Revista: CCCSS Contribuciones a las Ciencias Sociales
ISSN: 1988-7833


COMUNICAÇÃO INTERCULTURAL: ADAPTAÇÃO E DIFICULDADES DE ESTUDANTES DA GUINÉ-BISSAU NA CULTURA BRASILEIRA

Autores e infomación del artículo

Lucicleide de Souza Barcelar

Faculdade Ateneu

prettyalegria@hotmail.com

RESUMO

O trabalho em questão apresenta uma pesquisa sobre a percepção dos estudantes de Guiné-Bissau na cultura brasileira, destacando as dificuldades e o processo de adaptação, mediados pela comunicação intercultural. Para melhor compreender esse fenômeno, traçou-se como metodologia um estudo qualitativo, tipo exploratório, utilizou-se a observação participante, na qual se fez uso do diário de campo, para anotações das conversas informais e observações, tendo como cenário a sala de aula, corredores e espaços de convivências da instituição, onde estão inseridos os estudantes da Guiné-Bissau. O período de realização do trabalho deu-se durante dois semestres letivos, fase em que a pesquisadora lecionou as disciplinas Trabalho de Conclusão de Curso. Com a pesquisa de campo, foi possível identificar as principais dificuldades dos estudantes no processo de adaptação à cultura receptora.

Palavras-chave: Adaptação, Guiné Bissau, Observação participante, Diário de campo.



Para citar este artículo puede uitlizar el siguiente formato:

Lucicleide de Souza Barcelar (2015): “Comunicação intercultural: adaptação e dificuldades de estudantes da Guiné-Bissau na cultura brasileira”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, n. 30 (octubre-diciembre 2015). En línea: http://www.eumed.net/rev/cccss/2015/04/cultura-brasileira.html


1 INTRODUÇÃO

A motivação desta pesquisa reflete a trajetória de vidada pesquisadora, uma estudante brasileira que recebeu uma bolsa de estudo da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para cursar um programa de doutorado na Universidade de Barcelona, onde a cultura, os valores, os costumes, o clima, a culinária, o idioma e os hábitos são diferentes. Pesquisar sobre a percepção dos estudantes da Guiné-Bissau sobre a cultura receptora é recordar as próprias experiências vivenciadas em um tempo não tão distante.
Conhecer o universo desses estudantes foi compartilhar as próprias experiências, revelando outro olhar e os desafios de ser estrangeiro, o qual enfrenta encontros e desencontros durante seu processo de adaptação, fazendo também refletir sobre a própria cultura da pesquisadora, internacionalmente conhecida por ter um povo alegre e aberto.
Com um olhar observador, os momentos destas experiências são relatados e muitas vezes interpretados, oferecem uma grande contribuição para quem deseja conhecer melhor este universo.
Dessa forma, ao refletir-se sobre esse tema, surge esta pesquisa com a finalidade de conhecer a percepção dos estudantes oriundos da Guiné-Bissau na cultura local.
Para melhor compreensão, sintetiza-se a problemática do estudo com a seguinte pergunta: qual a percepção dos estudantes da Guiné-Bissau sobre a cultura receptora?
Destarte, entende-se que, devido à proximidade da cultura brasileira com os países africanos de língua portuguesa, vem-se a desenvolver um papel preponderante a percepção de alunos originários de países africanos. Partindo dessa premissa, a justificativa do trabalho reside tanto no aspecto acadêmico quanto no social, visto que se pretende trazer à luz uma temática de fundamental importância para melhoria da comunicação intercultural institucional e desvelar uma problemática vivenciada no silêncio do mito do Brasil de todos e para todos. Pode-se asseverar que é uma cultura aberta, em que se vive sem preconceitos raciais.
Dessa forma, pretende-se fazer um diagnóstico de uma problemática à qual se oferece uma proposta de melhoria para a convivência social. Para tanto, guiou-se pelo diário de campo da pesquisadora, no qual foram anotadas as principais questões do universo em questão.

2  COMUNICAÇÃO INTERCULTURAL

Em um mundo cada vez mais globalizado, a comunicação estabelecida entre pessoas de diferentes culturas é um verdadeiro desafio. A relação limitada das comunicações estabelecidas entre membros de diferentes culturas gera, muitas vezes, impasses ou conflitos, dadas as limitações de compreensão.
Porter e Samovar (1994) destacam que “a comunicação enfoca o comportamento de um indivíduo (emissor) que causa ou provoca uma resposta em outro indivíduo (receptor)”. Para que a comunicação seja completa, o segundo indivíduo deve atribuir um significado ao comportamento do primeiro. Esse processo de interpretação é realizado com base em sua experiência passada.
Por conseguinte, o conceito de comunicação intercultural descreve um campo de investigação que trata de oferecer uma percepção adequada de outras culturas e do entendimento logrado entre os membros de diferentes culturas. Segundo Siever (2011), um dos aspectos a destacar na comunicação intercultural faz referência à ambivalência, que, por um lado, refere-se ao nível abstrato de uma comunicação entre culturas e, por outro, ao nível concreto da comunicação entre indivíduos. Nesse sentido, o choque cultural surge quando não ocorre essa comunicação e, por sua vez, gera um mal-estar emocional no indivíduo quando este se encontra em um novo contexto cultural.
Para tanto, é preciso compreender que “a cultura é o meio pelo qual as pessoas se comunicam, perpetuam e desenvolvem seus conhecimentos sobre atitudes em relação à vida” (GEERTZ, 1973). Tendo isso em mente, cabe destacar, em um mundo cada vez mais globalizado, onde as fronteiras geográficas estão cada vez menos relevantes, as dificuldades de pessoas expostas a novos ambientes culturais em compreender a comunicação no contexto inserido.
Para Barnlund (1994), cada cultura cria um "universo de discurso" para seus membros, uma forma por meio da qual cada pessoa pode interpretar os fatos e transmiti-los aos outros. Esse "universo de discurso" é propagado de geração para geração, tanto consciente como inconscientemente. Assim, por serem transferidos, em grande parte implicitamente, pela sugestão de comportamentos adequados, os preconceitos e as suposições neles contidos são difíceis de serem reconhecidos. É, portanto, necessário identificar as regras de significado que distinguem uma cultura da outra.
Nessa direção, compreende-se esse processo como de submersão a uma nova cultura, termo na antropologia utilizado como processo de aculturação. Sam e Berry (2006, p. 11), simplificam, definindo aculturação como “todas as mudanças que nascem a partir do contato entre indivíduos de grupos com experiências culturais diferentes”.

3 METODOLOGIA

A pesquisa parte de um estudo qualitativo no qual foram utilizadas estratégias e técnicas qualitativas. Por outra parte, iniciou-se o estudo com uma pesquisa exploratória (leituras sobre o tema) e, posteriormente, seguiram-se as observações de cunho participante. Para tanto, foi escrito um diário de campo com as observações colhidas. Realizaram-se anotações dos relatos dos estudantes africanos sobre a integração na cultura receptora, as dificuldades e os anseios. “A metodologia da observação participante concentra-se nos significados da existência humana enxergada do ponto de vista dos insiders”. O mundo do quotidiano enxergado por meio do ponto de vista dos insiders é a realidade fundamental a ser descrita pelo observador-participante. (JORGENSEN, 1989:14).
Destarte, a metodologia da observação participante fornece um acesso experiencial e observacional ao mundo dos significados dos insiders. Neste sentido, o autor ssupracitado, explica que o universo do quotidiano, que será desbravado, é para o método da observação participante o ambiente natural, comum, usual, típico, de rotina da existência humana. Para ele, esse mundo está em contraste em relação a ambientes criados e manipulados por pesquisadores.

4 RESULTADOS

A pesquisa apresentada foi realizada inicialmente na Faculdade Ateneu, na sede Messejana e São Vicente, instituição na qual a pesquisadora leciona, o que lhe possibilitou ter contato com estudantes oriundos de África, por meio das disciplinas ou da orientação de Trabalho de Conclusão de Curso. Vale salientar que a instituição iniciou suas atividades no ano de 1996, em Fortaleza-CE, com os cursos de Administração e Ciências Contábeis, em Messejana e São Vicente, respectivamente.
 Em conformidade com a observação participante realizada entre 20013 e 2014, no cotidiano com os três alunos da Guiné-Bissau, a pesquisadora teve a oportunidade de conhecer suas alegrias e angústias na cultura receptora. Logo, não pôde ficar indiferente às dificuldades vivenciadas pelos discentes.
As motivações que, em geral, levam os estudantes de alguns países africanos a vir a estudar no Brasil vinculam-se, sobretudo, à língua, ou seja, a aproximação linguística. Muito embora, durante as aulas ministradas pela pesquisadora ou por outros professores da instituição, percebeu-se que algumas palavras, ou mesmo provérbios, não eram compreendidas por esses estudantes, item inclusive amplamente salientado pelos estudantes guineenses, que embora sejam luso-falantes, possuem muitas diferenças linguísticas com o português brasileiro.
Quanto à questão da universidade brasileira, praticamente em todas as discussões em sala de aula e de conversas informais, os alunos comentavam que era um sonho realizado ou um privilégio estudar no Brasil. País este considerado por muitos africanos de ensino bem superior ao da cultura de origem.
Quanto à cultura local, sentiram dificuldades no que diz respeito às relações interpessoais em estabelecer amizades. Inclusive nas aulas ministradas pela pesquisadora, foi possível perceber, muitas vezes, as dificuldades dos alunos guineenses em ser compreendidos pelos estudantes da cultura receptora.
Vale salientar que os estudantes oriundos de Guiné-Bissau sentiam uma identificação imediata aos companheiros de sua origem (país), inclusive antes da aula ou nos intervalos, costumavam ficar em grupo com os compatriotas. As limitações e dificuldades dos estudantes estrangeiros para estabelecer vínculos com pessoas da cultura receptora e a forte tendência de estabelecer relação com os conterrâneos são dificuldades que não favorecem o processo de adaptação, inclusive é uma questão apresentada nos estudos de tendência, constatada nos trabalhos de Brown (2009a). Segundo o autor, as amizades com pessoas do país anfitrião contribuiriam para um melhor conhecimento do idioma e da cultura local. Portanto, enquanto as amizades multiculturais (com outros estrangeiros) seriam oportunas para a integração cultural, as monoculturais (com conterrâneos) seriam fundamentais para reduzir o estresse.
Quando se faz referência ao contexto físico, à instituição receptora, nota-se que os guineenses estavam satisfeitos com a atenção dispensada pela equipe administrativa e pelos professores. Todavia, durante algumas aulas, foi possível verificar que havia uma preocupação estampada no rosto, ora por questões financeiras, ora por preocupação com transporte para retornar a casa, tendo em vista que os estudantes guineenses costumam viver na periferia de Fortaleza, onde podem encontrar aluguéis mais baratos. Ressalta-se que como possuem poucos recursos, é fundamental que possam economizar para a alimentação ou uma eventual necessidade, haja vista que a grande parte dos alunos guineenses depende de ajuda financeira dos pais.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com a finalidade da pesquisa, foi possível compreender a percepção dos estudantes guineenses na cultura receptora e verificar os principais aspectos que configuram a adaptação e as dificuldades.
Observou-se que esses alunos sentem-se acolhidos pela equipe técnica e pelos professores da instituição de ensino em que estão inseridos, embora que muitas vezes os estudantes se sintam imersos em situações de discriminação na cultura receptora, inclusive em sala de aula, o que corrobora a percepção acerca das diferenças das culturas em questão.
Nesse caso específico, os sujeitos investigados consideram as culturas brasileiras e guineenses bem diferentes em muitos aspectos, sendo a sociedade receptora apontada como geradora de conflitos, no que concernem aos preconceitos, às ideias pré-concebidas sobre os estrangeiros oriundos da África. Contudo, a instituição receptora parece empatizar com os alunos guineenses, o que contribui para os estudantes levar a cabo o projeto acadêmico inicialmente perpetrado.
 Dessa forma, à medida que os estudantes guineenses passarem a sentir-se integrados à cultura receptora, adaptados ao novo contexto, isso certamente possibilitará um melhor rendimento acadêmico e científico, bem como indubitavelmente refletirá no aumento da cooperação cultural e científica entre o Brasil e o país de origem desses estudantes.

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Recibido: 08/12/2015 Aceptado: 16/12/2015 Publicado: Diciembre de 2015

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