Revista: CCCSS Contribuciones a las Ciencias Sociales
ISSN: 1988-7833


MEMÓRIAS DE UM SINDICALISTA NA AMAZÔNIA:
Entre as histórias e memórias de Virgílio Serrão Sacramento

Autores e infomación del artículo

Elias Diniz Sacramento*

Fagno da Silva Soares**

Universidade Federal do Pará, Brasil

edsacramento@ufpa.br

Resumo: O presente artigo analisa as memórias do sindicalista Virgílio Serrão Sacramento, homem simples, extrativista que virou um marco na luta e defesa de centenas de trabalhadores rurais no município Mojú-Pa, na Amazônia brasileira. Para este trabalho utilizamos a metodologia da história oral, cruzando com outras fontes documentais no período de 2006 a 2007. Deste modo, objetivando a ampliação destas reflexões a estudos futuros.
Palavras-chave: memórias, histórias, lutas, terra, Amazônia.

Abstract: This article analyzes the syndicalist memories Virgil Serrao Sacramento, simple man, extraction that became a milestone in the fight and defense of hundreds of rural workers in Mojú-Pa municipality in the Brazilian Amazon. For this work we used the methodology of oral history, crossing with other sources in the period 2006 to 2007. Thus, in order to expand these reflections to future studies.
Keywords: memory; stories; fights; Earth; Amazon.



Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:

Elias Diniz Sacramento y Fagno da Silva Soares (2016): “Memórias de um sindicalista na Amazônia: entre as histórias e memórias de Virgílio Serrão Sacramento”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, (octubre-diciembre 2016). En línea:
http://www.eumed.net/rev/cccss/2016/04/sindicalista.html

http://hdl.handle.net/20.500.11763/cccss201604sindicalista


Introdução
O Estado do Pará é considerado o mais violento em relação a assassinatos de trabalhadores e líderes camponeses (ALMEIDA, 2012, p. 77). Os dados apresentados anualmente pela Comissão Pastoral da Terra – CPT 1, tem indicado esse quadro alarmante. Centenas de trabalhadores e suas lideranças perderam suas vidas nas últimas quatro décadas aproximadamente em virtude dos diversos conflitos que se configuraram com a chegada de diversos projetos agroindustriais para a Amazônia. De acordo com diversos dados estatísticos, desde a implantação do Golpe Civil-Militar em 1964, a escalada da violência só fez aumentar. No mesmo do ano do Golpe, houve registro de 04 crimes envolvendo trabalhadores rurais no estado do Pará. Passadas mais de duas décadas esse número passou, em 1986, para 71 assassinatos (SCHMINK; MARIANNE, 2012, p. 251). Muitos trabalhadores rurais, padres, freiras, advogados, políticos, ambientalistas e lideranças sindicais foram assassinados. Vários nomes ganharam repercussão por conta da expressão que tiveram, mas também da forma como vários desses crimes foram contidos. Entre eles podemos destacar o caso do advogado e defensor da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) Paulo Fontelles, do deputado estadual e defensor dos lavradores e Sem Terra João Batista, de João Canuto, pai e seus dois filhos José e Paulo, Expedito Ribeiro, estes últimos quatro, todos da cidade de Rio Maria. Outros casos mais recentes também ganharam a repercussão da imprensa nacional e internacional, como o brutal assassinato da missionária Dorothy Stang em Anapu-PA e do casal de ambientalistas José Cláudio e Maria do Espírito Santo. Também entre todos os assassinatos no campo paraense figura o do líder sindical Virgílio Serrão Sacramento.
Este artigo procura analisar a história de uma dessas lideranças, que surgiu no seio da Amazônia, no município de Moju2 no Estado do Pará na década de 1980. Virgílio Serrão Sacramento, homem simples, extrativista, lavrador, pai de onze filhos virou um marco na luta e defesa de centenas de trabalhadores rurais no município onde atuou.  Para esse trabalho, falando sobre a memória desse homem irei utilizar documentos diversos organizados pela CPT Guajarina e arquivos da família do sindicalista Virgílio como matérias de jornais e alguns depoimentos colhidos para a pesquisa que desenvolvi nos anos de 2006 e 2007 e que resultou no trabalho intitulado ‘As almas da terra a violência no campo paraense’, publicado em 2012 como ‘As almas da terra a violência no campo mojuense’.
Como fonte oral, faço uso de alguns sujeitos que viveram os anos da década de 1980, como o do então padre Sérgio Tonetto3 , trabalhadores rurais, ex-sindicalistas, esposa e filhos do líder sindical. Sobre história oral, uma das diversas complexidades sobre o tema está relacionada à sua metodologia. De acordo com a pesquisadora Beatriz (2007),
A questão do passado pode ser pensada de muitos modos e a simples contraposição entre memória completa eesquecimento não é a única coisa possível. Parece-me necessário avançar criticamente além dela, sem dar ouvidos a ameaça de que se examinarmos os atuais processos de memória estaremos fortalecendo apossibilidade de um esquecimento indesejável. Isso não é verdade (p. 21).
Assim sendo, falar sobre um sujeito que viveu em um campo do espaço da Amazônia e foi um marco na história da luta pela terra em defesa de diversos trabalhadores não é tarefa fácil, mesmo para um simples pesquisador que conheceu e conhece o espaço da pesquisa, e conheceu um pouco a realidade dos conflitos pela posse da terra na referida região, o município de Moju-PA.

Migrante na Própria Terra
Nascido em uma comunidade ribeirinha chamada de Turuçú no município de Limoeiro de Ajurú, no estado do Pará no dia 02 de outubro de 1942 e descendente de uma família de extrativistas que retiravam da floresta o látex da seringueira e também utilizavam-se da pesca para complementar o alimento, assim vivia a família do Virgílio que tinha mais oito irmãos, somando cinco homens e três mulheres. Seus pais se chamavam Vergílio Sacramento Filho e Ana Serrão Sacramento.
            Em 1966 casou-se com Maria do Livramento Diniz sacramento, e a partir daquela data não estava mais disposto a permanecer no local de origem, pois as atividades de trabalho pouco rendimento traziam para as famílias. No final dos anos de 1960 a pimenta-do-reino estava em fase de expansão no município de Tomé-Açú, e o próprio Virgilio já havia trabalhado na colheita do produto. Maria do Livramento, que foi esposa e companheira nos conta um pouco como foi que se deu essa mudança da família em busca de um ‘lugar melhor’ para viverem, como podemos ver na fala abaixo.
Então daí pra frente quando eu me casei com o finado Virgilio, era um jovem também de lá, nós morava tudo perto um do outro, família dele humilde, pobre, mas rico de espírito que eu acho né, e depois que nós casamos nós vimos que lá ele já era um rapaz que trabalhava muito em Tomé-Açú, e se adaptou com o povo de lá com o trabalho que era melhor do que no Limoeiro do Ajuru, que lá era mais difícil um pouco, o trabalho era muito,mas o ganho era pouco. 4 (Maria do Livramento).
            Virar migrante na Amazônia não era tarefa fácil. Muitas lideranças sindicais que foram mortas pelos conflitos da terra também vieram de outros lugares do Brasil, para realizar o sonho de ter um pedaço de ‘chão’, como da própria família Canuto que veio da cidade de Campestre para Rio Maria (REZENDE: 1993). No próprio estado do Pará, a experiência da migração havia ocorrido em dois momentos distintos, e praticante ocasionados pela atração da goma elástica, no final do século XIX e no período da Segunda Guerra Mundial (LACERDA: 2010).
Para a historiadora Edilza Fontes (FONTES: 2002) a cidade de Belém, recebeu um número significativo de pessoas oriundas de outras regiões do Pará como o Marajó por exemplo. A autora destaca a memória em seu trabalho desses moradores mais ‘antigos’ que viram a cidade se transformar. Ao fazer uso da história oral, Edilza Fontes destaca a importância das pessoas em (re)contarem suas histórias e de uma cidade que se modificou ao longo de várias décadas.
            No caso da família de Virgílio, a saída do município limoeirense para a cidade de Tomé-Açú foi apenas o começo de uma jornada, pois ali seria a primeira cidade onde estes tentariam a sorte, e posteriormente ainda passariam por outros municípios paraense, sendo que no ano de 1968, um irmão da esposa do lavrador os convidou para morarem em Almerim, um município localizado na região do Baixo amazonas, pois havia feito uma promessa de que lá iriam ter uma vida melhor. Acreditando na promessa, a família rumou para lá, sendo que o resultado não foi o esperado, pois foram abandonados em uma localidade muito distante da cidade e de qualquer vila ou comunidade existente. Ali teriam que desbravar a terra para produzirem. Não satisfeito com a situação, retornaram no inicio de 1969 para a terra natal, Limoeiro do Ajuru. Em fins de 1969 mais uma vez foram para a ‘terra-da-pimenta’. Agora já com dois filhos, José Dorival e Maria Dinalva.
            Já com dois filhos, em Tomé-Açú nasceram mais três, Edna do Socorro, Sandra Regina e Elias. Agora já eram cinco filhos. A família não pensava em sair mais do município. Com quatro anos de trabalho e algumas economias o Virgilio comprou um lote de terra e seus pais com seus irmãos compraram outro em uma localidade chamada de Corunuma. Também junto, seus demais familiares, conseguiram comprar um trator e uma caminhonete estilo C 10 para transportar as mercadorias que produziam, pois em suas terras já cultivavam também a pimenta, além de farinha e outros gêneros. Mais uma vez a senhora Maria do Livramento nos reporta sobre esse período.
E daí pra frente nós continuamos a ter filhos, primeiro o Dorival, depois a Dinalva, fomos pra Tomé Açu, ele foi trabalhar com o japonês, eu também né, e daí nós tivemos a Edna, o Elias, a Sandra. Trabalhamos né, compramos um lote de terra, e lá a gente vivia uma vida digna lá, trabalho, era muito trabalho lá, a gente ganhava melhor lá, mas a gente se demos bem.5 (Maria do Livramento).
Para Dona Maria, esposa do Virgílio, a atividade desenvolvida em terra firme parecia ter um resultado mais eficaz do que as da área de vargem, onde viviam no inicio de seu relacionamento. De fato, as terras da Amazônia possuem diferenças significativas. As de áreas de várzeas, consideradas alagadas, onde vivem comunidades ribeirinhas possuem características peculiar, sendo utilizadas mais para o extrativismo, sendo sempre retirado algum tipo de produto que sirva pra auxiliar na economia. Já as de terra firme, podem ser usadas também pra extrair algum recursos naturais que nela existam, mas também tem uma possibilidade maior pra desenvolver outros tipos de produção voltadas pra agriculturas diversificadas.
Quando tudo parecia que as famílias estavam bem em Tomé-Açú, a do Virgilio e a de seus pais com seus irmãos, pois as duas já estavam com uma certa estabilidade, com seus terrenos, trator e carro para escoarem seus produtos e também estavam começando a organizar uma Comunidade Eclesial de Base (CEBs), um incidente fez com que os planos tivessem que mudar mais uma vez. Em uma festa realizada no ano de 1976, fez com dois irmãos do Virgílio se envolvessem em uma briga, e para que um dos irmãos não fosse atingido por uma faca, um outro irmão disparou uma arma de fogo, um revólver, vitimando de forma fatal o agressor (SACRAMENTO: 2012, p. 173).
            Por conta de ameaças de familiares da vitima, Virgílio tomou a decisão de vender sua terra, ato que foi seguido por seus pais e irmãos, sendo que teriam que procurar outro local para viverem. Assim após uma análise, e consultas em alguns municípios próximos, chegaram a Moju em fins de 1976, onde compraram um novo lote de terra, localizado a margem da rodovia PA 252, Moju-Acará. Ali se estabeleceram a família de Virgilio e a família de seus pais. A difícil missão agora seria recomeçar tudo de novo.
            Padre Sérgio Tonetto, que também chegou neste período da Itália para trabalhar no Brasil, mais precisamente em Moju, relembra como conheceu a família do Virgílio, enfatizando que logo em seguida foi feita a ‘parceria’ entre o movimento social e a Igreja Católica, e que por diversas vezes o padre ia até a casa do lavrador e lá também ajudava nas atividades da agricultura, principalmente na colheita da pimenta-do-reino e do café.
Eu cheguei em Moju definitivamente em 78, então nós dois chegamos juntos, a segunda coisa, o Virgilio vinha de uma caminhada de Comunidade Eclesial de Base, que naquela época ele veio de Tomé-Açú, me parece, se a memória não está me falhando, e eu comecei a acompanhar as comunidades, inclusive da PA 150, que depois se tornou PA 252, e eu ia no Sucuriju e se criou uma simpatia, seja por que a minha família era numerosa e família dele era numerosa.Depois ele participou em Cametá conosco, são situações que fizeram com que a ligação se tornasse amizade, alem disso sendo que Sucuriju era muito perto de Moju, onde eu morava, eu cansei de ajudar o Virgilio na coleta do café, então a gente passava o dia todo coletando café. 6  (Padre Sérgio Tonetto).

            Padre Sérgio Tonetto foi um religioso que chegou em Moju em fins de 1977, praticamente junto com a família de Virgílio. Nesse período a Igreja Católica vivia um processo de transformação. Em pleno Regime Militar esta Igreja tomou partido das causas sociais e fez uma opção de luta e defesa dos pobres marginalizados, principalmente no campo da Amazônia. Essa tomada de decisão ocorreu em virtude das Conferências do Episcopado Latino-Americano, realizadasem Medellín (Colômbia) e em Puebla (México), em 1968 e 1979 (PEREIRA: 2008, p, 100)
Na memória do padre Sérgio Tonetto é possível perceber a relação que foi construída com a família de Virgílio, de trabalho na lavoura e no engajamento das lutas que viriam travar juntos. O padre relembra a família numerosa de ambas às partes, uma vez que a do italiano também era de muitos irmãos. Tonetto veio da cidade de Jesolo na Itália, sendo também de origem camponesa, produtores de uva, conhecia também as ‘propriedades’ da terra, de sua capacidade de produção, assim, tinha prazer em ajudar o novo amigo em terras amazônicas. Foi no Pará que este tomou a decisão de seguir a linha da Teologia da Libertação, fazer parte de uma Igreja Progressista e não de uma Igreja Conservadora.
Para o historiador Catalão Petit (1996), a Igreja Católica foi muito importante para ajudar na organização de diversos movimentos sociais da Amazônia, uma vez que diversos projetos já estavam presentes na região. Projetos agroindustriais, de mineração, de hidrelétricas. Em fins dos anos de 1970 e inicio dos anos de 1980, a Amazônia tomada pela presença de vários tipos de migrantes, vindos das mais diversas regiões do país, provocou todo tipo de conflitos. Nesses embates, sempre os desfavorecidos ou com poucos recursos tinham desvantagem. Nesse contexto, a presença da Igreja Católica com religiosos da chamada Ala Progressista tiveram um papel importante no apoio e defesa desses homens e mulheres para a luta e defesa dos seus direitos.

Surge a Liderança Sindical
Nos primeiros anos em Moju, Virgilio passou a se engajar e participar da comunidade que pertencia, Sucuriju. Organizaram a Comunidade Eclesial de Base (CEBs). Neste período filiou-se ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju. Em fins dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, passou a perceber que o STR estava sendo omisso em relação a chegada de diversos projetos agroindustriais que começavam a se fixar nestas terras, como projetos de dendê, coco, serrarias, criação de gado. Tais projetos começavam o processo de expulsão de lavradores de suas terras. Virgilio então organizou junto com outros homens um grupo de oposição sindical que terminou em uma eleição conturbada no ano de 1983, dando vitória a então ‘Chapa 2’, liderada por Virgílio.
De acordo com Petit (1996) os Sindicatos na virada da década de 1980 passaram por uma mudança de direção, tanto da cidade de Belém, como a dos Gráficos, dos Professores, como também as dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de vários municípios do estado paraense. As ‘Oposições Sindicais’ foram de fundamental importância para a tomada dos sindicatos para as ‘mãos dos trabalhadores’.
Em Moju, depois de terem criado a Oposição Sindical, já frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais , e eleito presidente no ano de 1984, tornou-se um marco de referência, pois visitava as localidades onde existiam delegacias sindicais, ou aquelas comunidades em que estivessem passando por conflitos agrários. Por conta dessa atuação recebeu ameaças de morte e sofreu duas prisões, a primeira em 1981, quando atuou na defesa da terra do seu vizinho Aldenor dos Reis e Silva, na comunidade do Sucuriju, que estava sendo pleiteada pelo senhor Valdivino, mais conhecido por Goiano. A segunda prisão ocorreu em março de 1984, por ordem do promotor público de Moju, Renato Maués.
Esta segunda prisão foi denunciada na imprensa paraense por dos jornais impressos, O Liberal e a Província do Pará. No primeiro, a reportagem dizia que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju, havia distribuído uma nota de solidariedade no dia 19 de março ao seu presidente, Virgílio Serrão Sacramento, que tinha sido preso por 25 horas. O fato tinha ocorrido no dia 29 do mês de fevereiro, quando de uma audiência entre o promotor e posseiros do município. A nota trazida a redação do jornal dizia que, Virgílio, baseado no artigo 2, letra A do Estatuto do Sindicato, e no artigo da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), manifestou-se em defesa dos posseiros e acabou sendo preso, sob acusação de desacato a autoridade (SACRAMENTO, 2012, p. 178).
No inicio da década de 1980, o líder sindical Virgílio Serrão Sacramento, já engajado em diversos movimentos sociais tinha uma participação ativa na vida política e social, principalmente em defesa dos trabalhadores rurais de Moju. Por isso sua prisão, visto de forma arbitraria por essas instituições. No caso da prisão, segundo informações dos jornais, o dirigente sindical havia discutido como então promotor de justiça, fato que o desagradou e deu a ordem de prisão pelo ‘desacato a autoridade’.
            Tal fato foi mostrado na reportagem do jornal A Província do Pará, onde a denúncia era mais incisiva, alegando que a prisão do líder sindical tinha sido arbitrária e ilegal, por que ali o sindicalista Virgílio estaria se manifestando em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais. O documento explicava ainda que tudo acontecera por que 150 moradores estavam correndo o risco de serem despejados de uma área, onde um “queixoso” estava reivindicando essa terra.
De acordo com o presidente do sindicato rural de Moju, a ação do promotor público se deu em função de ação judicial contra posseiros da região. Em uma audiência, ficou acertado que o queixoso iria indenizar cada posseiro com 150 mil cruzeiros, o que deveria ser feito no dia 29 de fevereiro. Acontece que após a audiência, os posseiros, sabedores de seus direitos sobre a posse, por estarem na área por mais de cinco anos, resolveram manter seus direitos, reconhecidos pelo próprio promotor. Como o queixoso não compareceu para cumprir o acordo no dia 29 de fevereiro, eles decidiram lutar pelo direito de posse. Nesta ocasião, o promotor público afirmou que os posseiros não tinham nenhum direito sobre a área, no que foi contestado por Virgílio, que na qualidade de presidente do sindicato, manifestou-se em defesa dos direitos dos posseiros, sendo interpelado pelo promotor, que perguntou-lhe qual seu grau de formação  para contestar sua informação. Não aceitando a representatividade de Virgílio como presidente de um sindicato de trabalhadores rurais, manteve o detido por desacato devendo processá-lo por isso.7

            Barata (1995) relata diversos casos de violência ocorridos no Pará na década de 1980. Para o autor, que reuniu reportagens de jornais e revistas, mostra que casos como de assassinatos no campo, expulsão de famílias, ameaças de mortes, prisões de forma ilegal de trabalhadores, colonos e lideranças sindicais foi uma constante, como o ocorrido com o sindicalista Virgílio Serrão Sacramento.
            No entanto, uma das principais ‘batalhas’ travadas pelo STR de Moju, tendo a frente o sindicalista Virgilio Serrão Sacramento, foi do episódio que ficou conhecido como “Os 44”. A questão envolveu o então vereador e grileiro de terra e acionista da empresa Reasa de dendê Edmilson Soares, que tentava se apossar de grandes extensões de terras, quando em um embate, com 44 homens de duas comunidades, Ipitinga e Curuperé no dia 07 de setembro de 1984 dispararam suas armas, espingardas, respondendo a um ataque feito pelo vereador e seus capangas, acertando a vitima e levando-o a falecer. O sindicato foi de fundamental importância na figura de Virgílio para a defesa dos lavradores (SACRAMENTO, 2009, p. 87).
Virgilio que nesse tempo estava a frente dos STR, ficou do lado dos trabalhadores rurais, os “44”. Foram presos em Moju e levados para Abaetetuba onde permaneceram por aproximadamente sete dias, sendo aos poucos liberados. Virgílio à frente fez contatos com a Sociedade de Defesa dos direitos humanos, além da própria Diocese de Abaetetuba para atuarem nas defesas (SACRAMENTO: 2012, p. 120).
Foram varias as frentes de luta que Virgílio tomou no município de Moju. Desde sua chegada no ano de 1976 até 1987. Mais de uma década depois, inclusive de ternascido o filho João Agnelo, logo na chegada a cidade mojuense, o sindicalista Virgílio com sua esposa Maria do Livramento, tiveram mais cinco filhos. Maria de Lourdes, Marlene, Ilene, Virgílio Júnior e Noemi, esta última nascida em outubro de 1986. Agora com onze filhos. Uma família grande e numerosa, mais muito unida por conta dos ensinamentos do pai e da mãe. Sua esposa afirma que o Virgilio conseguia algum tempo para cuidar da suas atividades agrícolas, como cuidar da pimenta, do café, da roça e também conciliar suas atividades enquanto líder sindical, viagens que fazia, como para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Xingu, e muitas dentro do estado do Pará.
            Mesmo deixando a presidência do STR em 1986 para o então jovem presidente Raimundo Aventino Valente Rodrigues, que havia sido apontado pelo ex-presidente o sindicalista continuou fazendo parte da direção, como delegado representante. Mas agora além do STR mojuense, já fazia parte também da direção da Central Única dos Trabalhadores da região Guajarina, do qual o município mojuense fazia parte, também da direção Estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) e em março de 1987 foi eleito membro da direção da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará e Amapá (Fetagri), quando da conquista pelos STRs de Oposição do estado do Pará.Neste caso, a vitória da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará foi um marco muito grande, pois representou a vitória das famosa Chapas 2, ou a Oposição sindical, em uma luta que se travou basicamente na década de 1970, mas se acentuou no inicio da década de 1980, levando a grande vitória da entidade representativa neste ano (PETIT: 1996, p. 148). Virgilio, que como já foi mencionado, tomou posse no dia primeiro de abril junto com outros dirigentes, no entanto cinco dias depois foi assassinado.
Assassinato e Impunidade
No dia 05 de abril de 1987, um domingo, ia acontecer uma Assembléia Geral do sindicato. Segundo sua esposa, Maria do Livramento,  encaminharem-se para sede do STR de Moju. Junto com o casal que seguiu na moto que este havia adquirido com o dinheiro da pimenta-do-reino, também levaram a filha menor, Noemi Diniz Sacramento, de 05 meses. O filho Dorival participaria do encontro, mais foi de bicicleta para a cidade.
            Lá participaram das discussões, e quando foi concluída a reunião, conversou mais um pouco com outros lavradores e as lideranças sindicais além do padre Sérgio Tonetto. Depois o casal retornou para sua casa para almoçarem. Era por volta das 13:30 horas. Foi quando chegou em sua casa que o sindicalista percebeu que tinha esquecido sua agenda na sede do STR e decidiu voltar para pegá-la e comprar o jantar. Retornando a sede do município, Virgílio pegou sua agenda, comprou peixes para jantarem e ao retornar para sua residência encontrou conhecidos do sindicato e da comunidade, além do seu filho Dorival que assistiam a um jogo de futebol em um campo que ficava na parte central da cidade.
Lá, assistiu também ao jogo por alguns momentos. Por volta já das 16: 00 hs resolveu retornar. Nesse momento foi seguido por um caminhão que se encontrava na beira do campo. Sem se preocupar com nada, seguiu sua viagem, até que quando estava a um quilometro de sua casa, iniciando a descida de uma ladeira, totalmente deserta, sem nenhum carro ou pessoa trafegando, o caminhão o atropelou. O choque do caminhão arremessou o sindicalista a certa distância tendo tempo de frear e logo em seguida continuar, acertando agora a vitima sem nenhuma chance de sobrevivência (BARATA, 1995, p. 556). A moto que também foi arremessada, praticamente nada sofreu. Maria do Livramento, sua esposa nos narra com muita emoção o fato.
Foi um choque pra todo mundo, um choque grande, que continua até hoje(pausa). Era um domingo, tinha uma Assembléia Geral. Ai nos fomos, eu, ele a Noemi que ainda era pequenininha.Nesse dia eu acho que tava marcado, não sei, fizeram aquele movimento acho pra acontecer isso.Ai foi o dia né,  na minha idéia teve um mandante, com certeza, pra acontecer isso, essa tragédia né..8 (Maria do Livramento).

A fala da senhora Maria do livramento relembra bem os fatos que ocorreram naquele dia, principalmente pela parte da tarde. Assassinatos de lideranças sindicais entre outros era uma realidade dolorida na Amazônia, principalmente no estado do Pará. A metodologia usada nos crimes era a da bala, do tiro. Assassinatos por encomenda. Sempre ficou a pergunta, o caso do Virgílio foi um acidente de trânsito ou assassinato?
Para os movimentos sociais, não havia dúvida, a morte do líder sindical era um crime de encomenda, visto que Virgílio havia enfrentado grandes projetos agroindustriais no município. Muitos donos desses projetos viam o líder sindical como uma ameaça, como alguém que fazia denúncias, que defendia os trabalhadores rurais. Comentava-se nos bastidores da sociedade local que este poderia concorrer a um cargo político na cidade mojuense, uma vez que nas eleições de 1986, este foi candidato a suplente de senador do então candidato Avelino Ganzer, no ano em que o Partido dos Trabalhadores no estado do Pará concorreu a diversos cargos.
Do local da morte do sindicalista, para o centro da comunidade onde este morava era de aproximadamente um quilometro, e naquele domingo a tarde, várias pessoas se encontravam na beira da estrada, conversando e foi quando ouviram o barulho do choque. Nesse momento, um desses moradores que estavam ali, era o senhor Francisco dos Reis e Silva, e como sua casa era próxima da lateral da pista, pediu a alguém de sua família que para pegar um papel e uma caneta pra anotar a placa do caminhão, fato que fez em seguida, apontando para o caminhão de carregamento de madeira bruta de numeração PT 1189, do município de Paragominas, mas que trabalhava para uma empresa de madeira, uma serraria do município de Tailândia.
Em Moju durante toda à noite e a manhã seguinte, o corpo do líder sindical Virgílio foi velado. Muitas pessoas passaram pela Igreja Católica para prestarem suas últimas homenagens. Alguns políticos estiveram presentes. Vários telegramas foram remetidos à família e ao STR mojuense. A solidariedade esteve presente para os familiares e dirigentes sindicais. As 11: 00 foi celebrada a missa de corpo presente por vários padres dos municípios da Diocese de Abaetetuba. No centro do altar da igreja foi colocado um cartaz com os seguintes dizeres “VIRGÍLIO – Nossa organização é fruto do que plantaste – OBRIGADO”. Em seguida, pelas ruas da cidade, em forma de protesto, a multidão que acompanhava o cortejo seguiu rumo ao cemitério, onde no caminho todos se revezavam para carregarem o caixão, como prova de agradecimento pelo derramamento do seu sangue. Um trecho de um canto era bastante entoado pelo povo, e que dizia o seguinte, “Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão”. (SACRAMENTO, 2012, p.187)   
            Em vários municípios do estado do Pará, a violência foi sempre extrema. É o caso por exemplo de Rondon do Pará e Anapu, no sudeste, regiões consideradas ‘sem lei’, uma vez que o estado ali se mostra completamente ausente , e que por conta disso diversas lideranças sindicais, religiosas e políticas foram assassinadas por tomarem posição em defesa dos lavradores, como dos sindicalista João Canuto e expedito Ribeiro em Rio Maria, José Dutra, o Dezinho em Rondon do Pará, Ademir Federicci, o Dema em Altamira, os deputados Paulo Fontelles e João Batista em Belém, Adelaide Molinari.em Eldorado dos Carajás e a mais recente vitima dessa cruel violência, a missionária Dorothy Stang em Anapu (SAUER, 2005, p.75 e106) .
Para Brelaz (1996), em uma publicação que marcou os dez anos do massacre de Eldorado dos Carajás, aponta algumas das principais causa pelo grande numero de violência no campo paraense. Para ele, a política intervencionista dos militares foi um dos atores fundamentais para tal acaso. O fator geográfico recebe destaque, uma vez que as distancias dentro do coração da Amazônia permitiam e ainda permitem grandes áreas de isolamentos, fazendo com que haja um acompanhamento maior das políticas publicas e de órgãos fiscalizadores por parte do estado, fazendo com que impere a lei do mais forte.
            No caso do sindicalista Virgilio, o jornal O Liberal, do dia 07 de abril noticiou a morte do líder sindical, afirmando que esta não poderia simplesmente ter sido um acidente, pois segundo as informações colhidas pelos trabalhadores rurais de Moju davam conta dessa situação. Segundo a reportagem que tinha ido colher informações sobre o caso, o sindicalista Virgílio, após participar de uma reunião, voltava para sua casa, quando foi atingido violentamente pelo caminhão de placa PT 1189, de Castanhal, e no momento do atropelamento não havia nenhum movimento na estrada, e o caminhão não desviou de algum obstáculo ou carro, ele simplesmente vinha atrás do Virgílio que vinha em sua moto. Sobre o velório, assim informou o jornal.
Ao velório e enterro de Virgílio, compareceu uma multidão de cerca de mil pessoas vindas das várias localidades do município e de outras cidades da região, inclusive de Belém. Eram representantes de sindicatos de trabalhadores rurais, da Comissão Pastoral da Terra e de outras entidades que assessoram os trabalhadores, alem da Central Única dos Trabalhadores, da qual Virgílio era tesoureiro da região Guajarina. Ele havia sido empossado semana passada como membro do Conselho Fiscal da Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetagri), depois de uma acirrada disputa onde a chapa de oposição conseguiu derrubar o ex-presidente, no cargo há 14 anos. Virgílio também era ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju e ocupava atualmente o cargo de delegado representante junto a Fetagri. 9

            Percebe-se nesta matéria do jornal, a repercussão da morte do sindicalista e as últimas homenagens feitas a ele pelos diversos movimentos sociais do qual este fazia parte entre outros. Vale lembrar, que três anos antes, no município de Tomé-Açu, da mesma microrregião, outro sindicalista havia sido assassinado. Benedito Alves Bandeira, morto no dia 04 de julho de 1984, com um tiro na cabeça. Ali houve uma comoção muito grande, sendo os três suspeitos presos pelo crime, e mortos pela população no final da tarde desse dia e respectivamente no dia seguinte, culminando com o linchamento dos três. Virgílio tinha ido para lá também. Agora era sua vez de ser velado e receber as homenagens dos ‘companheiros’.        
Após a morte, um inquérito policial foi aberto, uma vez que a prisão do acusado havia sido feito no município de Tailândia. No entanto, por ‘precaução’, o delegado de policia de Moju que ouviria o depoimento, resolveu pedir a transferência do acusado para Belém, onde este foi preso e em seguida liberado pra responder o processo em liberdade. O acusado não denunciou ninguém, uma vez que se manteve calado.  como noticiou o Jornal O Liberal, no dia 10 de abril.
O motorista que atropelou e matou o sindicalista Virgílio Serrão Sacramento, no último dia 05, em Moju, prestará depoimento, às 10:00 horas na delegacia do Interior. Osvaldo Camargo, cujo caminhão tem placa de Paragominas e não de Castanhal, como chegou a ser noticiado, presta serviços para as empresas madeireiras instaladas naquela região, o que reforça as suspeitas das entidades sindicais de que o atropelamento não foi acidental. Recentemente, Virgílio e os demais membros da direção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju fizeram uma série de denúncias a cerca da atuação das empresas na área e foram ameaçados. De acordo com os sindicalistas, o motorista já é conhecido nas redondezas pelas arbitrariedades que comete no trânsito.
           
            A informação prestada pelo acusado narrou apenas àquilo que os movimentos sociais já previam, de que este não denunciaria ninguém, prática comum nos crimes de encomenda contra lideranças sindicais, religiosos, advogados e outros. De acordo com os dados da Comissão Pastoral da Terra, dos 24 casos julgados que tiveram condenação por crimes no campo, apenas seis cumprem pena, os outros dezesseis aguardam novos recursos em liberdade (CPT: 2013), o que é uma vergonha e um convite para novos crimes de grilagem e expropriação da terra.

            Após a morte do sindicalista, a paróquia de Moju e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais lançaram um informativo falando sobre o assassinato. Em umas paginas, era mostrado o histórico do líder. Com a pergunta, Quem era o Virgílio, assim o pequeno jornal o caracterizava.
Lavrador, pais de família; era casado com dona Maria Diniz Sacramento. Onze filhos: José Dorival, Maria Dinalva, Edna do Socorro, Sandra Regina, Elias, João Agnelo, Maria de Lourdes, Marlene, Ilene, Virgilio e Noemi, de 4 meses. Nascido em Limoeiro do Ajuru-PA, em 1942, carregou a cruz da imigração em busca de uma terra prometida – um dos 40 milhões de brasileiros migrantes, estrangeiros em sua própria terra. Virgilio Passou dois anos em Almerim-PA, sete em Tomé-Açú, trabalhando inclusive como assalariado rural e finalmente chegou em Moju, onde conseguiu um lote de terra que prontamente documentou. Tinha realizado o seu sonho. “– Minha doença maior,  dizia a esposa é ver essa pelegada toda dentro do sindicato. Mas um dia tudo isso vai passar para as mãos dos lavradores”. E foi mesmo. A partir de 1979, junto a uma turma de companheiros, deu inicio a Oposição Sindical, que ganhou as eleições em março de 1983. ficou como presidente até o começo de 86, e atualmente era delegado do STR junto a Federação . tesoureiro da CUT Guajarina e membro efetivo do Executivo do Diretório estadual do PT, em fevereiro passado foi eleito membro do Conselho Fiscal da Fetagri. Realmente um companheiro comprometido com a classe trabalhadora e sua organização.” 10

            Virgilio, assim como tantos outros lideres sindicais assassinados no campo paraense ganhou respeito e admiração. Mas também ganhou inimigos, os fazendeiros, donos dos projetos agroindustriais, das indústrias madeireiras, dos latifundiários, dos grileiros. Caso do Virgilio e de tantos outros é emblemático. Sua percepção de vida, de mundo, de sociedade se difere dos que pensam a sociedade capitalista. Na Amazônia e mais especificamente no Pará, e mais ainda nas regiões sul e sudeste paraense esta tem sido uma realidade constante. Rezende (2012) descreve com propriedade esta realidade, tanto por seu engajamento na luta e defesa dos trabalhadores das duas regiões mais sangrentas do estado paraense, quanto por ter levantado um grande numero de informações que permitiram publicar diversos artigos e livros sobre a questão.

Considerações Finais

            Infelizmente para a família e o STR de Moju, o processo sobre a morte do sindicalista Virgilio, assim como tantas outras vitimas do latifúndio não seguiu adiante. Foi arquivado, mesmo com pressão dos advogados da Comissão Pastoral da Terra, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju, Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará entre outros movimentos. É muito provável que o poder do dinheiro tenha falado mais alto. Apenas o motorista, assassino foi condenado a uma pena de dois anos de prisão em regime aberto, um prêmio a impunidade.
            Como centenas de casos de violência praticados contra as lideranças e trabalhadores rurais no Brasil e na Amazônia e que ficavam sem solução, na maior parte por descaso das autoridades competentes, principalmente do Judiciário, a morte do sindicalista Virgilio acabaria entrando para somar a estas estatísticas, mesmo que a pressão existisse por parte dos movimentos sociais como da Fetagri-PA/AP, CUT, CPT, Fase, entre outros no Brasil, além de organismos de outros países, como a própria Anistia Internacional, a impunidade falou mais alto neste caso também, ficando os familiares órfãos e os trabalhadores rurais sem uma das suas principais lideranças.
            Vale lembrar que em 1985, o Brasil deus seus primeiros passos para a redemocratização do país. As forças que haviam governado o país por mais de vinte e um anos ficaram enfraquecidas. Neste período, do regime da Ditadura Civil-Militar, milhares de pessoas foram presos, torturadas, perseguidas e muitos desaparecidos. Basta ver os relatos no livro Brasil Nunca Mais (2011) para se ter uma noção dos diversos tipos de crimes cometidos contra aqueles que almejavam a volta da democracia no Brasil.
            No trabalho intitulado Retrato da Repressão Política no Campo, (CARNEIRO;CIOCCARI: 2011) nos apresentam alguns dados sobre a violência no campo no período da Ditadura-Civil Militar. Segundo o levantamento destes autores, aproximadamente 75 trabalhadores rurais foram vitimas dos militares. Entre eles, não está à figura do sindicalista Virgílio Serrão Sacramento.
No entanto, A Comissão Nacional da Verdade, Memória e Justiça da Central Única dos Trabalhadores do município de Santarém apresentou uma relação com vinte nomes de lideranças sindicais que foram mortos dos anos de 1980 a 1988. Entre os vinte, estava o nome do sindicalista mojuense. Montenegro (2011) em artigo publicado descreve a história de um sujeito perseguido durante o Regime Militar no estado de Pernambuco. Seu personagem, Luís Inocêncio, sofreu diversos tipos de violência por parte de donos de engenho da região, sendo preso e ameaçado de morte. Casos como este, como já mencionado neste trabalho foram comuns no Brasil, na Amazônia e no Pará. É importante ressaltar aqui, que, a luta e as denúncias também foram marcas que permanecerão por muitos anos na memória daqueles que sobreviveram frente a esse período.
Vale ressaltar, que muitos casos destas lideranças precisam ser investigados e analisados. No caso do sindicalista Virgílio Serrão Sacramento, sua memória tem ecoado na região. Depois de sua morte, ainda em 1987, uma Romaria da Terra foi realizada, tendo a presença de várias entidades no evento. A comunidade dos “44”, Ipitinga passou a ter seu nome. Por ocasião da celebração do seu décimo ano de seu assassinato em 1997, o STR de Moju também colocou seu nome em sua fachada. No décimo primeiro ano da celebração de sua morte, o então deputado estadual pelo Partidos dos Trabalhadores Miriquinho Batista apresentou o projeto que deu origem ao nome da Rodovia PA 252, ligando Moju ao município de Acará de Rodovia PA 252 Virgilio Serrão Sacramento. Também foi criado um assentamento no município de Barcarena lhe prestando a homenagem. Mais recente, por volta do ano de 2009 foi criada a Fundação Virgílio Serrão Sacramento de Educação de Moju, ONG fundada pelos familiares com a responsabilidade de trabalhar com jovens do campo do município mojuense. No ano de 2010, o então senador José Nery fez um discurso no Senado Federal prestando uma homenagem ao sindicalista.
A história não termina aqui, nem de Virgílio nem de outros, como do próprio Luís Inocêncio (MONTENEGRO: 2011), preso, torturado no estado pernambucano, muito menos de outros nomes assassinados no campo da Amazônia, Como Dorothy, família Canuto, Expedito Ribeiro, grande poeta, autodidata como a maioria, que mal tiveram uma educação formal, mas que aprenderam com a vida o verdadeiro sentido da partilha, da luta, da justiça por um mundo melhor. Mas também como do casal de extrativista, José Cláudio e Maria do Espírito Santo, esta última, tendo interrompido seu sonho de buscar a formação da educação no campo, no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Pará.

RFERÊNCIAS

ALMEIDA, Rogério. Pororoca pequena: marolinhas sobre a(s) Amazônia(s) de cá. Belém, 2012.

BARATA, Ronaldo. Inventário da violência: crime e impunidade no campo paraense. Belém: CEJUP, 1995.

BRASIL, Nunca Mais/ Arquidiocese de São Paulo: Prefácio de Dom Paulo Evaristo Arns. – 39 ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

BRELAZ, Walmir Moura. Os sobreviventes do massacre de Eldorado do Carajás: um caso de violação do principio da dignidade da pessoa humana. Belém: [s.n], 2006.
CARNEIRO; CIOCCARI , Ana & . Marta. Retrato da Repressão Política no Campo – Brasil 1962-1985 – Camponeses torturados, mortos e desaparecidos; – Brasília : MDA, 2011.
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. CPT: Conflitos no campo. Goiânia, 2013.BRASIL.

FIGUEIRA, Ricardo Rezende. Pisando fora da própria sombra: a escravidão por dívida no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

FIGUEIRA, Ricardo Rezende. Rio Maria: canto da terra. Petrópolis: Vozes, 1993.

MONTENEGRO, Antonio Torres. Ação trabalhista, repressão policial e assassinato em tempos de regime militar. In: Topoi, v. 12, n. 22, jan.-jun. 2011.

PEREIRA, Airton dos Reis. A Igreja Católica, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e o estado: Mediação e conflito na região Araguaia paraense. In:Ruris; volume 2 , número 2:| setembro de 2008.

PETIT, Pere.AEsperança Equilibrista:a trajetória do PT no Pará. São Paulo, Boitempo/NAEA, 1996.

SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva.Sao Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte, 2007.

SAUER, Sérgio. Violação dos direitos humanos na Amazônia: conflito e violência na fronteira paraense. Goiânia: CPT; Rio de Janeiro: Justiça Global: Terra de Direitos, 2005.

SACRAMENTO, Elias Diniz. A luta pela terra numa parte da Amazônia: o trágico 07 de setembro de 1984 e seus desdobramentos. Belém: Editora Açaí, 2009.

SACRAMENTO, Elias Diniz. As almas da terra: a violência no campo mojuense. Belém: Editora, Açaí, 2012.

SCHMINK & WOOD, Marianne & Charles H. Conflitos sociais e a formação da Amazônia [tradução de Noemi Myiasaka Porro e Raimundo Moura]. Belém: Ed. UFPA, 2012.

* Elias Diniz Sacramento. Doutorando e Mestre em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará. Professor Assistente de História da Amazônia da Universidade Federal do Pará – Campus Cametá/Tocantins.

** Doutorando em História Social pela UFF, Geografia Humana pela Universidade de São Paulo-USP, mestre e especialista em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí-UFPI, especialista em História Social e Contemporânea pela Universidade Cândido Mendes-UCAM, professor de história do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão-IFMA/Campus Açailândia. Líder do CLIO y MNEMÓSINE Centro de Estudos e Pesquisa em História Oral e Memória-IFMA. Pesquisador do Núcleo de Estudos em História Oral NEHO/USP e Grupo Trabalho Escravo Contemporâneo GPTEC/UFRJ.

1 Para mais informações ver conflitos no campo disponível em www.cptnacional.org.br

2 O município de |Moju está localizado aproximadamente a 100 quilômetros de da cidade de Belém

3 Sergio Tonetto foi padre de Moju nos anos de 1977 a 1987, quando utilizou a metodologia da Teologia da Libertação criando as CEBs no município. Faleceu em 2008 na Itália depois de receber o premioDireitos Humanos da Seccional da OAB do Pará.

4 Maria do Livramento Diniz Sacramento. Lavradora e viúva do sindicalista Virgílio. Entrevista realizada em 10/03/2006.

5 Maria do Livramento Diniz Sacramento. Lavradora e viúva do sindicalista Virgílio. Entrevista realizada em 10/03/2006

6 Sérgio Tonetto. Ex-pároco de Moju. FoiCoordenador da CPT da Região Guajarina do ano de 1988 a 2007. Faleceu na Itália em 2008. Entrevista realizada em 10 de agosto de 2006.

7 Jornal A Província do Pará. Presidente do Sindicato denuncia arbitrariedades. 20/03/1984. Fonte CPT Belém-PA

8 Maria do Livramento Diniz Sacramento. Lavradora e viúva do sindicalista Virgílio. Entrevista realizada em 10/03/2006.

9 Jornal O Liberal. Suspeita de homicídio no atropelamento. 07/04/1987. Fonte. CPT. Belém-PA

10 Informativo Lavrador é hora de levantar-se. Abril de 1987. Fonte: Arquivo pessoal.

11 Jornal O Liberal. Suspeita de homicídio no atropelamento. 07/04/1987. Fonte. CPT. Belém-PA

12 Informativo Lavrador é hora de levantar-se. Abril de 1987. Fonte: Arquivo pessoal.


Recibido: 07/09/2016 Aceptado: 01/12/2016 Publicado: Diciembre de 2016

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