Revista: CCCSS Contribuciones a las Ciencias Sociales
ISSN: 1988-7833


LITERATURA E MUNDO DO TRABALHO:
LEITURAS A PARTIR DO ROMANCE “O CORTE” (THE AX) DE DONALD E. WESTLAKE

Autores e infomación del artículo

Jean Henrique Costa

Tássio Ricelly Pinto de Farias

Dulce Cipriano Alves

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte

prof.jeanhenriquecosta@gmail.com

Resumo
Este ensaio objetivou descrever e discutir o romance “O Corte” (título original The Ax, ‘O Machado’), de Donald E. Westlake. Buscou apresentar a narrativa literária do romance através da discussão dos fenômenos do desemprego estrutural e da progressiva precarização das condições e relações de trabalho atualmente em curso no mundo do trabalho, visando a compreensão de algumas das atuais transformações objetivas do mundo do trabalho e seus consequentes impactos na subjetividade do trabalhador. Infere-se que a narrativa ficcional do romance fornece elementos objetivos para a compreensão estrutural do trabalho pós-fordista a partir de recursos estilísticos de Westlake, em especial, a forma como o humor se articula com a tragédia pessoal da personagem principal. Portanto, ficção literária e apreensão da dinâmica do trabalho precarizado marcam o pano de fundo do romance que, para além do desfecho de suas personagens, permite a apreensão global de tendências do capitalismo flexível.
Palavras-Chave: Literatura, Trabalho, Desemprego, Donald Westlake, O Corte.

Abstract
This essay aimed to describe and discuss the novel “The Ax” by Donald E. Westlake. It presents the literary narrative of the novel through the discussion of structural unemployment phenomena and the progressively precarization of the conditions and relations of labor presently in progress at the “work’s world”. Thus, it aims to understand some of the current objective changes in the working world and its consequent impacts on workers' subjectivity. It is possible to infer that the fictional narrative of the novel provides objective elements for structural understanding of post-Fordist work from stylistic features of Westlake, in particular, how the mood is linked to the personal tragedy of the main character. Consequently, literary fiction and the apprehension of the precarious work dynamics mark the backdrop of the novel that, beyond the ending of his characters, allows the global apprehension of flexible capitalism trends.
Keywords: Literature; Job; Unemployment; Donald Westlake; ‘The Ax’.



Para citar este artículo puede uitlizar el siguiente formato:

Jean Henrique Costa, Tássio Ricelly Pinto de Farias y Dulce Cipriano Alves (2015): “Literatura e mundo do trabalho: leituras a partir do romance “O Corte” (The Ax) de Donald E. Westlake”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, n. 30 (octubre-diciembre 2015). En línea: http://www.eumed.net/rev/cccss/2015/04/donald-westlake.html


Introdução

Cada época e cada nação têm sua moralidade característica, seu código de ética. Ele depende daquilo que as pessoas consideram importante. Houve tempos e lugares nos quais a honra foi considerada a mais sagrada das qualidades, assim como houve tempos e lugares que puseram a graça acima de tudo. A Era da Razão valorizou a razão, e alguns povos – italianos e irlandeses – sempre consideraram o sentimento e a emoção mais importantes. Nos primórdios dos Estados Unidos, a ética do trabalho foi a maior expressão da nossa moralidade, e depois a propriedade passou a ser mais valorizada do que qualquer outro bem. Recentemente, ocorreu outra mudança. Hoje, nosso código moral baseia-se na idéia de que os fins justificam os meios.

Donald Westlake (2001, p. 292).
O Corte (‘The Ax’).

            Uma imensa massa de trabalhadores vem progressivamente se tornando supérflua para o capitalismo. Não se trata de um destino apocalíptico, tampouco de uma nuvem negra passageira, mas sim, de uma tendência estrutural. Para além do bem ou do mal, os níveis de desemprego, juntamente com o fenômeno progressivo da precarização (e degradação) do trabalho, são sinais infaustos de nosso tempo pós-fordista – também nomeado como acumulação flexível do capital. Não se trata de mera conjuntura. Praticamente ninguém escapa do processo de ampliação das inseguranças vivenciadas no mundo do trabalho.
            De um lado, trabalhadores qualificados até gozam de certas vantagens competitivas e, consequentemente, tornam-se menos descartáveis ou supérfluos para o mercado de trabalho; contudo, mesmo essa qualificação diferencial não garante plenamente uma carreira em fluxo contínuo. Vivemos em tempos de curto prazo, do imediatismo, de individualismo e consumismo... Citando Richard Sennett (2012): não há mais longo prazo! Por conseguinte, uma carreira sólida, estável, duradoura e com segurança é coisa de tempos idos. Sonhar com tal possibilidade pode expressar forte investimento simbólico numa quimera ainda fordista. A atual acumulação flexível do capital, iniciada nos anos 1970 com o esgotamento fordista, limita este intento. Do outro lado, trabalhadores desqualificados e semiqualificados – superabundantes – preenchem os imensos setores periféricos da força de trabalho global. Alguns são mais descartáveis, outros menos, mas no geral são profusos e flexíveis, o que os tornam uma grande massa de força de trabalho sempre disponível. A fila de solicitantes de emprego aumenta a cada dia.
            Nesse ínterim, triunfam o capitalismo e suas distintas ideologias. A apoteose do capitalismo flexível se manifesta em modelos econômicos eficazes e cada vez mais excludentes de força de trabalho. Esperar que o jogo vire significa pensar numa empresa humanizada, capaz de redistribuir recursos, possibilidades de crescimento material e simbólico para o trabalhador e sua família, além de permitir a liberdade do trabalhador da coerção do salário. Uma empresa humanizada potencializaria uma vida com sentido, dentro e fora do trabalho, para o trabalhador. Contudo, tal premissa tem sido estruturalmente obstruída. Via de regra, provavelmente apenas os gestores da ideologia poderiam assumir tal pressuposto. Logo, o processo de precarização das condições e relações de trabalho se expande. Até pode vir-a-ser contido, pela intervenção do Estado (um novo Welfare State ou alguma paródia do gênero), mas a expansão capitalista pressupõe sempre a maior autovalorização do capital e, portanto, a maior exploração do trabalho (menos perceptível, mas sempre mais intensa). Marx é claro nesta questão: “O motivo que impulsiona e o objetivo que determina o processo de produção capitalista é a maior autovalorização possível do capital, isto é, a maior produção possível de mais-valia, portanto, a maior exploração possível da força de trabalho pelo capitalista” (MARX, 1983, p. 263).
            Deste modo, aumentam as filas de procuradores de emprego e trabalho. Torna-se basilar enfatizar que ninguém escapa do processo. Viviane Forrester, no seu ‘O Horror Econômico’, não exagera esta situação de desespero crônico no mundo do trabalho. Esta assertiva serve para abrir o debate do livro O Corte (The Ax, 1997), do americano Donald E. Westlake (poderia servir também a competente adaptação para o cinema realizada pelo cineasta grego Costa-Gavras (Le Couperet), em 2005).
            Narrativa recheada com pitadas de humor e permeada pelo senso geral de tragédia (não apenas pelo drama pessoal da personagem principal), a obra de Westlake chama a atenção para temas básicos presentes no mundo do trabalho, tais como: instabilidade na carreira; desemprego e desestruturação familiar; dupla e tripla jornada do trabalho feminino; trabalho como fator de centralidade sociológica; precarização das novas ocupações; qualificação contínua, etc. Com tom leve e sarcástico, Westlake mostra em O Corte os infortúnios de um trabalhador altamente qualificado que perde seu emprego e não consegue reingressar no mercado de trabalho. Daí nasce toda problemática do livro.
            O escrito a seguir descreverá o enredo da obra, tecendo paralelos com uma rápida bibliografia acerca das mudanças contemporâneas no Mundo do Trabalho. Longe da pretensão didática de esclarecimento dos problemas do desemprego e da precarização do trabalho, ou ainda de crítica literária, este escrito visa muito mais despertar a provocação crítica e especulativa no leitor, recursos tão presentes na obra de Westlake e tão distanciados do formalista habitus acadêmico.

Tragédia com Humor e Humor com Tragédia: narrativa e insights sociológicos de ‘O Corte’

A trama começa com Burke Devore tomado por um dilema sobre a sua capacidade de matar ou não um ser humano. Após trabalhar 20 anos para a Indústria Halcyon Mills, sendo responsável pela gerência de produção de papel polimerizado, ele se vê desempregado como qualquer outro superabundante. Um indivíduo cujos conhecimentos e habilidades deveriam torná-lo ‘peça rara’ no mundo do trabalho competitivo acaba sendo apenas ‘mais um’ diante de toda flexibilidade e descartabilidade do modo de produção capitalista.
Burke Devore fora despedido juntamente com centenas de colegas de trabalho no cerne da reestruturação produtiva. Esse fenômeno torna-se comum com a proposta de reorganização das relações produtivas imposta pela política econômica do capitalismo global e monopolista surgido após a crise dos anos 1970 nos países de capitalismo avançado.
Desempregado e sem conseguir encontrar um novo emprego, Burke decide a todo custo que precisa voltar ao mercado de trabalho, que precisa acima de tudo encontrar um emprego, pois possui uma família que depende dele para sobreviver.
A época dos acontecimentos circunstanciais vivenciados na narrativa de O Corte é um período marcado fortemente pelo Downsizing (em português: achatamento ou diminuição de tamanho), técnica da administração voltada para diminuição da burocracia corporativa que visa, de modo geral, construir uma empresa ‘enxuta’, com menos trabalhadores, entretanto, mais eficiente. Na lógica do Downsizing, um trabalhador é capaz de desenvolver várias atividades ao mesmo tempo, e, segundo a ‘coerência’ do mercado, tornar a empresa capaz de se tornar competitiva no cenário mundial. Todavia, isso só se torna possível se houver demissões, achatamento da estrutura organizacional, reestruturação e redução de custos. Conforme destacado na introdução deste escrito, o capital pressupõe sempre sua autovalorização e a força de trabalho é apenas mais uma mercadoria no mercado.
A trajetória de vida de Burke Devore e sua especialidade na área de produção e venda de papéis é um exemplo disso: 1971-1975 – Vendedor, Green Vallery Paper & Pulp; 1975-1979 – Diretor de Vendas, Indústria Halcyon; 1980-1995 – Gerente de produto, Indústria Halcyon: responsável pela manufatura e venda dos produtos especiais de papel polimerizado. Para Burke Devore, até setembro de 1995 tudo parecia tranquilo! Não há problema em fazer o que se faz, desde que isso garanta um alto padrão de vida. É assim que pensam os indivíduos nos tempos hodiernos. Então, em outubro de 1995 Burke recebe o “bilhete amarelo” de dispensa. Estava no olho da rua! A unidade Belial das indústrias Halcyon acabava de realizar o “Corte de quase um quarto dos funcionários” (WESTLAKE, 2001, p. 30, destaque nosso). A máquina nº 11 fora vendida como sucata e o serviço nela realizado passaria a ser feito doravante numa empresa subsidiária da Halcyon no Canadá. A vida tranquila de Devore estava prestes a virar de pernas pro ar.
Para a compreensão do contexto histórico-estrutural da narrativa de Westlake, deve-se entender as mudanças estruturais que ocorreram no denominado mundo do trabalho. É mister analisar, no âmbito econômico, a transição do modelo de acumulação capitalista intitulado genericamente de fordismo (que vigorou do início do século XX até os anos 60) para um outro didaticamente oposto, isto é, a acumulação flexível do capital ou toyotismo (efetivamente surgido a partir dos anos 1970). No novo modelo toyotista emergiram princípios organizacionais e tecnológicos para o trabalho flexível, tais como Círculos de Controle da Qualidade (CCQs); Just-in-Time; Kanban; Controle da Qualidade Total; células de produção; trabalho em equipe; trabalho polivalente, programas de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), etc. Indissociavelmente importante é a dimensão política do processo, isto é, aquela ligada ao abandono de alguns ideais regulatórios e a adoção de princípios como abertura comercial, flexibilização, desregulamentação e privatização. Assim, no cerne da transição do fordismo para o toyotismo encontram-se diversas alterações nas relações de produção e de trabalho que trouxeram para o capital novas formas de reprodução frente à crise dos anos 1970 nos países ocidentais desenvolvidos, formas estas de caráter flexível e, por conseguinte, dinâmicas para o capital e desvantajosas para a grande parcela da força de trabalho em nível mundial. O Estado, menos regulador – do ponto de vista social – e mais aberto aos princípios flexíveis do mercado, também se flexibiliza, deixando de atuar (na proporção keynesiana) no sentido de políticas sociais de emprego e proteção do trabalhador para jogar a força de trabalho num ‘livre’ mercado, como se este fosse capaz de absorver todo o excedente crescente de mão-de-obra existente, sobretudo nos países periféricos/subdesenvolvidos. Ora, o ‘Mercado’ cada vez necessita menos quantitativamente de braços! Nem mesmo os trabalhadores qualificados conseguem manter-se estáveis no mercado.
Susan George reforça que sob a globalização os processos econômicos dependem mais da subtração do que a adição, isto é, acrescenta-se mais valor (lucro) utilizando-se menos elementos, sobretudo mão-de-obra. A tarefa do Mercado não é gerar empregos e sim lucros (GEORGE, 2002, p. 76). Na mesma linha de pensamento, Viviane Forrester elucida como a grande massa da força global de trabalho vem se tornando supérflua para o capitalismo. Para ela, há hoje uma “marginalização impiedosa e passiva do número imenso, e constantemente ampliado, de ‘solicitantes de emprego’” (FORRESTER, 1997, p. 11). Essa marginalização não gera, como se poderia alardear, exclusão social, no sentido estrito da expressão. Para Forrester não há exclusão social, pois, os desempregados e precarizados estão incluídos “até a medula” no sistema produtor de capital. Pior! Estão incluídos e em descrédito. Tornaram-se supérfluos. Eis a palavra que resume a condição da grande massa de trabalhadores no capitalismo atual. O que literariamente O Horror Econômico de Forrester veio confirmar é esta indiferença para com os indivíduos que se tornaram superabundantes para o capital.
Castel (2008), em As Metamorfoses da Questão Social, traz análise sumária acerca da questão do trabalho toyotista:

[...] a situação atual é marcada por uma comoção que, recentemente, afetou a condição salarial: o desemprego em massa e a instabilidade das situações de trabalho, a inadequação dos sistemas clássicos de proteção para dar cobertura a essas condições, a multiplicação de indivíduos que ocupam na sociedade uma posição de supranumerários, ‘inempregáveis’, inempregados ou empregados de um modo precário, intermitente. De agora em diante, para muitos, o futuro é marcado pelo selo do aleatório (CASTEL, 2008, p. 21).

Para Robert Castel, trata-se de uma situação na qual o indivíduo é colocado em situação de flutuação na estrutura social, povoando seus interstícios sem encontrar um lugar designado. São indivíduos que transitam da vulnerabilidade à própria inexistência social. Castel, muito similarmente a Forrester, prefere evitar o termo exclusão e adota o conceito de desfiliação, mais ligado a ideia de invalidação social. Os indivíduos são menos excluídos do que abandonados: são inúteis para o mundo, supérfluos, descartáveis, reservas (CASTEL, 2008). Por conseguinte, reitera-se o argumento de que ao capitalismo só interessa o homem como força de trabalho, sempre disponível e dócil. Contudo, não há lugar para todos. Como ironicamente realça Susan George (2002, p. 69): “a doutrina do liberalismo lembra os Evangelhos: ‘são muitos os chamados e poucos os escolhidos’”. Neste sentido, pensar no ‘pleno’ emprego nem é mais uma miragem, e sim, um engano.
Para Pochmann (2001, p. 81), “o mundo do trabalho passou a ser palco de profunda repercussão desse novo cenário em curso na economia global”. Para ele, o desemprego e a desigualdade de salários e renda se mostraram crescentes entre nações ricas e pobres, bem como no interior de cada país, especialmente os não-desenvolvidos. A partir de 1970 o desemprego passou a ser uma expressão global, de dimensões crescentes em todos os países. Fenômeno que ao longo do século XIX somente foi percebido conjunturalmente, no século XX teria sua manifestação mais aguda e mais distinta de outros períodos. Pochmann (2001, p. 84) lembra ainda que somente com a Grande Depressão de 1929 o fenômeno do desemprego seria mais bem entendido como um produto da insuficiência do desenvolvimento das forças produtivas e não mais como decorrente do desajuste da concorrência no interior do mercado de trabalho. Este mal econômico seria resolvido através da maior intervenção do Estado na economia, sendo esta um instrumento “necessário à regulação e à sustentação do crescimento econômico vigoroso”, nas palavras de Keynes (apud Pochmann, 2001). O keynesianismo foi, então, a saída para a crise dos anos 1930.
Os ideais keynesianos perduraram, em especial nos países desenvolvidos, até o final da década de 70, quando os princípios neoliberais entraram em cena. Pochmann afirma ainda que a proliferação das políticas neoliberais a partir do final dos anos 70 teve por objetivo atacar o desemprego aberto em massa apenas (e tão-somente) com medidas direcionadas ao interior do mercado de trabalho, ou seja, medidas focadas na oferta de mão-de-obra, “buscando a desvalorização do custo de contratação, a desregulamentação do mercado de trabalho e a flexibilização das normas de relacionamento entre o capital e o trabalho” (POCHMANN, 2001, p. 85). Tais medidas foram ineficazes e, como consequências, aumentaram ainda mais o desemprego, seguido ainda da enorme precarização das condições e das relações de trabalho.
Com o aumento da precarização, além do problema daqueles que não possuem trabalho, ainda há a preocupação visível nos que o possuem, isto através de formas incertas de reprodução social do trabalhador. Para tanto, Giddens (2004) cita, dentre os “efeitos nocivos da precarização do trabalho”, fundamentalmente três aspetos gerais: temor constante do desemprego; ampliação da carga de responsabilidade sobre o trabalhador; e a correlação entre a precarização e a fragilidade da saúde dos trabalhadores.
Evidentemente o desemprego, de uma forma geral, vem se ampliando de maneira brusca desde os anos 1970. Tal constatação evidencia-se tanto nos países de capitalismo avançado quanto nos de capitalismo periférico. Assim sendo, observam-se modificações na divisão internacional do desemprego aberto, tendo a participação das nações pobres ainda peso maior na geração do excedente mundial de mão-de-obra. Além do desemprego em escala mundial, paralelamente observa-se ainda uma assombrosa precarização das condições e relações de trabalho em níveis estranhos ao passado. Tal fenômeno se expande em todas as atividades, funções e países, mesmo que sentido de maneira singular em alguns setores e ocupações. No geral, no entanto, ninguém escapa a esta enfermidade estrutural. “O número de empresas que demitem é muito maior do que o número de empresas que contratam. Somos mais e mais numerosos, cerca de mil por dia, e disputamos vagas cada vez mais raras” (WESTLAKE, 2001, p. 31).
 Este é contexto social que impulsionará a busca de sobrevivência de Burke Devore. Diante da expansão capitalista e a crescente difusão de um modelo de sociedade individualista, consumista e imediatista, o ditado de Maquiavel “os fins justificam os meios” é literalmente incorporado por Devore. Embora Devore não seja um trabalhador superabundante no mercado de trabalho, mesmo assim não escapou dos constantes ‘cortes’ de mão-de-obra perpetrados pelo capital.
Entrementes, no decorrer da trama, após sucessivas tentativas de conseguir um trabalho, com quase dois anos de desemprego, Burke Devore já havia recebido todo seu seguro e gasto quase todas as economias que lhe restavam. Sua esposa, Marjorie, estava sustentando a casa sozinha trabalhando em dois locais. É então que, no intuito de não mais perder oportunidades para os seus concorrentes, ele decide traçar um plano para eliminá-los, qual seja: aluga uma caixa postal (B. D. INDUSTRIAL PAPERS - Caixa Postal 2900 - Wildbury, Ct. 06899) numa cidade a pouco mais de trinta quilômetros de onde morava (a fim de não deixar rastros) e publica um falso anúncio de seleção para emprego no ramo da indústria de papel. De posse dos currículos enviados pelos candidatos (seus possíveis concorrentes) com potencial de chance de lhe vencerem numa disputa de mercado, Devore vai eliminando um a um, além de também planejar o assassinato de um gerente-executivo que ocupava a vaga de emprego que estava cobiçando (Upton ‘Ralph’ Fallon). O trecho da carta-confissão a seguir (nunca encontrada), escrita diante de grande remorso após um dos assassinatos, resume sua missão:

Meu nome é Burke Devore. Tenho 51 anos de idade e moro em 62 Pennery Woods Road, Fairbourne, CT. Estou desempregado há quase dois anos, mas não por minha culpa. Desde que saí do Exército nunca fiquei sem emprego. Até agora. [...]. O período de desemprego provocou efeitos negativos em mim, me levou a fazer coisas que nunca imaginei possíveis. Coloquei um anúncio falso numa publicação e tive acesso ao currículo de outros desempregados como eu, do meu ramo de atuação. Em seguida, decidi matar as pessoas que estavam mais bem preparadas do que eu para determinada função. Eu queria aquele emprego, queria trabalhar de novo, e esse desejo me levou a cometer loucuras (WESTLAKEE, 2001, p. 108).

Em suma, após tentar – por vias legais – reingressar no mercado de trabalho, e perceber que há nele concorrentes bem mais capacitados para uma vaga que ele tanto ambiciona, Devore reflete e acha uma saída: “[...] por um segundo vi a solução para o meu problema: bandidagem” (WESTLAKE, 2001, p. 22). Resolve, portanto, assassinar gerentes-executivos que estavam à procura de emprego em indústrias de papel.
Devore começa a colocar seu plano em ação executando com três tiros seu primeiro concorrente, o Sr. Herbert C. Everly, coordenador das atividades do setor de manufatura de polímeros da indústria de papel Oak Crest; todavia, perplexo com seu comportamento frio e calculista, sentiu seus primeiros sinais de culpa ao se permitir indagar sobre a conduta do homicídio, quando lhe veio um desejo irresoluto de abandonar seu projeto mal iniciado. Sua necessidade de sobrevivência foi mais forte do que sua consciência moral. A partir daí norteara-se tão somente pelo seu intento, agora tido como única escolha, passando a encarar os próximos concorrentes tão somente como obstáculos a serem vencidos, superados. Como ele bem denota nas suas palavras reflexivas após seu primeiro assassinato:

Tenho escolha, porém? Sob o jato de água quente, mais limpo, repasso o caso mentalmente. A questão é dura, real e implacável. O dinheiro está acabando, Marjorie, eu e nossos filhos temos pouco tempo. Preciso de um emprego e ponto final. Não sou empreendedor, não vou inventar um novo brinquedo nem fundar uma fábrica de papel sem capital. Preciso de um emprego (WESTLAKE, 2001, p. 38).

A demasiada preocupação com a situação financeira da família, agravada por certo tipo de sentimento de ‘provedor masculino’, devido a toda tradição que faz o homem ver a si mesmo como principal responsável pelas condições financeiras do lar, leva Burke Devore a pensar em si mesmo como inútil.

A academia de ginástica foi cancelada, assim como as aulas de jardinagem. Ela cortou a HBO e o Showtime, deixando só o pacote básico de tevê a cabo [...] Carneiro e peixe sumiram de nossa mesa, substituídos por frango e massas. Nenhuma assinatura de revista foi renovada. Cessaram as idas ao shopping center, bem como os lânguidos passeios empurrando um carrinho de supermercado pelo Stew Leonard’s (WESTLAKE, 2001, p. 21-22).

Para Giddens (2004, p. 377), sem rendimento, as ansiedades na gestão do cotidiano tendem a aumentar; sem um trabalho, as oportunidades para o exercício de novas capacidades criativas são reduzidas; aqueles que estão desempregados têm frequentemente como maior problema o aborrecimento e desenvolvem um sentido de apatia em relação ao tempo; fora do local de trabalho, o círculo de possíveis amizades e conhecimentos se reduz substancialmente; e, para os homens, em particular, a autoestima está frequentemente ligada à contribuição econômica nas despesas domésticas.
Pode-se dizer que a autoimagem do Sr. Devore, a ideia que tinha de si mesmo, estava obliterada por toda uma relação de dependência do homem moderno para com o trabalho, condição essa alienada, reificada, fetichizada. Percebe-se ainda na reflexão de Burke Devore que este vê a si mesmo somente como empregado, mas nunca como empregador, reproduzindo assim a própria ideologia da qual é vítima.
Na narrativa o próximo a ser eliminado seria o Sr. Edward G. Ricks, engenheiro químico, residente em Massachusetts, pai de três filhas e com larga experiência de gerência em diversas linhas de produtos. Por um instante Burke se permite pensar que poderia desistir dos seus planos; no entanto, mais uma vez se convence de que não tem escolha, afinal, pensa ele, “somos como tubarões nesses aspectos: se pararmos de nadar afundamos” (WESTLAKE, 2001, p. 53).
Num certo momento, ao ler um artigo publicado pela revista Pulp, Devore se depara com trechos de uma entrevista de um sujeito chamado Upton Ralph Fallon. Este, pelas características descritas, ocupava sua vaga – o tão sonhado emprego. Por isso, decide matá-lo.
Antes de Fallon, outros 5 concorrentes foram assassinados. A pequena lista de concorrentes para a obtenção do emprego foi: 1. Herbert C. Everly; 2. Edward G. Ricks (lamentavelmente junto com sua esposa); 3. Everett Dynes; 4. Kane B. Asche; 5. Hauck C. Exman; 6.  E o Próprio Upton Fallon, o dono da vaga.
Westlake tenta mostrar que a lógica da concorrência implantada pelo modo de produção capitalista faz surgir indivíduos egoístas, individualistas e frios que olham para o seu próximo e o veem apenas como um rival, como um concorrente, um inimigo, e por isso, passivo de eliminação. Era essa a lógica que sempre norteava Burke Devore. Tal lógica nos remete à célebre máxima de Thomas Hobbes – “O homem é o lobo do homem” – servindo para ilustrar que todos os sujeitos que vivem em sociedade têm, na maioria das vezes, necessidades idênticas, e são norteados pelo mesmo instinto de autopreservação. Considera-se que as ações de Burke Devore tomam – inconscientemente – essa lógica como guia. Por um emprego, ele estava pronto para tudo.
Essas transformações que se processam na subjetividade do sujeito, fruto da racionalização capitalista do trabalho, fazem com que os trabalhadores se sintam deslocados da realidade, estranhos aos acontecimentos reais. O livro traz uma situação ilustrativa disso: num dado momento, que se passa na sala da casa de Burke Devore, ele vê o telejornal com sua esposa Marjorie, e ao serem noticiados os crimes que ele mesmo havia cometido, a jornalista utiliza termos como “brutal”, “selvagem” e “sangue frio”, na tentativa de descrever a frieza com que as pessoas foram executadas. O sentimento que se manifesta em Devore – nesta circunstância – é de total indiferença para com as pessoas que havia executado. Assim reflete nosso protagonista: “É estranho, mas por um motivo ou por outro não reconheço minhas ações no relato da loura” (WESTLAKE, 2001, p. 69).
Esses acontecimentos retratam os efeitos da sociedade do desemprego, instituída pelo capitalismo global, que impõe um processo de racionalização e automação nas relações sociais, incitando os indivíduos ao extremo sentimento de concorrência, o que acaba provocando certa corrosão do caráter. O sentimento é: que vença o melhor! Os valores morais são abandonados, são deixados de lado quando as relações são entre concorrentes.
Para Sennett (2012, p. 32), essa corrosão do caráter significa que “as condições de tempo no novo capitalismo criaram um conflito entre caráter e experiência, a experiência do tempo desconjuntado ameaçando a capacidade das pessoas transformarem seus caracteres em narrativas sustentadas”. Prontamente, “o capitalismo de curto prazo corrói o caráter [...], sobretudo aquelas qualidades de caráter que ligam os seres humanos uns aos outros, e dão a cada um deles um senso de identidade sustentável” (SENNETT, 2012, p. 27). Sennett não está tratando exatamente com o caso Devore, mas o crescente individualismo moderno amplia e reforça, ab initio, essa condição de indiferença para com o próximo.
Assim colocado, as metamorfoses no mundo do trabalho foram e estão sendo drásticas para aqueles que vivem da venda da força de trabalho. A frase de Sennett “Não há mais longo prazo” expressa que a flexibilidade deve ser buscada a todo custo, afetando não apenas o tempo da vida profissional, mas principalmente, o cotidiano da vida pessoal. A flexibilidade invade até o íntimo do trabalhador, sua carne, sonhos, memória.
Pensando no caso Burke Devore, a decisão de virar um serial killer é tomada após perceber que diante de um mercado de trabalho fortemente concorrido, em que alguns apresentam currículos mais bem “preenchidos” que o seu.
A pressa por conseguir um novo emprego é impulsionada a cada minuto de reflexão acerca das atuais condições financeiras da sua família, o que o faz pensar: “Se falhar um mês de salário, a gente sente a primeira pontada de pânico. Se falharem todos os meses, a coisa fica preta” (WESTLAKE, 2001, p. 23). Países com elevado padrão de vida exigem um ritmo vertiginoso de trabalho, é condição necessária à manutenção de uma vida dominada pelo consumo. Além do mais, “muito tempo desempregado machuca. Não apenas o trabalhador desempregado, mas tudo” (WESTLAKE, 2001, p. 158). A idade de Devore também não o ajuda a reingressar no mercado de trabalho.
Westlake relata o espanto de Burke Devore ao ver uma reportagem na televisão a respeito da linha de montagem robotizada numa fábrica japonesa de automóveis, onde:

A máquina parecia um aparelho de raio X de dentista, andando para lá e para cá por conta própria, soldando peças de carros. Aquilo era automação. Era rápida e, embora parecesse desajeitada, o locutor alegava que era mais precisa e eficiente do que qualquer ser humano (WESTLAKE, 2001, p. 81).

A automação provocou um efeito devastador sobre os trabalhadores nos anos 1960 e 1970, ocasionando demissão em massa de operários. Nos anos 1990 acirrou os processos de reestruturação produtiva. Os recursos tecnológicos vão pouco a pouco substituindo o indivíduo pela máquina, ou selecionando os mais capacitados tecnologicamente para trabalharem junto à máquina. Esse fato se transforma numa tendência natural dentro das relações de produção no capitalismo pós-fordista. Sobre o avanço da técnica sobre a sociedade Theodor W. Adorno e Max Horkheimer (1985, p. 100) dirão: “A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma”. Logo, o homem cria a máquina e acaba sendo substituído por ela; ou, na melhor das hipóteses, quando o indivíduo não é substituído pela máquina, é selecionado para operá-la considerando-se as habilidades que lhe permitem trabalhar no ritmo dela.
Poder-se-ia dizer que hoje os exemplos da alienação do homem à máquina não se aplicam ao trabalho nos dias atuais. Entretanto, insiste-se aqui numa releitura das condições de trabalho do homem contemporâneo, pois o fato dos indivíduos não mais controlarem horas por dia uma máquina e, portanto, não trabalharem nas mesmas condições de outrora, não quer dizer que a natureza – em si – do trabalho tenha mudado. No máximo, as formas de tortura foram abrandadas. Ora, hoje em dia, técnicos e programadores trabalham horas por dia em frente as telas de microcomputadores para manterem uma página como o facebook no ar, corrigindo erros, apagando spans e etc. As formas de opressão permanecem, no entanto, se tornaram mais sucintas. A alienação perdura.
O estresse do dia-a-dia torna o trabalho um objeto de tortura – a palavra trabalho é derivada do latim tripalium, instrumento de tortura feito de três paus –; por isso, muitas vezes enxerga-se a ausência dele como liberdade, ou até mesmo como alívio. “Creio que a maioria das pessoas, quando são mandadas embora, veem o desemprego iminente apenas como férias imprevistas [...]” (WESTLAKE, 2001, p. 31). Esse sentimento talvez seja causado – em parte – pela confiança em encontrar um novo emprego logo em seguida. A realidade de Devore, em O Corte, era diversa: “O número de empresas que demitem é muito maior do que o número de empresas que contratam. Somos mais e mais numerosos, cerca de mil por dia, e disputamos vagas cada vez mais raras” (WESTLAKE, 2001, p. 31). Essa realidade torna a disputa por emprego ainda mais acirrada, pois muitos profissionais desempregados possuem currículos vastos; além do mais, o desemprego se deve à uma reestruturação do mercado causado hora pela mecanização da produção, hora pela redução de custos, mas não pela falta de capacitação dos profissionais. “Vejam quanta gente lá fora, todos competentes, todos preparados, todos dispostos. Vejam quantos existem e como há poucas vagas para acomodar tanta gente ávida” (WESTLAKE, 2001, p. 52-53).
Diante de um mundo regido pelo trabalho, o cidadão desempregado se vê impotente, desmotivado a qualquer coisa. Devore sentia-se “[...] pior do que nunca, sentia dificuldade concreta até para reunir energia suficiente para enviar” os “próprios currículos” para as empresas (WESTLAKE, 2001, p. 53). Cansado, após quase dois anos na busca por emprego – de entrevista em entrevista – Burke Devore se vê durante toda a narrativa diante de reflexões do tipo: “Poderia fazer isso? Seria capaz de assassinar um homem? Mas as pessoas matam, diariamente, por muito menos. Por que eu não seria capaz, tendo tanto em jogo? Minha vida. Não poderia haver nada maior em jogo” (WESTLAKE, 2001, p. 57, grifo nosso). Esta passagem é ilustrativa da importância dada ao trabalho no mundo capitalista, levando os indivíduos a o associarem à própria vida. Apesar de tratar-se aqui de uma estória de ficção, deve-se reparar no quanto o caso Burke Devore – apesar de ser apenas uma situação extrema – se tratar de um exemplar que representa a situação de muitos indivíduos mundo afora. Logo, apesar de particularizada no livro O Corte, a realidade vivida de forma aflitiva por Devore é semelhantemente vivida por milhões de pessoas. O humor presente na narrativa pode até ser alegórico, mas sua tragédia biográfica é a tragédia coletiva crescente de milhares de supranumerários para o capital.
O trabalho vem à tona a todo momento como causa das escolhas de Devore, como um fim último. Até mesmo a decisão de assassinar seus concorrentes, uma após outro, é motivada pela ambição de conseguir um emprego. O trabalho aparece, portanto, como força externa, fator de coerção.
O Corte não somente prende o indivíduo numa trama fictícia, mas, para além disso, sendo Burke um homem introspectivo, causa provocações éticas à medida que retrata as angústias e aflições de um pai de família desempregado, que se pergunta a todo momento os ‘porquês’ da vida. Acredita-se que a questão ética central no livro possa ser traduzida na seguinte máxima: “por que eu não mataria alguém que tem um emprego que eu preciso?”. Fica evidente a crítica à demasiada importância (dependência) que o homem contemporâneo dá ao trabalho. Trata-se, portanto, de uma questão de vida ou morte, ou melhor, de morte ou morte, pois Devore se vê numa condição em que ou mata seus concorrentes para conseguir emprego – garantir seu meio de subsistência – ou morre, angustiado diante das novas condições em que está sendo obrigado a viver.
Os dias vão se passando e, à medida que pioram as condições econômicas e emotivas da família – fato que fica claro com o cancelamento da assinatura de alguns canais da TV, a diminuição das idas ao shopping center, as mudanças nos hábitos alimentícios da família, a ligeira prisão de seu filho por roubo de produtos de informática, etc. – Devore vai se vendo mais e mais impelido a fazer o que está fazendo: matar... ele reflete:

Não sou um matador. Não sou um assassino. Nunca fui, não quero ser assim, um sujeito desalmado, impiedoso, vazio. Esse não sou eu. Fui forçado a fazer o que estou fazendo pela lógica dos eventos, pela lógica do acionista, pela lógica dos executivos, pela lógica do mercado, pela lógica da mão-de-obra, pela lógica do novo milênio e, finalmente, pela minha própria lógica [...] O que estou fazendo agora é horrível, medonho, difícil, mas tenho de agir assim para salvar minha própria vida (WESTLAKE, 2001, p. 151).

Vem à tona também o receio do avanço da técnica sobre a sociedade: “se as máquinas ficassem com todos os empregos, como as pessoas ganhariam a vida?” (WESTLAKE, 2001, p. 81). O que Devore quer mesmo entender é como tudo aconteceu, quais os motivos de o terem dispensado juntamente com mais de quinhentos trabalhadores, pais de família que a partir do momento em que receberam o bilhete amarelo, viam-se desamparados e desesperados. O pior de tudo – para Devore – talvez fosse o fato de ele, um funcionário executivo, ser dispensado como qualquer outro. O que o levou a pensar: “O filho da automação é o computador e o computador está tomando o lugar do empregado do escritório, do gerente [...] Quando se introduz o computador, desaparece a necessidade do médio escalão” (WESTLAKE, 2001, p. 82). A tecnologia já não substitui somente o funcionário semialfabetizado, que pode ser trocado por uma esteira ou qualquer outra máquina, mas também um gerente de produção.
            Mesmo angustiado Burke Devore não perde totalmente sua confiança. A citação abaixo é ilustrativa disso:

Mas a minha vaga, aquela que Upton “Ralph” Fallon está guardando para mim, essa ainda existe. Um ser humano ou dois ainda são necessários para tocar a produção, ficar acima dos operários e ao mesmo tempo conseguir se entender com eles, para que os diretores não tenham de lidar diretamente com gente que escuta música country no rádio do carro (WESTLAKE, 2001, p. 83).

É possível notar também, na citação acima, um sentimento de superioridade em relação aos operários, e de subserviência em relação aos diretores. Talvez seja possível afirmar que há nessa introspecção o resquício de um sentimento de classe.
Retomando o drama, e tomando as reflexões de Burke Devore ainda como mira, é possível constatar um forte egoísmo na forma com que ele tenta resolver os seus problemas: “não posso modificar as circunstâncias do mundo em que vivo. Esse foi o quinhão que me coube, e nada posso fazer a respeito. Só torcer para usar meus recursos melhor do que os outros. Custe o que custar” (WESTLAKE, 2001, p. 88, grifo nosso). Os fins parecem justificar todos os meios pelos quais Devore tenta sobressair da situação em que se encontra, atestando o individualismo do mundo contemporâneo. A máxima “desde que eu me dê bem” aparece indiretamente em suas reflexões.
            Após constatar problemas em seu casamento, e suspeitar que Marjorie, sua esposa, estaria vivendo um caso com outro homem, Devore pensa em matá-lo (também), mas sem que sua esposa ficasse sabendo. No entanto, ao associar os problemas da sua vida conjugal ao fato de estar desempregado, Devore desiste da ideia de cometer mais um assassinato.

Quero que meu casamento acabe? Não. Portanto, devo me conscientizar de que as coisas que estão acontecendo conosco só estão acontecendo porque fiquei muito tempo sem trabalhar. Se ainda estivesse na Halcyon Mills, Marjorie não sairia com outro sujeito. Ela não teria dois serviços idiotas. Eu não mataria pessoas (WESTLAKE, 2001, p. 159).

É, então, quando Marjorie o convence de fazer terapia de casal. Em consulta ao terapeuta...

Quinlan: “A verdadeira mensagem é: você não é o seu emprego.” [...] “Muita gente, senhor Devore, identifica-se com o emprego, como se a pessoa e seu trabalho significassem a mesma coisa. Quando perdem o emprego, perdem a noção de identidade, deixam de se considerar pessoas de valor e valiosas para os outros. Acham que não valem mais nada” (WESTLAKE, 2001, p. 228-229).

Devore: “Isso não tem nada a ver comigo [...]. Não é assim que vejo as coisas” (WESTLAKE, 2001, p. 229).

Quinlan: “Mas sentiu-se furioso e deprimido [...]. Não sentiu que tinham arrancado um pedaço de você?” (WESTLAKE, 2001, p. 229).

Devore: “Eles roubaram a minha vida, não a minha felicidade [...]. Levaram embora minha capacidade de pagar a prestação da casa, de cuidar dos filhos, de sair para me divertir com minha mulher. Um emprego é apenas um emprego, mas é necessário. Vou lhe dizer algo que todos aprendemos, senhor Quinlan, nos últimos cinco meses antes do corte. Éramos centenas, grandes amigos, trabalhávamos juntos, podíamos contar uns com os outros, nem precisávamos pensar nisso, sabíamos que podíamos contar uns com os outros até o fim. Aí chegou o fim, de repente éramos inimigos, tornamo-nos concorrentes, todo mundo descobriu isso. E isso era o que não dizíamos uns aos outros, o que os consultores não diziam para nós, o que ninguém dizia. Que a tribo tinha acabado, que não havia mais tribo alguma. Ninguém mais ia cuidar de ninguém [...] Não formávamos mais uma equipe, um competia com o outro. Tudo mudou” (WESTLAKE, 2001, p. 229).
Devore: “Fingíamos ser amigos. Essa era a mensagem de motivação que queriam nos impingir, a idéia de que ainda estávamos todos juntos [...]. Mas quem é cortado não pode mais se dar ao luxo de acreditar em contos de fadas” (WESTLAKE, 2001, p. 230).
Devore: “Só posso contar comigo e este é o maior desafio da minha vida” (WESTLAKE, 2001, p. 230).

Marjorie: “Você não está sozinho, Burke [...]. Tem a mim, e sabe disso” (p. 230).

Devore: “Você pode me arranjar um emprego? [...] Não podemos nos dar ao luxo de ter sentimentos agora [...] Não há nada lá fora exceto eu e a concorrência. E preciso vencer a concorrência. Tenho de fazer isso, custe o que custar” (WESTLAKE, 2001, p. 230, grifo nosso).

            A citação é representativa de uma das conversas entre o casal Devore e o terapeuta Quinlan, em que Burke ignora a própria obsessão pelo emprego. A trama segue – do início ao fim – destacando a ‘loucura’ de um homem em busca de um novo emprego. “Assim que eu estiver fora disso, assim que acabar, assim que eu me livrar e chegar em segurança do outro lado, com um novo emprego e a minha vida de volta, então, sim, as cores ganharão brilho outra vez” (WESTLAKE, 2001, p. 277-278). O emprego é visto, portanto, como condição necessária à uma vida feliz. Ou melhor, ele é a própria ‘vida feliz’. Sem ele, a desestruturação do indivíduo não possui a mesma positividade da reestruturação do capital. O lado mais fraco – o ser humano – termina padecendo nesse jogo desigual de mercado.
Devore é, por um lado, um número a mais na imensa massa de desempregados que não consegue retornar ao mercado de trabalho, uma biografia perdida no imenso processo de exclusão de trabalhadores de seus meios de sobrevivência; por outro lado, Devore pode representar tipicamente um drama coletivo, uma enfermidade estrutural que se alastra sob o capitalismo tardio.
No final da narrativa, Fallon é eliminado – ‘cortado’ – e Devore obtém êxito em seu plano: é contratado pela Arcadia. Sete mortes (6 de concorrentes) e uma vaga obtida no mercado de trabalho. Eis aí o sucesso de Burke Devore. Para além do desfecho da personagem, uma forte provocação ética se impôs no ar na obra de Westlake.

Palavras Finais (?) (...)

Este ensaio objetivou descrever e discutir o romance “O Corte” (título original The Ax, ‘O Machado’), de Donald E. Westlake. Buscou apresentar a narrativa literária do romance através da discussão dos fenômenos do desemprego estrutural e da progressiva precarização das condições e relações de trabalho atualmente em curso no mundo do trabalho, visando a compreensão de algumas das atuais transformações objetivas do mundo do trabalho e seus consequentes impactos na subjetividade do trabalhador. Inferiu-se que a narrativa ficcional do romance fornece elementos objetivos para a compreensão estrutural do trabalho pós-fordista a partir de recursos estilísticos de Westlake, em especial, a forma como o humor se articula com a tragédia pessoal da personagem principal. Portanto, ficção literária e apreensão da dinâmica do trabalho precarizado marcam o pano de fundo do romance que, para além do desfecho de suas personagens, permite a apreensão global de tendências do capitalismo flexível.
A guisa de conclusão deste pequeno ensaio ressaltamos a importância das provocações éticas incitadas pela obra O Corte. No fim das contas, a máxima maquiavélica – depois de repetidas aparições – vem à tona no momento de conclusão:

O fim do que estou fazendo, o propósito, a meta, são bons, visivelmente bons. Quero cuidar bem de minha família; quero ser um membro produtivo da sociedade; quero pôr minhas habilidades à prova; quero trabalhar e pagar minhas contas, sem ser um fardo para meus semelhantes. Os meios para atingir esses fins têm sido penosos, mas me concentrei nos fins, nos objetivos. E os fins justificam os meios. Como os executivos, não devo desculpas a ninguém (WESTLAKE, 2001, p. 293, destaque nosso).

Não seria demais afirmar que O corte retrata muito bem os efeitos mais amplos do processo de reestruturação produtiva do capital, implementada pelo capitalismo monopolista após a sua crise nos anos 70 (o enredo do livro se passa próximo à chegada do ano 2000), que teve como objetivo reduzir despesas e elevar lucros. A Halcyon Mills – empresa em que Devore trabalhou vinte anos – é exemplo dessa reestruturação que sugere, por exemplo, a fusão de empresas e a terceirização de alguns serviços, a fim de se lançar no mercado competitivo mundial, mesmo isso representando aumento no desemprego e perda da segurança social. A lógica basilar do capital é fortalecer sempre a si mesmo, desconsiderando completamente as condições dos indivíduos: “a impotência dos trabalhadores não é mero pretexto dos dominantes, mas a consequência lógica da sociedade industrial [...]” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 41-42), que visa, evidentemente, manter a si mesma tornando o indivíduo cada vez mais impotente diante do sistema a que serve.
            A obra O Corte traz um questionamento central acerca do papel da competitividade nas sociedades capitalistas hoje. Até que ponto pode ir um indivíduo por um emprego? Se o capitalismo exige a competitividade a todo custo, qual o limite desta competição? Se o trabalho define estruturalmente o papel do sujeito no mundo social, como proceder sem uma ocupação? Estas questões expressam o núcleo do projeto da obra O Corte.
            O romance oscila entre a imersão nas razões psicológicas que levaram às ações de Burke Devore e o contexto sociocultural condicionante de sua estrutura individual. Nesse sentido, a obra se desloca constantemente do plano individual da personagem para o plano social do contexto histórico do capitalismo toyotista. O romance possui estilo leve e, não menos importante, utiliza uma ambiguidade em sua estrutura que o torna cativante: trata-se de uma narrativa humorística recheada com a tragédia de sua personagem Devore? Ou se trata de uma narrativa dramática com toques de humor? A resposta se entrelaça no estilo de Westlake.
Passagens que tonalizam o humor podem ser expressas em:
“Isso tem de dar certo. Preciso sair do atoleiro, e logo. Portanto, acho bom ser capaz de matar” (WESTLAKE, 2001, p. 14).
Ou mesmo em:
“‘Fui resolver um problema particular’, teria de dizer, finalmente. ‘Matar um sujeito chamado Herbert Coleman Everly. Para o nosso bem, querida’” (WESTLAKE, 2001, p. 21).
Por outro lado, o senso trágico pode ser exemplarmente ilustrado no trecho abaixo:
“Eu poderia matá-lo? Falo sério. Em legítima defesa, na verdade, em defesa de minha família, minha vida, minha casa, meu futuro, minha pessoa, minha vida. Isso é legítima defesa. Não conheço o homem, ele não significa nada para mim” (WESTLAKE, 2001, p. 56).
Essas passagens, apesar de pontuais, exemplificam bem os questionamentos levantados. No mais, para além de humor ou drama, dialeticamente a resposta presumível, neste momento de especulação filosófico-literária, é que, no cotidiano de milhões de trabalhadores, o drama do desemprego não possui esse toque humorístico. Embora o cotidiano do desemprego possa, realisticamente, ser recheado de senso cômico (afinal as coisas poderiam ser piores!), a realidade do desemprego é bem mais cinza do que a rica tonalidade de Westlake.
No mais, apesar de todo peso literário dado a personagem, sua trajetória e seu senso de culpa e incapacidade, em um trecho específico Westlake dá a Devore sua redenção enquanto sujeito ainda não totalmente alienado.

Desde o início me dei conta da ironia do plano. Aquela gente, os seis especialistas em gerência de produção papeleira, Herbert Coleman Everly, Edward George Ricks e os demais, não eram meus inimigos. Nem mesmo Upton ‘Ralph’ Fallon era meu inimigo, eu sabia disso muito bem. O inimigo era a diretoria executiva. O inimigo era o acionista. [...] Os acionistas não querem saber de nada, a não ser do retorno de seu investimento, e isso gera executivos sincronizados com os propósitos delas [das empresas], formados à sua imagem e semelhança [...]” (WESTLAKE, 2001, p. 66-67).

O trecho acima dota Burke Devore de senso crítico e, mesmo diante da quase que total anulação do sujeito no enredo da obra, um resto de individualidade não-reificada surge de nossa personagem. Portanto, mesmo nas mais eficazes amarradas da ideologia ainda resiste o sujeito. O romance de Westlake, apesar de ficcional, não trai a chamada imaginação sociológica.
No mais, como desfecho, Donald E. Westlake possibilita outra face da literatura contemporânea que muitos dizem já ter se perdido totalmente nos ditames da cultura de massa. Comicamente, apesar de ‘The Ax’ ter sido recomendado pelo escritor (de best-seller) Stephen King (2000, p. 285) – representante típico da indústria cultural do século XXI – como uma obra básica que o influenciou nos últimos anos, em On Writing, o romance vai além da chamada literatura de massa.

These are the best books I’ve read over the last three or four years, the period during which I wrote The Girl Who Loved Tom Gordon, Hearts in Atlantis, On Writing, and the as-yet-unpublished From a Buick Eight. In some way or other, I suspect each book in the list had an influence on the books I wrote. As you scan this list, please remember that I’m not Oprah and this isn’t my book club. These are the ones that worked for me, that’s all [A indicação de O Corte (The Ax) no ‘booklist’ de Stephen King está na página 288].

Prontamente, mesmo diante deste fetiche da literatura de massa, um toque a mais distingue a obra O Corte, quem sabe, os insights ‘sociológicos’ provocados por Westlake. Fica evidente, portanto, a grande contribuição que pode ainda ser dada pela literatura à teoria social.

Referências

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. São Paulo: Jorge Zahar, 1985.
CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. 7. ed. Tradução de Iraci D. Poleti. Petrópolis: Vozes, 2008.
FORRESTER, Viviane. O horror econômico. Tradução de Álvaro Lorencini. São Paulo: UNESP, 1997.
GEORGE, Susan. O Relatório Lugano: sobre a manutenção do capitalismo no século XXI. São Paulo: Boitempo, 2002.
GIDDENS, Anthony. O trabalho e a vida económica. In: ______. Sociologia. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
KING, Stephen. On writing: a memoir of the craft. New York: Scribner, 2000.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Vol. 1, Livro Primeiro, Tomo 1. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
O CORTE. Direção: Costa-Gavras. Bélgica/França/Espanha: Pandora Filmes, 2005. Filme, 1 DVD (122 min), color (Título original Le Couperet).
POCHMANN, Márcio. O emprego na globalização: a nova divisão internacional do trabalho e os caminhos que o Brasil escolheu. São Paulo: Boitempo, 2001.
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: o desaparecimento das virtudes com o novo capitalismo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Edições Best Bolso, 2012.
WESTLAKE, Donald E. O corte. Tradução de Celso Nogueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (título original The Ax).


Recibido: 04/08/2015 Aceptado: 05/10/2015 Publicado: Octubre de 2015

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