Revista: CCCSS Contribuciones a las Ciencias Sociales
ISSN: 1988-7833


A BELLE ÉPOQUE CAIPIRA E A IMIGRAÇÃO ITALIANA ENQUANTO PATRIMÔNIO CULTURAL E RECURSO TURÍSTICO

Autores e infomación del artículo

Leandro Benedini Brusadin

Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil

leandro@turismo.ufop.br

RESUMO

O presente artigo objetiva delimitar a Belle Époque Caipira enquanto foco da cultura urbana no interior de São Paulo em meados do século XIX.  A metodologia baseia-se na análise bibliográfica e documental sobre o tema. O artigo objetiva delimitar a Belle Époque Caipira, em uma análise exploratória, como elemento integrante do patrimônio cultural vinculado a imigração italiana na cidade de Ribeirão Preto (SP).  Verifica-se que a Belle Époque Caipira teve efeito transformador social e político, ao proporcionar transformações culturais nas cidades do interior de São Paulo, haja vista o aumento considerável no número de hotéis, teatros e cinemas. Entretanto, atualmente o desenvolvimento urbano de Ribeirão Preto apresenta um processo de perdas de tais referências no qual o patrimônio cultural poderia contribuir para a preservação de identidades por meio da atividade turística.

Palavras-Chave: Belle Époque Caipira, Imigração Italiana, Ribeirão Preto (SP), Cultura, Patrimônio Cultural, Turismo.

ABSTRACT

This paper aims to delimit the Belle Époque Caipira while focus of urban culture in the State of São Paulo in the mid-19th century.  The methodology is based on the bibliographic and documentary analysis on the topic. The paper aims to delimit the Belle Époque redneck, in an exploratory analysis, as an integral element of cultural heritage linked to Italian immigration in the city of Ribeirão Preto (SP). It turns out that the Belle Époque Caipira had social and political transformer effect, by providing cultural transformations in the cities of São Paulo, the considerable increase in the number of hotels, theatres and cinemas. However, currently the urban development of Ribeirão Preto offers a process of loss of such references in which cultural heritage could contribute to the preservation of identities through the tourist activity

Key Words: Belle Époque Caipira; Italian Immigration; Ribeirão Preto (SP); Culture; Cultural Heritage; Tourism.



Para citar este artículo puede uitlizar el siguiente formato:

Leandro Benedini Brusadin (2015): “A Belle Époque Caipira e a imigração italiana enquanto patrimônio cultural e recurso turístico”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, n. 30 (octubre-diciembre 2015). En línea: http://www.eumed.net/rev/cccss/2015/04/caipira.html


1. Introdução

          Ao trabalhar a cultura da vida urbana no interior de São Paulo, em meados do século XIX, é possível perceber a influência de algumas classes sociais na modernização dessas cidades e, inclusive, delimitar a abrangência dos aspectos culturais e políticos de algumas famílias das que obtinham suas riquezas por meio das fazendas de café.
          O presente artigo objetiva delimitar o tema Belle Époque Caipira ,tema abordado com ênfase em disciplina do Programa de Pós-Graduação do Doutorado em História da Unesp – Franca, ministrada pelo Prof. Dr. José Evaldo de Mello Doin (in memorian). Nesse sentido, torna-se relevante traçar a influência de determinadas classes sociais, vinculadas à larga escala de produção cafeeira no período entre 1852 e 1930, na modernização dos núcleos urbanos e sua vida cultural.
          Após delimitar a abrangência do tema em questão por meio de bibliografias entrelaçadas entre a cultura e a vida urbana, vincula-se o estudo da imigração italiana em Ribeirão Preto como usufruto do patrimônio cultural e de recurso turístico. Pretende-se, nesse artigo, compreender a abrangência do tema utilizando-se de fontes bibliográficas indicadas para tal discussão em uma análise exploratória.
          Portanto, pretende-se demonstrar a relação intrínseca entre a Belle Époque caipira a imigração italiana em Ribeirão Preto, sendo possível de serem constituídos teoricamente como patrimônios culturais e recursos turísticos da região em uma análise exploratória da bibliografia em questão.

2. Belle Époque Caipira: conceitos e abordagens

          A renda proveniente das plantações de café em meados do século XIX,  no Brasil,  vincula-se à idéia de modernização e materialidade em determinados núcleos urbanos, situados entre os atuais estados de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantis, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Paraná. Essas experiências eram provenientes da Europa, situadas como marca de um novo tempo denominado Belle Époque.
          Ao situarmos o interior paulista, foco dessa análise, percebe-se que durante o término do século XIX e início do século XX, muitos homens desse espaço geográfico tinham seus sonhos povoados por desejos como de viver um grande amor em Paris, desfrutar de seus cafés e cabarés, passear pelas ruas olhando as vitrines das butiques e admirando a luz elétrica, entre outras novidades técnicas e materiais (DOIN, PERINELLI, PAZIANI, PACANO, 2007).
          Segundo Doin, Perinelli, Paziani, Pacano (2007, p. 2), em artigo publicado na Revista Brasileira de História, a Belle Époque caipira influencia na formação das cidades por meio da cultura cafeeira:
A Belle Époque caipira era constituída especialmente pela ação de uma elite desejosa de modernizar-se. Desobrigados de qualquer ética, derrubavam as matas, levando a destruição, morte e grilagem às terras férteis do sertão. (...) Assim, o café seguia impávido, ladrilhando as localidades outrora semeadas e levando os trilhos e silvos das locomotivas em seu rastro. Rápido, então, os lugarejos cresciam e tomavam forma de cidades, tornando-se, assim, centros bafejados pela “força da grana que construía e destruía coisas belas”, um verdadeiro admirável mundo, que mesclava sem possibilidades de separação o arcaico e o novo.
          Nesse sentido, pode-se notar que o interior de São Paulo assim como outras localidades ligadas à elite cafeeira foram vinculados à imagem de progresso e modernização, com a circulação cada vez mais acelerada de capitais, braços (especialmente imigrantes) e mercadorias, graças aos trilhos que avançavam por toda parte. É possível verificar que diversas análises historiográficas passam pela questão do café, haja vista a influência dessa cultura ser considerada produto-mundo no período em questão, relacionada  com a teoria econômica de Fernand Braudel (1996). No Brasil, situam-se dois sentimentos distintos, uma vez que São Paulo era considerado a locomotiva do país e, por outro lado, o Brasil passava por uma necessidade de integração econômica de seu território.
          A pesquisa de Doin, Perinelli, Paziani, Pacano (2007) indica como referência inicial desse período o ano de 1852, sendo, nessa ocasião, que surgiram as primeiras tentativas de fazer ligação férrea entre o porto de Santos e o Planalto de Piratiningano. Segundo os mesmos autores, essa era uma tentativa de eliminar o gargalo que dificultava a exportação do café, sendo terminada em 1867 a The São Paulo Railway Company Limited que foi a principal ferrovia do país. Dessa forma, escoava a imensa produção de café e, em movimento oposto, transportava os milhares de imigrantes do porto para as fazendas e as cidades, bem como tornando disponíveis aos moradores do rico interior do Estado de São Paulo os produtos e manufaturas importados e toda a marca de civilização e desenvolvimento que portavam.
          Os mesmos autores reforçam a importância dessa temática ao situar os atores políticos da Belle Époque Caipira ao espaço do poder público. A elite cafeeira era constituída também por homens formados em importantes faculdades do país, os quais assumiriam  papéis de liderança política e social, tornando-se hábeis manejadores da coisa pública e os principais representantes das elites municipais. Destaca-se a figura de Joaquim Macedo Bittencourt, em Ribeirão Preto, e o de Washington Luís, em Batatais. Salienta-se que os “homens rudes” do café tinham hábitos refinados e, muitas vezes, eram considerados sanguinários, sendo possível relacionar com a teoria de Max Weber de que o Estado legitima  a violência.
          No entanto, é plausível que o poder político e social da elite cafeeira no interior de São Paulo, foi dividido com imigrantes bem sucedidos  que também tinham acesso ao poder publico. Alguns exemplos podem ser citados para ilustrar esse contexto, tais como, as figuras de Francisco Schmidt e Artur Diederichsen em Ribeirão Preto, assim como Gaetano Petraglia em Franca. Soma-se a essa estrutura social e política, mas em um âmbito nacional, os pioneiros empreendedores industriais, caso dos Siciliano, Matarazzo, Biagi, Pignatri, Dedinim , Guinle e outros.
          Ao tratar dos efeitos da riqueza do café, Doin, Perinelli, Paziani, Pacano (p. 6, 2007) relatam que:
Essa riqueza gerada pelo café movia busca por signos que a traduzissem. Várias eram as marcas de inspiração na utopia da Belle Époque, destacando-se, porém, o apreço pelos novos projetos arquitetônicos e urbanísticos. Com maior ou menor inventividade, não foi por acaso que a partir da implantação da lavoura cafeeira, se fizeram presentes por boa parte do Brasil caipira as concepções do imperial prefeito de Napoleão II, o barão Geores Eugene Haussmann. A Hausmanização deve ser entendida como fenômeno urbano baseado nas reformas da capital francesa do século XIX (...) cuja solução requeria a demolição do traçado arcaico, o tratamento disciplinador dados aos edifícios e jardins públicos e a adoção de uma série de medidas higiênicas.
Essa situação vai somente sofrer alterações com a 1ª. Guerra Mundial, a qual reverte o quadro internacional dos fluxos econômicos e financeiros. A Belle Époque passa a dividir espaço com um novo discurso sobre o “novo”, com outros modos nascendo da guerra, um diferente discurso sobre o Brasil e o seu povo. Nesse momento, a presença cultural e econômica dos Estados Unidos se sobrepunha ao moderno imposto pela época anterior em uma distinta e nova perspectiva. A forte entrada de manufaturados norte-americanos, facilitada por uma agressiva política de crédito, por preços altamente competitivos e pela inovadora e inusitada propaganda, colocou no mercado brasileiro as bugigangas, os automóveis, os artigos domésticos, acelerando assim, a constituição da sociedade de massas.
         
3. A Imigração Italiana em Ribeirão Preto e a Belle Époque

          Partindo do principio que pesquisas locais em formas de estudos de casos podem refletir um nível global, delimitou-se o tema da presente pesquisa. Ao analisar a imigração italiana em Ribeirão Preto e conferir o que de fato ainda constitui seu patrimônio cultural na contemporaneidade, podemos instituir ferramentas do turismo para tentar auxiliar o processo de memória coletiva dessa cidade e de seus visitantes.
          Ao permear os limites e os objetivos desta pesquisa, neste trabalho, mesmo com a impossibilidade de remeter todas as suas fontes e a própria questão metodológica, pretende-se correlacionar as suas análises à Belle Époque caipira, que teve como mestre de suas construções, a mão-de-obra italiana, os campomastri, que são considerados os artesãos da modernização desse período. Destaca-se ainda que alguns imigrantes italianos tinham intercursos entre as famílias tradicionais do café, fazendo parte dessa nova concepção de modernização das cidades e de sua articulação política.
           Os imigrantes italianos acabam sendo absorvidos em um modelo novo de produção de bens e consumo, substituindo o sistema escravista, que de certa forma a sua alforria e a negação ao trabalho eram uma contrapartida ao sistema capitalista. Ao tratarmos da teoria do embranquecimento, com a qual o governo e à elite cafeeira  teriam buscado uma “limpeza racial”, é possível contradizê-la, já que juntamente com a imigração européia foi atraída também a imigração japonesa. Além do mais, os fazendeiros eram considerados demasiadamente pragmáticos para pensarem em uma questão ideológica racial, sendo que o europeu exercia uma atividade legal e sairia em busca de trabalho e novas opções de vida.
O imigrante italiano ficava na terra a fim de acumular e ir para cidade, e tinha um ritmo de trabalho parecido com os negros devido a sua origem ser das regiões Sul e Vêneto. O processo imigratório constitui-se em um elemento fundamental em uma análise na qual tudo se move. A partir dessa premissa, forma-se, no Brasil, a plutocracia cafeeira com elementos da oligarquia e aventureiros. Destaca-se o processo acelerado de formação de fortunas e dissolução de riquezas.
Ao tratamos de imigração italiana como patrimônio cultural devido a sua influência na questão material e imaterial nas cidades paulistas, torna-se importante verificar o trabalho de Boris Fausto,  periodizado entre 1880 a 1960. Foi uma abordagem inovadora sobre esse tema clássico da história contemporânea brasileira, antes  focalizado sobretudo nas manifestações agrárias. O problema da inserção do imigrante no meio urbano representa uma imensa área que só foi investigada com maior detalhe em relação ao trabalho fabril. Não houve ainda a exploração sistemática de dados como censos gerais e industriais, abertura de empresas, arrecadação de tributos que permitam  estabelecer uma morfologia do imigrante nas cidades, à maneira do que foi feito em relação ao campo. O autor relata a necessidade desse tipo de pesquisa, relacionando os seguintes fatos:
As dificuldades da pesquisa se refletem no fato de que, com algumas exceções, estejamos muito voltados para os grandes personagens sobretudo industriais: Matarazzo, Crespi, Siciliano e outros. Sem negar a importância desse conhecimento, estudos sistemáticos são necessários para se conhecer melhor que questões que dizem respeito em termos estritos à imigração e, em termos amplos, à contribuição de classes, à formação de bairros (FAUSTO, 1991, p. 26.).
          Quanto à diversidade cultural dos imigrantes, Fausto (1991) ressalta que, no Brasil, se a noção de pluralismo cultural é amplamente aceita e presente em estudos sobre grupos indígenas, grupos religiosos, organizações de mulheres, etc., ainda não encontrou forte ressonância nos trabalhos sobre imigração.
Em qualquer tipo de enfoque, das histórias de vida à história quantitativa, penso que deve estar no horizonte, a importância da imigração para se compreender melhor os processos sociais e as instituições básicas na formação do Brasil contemporâneo. Não se trata de acreditar que através dos estudos migratórios vamos encontrar uma chave mágica abrindo o cofre de desconcertantes e insuspeitadas revelações. Mas o tema é relevante, presta-se à controvérsia e não se encontra esgotado, se é que os temas algum dia se esgotam (FAUSTO, 1991, p. 53).     
          A imigração é um complexo extremamente importante para  a História, tendo implicado no desenvolvimento de diversos países. Em se tratando do Brasil, podemos afirmar que a imigração não está de todo estudada e o pesquisador enfrenta as dificuldades inerentes aos aspectos não explorados. (Hutter, 1986)
           Na pesquisa de Valéria Valadão (1997), a autora concluiu que a arquitetura eclética em Ribeirão Preto foi influenciada de maneira substancial pela presença do imigrante italiano. A mão-de-obra italiana, representada pelos “Campomastri” e “Muratori” – respectivamente mestre –de – obras e pedreiros, influi diretamente neste processo. Em 1912, o recenseamento da cidade registrou 58220  habitantes, dos quais 33862 brasileiros ou descendentes de imigrantes, 14561 italianos e 9727 de outras nacionalidades.
          A integração dos imigrantes italianos foi marcante para a cidade também na área cultural. No teatro, destacavam-se as atividades da Companhia Clara Della Guardiã, assim como apresentaçãoes de grupos musicais de sucesso e exposições de artes plásticas tornaram-se freqüentes. Valadão (1997) relatou que foi expressiva a presença do italiano ou de seus descendentes nesta atividade.
                     
4. Belle Époque Caipira: patrimônio cultural e recurso turístico
         
          Ao pensarmos a Belle Époque caipira como efeito transformador social e político, remetemos às transformações culturais nas cidades, haja visto o aumento considerável no número de hotéis, teatros e cinemas. Esses fatores culturais viriam da moda parisiense e da onda de imigração européia, relacionados aos fatores de modernização e progresso no Brasil. Considera-se que havia ainda uma grande mistura entre o público e o privado, em que a elite cafeeira e os imigrantes bem sucedidos ditavam as regras sociais e políticas.
          O interior de São Paulo nesse período tinha uma grande dimensão cultural, havendo artistas que faziam discussão literária de vanguarda e que tinha vivido em Paris, tal como Tarsilla do Amaral. O espírito colonialista brasileiro vai girar em torno da experiência cultural francesa. As construções ecléticas desse período foram frutos da presente sociedade de massa que consumiam nos balneários, nos hotéis, nos cinemas do interior de São Paulo, demonstrando formas de lazer refinadas. O café era um grande gerador de recursos e moveria o mito de cultura e progresso.
No caso de Ribeirão Preto, que teve um modelo burguês de urbanização em que a população foi expulsa do centro para realizar as reformas, verificam-se importantes características desse período, tais como, o Teatro Carlos Gomes de 1897, precedendo os teatros das cidades de  São Paulo e Rio de Janeiro. Podemos mencionar ainda o Cassino Eldorado, Cassino Antártica e o Quarteirão Paulista. Ao analisarmos esses fatores de limpeza e reformulação urbana, podemos salientar que o Teatro Carlos Gomes, que  antecipou em 14 anos ao grande teatro da capital paulista.
A pesquisadora Valadão (1997) constatou que poucos, mas significativos exemplares do patrimônio ambiental urbano de Ribeirão Preto, resistiram após a 2ª. Guerra Mundial, sendo o modelo europeu substituído pelo norte – americano, com três décadas de demolições, verticalização acelerada, especulação imobiliária, inexistência de política de preservação e uma legislação parca e desrespeitosa relativa ao Patrimônio Histórico e Cultural, apresentando este contexto no início da década de 90.
A elite cafeeira do interior paulista desejava construir as imagens modernas e civilizadas de suas cidades, inaugurando obras públicas e  publicando revistas e almanaques. Verifica-se ainda a questão da sociedade de consumo ser refletida na questão de os mais pobres desejarem adquirir os produtos dos mais ricos, sendo feita essa relação entre a elite cafeeira brasileira e a sociedade parisiense.
          Na questão da identificação do patrimônio cultural, ressalta-se a necessidade de se privilegiar o caráter histórico-social significativo para a comunidade, em detrimento dos monumentos celebrativos do Estado e da classe dominante. A identificação do patrimônio deve ser estabelecida por critérios que valorizem a memória em lugar da celebração.   
          A memória desse período nos permite compreender determinadas conjunturas que deveriam fazer parte do coletivo. No entanto, a destruição de patrimônios e ausências de políticas preservacionistas impedem esse objetivo. Para Walter Benjamim (1986), a memória se reveste de certa aura, que nos possibilita ultrapassar o necessário, porém insuficiente, conhecimento factual, permitindo-nos analisar os nexos entre processos sociais já objetivados e processos emergentes. 
          Nos estudos de Nestor Garcia Ganclini (1999), é possível observar que, embora alguns autores vinculem o patrimônio a outros aspectos conceituais, tais como,  desenvolvimento urbano, mercantilização, comunicação de massa e turismo como forma adversária do patrimônio, parece importante partir da hipótese contrária. O autor situa que no México, assim como em outros países, organismos mostram um movimento de redefinição dos discursos referentes ao patrimônio cultural, permitindo compreender  melhor o  processo histórico.
 Nesse sentido, introduz-se outro elemento para essa análise: o turismo. O planejamento dessa atividade condiciona determinados fatores que podem ser positivos na (re)visitação aos patrimônios culturais frutos da Belle Époque,  rememorando a história de uma forma coletiva, tanto para os visitantes quanto para os próprios moradores. Sendo assim, acredita-se que por meio desse processo eleva-se o caráter cultural de um município.
A procura por cultura tem levado a um crescimento do turismo urbano, tendência que também já se observa em algumas capitais da América Latina,  relacionado a uma procura por turismo histórico, artístico e cultural. No turismo praticado nas grandes cidades, observa-se o ressurgimento da figura do flâneur, que caracterizou o final do século passado, imortalizada por Baudelaire: aquela pessoa que vagava sem rumo, andando de um lugar a outro, aproveitando os bulevares recém-construídos na Paris moderna. A procura é pela cultura atual e também pela passada. Assiste-se, atualmente, a uma procura sem precedentes por lugares históricos, ligados à petite histoire ou aos grandes feitos da história política e social mais ampla. (Barreto, 2000)
A recriação dos espaços revitalizados, se bem realizada, apóia-se na memória coletiva e, ao mesmo tempo, estimula-a, já que ela é o motor fundamental para desencadear o processo de identificação do cidadão com sua história e cultura.  Conforme Barreto (2000), recuperar ou manter a identidade e a cor local, surge neste início de século, como uma necessidade generalizada em face da globalização. Manter algum tipo de identidade, étnica, local ou regional, parece ser essencial para que as pessoas se sintam seguras, unidas por laços extemporâneos a seus antepassados, a um local, a uma terra, a costumes e hábitos que lhe dão segurança, que lhes informem quem são e de onde vêm. Além da questão identitária, a recuperação da memória leva ao conhecimento do patrimônio e este, à sua valorização por parte dos próprios habitantes do local. 

5. Considerações Finais

          A imagem do caipira, por vezes relacionada ao personagem de Monteiro Lobato, Jeca Tatu, é muito contraditória ao pensarmos no caipira com hábitos refinados da elite cafeeira de meados do século XIX.  O imigrante italiano entra em um processo de aculturação e passa a fazer parte desse mundo caipira, sendo que alguns atingem grande apogeu social e político. O caipira ao qual se refere Antônio Cândido é o homem que é oriundo do processo dos bandeirantes e possui uma cultura fechada e própria e não se equipara ao caipira da Belle Époque. O primeiro tinha noção de solidariedade, era arcaico e integrado à natureza e vivia da economia de subsistência, sendo muito distinto do que foi descrito nesse trabalho.
          A Belle Époque caipira pode ser periodizada entre o fim do império e o início da república, caracterizada por uma transformação modernista por meio da ferrovia e da expansão cafeeira. Após  a crise de 1929, no Governo de Getúlio Vargas, nota-se uma modificação na política devido a menor influência da elite cafeeira. Em Ribeirão Preto, os impactos são menores devido à diversidade comercial e à mentalidade capitalista dos próprios cafeicultores que diversificam seus negócios na área urbana.
          Situando o objeto dessa pesquisa, percebe-se a importante relação com a Belle Époque, já que essa também foi fruto da mão-de-obra da imigração italiana culminando em uma transformação cultural e constituindo grande parte do patrimônio cultural de Ribeirão Preto, que poderia ser trabalhado como recurso turístico, levando em conta o processo de rememorização que essa atividade pode proporcionar aos seus visitantes e aos próprios habitantes.  
          A fidelidade aos fatos históricos, ao que está guardado em arquivos, tanto oficiais quando na memória coletiva, a recuperação das histórias da vida cotidiana, a compreensão  dos nexos entre os grandes feitos e a história das minorias, tudo isso é e deve ser condição para trabalhar bem um recurso cultural do ponto de vista de sua aplicação ao turismo. Entretanto, atualmente o desenvolvimento urbano de Ribeirão Preto apresenta um processo de perdas de referências. Todos os elementos, sejam conjuntos arquitetônicos ou aspectos do cotidiano compõem o patrimônio cultural de um povo, porém  não se deve perder a noção predominante do coletivo de que o patrimônio não existe se não houver um grupo que o consagre, que encontre nele referências de sua própria vida.  
 
Bibliografia

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BORGES, Maria Elízia. A pintura na “Capital do Café”: sua história e evolução no período da primeira república. São Paulo: Fundação Escola de Sociologia Política – USP, 1983.

BRAUDEL, F. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV – XVIII – as estruturas do cotidiano. Trad.: Telma Costa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

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DOIN, Jose Evaldo de Mello. Olhar, desejo e paixão:lazeres e prazeres nas terras do café (1864-1930).Revista ArtCultura – UFU, v.2. n. 2., janeiro – dezembro de 2000.

FAUSTO, Boris. Historiografia da imigração para São Paulo. São Paulo: Sumaré – FAPESP, 1991.

GARCIA CANCLINI, Nestor. Los usos sociales del patrimônio cultural. In. AGUILAR CRIADO, Encarnación. Patrimônio etnológico: nuevas perspectivas de estudio. Consejería de cultura. Junta de Andalucia, 1999.

RODRIGUES, Marly. Preservar e consumir: o patrimônio histórico e o turismo. In FUNARI, Pedro Paulo e PINSKY, Jaime (Orgs.) et al. Turismo e patrimônio cultural. São Paulo: Contexto, 2001.

VALADÃO, Valéria. Memória arquitetônica em Ribeirão Preto. Planejamento urbano e políticas de preservação. Franca - SP: Unesp, 1997. Dissertação de Mestrado.


Recibido: 17/10/2015 Aceptado: 17/12/2015 Publicado: Diciembre de 2015

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