Revista: CCCSS Contribuciones a las Ciencias Sociales
ISSN: 1988-7833


GIBITECA COMUNITÁRIA: ESPAÇO CULTURAL COMO VETOR DE DESENVOLVIMENTO LOCAL

Autores e infomación del artículo

Djmes Yoshikazu de Lima Suguimoto

Maria Augusta de Castilho

Thiago Andrade Asato

Universidade Católica Dom Bosco, Brasil

djmessuguimoto@hotmail.com

Resumo

O homem sempre foi produto de sua época, portanto cria-se e moldam-se vontades conforme o período em que se vive. Necessitam-se respostas rápidas para as mudanças que ocorrem em um cenário de informações instantâneas acessadas por inúmeros tipos de aparelhos eletrônicos. Entretanto, ainda hoje existem pessoas sem acesso a informação, comunicação ou educação. O propósito central deste trabalho é abordar a importância da biblioteca pública como espaço integrador entre indivíduos, possibilitando o seu desenvolvimento e de seu território. Paralelo a esse objetivo, buscou-se também avaliar o trabalho social da Gibiteca-mais Espaço de Cultura como condutor de desenvolvimento local para a comunidade do Jardim Seminário, em Campo Grande – MS. Para tanto, foram realizadas visitas periódicas na referida biblioteca, além de entrevistas com os mantenedores do projeto e moradores do local.

Palavras-chave: Espaço cultural, Desenvolvimento Local, Inclusão social, Gibiteca, Território.

Abstract

Men and women have always been a product of their time, so they create and shape their wills according to the time they are living in. Quick answers are needed to the changes happening in a scenary of instantaneous information accessed by inumerous kinds of eletronic devices. However, there are still people without access to information, communication or education. The fundamental purpose of this work is to approach the importance of public libraries as integrating spaces among individuals, making their own development and the development of their territory possible. Parallel to this goal, it was also sought to evaluate the social work of the comics library- Mais Espaço de Cultura as a conductor to local development in Jardim Seminário neighborhood, in Campo Grande – M.S. Therefore, periodic visits and interviews with the maintainers of the project and with the local people were made.

Key words: Cultural space, Local development, Social inclusion, Gibiteca, Territory.



Para citar este artículo puede uitlizar el siguiente formato:

Djmes Yoshikazu de Lima Suguimoto, Maria Augusta de Castilho y Thiago Andrade Asato (2015): “Gibiteca comunitária: espaço cultural como vetor de desenvolvimento local”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, n. 30 (octubre-diciembre 2015). En línea: http://www.eumed.net/rev/cccss/2015/04/gibiteca.html


Introdução

O processo de alfabetização de todo indivíduo, que compreende a aprendizagem de ler, escrever e interpretar deve ser um direito fundamental, porém nem toda criança tem acesso ao sistema educacional e ainda há muitas delas que iniciam este processo tardiamente, dificultando a compreensão do ensino-aprendizagem do letramento.
Projetos sociais que têm como valores a cultura e a educação são exemplos de ações de cidadania, principalmente quando desperta na criança o interesse pelo saber por meio de atividades lúdicas e culturais.
Aborda-se neste trabalho a Gibiteca, espaço cultural localizado em Campo Grande – Mato Grosso do Sul, local idealizado e administrado pelo gestor Ronilço Cruz de Oliveira, morador do bairro, e gerenciado pela pedagoga Roseli Rodrigues de Almeida. Ambos estão diretamente ligados as atividades oferecidas nesse ambiente multicultural. A Gibiteca oferta aos seus frequentadores um lugar democrático com livros, gibis, acesso à internet, atividades lúdicas, oficinas de artesanato entre outras, que acabam convertendo-se em benefícios para a comunidade local.
O estudo foi desenvolvido por meio de método indutivo, com embasamento teórico sobre bibliotecas públicas, e aspectos do desenvolvimento local. Para se ter um conhecimento concreto da realidade pesquisada realizou-se observações in loco (estudo de campo), bem como a realização de entrevistas estruturadas com a pedagoga e com o gestor da Gibiteca. Por outro lado, foram aplicados questionários aos usuários (comunidade local), para verificar como o espaço atende seus frequentadores.

1. Bibliotecas públicas e desenvolvimento local

A leitura e a reflexão são ferramentas indispensáveis para a construção de sujeitos capazes e independentes. Desse modo têm-se pessoas pensantes capacitadas a ter uma vida digna. Bueno et al.(2006, p.2), justifica que: “o ato de ler envolve o processo de saber fazer uso da leitura e da escrita para as funções sociais, em que o indivíduo tem capacidade de questionar e usar as informações que capta do mundo nas suas práticas diárias”.
Da mesma forma, Ferreira e Dias (2002, p.40) advogam que: “ao ler, o indivíduo constrói os seus próprios significados, elabora suas próprias questões e rejeita, confirma e/ou reelabora as suas próprias respostas”. Contribuindo ainda mais para esse raciocínio Ferreira e Dias (2002) acreditam que somente com a leitura e a escrita o sujeito é capaz de transformar suas relações com o mundo, adquirindo a prática da reflexão e permitindo vislumbrar o mundo de forma diferente.
Ambiente salubre com rico acervo tanto físico, como tecnológico proporciona aos jovens e adultos, condições para que modifique sua capacidade de compreensão das várias dimensões da cultura. Ademais, as bibliotecas caracterizam-se como espaços em que as pessoas criam confiança sendo esse um dos fatores primordiais para existir a cooperação. Contribui ainda como catalizador necessário para aglutinar os indivíduos ocupantes no mesmo território. Alves et al. (2014, p. 85) endossa a ideia acima empregada, afirmando que “o espaço físico de uma biblioteca também é um fator importante, pois de nada adianta tantas atividades em mente, sem um suporte físico que as coloque em prática. [..] As leituras e mediações diversas precisam ser feitas em um ambiente confortável”.
Percebe-se que não só as bibliotecas públicas são necessárias, mas sim todas aquelas que possam oferecer benefícios aos seus usuários. Côrte e Bandeira (2011, p.8) definem bibliotecas escolares como “um espaço de estudo e construção do conhecimento; cooperam com a dinâmica da escola, despertam o interesse intelectual, favorecem o enriquecimento cultural e incentivam a formação do hábito da leitura”.
Barreto et al. (2008, p.31) acrescentam a seguinte afirmação sobre esses locais:

Do ponto de vista da inclusão social na sociedade da informação, as bibliotecas públicas podem dar decisiva contribuição, estando ela em posição privilegiada, tornando a informação e a cultura acessíveis a todos, independentemente de suas possibilidades financeiras e de suas capacidades.

A ideia de Bueno (2006) apresenta a importância dessas atividades para a formação cognitiva das pessoas, reforçando a relevância dos locais pouco valorizados pelo poder público e privado, e tão essencial para o espaço que ocupa em seu território. Barreto (2008, p.30) aponta para o lampejo no caminho da teoria de DL, assinalando que é preciso:

Dar ás bibliotecas a devida estrutura não é só papel dos governantes; passa também pela formação de espírito crítico por parte da comunidade, que deve exigir serviços e responsabilizar-se por eles. A ausência de espírito crítico é oriunda da falta de acesso e uso da informação, e, assim, o ciclo é vicioso e permanece.

Esta autora aponta que a própria comunidade precisa também mobilizar-se em busca desse patrimônio que favorecerá os atores locais, mas faz ressalvas quanto a sua falta, uma vez que se aborda o sistema educacional brasileiro.
As bibliotecas públicas, uma das referências desse estudo, condicionam-se multiplicadores de conhecimento e possuem fundamentos de DL, já que é um espaço receptível a qualquer pessoa independente do seu status socioeconômico. Ao mesmo tempo conforme adquirem cada vez mais a consciência de cidadão, as próprias pessoas criam ferramentas de organização social autônomas possibilitando o próprio desenvolvimento. Para Ávila (2012), o DL e a educação estão intimamente ligados, pois, somente desta forma as pessoas podem se tornar livres de qualquer dependência externa.
Identifica-se segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96, artigo 22 a importância da educação para criação de cidadãos, concebendo bases para uma educação contínua. O homem é a única espécie geradora de cultura e conhecimento podendo ser transmitidos por meios de códigos escritos e sem dúvida é necessária uma educação de qualidade. Ávila (2012, p.42) exemplifica: “[...] não se trata somente de Educação Comunitária ou de campanhas e programas educacionais esporádicos. Também e necessariamente, requer-se permanente e fecunda Educação Escolar [...]”.
Todas as instituições são responsáveis pelo preparo pedagógico do ser humano e as bibliotecas são espaços vitais, criando nas pessoas características na busca constante por novos conhecimentos. Barreto et al. (2008, p. 28) ressalta o importante papel desse espaço, mostrando que:

[...] as bibliotecas públicas e os telecentros como organismos inclusivos e até complementares. Possuem objetivos comuns, reconhecendo a informação como questão fundamental para a cidadania, para a formação de sujeitos conscientes de seus deveres e direitos.

            Dessa forma a Gibiteca, nutre as pessoas com informações, cujo ambiente proporciona aos seus “clientes” uma séria de modelos organizacionais e preparação para diversas situações como: instruções de uso de leitura dos livros, conservação e uso tanto do acervo como do próprio espaço, atividades lúdicas e em alguns casos, o uso de ferramentas digitais. Tudo isso acaba por reverberar no cotidiano das pessoas, tornando-se um ato de conscientização e valorização do seu próprio território. Para Bueno (2006), outro fator importante da atividade lúdica está no fato de que ela prevalece no tempo, e se houve um significado, este será lembrado, assim como a história também ficará marcada na lembrança e vida da criança.

2. Gibiteca espaço multicultural, de inclusão social e geradora de capital social

O objeto desse estudo localiza-se à rua Francisco Barbato nº180, no bairro Jardim Seminário, Campo Grande-MS, atendendo frequentadores de várias partes da cidade. Percebem-se com base nas análises teóricas a respeito de bibliotecas públicas, espaços multiculturais, locais de inclusão e capital social e o próprio DL, que a Gibiteca utiliza tais práticas.
Estabelecimentos inclusivos, libertadores, emancipatórios, acolhedores das diversidades que trabalham na construção de sujeitos reflexivos na germinação de identidade, empoderamento, e discussão sobre os problemas sociais devem contemplar atividades comunitárias, objetivando a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes. Estes são espaços multiculturais: escolas, bibliotecas, espaços de dança, campos de futebol, bares entre outros que têm o poder de unir diferentes pessoas e criar laços harmônicos que reforçam o sentimento de pertença e a solidariedade.
Indubitavelmente os grupos ou sociedades que conseguem trabalhar com a diversidade cultural, possuem um nível de desenvolvimento elevado, com um processo inicial de criação de sujeito reflexivos, que conseguem perceber-se perante seu grupo ou comunidade. De acordo com Bampi (2011, p.228) “as pessoas que conseguem pensar sobre sua própria realidade internalizam sentimentos, e desenvolvem atitudes cooperativas, limitando problemas sociais como o: racismo, conflitos de classe e atitudes discriminatórias baseadas nos gêneros sexuais”.
Seguindo a linha de pensamento de Hall (2005, p. 13), “[...] quanto maior for o contato e o acesso a outras sociedades, os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam”. Tornando os homens mais capazes para viver em sociedade com a diversidade, e tendo respostas rápidas para os problemas que vão surgindo ao longo do tempo.
Igualmente nota-se a inclusão de diversos tipos de pessoas na Gibiteca, como adultos, crianças e idosos que frequentam o lugar, o qual oferece diversas atividades socioculturais. Pessoas de outras regiões da cidade se deslocam de carro, ônibus ou moto para poder usufruindo acervo cultural disponível à comunidade em geral. A convivência de diferentes pessoas no mesmo espaço faz com que as mesmas sejam mais solidárias, criem ferramentas eficientes para resoluções de conflitos, o que pode ser empregado em outros ambientes de convivência e grupos diferentes. Inclusão, segundo Oliveira (2004), compreende um conceito de convidar a que se aproximem aqueles que estiverem historicamente excluídos ou deixados de lado.
Portanto, a percepção de que nenhuma manifestação humana é melhor ou pior que a outra diminui o abismo tanto interno como externo, acima de tudo a multiculturalidade, são os sujeitos diferentes, que estão ocupando o mesmo território. O espaço multicultural tem o objetivo de abrigar esse conjunto de conhecimento e criar nas pessoas maneiras para que elas possam viver em harmonia.
O papel social que as bibliotecas públicas possuem é discutido por vários estudiosos. Barreto et al.(2008) aponta que as bibliotecas públicas são agentes de inclusão sociocultural, ou seja, esse espaço cria o empoderamento e fortalecimento social das comunidades. A Gibiteca é um ambiente que proporciona tanto a criação de novas fronteiras do conhecimento como fortalece as relações dos frequentadores, e alimenta o sentimento de pertença.
Conforme Lemos (1999), as rápidas transformações de novos conhecimentos modificam os mercados, emergindo novos conceitos e produtos, porém os indivíduos necessitam responder rapidamente a essas velozes mudanças. A autora acima citada ainda que ao contrário do que se pensam, as informações que são criadas não são difundidas igualitariamente.
Ademais, as pessoas precisam criar habilidades adequadas podendo responder de forma ágil a qualquer problema, por isso, necessitam de um espaço onde seja possível adquirir a informação internalizar e transformar em conhecimento. Lemos (1999, p.1-2) justifica que: “somente os que detêm este tipo de conhecimento, podem ser capazes de se adaptar às velozes mudanças que ocorrem nos mercados e nas tecnologias e gerar inovações em produtos, processos e em formas organizacionais”.
Em virtude do exposto observa-se que a Gibiteca tem como meta expandir o conhecimento das pessoas. Segundo dados da própria Gibiteca (2015), existem livros em diversas áreas do conhecimento, de aproximadamente oitocentas obras1 . Possui também segundo os administradores do local um total de vinte mil gibis. O espaço ainda conta com sala de informática com acesso à internet gratuita, aberto a toda a comunidade, com projeto de inclusão digital. Além disso, realiza oficinas de teatro, desenho, leitura (Fig. 1), incentivando e promovendo de forma individual e coletiva o acesso ao conhecimento.

O grande objetivo do espaço, segundo seu criador Ronilço Cruz de Oliveira, é o de garantir a inclusão social para as crianças por meios da leitura e resgatar sua imaginação criativa. O lúdico faz parte da educação infantil e o gibi passa a ser uma fonte de incentivo para a aprendizagem e inclusão social.
A cultura necessita de um espaço físico ou território para poder existir. Ambos estão intimamente relacionados, pois o homem produz sua erudição no espaço que habita. Assim, os laços com o lugar são construídos a partir da cultura e da geografia, das relações sociais e ambientais que nele se desenvolvem (JERONIMO; GONÇALVES, 2008).
Normalmente a cultura é desenvolvida em um espaço que abriga as pessoas, que por sua vez precisam de relacionamentos estáveis para poder confiar umas nas outras, a partir disto elas se sentem enraizadas confiantes e com apego emocional a este território promovendo o desenvolvimento local. Dessa forma, a Gibiteca tem possibilitado o empoderamento do local, tornando os meios de cultura mais acessíveis às pessoas que frequentam o local. Observa-se que os frequentadores do espaço além de realizarem leituras no espaço cultural, também se valem de empréstimos de livros.
 Essas pessoas são todas de certa forma disseminadoras do espaço e ao mesmo tempo são elas que mantêm o projeto vivo, por preservar o empoderamento e sentir-se ligados ao acervo cultural,
A Gibiteca possibilita também o fortalecimento do tecido social, nutrindo parcerias com instituições públicas e ONG’s, oferecendo ainda espaço físico para atividades de atendimento à saúde do idoso.
Além das parcerias, os gestores do local criaram novos planos para capitalização de leitores. Algumas figuras públicas auxiliam o atendimento em outras regiões de Campo Grande, tornando a Gibiteca presente não só no local onde habita, mas ramificando sua atuação. Tais parcerias mencionadas são: bibliotecas nos terminais de ônibus com livros e gibis a disposição dos usuários do transporte coletivo da cidade. (Fig. 2).

Igualmente, este trabalho apresenta até o momento que as bibliotecas públicas como espaços de inclusão social, multiculturais e promotoras do capital social reforçam primordialmente a dinâmica cultural em lugares diversificados. Pol (1996) reforça essa perspectiva, afirmando que a lição afetiva está associada a duas principais características, sentimento de proteção e identificação ao lugar.
Portanto, toda ação que gera bons resultados nas pessoas cria segurança, e capacidade de perceber-se aceita naquele lugar, tornando a trama do tecido social evidente.
Bampi (2011, p.226) dimensiona que: Todos são iguais, todos são diferentes” - este é um “lema multicultural”[...]”. De fato os lugares precisam acolher as pessoas de forma justa. A dinâmica da Gibiteca oferece um espaço multicultural e dessa forma tem gerado a inclusão social, e contribuindo para a formação de uma consciência crítica do cidadão campo-grandense.

3. Resultados e discussões

A pesquisa in loco, baseou-se em visitas frequentes à Gibiteca nos meses de julho á setembro de 2015, nos períodos matutino e vespertino, em horário de funcionamento da mesma. Foram realizadas entrevistas com o gestor/mantenedor do espaço cultural, Ronilço Cruz de Oliveira, com a pedagoga responsável, Roseli Almeida, com os frequentadores do espaço e com alguns moradores do bairro.

3.1 Entrevistas com Gestor e Pedagoga da Gibiteca

Com intuito exploratório, foram realizadas perguntas abertas aos mantenedores do local, no caso o gestor Ronilço Cruz de Oliveira, popularmente chamado de “Guerreiro”, e a pedagoga responsável pelo atendimento diário no local, Roseli Rodrigues de Almeida, chamada por todos de “Dona Rosa”.
Ronilço e a Gibiteca se confundem como criador e criatura tamanho, o envolvimento do “Guerreiro” com sua obra. Psicólogo de formação, com 47 anos de idade, sendo 17 deles de envolvimento com o projeto social, o gestor e sua família atuam com representatividade nas ações da comunidade do bairro Jardim Seminário (também chamado de Alto de São Francisco).
As ações na região vão desde a criação da Associação de Moradores do Bairro, a coordenação da Comunidade Santa Clara (igreja vizinha ao projeto social), até a criação de uma creche, que desativada posteriormente foi transformada na Gibiteca, e com ela nasceram outros tantos projetos, como a Gibicicleta e a Mototeca, todas com objetivo de levar a leitura a crianças e adultos da cidade morena.
A paixão por gibis, em especial á “Turma da Mônica”, de Maurício de Souza, faz parte do seu hábito diário de leitura. A preferência, segundo ele, é pelo fato “dos valores de família serem transmitidos a partir dos gibis da Turma da Mônica”.
A missão do projeto é provocar o incentivo á leitura de crianças e adolescentes. A visão, ao médio prazo, é tornar-se referência nacional de projeto de incentivo á leitura. Os valores mais difundidos são a ética e a cidadania. O projeto teve o apoio do artista Fábio Porchat (Fig. 3) que financiou a Gibicicleta, a qual percorre os bairros da cidade oferecendo Gibis e livros para população que não só lê no local, mas que também pode levar o material para ler em casa e depois devolver, inclusive podendo fazer doações de obras para serem doadas a outras comunidades que necessitam da aquisição de conhecimento via leitura.

O espaço é mantido com recursos do idealizador do projeto, por meio de palestras que o mesmo ministra e aulas que ele leciona no SENAI, além de doações e ajuda de voluntários. A pedagoga Roseli Rodrigues de Almeida que atua na área pedagógica do local é disponibilizada por meio de convênio que a prefeitura de Campo Grande possui com outra instituição a Organização Mundial para a Educação Pré-escolar (OMEP).
A coordenadora e pedagoga “Dona Rosa”, de 52 anos, e há 4 atuando no projeto, possui um grande sentimento de pertença, por ser moradora no bairro há mais de 40 anos e ter acompanhado todo o processo de mudança, antes mesmo do projeto acontecer. A região era conhecida por ter um grande aterro, o “lixão”, e pela força da comunidade, se (re) territorializou em forma de projeto social, como mencionado anteriormente, por meio de uma creche e depois em forma de espaço de cultura.
Segundo ela, a Gibiteca provoca na comunidade um “sentimento de participação e de inclusão social, principalmente na leitura durante a semana (segunda a quinta) e nas atividades lúdicas na sexta-feira (partilha do lanche, futebol e bingo)”. O alto desempenho nas atividades (potencial criativo) que o projeto aflorou nessas crianças, além do espírito de trabalhar em equipe, são fundamentos citados com intensidade pela pedagoga sobre o conhecimento via leitura.

3.2 Pesquisas com os frequentadores da Gibiteca

Conforme as palavras do fundador, o projeto social é um espaço aberto onde às crianças, seu público-alvo, participa quando bem entenderem, sem nenhuma obrigatoriedade. Observou-se, ao longo das visitas, um grupo seleto de aproximadamente 30 crianças que visitam o projeto quase que diariamente. As entrevistas foram feitas com 27 dessas crianças e adolescentes.
A única regra fundamental, que é um dos princípios do projeto social, diz respeito ao uso dos computadores. Para fazer uso da sala de computação, a criança deve ler, no mínimo, 3 gibis.
A faixa estaria dos freqüentadores é de 9 á 10 anos (26% e 22% respectivamente), seguidos da faixa de 6 e 11 anos (13%), 12 anos (9%) e, por último, quase que se equivalem ao público das crianças de 5 anos (5%), 13, 14 e 19 anos (4%).
Vale ressaltar que, por questões de profissionais disponíveis, a Gibiteca procura atender crianças a partir de 7 anos, com alguma exceção de crianças menores, desde que venham acompanhadas de irmãos mais velhos ou pais.
 Quanto á escolaridade, avaliou-se que 89% das crianças que frequentam o projeto estão no ensino fundamental e 11% no ensino médio. Em relação ao bairro de origem, 65% vem da comunidade local, no caso o São Francisco, seguido pelo bairro Portal da Lagoa (10%), e o restante com 5% distribuído entre os bairros Parque das Laranjeiras, Nova Lima, Vila Nasser, Jardim Noroeste e Santa Luzia.
Tratando-se das atividades do projeto, em uma ordem por preferência, de acordo com gráfico 1 a seguir, nota-se com desenvoltura, o gosto pela leitura de gibis (47%), seguido por brincar (28%), leitura de livros (16%) e atividades lúdicas de cultura (9%).
 Vale mencionar, que mesmo com a sala de computação completa, não foi citada uma única vez pelos frequentadores como parte de sua preferência.
Com relação à frequência ao local, predomina-se visitas quase que diárias, sendo de 3 a 4 vezes a mais representativa (26% e 33% respectivamente), 1 dia (19%), 2 e 5 dias (11%), conforme aponta o gráfico 2 a seguir.

Constatada o sentimento de pertença da comunidade do bairro, seguido da amplitude de frequência das crianças, além da preferência pela leitura, de gibis e livros diversos, notou-se um bom tempo de permanência no local por visita. Pela ordem crescente, 41% ficam 3 horas no projeto, 37% (4 horas), seguido por 2 e 5 horas (11%).
Os freqüentadores assinalaram que pela proximidade do projeto, se deslocam a pé para o local (85%). Os outros meios de transporte mencionados foram à bicicleta (7%), ônibus e moto (4%). O projeto passou a ser conhecido pela iniciativa do seu criador Ronilço, em suas atividades no bairro e no SENAI (32%), o que se tornou uma espécie de corrente, já que as outras motivações de visitas ao local partiram da iniciativa de amigos (25%), irmãos (15%), pais e vizinhança (14%).
Avaliou-se também uma grande fidelidade ao projeto social, já que a maioria das crianças entrevistadas já participam há 4 anos do projeto (30%), seguido de 2 anos (29%), acima de 5 anos (15%), 3 anos (11%), 1 ano (7%), 5 anos (4%) e menos de um ano (4%). Pouco menos da metade dessas crianças participam de outros projetos em bairros vizinhos (44%), com ênfase para a prática de esportes (natação, judô e capoeira).

3.3 Entrevistas com moradores do Bairro São Francisco

Reforçando o objetivo desse trabalho, foram entrevistados três moradores do Bairro, com o intuito de relacionar o que pensam acerca da Gibiteca; frequência de visitas ao projeto e o que, de fato, representa o projeto social para esses moradores.
A visão geral dos entrevistados foi de que a Gibiteca desenvolve melhor as crianças e tira as mesmas das ruas, fortalecendo o sentimento de pertença e a participação á ações comunitárias. O incentivo à leitura e o fato da inclusão social e digital feita pela regra da instituição de ler antes de usar os computadores também foi mencionado.
Uma das entrevistadas acompanhou todo o processo da abertura do projeto social, sendo funcionária da creche que funcionava antes do projeto e, posteriormente, com a abertura da Gibiteca, acompanhou o fundador Ronilço pedindo doações no bairro e falando “de porta em porta” dos valores do projeto em si. A relação da mesma com o espaço cultural já está na terceira geração, pois atualmente, a neta é frequentadora assídua do projeto, que contou com a participação da moradora e da filha.
Os outros dois entrevistados se tornaram voluntários do projeto. Uma ou duas vezes por semana recolhem livros doados na sede da instituição e levam aos terminais de ônibus da cidade associados ao projeto.
Este projeto social representa para a comunidade, segundo a visão desses moradores do bairro entrevistados, um condutor de incentivo à leitura e socialização, além do fortalecimento da família, pois as crianças levam essas histórias dos livros e gibis para casa e dividem as atividades lúdicas e culturais com seus pais.

Considerações Finais

Este trabalho abriu a possibilidade de analisar a Gibiteca - Mais Espaço de Cultura como vetor de desenvolvimento local para a comunidade do bairro Jardim Seminário e Alto do Bairro São Francisco e, em suas devidas proporções, levar a amplitude do projeto como exemplo para outros bairros.
A origem do projeto, nas proximidades de um lixão, e o que o mesmo veio a se transformar, 17 anos depois, no nosso entendimento, merece um estudo mais aprofundado.
Historicamente, o objeto de estudo da pesquisa sempre foi o de analisar o espaço agregador, seja no formato de creche e, depois, como ponto de cultura. A visão do seu criador, Ronilço Cruz de Oliveira, e o seu potencial criativo, é o que dão vida ao projeto, além do fato das crianças frequentarem o espaço por livre e espontânea vontade.
Diante desse contexto, nas visitas ao projeto, notou-se a disseminação de valores como respeito, partilha, generosidade, cidadania e amor. As crianças e adolescentes, em sua maioria, vêm ao espaço cultural para ler e se divertir. Ficou claro ainda, que após a chegada da pré-adolescência, esses frequentadores vão mudando os hábitos e passam a deixar de ir ao projeto, gradativamente, trocando as atividades do espaço por outras, tais como: academia e esportes em geral.
Ressalta-se, em segundo plano, o valor imensurável da biblioteca regional anexa ao projeto, pela quantidade de obras raras. Com a relativa proximidade á UCDB e o acolhimento dos que trabalham no local, no caso o Ronilço, nas poucas horas que o mesmo disponibiliza e da “Dona Rosa”, em tempo integral, observou-se a existência de um ambiente propício para o estudo e para a pesquisa. Seria bem profícua, a realização de convênio com instituições de ensino, que possam beneficiar ambos os parceiros. O fato algum órgão ou IES em ceder ao projeto mais algum profissional especializado seria de grande valia, pois a partir do momento que o público-alvo do espaço aumente, aumenta também a responsabilidade para com a comunidade.
A Gibiteca, e os demais projetos do seu gestor Ronilço, são vetores para o desenvolvimento local de sua comunidade. O fato de o projeto ser mantido exclusivamente pelo seu criador, sem incentivos de outros órgãos, públicos2 e privados, gera um ponto de reflexão para ser trabalhado em um outro momento.

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1 As obras do acervo foram doadas pela comunidade e órgãos públicos e privados.

2 Com exceção da cadencia de Dona Rosa pela Prefeitura Municipal de Campo Grande - MS.


Recibido: 19/10/2015 Aceptado: 17/12/2015 Publicado: Diciembre de 2015

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