasília - UNB. Graduado e Mestre em Letras pela Universidade Federal da Grande Dourados-UFGD. Concentra pesquisa nas áreas de Literatura e Cultura Brasileira Contemporânea com ênfase em poéticas urbanas periféricas, sobretudo, o rap; o intelectual periférico e discursos sociais de poder.

Recibido: 07/07/2017 Aceptado: 30/08/2017 Publicado: Agosto de 2017

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