Revista: CCCSS Contribuciones a las Ciencias Sociales
ISSN: 1988-7833


ANÁLISE SOCIOLÓGICA E ANTROPOLÓGICA DO JOPARÁ EM UM ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO COLETIVA: O JORNAL DIARIO POPULAR

Autores e infomación del artículo

Luciano Marcos dos Santos*

Regina Coeli Machado e Silva**

Instituto Federal do Paraná y Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Brasil

luciano.santos@ifpr.edu.br

RESUMO: O jopará, fenômeno linguístico caracterizado pela mistura das línguas guarani e espanhol, é comum em ambientes informais ou familiares no Paraguai, podendo ser observada na redação de jornais populares. Assim, este artigo apresenta uma análise de todas as matérias de todas as edições do mês de maio de 2011 do jornal Diario Popular, procurando discutir e entender a presença do jopará nesse contexto. A metodologia combina os estudos que observam os aspectos sociais e antropológicos, além do processo histórico responsável por manter em uso esta forma de linguagem. Os resultados mostram que no Paraguai, devido aos fatores observados, sobretudo sociais, a língua jopará, em comparação ao guarani e ao espanhol, ocupa uma posição inferior, quanto aos embates e lutas por representação, encontrando espaço nas páginas policiais do jornal analisado.
PALAVRAS-CHAVE: Jopará, Diario Popular, Processo Histórico, Páginas policiais,Aspectos antropológicos e sociais.

RESUMEN:  El jopara, fenómeno lingüístico caracterizado por la mezcla de los idiomas guaraní y español, es común en ambientes informales o familiares en Paraguay, y puede ser observado en la redacción de periódicos populares. Así, este artículo presenta un  análisis  de todas las ediciones del mês de mayo de 2011 del periódico Diario Popular, buscando discutir y compreender la presencia del jopara en ese contexto.  La metodología combina los estudios que observan  los aspectos sociales y antropológicos, además del proceso histórico responsable por mantener en uso esta forma de lenguaje. Los resultados muestran que em Paraguay, debido a los factores observados, sobretodo sociales, la lengua jopara, en comparación al guarani y español, ocupa una posición inferior, cuanto a los embates y luchas por representación, econtrando espacio en las páginas policiales del periódico analizado.
Palabras Clave: Jopara,Diario Popular, Proceso histórico, Páginas policiales, Aspectos antropológicos y sociales.

ABSTRACT: The jopara, linguistic phenomenon characterized by the mixture of Guaraní and Spanish, is common in informal and family settings in Paraguay, it can be seen in the writing of popular newspapers. This work presents an analysis of all news report of Diario Popular Newspaper  seeking for discuss the jopara presence in this context. The methodology combines studies that observ the  sócia land antthropological aspects, beyond the historical process responsable for maintaining the  usage of this form of language. The results demonstrate that in Paraguay, according to the factors, particulary social factors, jopara language, compared to Guarani and Spanish, occupies a lower position on the conflicts for representation, finding space on the criminal pages of the newspaper analyzed.
Key Words: Jopara, Diario Popular, Historial process, Criminal pages, anthropological and social aspects.



Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:

Luciano Marcos dos Santos y Regina Coeli Machado e Silva (2016): “Análise sociológica e antropológica do Jopará em um espaço de representação coletiva: o jornal Diario Popular”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, (octubre-diciembre 2016). En línea:
http://www.eumed.net/rev/cccss/2016/04/jopara.html

http://hdl.handle.net/20.500.11763/cccss201604jopara


1 INTRODUÇÃO    

            As fronteiras podem ser espaços que definem limites, que marcam a separação. A mobilidade das pessoas que cruzam as fronteiras entre países exige um trâmite burocrático no controle de entrada e saída. Essa ação, entre outras, é forma de reforçar a  defesa da segurança e evitar a entrada ilegal nos países fronteiriços, garantindo a soberania. Esta e outras ações porém, no que se refere aos aspectos sociais e psicológicos, acentuam e estabelecem diferenças, podendo gerar dúvidas e curiosidade em relação à cultura dos países fronteiriços. Esse artigo é fruto da minha observação, enquanto morador de uma região de fronteira, na cidade de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, a qual faz limite com Ciudad del leste, no Paraguai e Puerto Iguazu, na Argentina.
            A vida nessa região, dentre outras características, é marcada pelo contato com esses países, seja por passeios, visitas e compras realizadas nas cidades citadas, seja pela observação da presença de paraguaios e argentinos em Foz do Iguaçu, cotidianamente, no trânsito, nos postos de saúde, shopping … Desses contatos e observações, bem como minha formação em Letras, com habilitação em língua espanhola, minha atuação como docente de uma escola que recebe alunos paraguaios e minha curiosidade, conduziram-me a uma pesquisa que analisava a língua jopará, língua que mistura guarani e espanhol, no jornal Diario Popular.
Essa pesquisa apresentou como resultado a presença da língua jopará nesse contextocomo forma de classificação e distinção social, uma vez que seu emprego recai com maior frequência nas páginas policiais do jornal analisado. O resultado dessa pesquisa me instigou a ampliar a visão desse objeto e me leva agora a outra discussão que trata, em linhas gerais, dos embates e lutas por representação das línguas envolvidas na construção dos textos.
Esse artigo tem o propósito de apresentar uma discussão de cunho sociológico e antropológico, pensada a partir da análise de matérias do Jornal Diario Popular, mais especificamente das páginas policiais, uma vez que é justamente nessas páginas onde encontrei com maior ênfase o emprego da língua jopará,  sendo então um campo consistente para o que proponho.
A partir de uma pergunta inicial: por que o uso da língua jopará nas páginas policiais (?),como forma de delimitação, analiso o emprego das palavras: ñato (suspeito) e karai (homem), palavras de destaque na seção estudada, encontradas com muita frequência nas matérias. As matérias são todas as edições de maio de 2011. Oriento-me em entender e discutir essa prática, observando os meios de produção desse discurso, ou seja, os aspectos sociais envolvidos na redação das matérias, neste campo social; e como não há língua sem memória, discuto os aspectos históricos que levaram à permanência do guarani e do jopará até os dias atuais, sendo que o guarani “puro” torna-se valorizado, porém o jopará, língua mesclada,  torna-se inferior.
Diante desse quadro faz-se necessário uma análise, de cunho interdisciplinar, pois o objeto investigado se mostra uno e diverso, não devendo ser entendido somente com base em um campo do saber. Nessa análise estudo o uso dessa língua relacionado aos aspectos sociais, uma vez que envolve relações de força e lutas por representação, sendo esse o cerne da análise, mas ainda, de forma complementar, atenho-me a entender seu uso, levando-se em conta os aspectos históricos de formação das línguas, com especial atenção ao seu papel na construção do Estado-Nação, por meio de políticas de valorização das línguas guarani e espanhola, símbolos nacionais, em detrimento do jopará.
Na análise considera-se o jornal como espaço de representação coletiva, onde as ações que envolvem as  línguas estudadas (redação dos textos em jopará nas páginas policiais de um jornal popular e não em espanhol ou guarani “puros”), sendo parte do universo social e portanto formado por trocas simbólicas, bem como o ato de comunicar uma ação social, tendo os seus discursos valor e poder. Não obstante, sendo espaço de interação, implica em relações de força simbólica. Esse estudo se apoia, entre outros referenciais, na teoria de Pierre Bourdieu, mais especificamente no que trata das trocas simbólicas.  
Segundo Bourdieu (1996), o discurso deve sempre suas características mais importantes às relações de produção linguísticas nas quais ele é produzido. O signo não tem existência (salvo abstrata, nos dicionários) fora de um modo de produção linguístico concreto. Todas as transações linguísticas particulares dependem da estrutura do campo linguístico, ele próprio expressão particular da estrutura das relações de força entre os grupos que possuem as competências correspondentes (ex.: língua "polida" e língua "vulgar" ou, numa situação multilinguística, língua dominante e língua dominada). Essa atualização concreta ocorre em diversos domínios sociais e está relacionada às suas condições de produção nos diversos domínios. O Paraguai se caracteriza por ser um país de formação cultural mestiça, sendo sua língua um exemplo. Foz do Iguaçu, cidade brasileira que faz fronteira com o Paraguai,  se caracteriza pela diversidade linguística, haja vista a localização na fronteira com dois países hispanofalantes e a presença de outras comunidades linguísticas no município, entre asiáticos, árabes e europeus.
            Meu interesse inicial pelo tema investigado é fruto, também, de minha formação em letras, com especialização em língua espanhola, o que em parte justifica essa pesquisa, não obstante, a relevância do tema, uma vez que  há lacunas e espaço para discussão sobre esse tema, ainda de pouca visibilidade acadêmica, em vista da escassa bibliografia.     
           
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
 
2.1 Poder simbólico

            O uso da linguagem se constrói no âmbito social, na medida em que o eu e o outro, presentes no ato de comunicação, estão em um processo contínuo e histórico de formação das personalidades, se faz necessário, para a consolidação do referencial teórico deste estudo, as pesquisas de Pierre Bourdieu sobre a linguistica, mais especificamente no que se refere à língua e os diferentes sentidos que as palavras podem receber em relação ao seu uso nos diferentes campos sociais, bem como o poder simbólico.
As pesquisas de Durkheim que visavam elaborar ciência, sem empirismo e apriorismo, servem de referencia às pesquisas de Pierre Bourdieu pois ele ve nestas pesquisas o passo inaugural de uma “sociologia das formas simbólicas”.
Segundo Bourdieu, Durkheim afirma que a função social do simbolismo é política, não se realizando a função de comunicação.

“Os símbolos são instrumentos por excelência da ‘integração social’: enquanto instrumentos do conhecimento e de comunicação (cf. a análise durkheimiana da festa), eles tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração ‘ilógica’ é a condição da integração moral’.” (Bourdieu, 1989:10)

As funções políticas que os sistemas simbólicos apresentam são enfatizados por Bourdieu. Para ele os símbolos seriam produzidos para servir à classe dominante.

“As ideologias, por oposição ao mito, produto coletivo e coletivamente apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto do grupo (…) Este efeito ideológico, produz-lo a cultura dominante dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário da comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante.” (Bourdieu, 1989: 11)

            Bourdieu confronta a teoria saussuriana das condições de possibilidade da intelecção (isto é, a língua) chamando a atenção para  questão das condições sociais de possibilidade da produção e da circulação linguísticas. De seus estudos depreende-se que o discurso deve sempre suas características mais importantes às relações de produção linguísticasnas quais ele é produzido. As palavras não têm existência (salvo abstrata, nos dicionários) fora de um modo de produção linguístico concreto.  Os signos linguísticos também são responsáveis por nomear coisas, pessoas e ações.
Ele irá afirmar que todo ato de instituição não passa de um ato inaugural de nomeação: “Instituir a alguém um nome, ou melhor, uma essência social”  (BOURDIEU, 2008: 100).  E ainda, o ato de instituição é um ato de comunicação de uma espécie particular: ele notifica a alguém sua identidade, quer no sentido que exprime e impõe perante todos, quer notificando-lhe assim como autoridade o que esse alguém é, e o que deve ser. (Idem, Ibidem: 101). Os atos sociais instituídos são capazes de estabelecer as diferenças. O título de doutor confere a uma pessoa autoridade que irá exercer sobre os demais. Este poder simbólico se estabelece pelos agentes sociais, ou seja, as pessoas fazem representações de si mesmas e dos outros, atribuindo-lhes valores distintos, regulados pelo poder simbólico que possuem.
O conceito de região é discutido por Bourdieu, que verifica nos atos sociais o estabelecimento das divisões e cisões de grupos que vivem em algum tipo de sociedade. As classificações dos grupos segundo sua etnia ou segundo a maneira como se expressam por meio da fala ou da escrita estabelecem uma forma de classificação tanto por quem as atribui quanto por quem as aceita. As pessoas fazem representações mentais de quem são ou de onde vêm, por meio dos atos sociais. Desenvolvem um  senso de pertencimento a um grupo social específico. Uma criança que nasce em determinada comunidade e vive nela toda sua vida irá desenvolver os hábitos desta comunidade, se expressará como os membros desta comunidade, carregando consigo os traços formadores de seu caráter, sua língua, seu sotaque e sua forma de se mostrar ao mundo segundo o que foi pré-estabelecido desde o ato de seu nascimento. Falar  jopara é próprio de um grupo social que se reconhece nesta prática e que igualmente é reconhecido por ela.
A tese desenvolvida por Bourdieu de que as palavras descrevem e prescrevem, de que têm capacidade de “produzir ou reforçar simbolicamente a tendência sistemática para privilegiar certos aspectos do real e ignorar outros” (BOURDIEU, 2008: 125), constitui-se como um importante instrumento teórico para essa investigação, no sentido que nos dá condições de entender o poder simbólico constituído pelas palavras (a eficácia simbólica da linguagem na construção da realidade).
Para entender a presença da língua guarani, misturada ao espanhol,  nas redações dos títulos analisados nas matérias do Jornal Diario Popular, é necessário entender a diversidade linguística que marca a formação cultural e social desse país, tendo suas línguas importante função no processo de constituição do Estado-Nação.  O Estado, no que tange aos aspectos políticos e geopolíticos e a Nação em sua unidade étnica e cultural, que no caso do Paraguai, implicou em ações que visavam o controle e a unificação por meio de uma política de valorização de línguas “puras” (guarani e espanhol) símbolos nacionais, ensinadas nas escolas, empregadas em atividades “sérias”, como leis e redações de jornais de referência, entre outras inúmeras que fazem parte da vida.

2.2 História e memória: As línguas do Paraguai.
           
            O Paraguai é certamente o único país da América na qual uma língua indígena, o guarani, permanece até os dias atuais como língua oficial. Os originários falantes da língua guarani, os povos indígenas do tronco tupi-guarani, não sobreviveram ao seu próprio idioma. Na atualidade existem alguns poucos núcleos de população indígena, numericamente muito reduzida em algumas regiões de Corrientes na Argentina, que assim como o Paraguai, ainda o faz, os mestiços se serviam do guarani como língua oficial. Claro que ao longo de sua história o guarani paraguaio sofreu alterações, mas aqui cabe salientar que se trata  de uma língua derivada do guarani autóctone, com vários graus de hispanização.
            Com tudo isso, a situação paraguaia é muito diferente da que se dá em outras regiões da América onde em maior ou menor grau também se mantiveram o uso de línguas autóctones. Conforme Meliá (1992), no caso do guarani do Paraguai esta sobrevivência está ligada, quase sempre, a precária identidade cultural de uma comunidade indígena em vias de extinção, se bem que ainda sejam numerosos os falantes. No Paraguai, as circunstancias históricas não foram desfavoráveis para o povo originário da língua guarani quando este entrou em competição com o espanhol. Desde o início do conflito linguístico, o guarani levou vantagem devido ao número relativamente baixo de conquistadores  e colonizadores espanhóis.
            Conforme Meliá (1992), os jesuítas criaram uma base importante para a sobrevivência da língua e sua recuperação atual. Nas reduções jesuíticas, a evangelização se fez exclusivamente em guarani, seguindo uma estratégia de isolamento que criava uma barreira linguística para minimizar as incursões dos bandeirantes. O emprego da língua “pagã” na cristianização não só pressupunha um intenso estudo do guarani tribal, por parte dos jesuítas, como também agregava a ele um número grande de neologismos indispensáveis para a catequese. Meliá (1992) ainda aponta como errôneo em se pensar que existia somente um guarani, o clássico, das obras jesuíticas, e destaca a diferença entre língua escrita e falada.
                                                  
Existe la tendencia de considerar la lengua guaraní de los jesuitas como um todo único, un bloque sin fisura. Ese guaraní 'clásico' sería el que se encuentra en las obras incomparablemente ricas del padre Antonio Ruiz de Montoya. (...) No se puede identificar la lengua escrita con la hablada, y menos aún una literatura casi exclusivamente religiosa con el idioma de uso común. En la lengua de los jesuítas, otro hecho había de venir a ensanchar labrecha entre lengua escrita y lengua hablada: el corpus literario en la lengua guaraní que se conoce hoy se compone en gran parte de obras escritas por extranjeros, cuyo conocimiento de la lengua era por demás 'científico' y poco espontáneo” (Melià, 1992: 107 -108).

            Meliá (1992) aponta para a formação da língua guarani atual, que se dará pela profunda impregnação do adstrato espanhol. Sua consolidação está ligada ao surgimento do campesinato mestiço, que mesmo se culturalmente espanholizado, não abandona sua língua própria, no caso o guarani. Desde a sua origem, guarani e espanhol formaram a identidade do povo paraguaio e se mantêm em uso diário, muitas vezes mescladas, produzindo o fenômeno do jopará.
Jopará é o vocábulo de origem indígena traduzido por Guash & Ortiz1 ao espanhol como “a medias, medianamente” e “mezcla, mezcolanza”. É também o nome de um prato culinário típico, constituído principalmente pela amálgama de dois ingredientes: o milho, americano, e o feijão, não-americano. Originando-se disto a metáfora, a juntura do elemento nativo com a do elemento estrangeiro, escolhida pelos falantes para designar a mistura das duas línguas.
            Segundo Meliá (1992), o jopará não se trata de espanhol com empréstimos do guarani, se não, guarani com empréstimos do espanhol. Desde o período de colonização este fenômeno ocorre e faz parte da cultura paraguaia.
            Gynan (2003) destaca que os falantes de espanhol e guarani sabem perfeitamente distinguir as duas línguas e o fato de mesclarem os dois idiomas é algo que se valem em vários contextos sociais, justamente por poderem contar com os recursos léxicos destes idiomas.

3 ANÁLISE DE REPORTAGENS DAS PÁGINAS POLICIAIS ESCRITAS EM JOPARÁ

   O jornal Diario Popular é uma publicação diária e apresenta em seu  conteúdo notícias diversas. É  dividido em cadernos que enfocam notícias internacionais e locais, um caderno para crianças, um para esportes e outro para notícias policiais. O que chama a atenção no jornal são as fotos de capa, que geralmente trazem mulheres em poses sensuais e com pouca roupa. As reportagens estão escritas, quase em todas as seções, em espanhol misturado ao guarani, ou melhor dizendo, em jopará.Na sequência observaremos alguns trechos das matérias, os quais serão analisados.

1- Vecina macheteó a ñato por su cara (Diario Popular, 5973, 20 jun. 2011, p. 2.)

Algumas palavras são utilizadas para descrever os agentes do sexo masculino. Muitas matérias trazem os nomes das pessoas envolvidas e na sequência da narrativa do fato, no lugar do nome, são utilizados termos que os definem.
            Em alguns casos, o termo ñato é empregado para designar o homem envolvido em algum tipo de confusão, já que, ñato significa suspeito. A palavra ñato tem dentre seus significados: feio, perverso, suspeito.  O sentido empregado na matéria indica alguém que praticou algum ato ilegal.
            A língua guarani guarda uma riqueza dramática e, como Gynan (1996) apontou, o guarani é uma língua do cotidiano, da expressão dos sentimentos, do amor e até mesmo do sarcasmo. Percebemos que na matéria o termo ñato adquire esse valor de expressão sentimental, uma vez que o termo em guarani indica claramente um sentimento de revolta quanto ao ato dos sujeitos. Porém, em sua dupla função de nomear e classificar, segundo os valores envolvidos no contexto da situação, a matéria coloca “dos ñatos armados com revólveres” em oposição a um “trabalhador” que acabava de receber seu salário. Ñato está associado a homens que roubam com violência.
            Outra palavra empregada para descrever o agente do sexo masculino é Karai.

2- […] El Karai explicó que durante la búsqueda encontró restos del vacuno [] (Diario Popular, 5981, 28 jun. 2011, p. 6.)

            A palavra karai empregada com muita frequência  tem dentre os seus significados:  homem, senhor, sagrado, batizado, dono, amo. Karaí em língua indígena significa curandeiro, ou uma pessoa muito espiritualizada capaz de realizar longas peregrinações. Os espanhóis, como fizeram uma grande peregrinação para chegar à América,  passaram a  ser chamados pelos guaranis de “karai”. Quando alguém é batizado se emprega o termo “oñemongarai” que significa civilizado, ou seja, o caminho para se fazer civilizado era o batismo.
           
Al llegar los españoles por el río Paraguay a lo que hoy es Asunción, ellos fueron bien recibidos por los varios guaraníes. Estos habitantes originarios al comienzo, les dieron el nombre karaí que se aplicaba a personas o cosas sagradas; fue a la vez la designación para cristianos referente a su religión. Pero pronto, al cambiar el comportamiento de los españoles, el término se llenó de ambigüedades. Pues, más adelante a medida de las contradicciones en el proceso colonial, éste término karaí y con él el de cristiano y más adelante también el de bautizado, perdió su significado original y se llenó de desprecio...”  (Melia, 1986:29)

            A palavra karai do guarani indica a polissemia das palavras. O significado inicial da palavra é subvertido e ressignificado dependendo do contexto de uso, dependendo das intenções dos atores envolvidos no contexto. Chartier (1998)  chama a atenção para o controle que há por parte de quem escreve e quem edita, pois cada um deles já tem em mente ou destina seus escritos para determinado público, em outras palavras, o autor indica que existem lutas no campo intelectual pelo monopólio e controle daquilo que forma uma cultura. Apesar disso a leitura e o seu agente, o leitor,  tem papel preponderante, pois como afirma o autor “a leitura é, por definição, rebelde e vadia”. O leitor subverte o pré-determinado, pois fica a seu cargo dar o significado, ou significados. As obras, por mais extensas e determinadas, no que se refere ao seu conteúdo, ainda assim, não  tem sentido universal, estático.
            Bourdieu (1983)  nos mostra através do seu estudo é que os múltiplos sentidos que uma palavra tem, estão relacionados às múltiplas formas que os usuários fazem desta palavra. A importância de determinadas palavras em um contexto será regulada pelo poder simbólico de quem faz o seu uso. Os jornais são instituições autorizadas ao uso das palavras, reproduzem o habitus 1das classes sociais a quais são direcionados.
            A escolha de palavras não é aleatória, ela tem força na relação fora do campo do discurso, nas condições sociais, nos grupos sociais. O grupo a que me dirijo me permite ou não dizer esta ou aquela palavra, usar señor ou karai ou ñato para descrever o sujeito suspeito de algum ato ilícito.  A forma de apresentar uma ideia implica na escolha das palavras, em caso de ambientes bilíngues como no Paraguai, em que idioma ou variante. As matérias analisadas mostram, que para os assuntos “sérios” utilizam  o espanhol, para assuntos que envolvem afetividade empregam o guarani e para assuntos que empregam o cômico, o informal ou de mau gosto, segundo os parâmetros do jornalismo de referência, empregam o jopará.
            Desde os estudos de Durkheim já percebemos o poder coercitivo da sociedade nos atos dos agentes sociais. As sociedades tendem a estabelecer padrões de conduta moralmente e socialmente aceitos. Há uma disposição geral à unificação e padronização da arte, móveis, roupas e a linguagem. Esta padronização estabelece o que é de bom gosto e o difere do que é popular. A linguagem, por exemplo, popular é a que está repleta de gírias, jargões, ou seja, não é erudita. Os móveis populares são aqueles mais rústicos no acabamento e as roupas da mesma forma. Os órgãos reguladores dos valores monetários estabelecidos aos bens móveis são regulados pelo sistema financeiro. Móveis e roupas de determinada grife são mais caros que os de outra. São legitimamente melhores, superiores. A linguagem também segue este sistema. A língua legitima é a língua dos livros didáticos e gramática diz que o correto é : Dá-me um lenço. Conquistar os móveis, roupas e linguagem  legítimos é conquistar capital.
            Bourdieu dirá que as classes dominantes e a educação formal são responsáveis pela imposição e legitimação de determinados aspectos da cultura, música, língua, artes. Todo ato de produção cultural implica a afirmação de sua pretensão à legitimidade cultural (BOURDIEU, 1998: 33). Buscando a legitimidade os jornais populares costumam ser mais conservadores e reforçam valores dominantes. Nas páginas do Diário Popular encontramos temas que pretendem “agradar” o público leitor, uma vez que, o jornal é uma empresa e visa o lucro. Na tentativa de falar do universo do leitor é que se insere o uso do jopará, o que não ocorre com outras publicações como o jornal Ultima Hora.
            O Paraguai é um país subdesenvolvido e apresenta desigualdade social. Os valores tradicionais, tais como o homem como provedor da família e a mulher em posição subalterna persistem. A educação formal privilegia o ensino da língua padrão nas escolas e na literatura culta o uso do espanhol prevalece. Esta desigualdade social existente mostra que há  uma sobreposição de classes. A classe com maior poder aquisitivo e poder simbólico impõe seu modo de vida e pensar. A língua de maior poder simbólico é o espanhol, sendo o guarani e a variação jopará a língua do povo inculto.
             Enquanto o jopará, como percebemos, é língua que demarca distinção social, uma vez que serve de forma de expressão empregada por um jornal de linha editorial popular, por outro lado a língua guarani “pura” não se restringe a essa ou aquela parcela da população. Falada por grande maioria da população, foi e é valorizada por parte da elite.
            Em 1967, durante o governo de Alfredo Stroessner, o guarani passa a ser língua oficialmente referendada, embora fosse mantido o castelhano como única língua oficial. Em 1992 a nova Constituição, pós-stroesnista, afirmou a condição do Paraguai como nação bilíngue, estabelecendo o guarani e o castelhano como línguas oficiais e determinando a obrigatoriedade do ensino em língua materna. Essa ação contribui para na construção do Estado.
            Segundo Bourdieu (1996)  o Estado é resultado de um processo de concentração de diferentes tipos de capital, os quais englobam as forças físicas, aspectos econômicos e culturais, fornecendo a ele um poder de coerção e imposição, que por meio de leis e campanhas, regulam e classificam práticas sociais, tais como o uso das línguas guarani e espanhola restritos aos espaços de uso de línguas oficiais e a marginalização da língua misturada, jopará, relegada aos ambientes de informalidade ou sem capital simbólico.
            Para discutir o uso do jopará nos títulos das matérias do caderno sucesos é necessário entender que o jornal Diario Popular assume a postura de jornal sensacionalista, de forma intencional, já que os profissionais que trabalham em órgãos da imprensa, possuem capital simbólico, são formados em jornalismo, portanto apropriam-se de uma forma de falar (o jopará é uma língua sem regras e portanto de tradição oral),adaptada ao texto escrito,  que não deixa de ser deles, mas que se restringem a certos ambientes, o fazem com intenção de persuadir o leitor a comprar suas edições e dessa forma gerar lucro.
           

CONSIDERAÇÕES FINAIS

            O resultado desta pesquisa não me aponta conclusões definitivas sobre o guarani, espanhol e jopará. Apenas indica caminhos de interpretação da presença do jopará, língua, considerada como a terceira do Paraguai por alguns pesquisadores e estudiosos e como uma variação linguística por outros. Considero esta língua uma expressão e das relações entre diferentes grupos sociais, resultante e parte de um processo histórico. Trata-se da língua empregada por uma parte significativa da população que a usa em sua vida cotidiana, sendo dessa maneira responsável pela constituição da memória coletiva.
A visão do cotidiano apresentada nas narrativas não é inventada, senão vivida por todos, em outras palavras o que quero dizer é que a língua empregada na redação das matérias analisadas,  é uma língua viva, de quem vive um contexto dinâmico, como esse que envolve as transformações da língua no Paraguai.
O jopará sobrevivea todo o processo de marginalização que sofre, mesmo não tendo a representatividade positiva em termos de valor simbólico, no universo linguístico paraguaio. Essa língua, falada por uma grande parcela da população, não chega aos livros estudados na escola, não é empregada para defesa e acusação no tribunal por advogados, quando muito é utilizada em discursos por algum candidato a um cargo político. Através de um personagem, é considerada uma língua tavy, de débeis mentais, como aparece no romance de Augusto Roa Bastos. 
O que pretendo mostrar, com base no que observo, através desta análise  é que no Paraguai há um mercado linguístico que regula o lugar de cada língua em posições de hierarquia, sendo que o espanhol “puro” é a língua da elite cultural e da administração, a língua guarani “pura” é a língua dos sentimentos pátrios, a língua da terra, mas também é a língua que representa o índio, o inculto, a língua da pobreza. Em terceiro lugar neste mercado temos a língua jopará, língua híbrida, sem lastro que a sustente como língua oficial. 
Este mercado linguístico a que me refiro é fruto das representações coletivas, numa perspectiva durkheimiana. Por isso mesmo, sua manifestação se dá de uma maneira que não pode ser percebida conscientemente. O fato de mascararem relações de poder não lhes retira a capacidade de traduzir tanto a visão do dominado quanto a do dominador. A língua jopará, como língua não oficial, ocupa neste mercado a posição inferior, pois não é nem espanhol nem guarani.

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* Professor do IFPR.(Instituto Federal do Paraná). Aluno regular do Doutorado em Sociedade, Cultura e Fronteiras.

** Professora da UNIOESTE (Universidade Estadual do Oeste do Paraná). doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/Museu Nacional (1999) e pós-doutorado em Antropologia pela Universidade Nacional de Brasília(2006).

1 [...] um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações – e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas [...] (Bourdieu, 1983: 65)


Recibido: 15/09/2016 Aceptado: 13/12/2016 Publicado: Diciembre de 2016

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