Revista: CCCSS Contribuciones a las Ciencias Sociales
ISSN: 1988-7833


EXPLORAÇÃO DO PATRIMÔNIO ÉTNICO EM COLÔNIA WITMARSUM: OS MENONITAS E SUAS DIVERSAS MIGRAÇÕES AO REDOR DO MUNDO

Autores e infomación del artículo

Carla Caroline Holm

Poliana Fabíula Cardozo

Universidade Estadual do Centro-Oeste

karol_holm@hotmail.com

Resumo:
A história de origem menonita, iniciada em aproximadamente 1500 na Europa, se confunde ao longo dos anos por ser um fenômeno oriundo de diversas migrações ao redor do mundo motivadas por perseguições política e religiosa. A fé e o trabalho são características marcantes, mas também estão associados ao grupo elementos da cultura alemã, sendo o uso da língua um fator essencial mantenedor da cultura. O grupo está espalhado pelo mundo e é observado que os traços tradicionais são mantidos independente do país onde estão; é com isto dizer que o fator identitário e de pertencimento ultrapassa as fronteiras que os separam, unindo-os a uma história de origem comum, cuja cultura está arraigada mesmo em tempos de globalização. Neste sentido, o objetivo do trabalho é identificar o patrimônio cultural alemão-menonita preservado em Colônia Witmarsum, Palmeira/PR, divulgando-o por meio da atividade turística. A partir de pesquisa bibliográfica, realização de inventário e aplicação de entrevistas com roteiro semiestruturado, buscou-se compreender quem são os membros do grupo e o que os motiva a preservar esta cultura mesmo estando em outro país. Nota-se que a comunidade estudada preserva traços que os mantém unidos e que faz rememorar a história de origem do povo, fomentando nas gerações vindouras a valorização da memória e patrimônio ao longo dos anos. Percebeu-se na pesquisa que os elementos identitários e de pertencimento estão presentes no uso da língua, religião, gastronomia, música, dança e arquitetura, e estas características mostram a intensidade da história viva, que permanece independente do território em que estão.
Palavras-chave: Colônia Witmarsum; patrimônio cultural; turismo.

EXPLORATION OF THE CULTURAL HERITAGE OF COLÔNIA WITMARSUM: THE MENNONITES AND THEIR VARIOUS MIGRATIONS AROUND THE WORLD

Abstract:
The history of Mennonite origin, started in about 1500 in Europe, is confused over the years for being a phenomenon coming from different migrations around the world motivated by political and religious persecution. Faith and work are striking features, but are also associated with the group elements of German culture, and language use an essential factor maintainer of culture. The group is widespread in the world and it is observed that the traditional features are maintained regardless of the country where they are; to say that this is the factor identity and belonging beyond the borders that separate them, uniting them to a history of common origin, whose culture is rooted even in times of globalization. In this sense, the objective is to identify the German-Mennonite cultural heritage preserved in Colônia Witmarsum, Palmeira/PR, disseminating it through tourism. From literature, performing inventory and application of semi-structured interviews, we sought to understand who are the members of the group and what motivates them to preserve this culture despite being in another country. Note that the studied community preserves traits that keeps them together and makes remembering the origin story of the people, encouraging the generations to come the enhancement of memory and heritage over the years. It was noted in the survey that the identity elements and belonging are present in the use of language, religion, food, music, dancing and architecture, and these characteristics show the strength of living history, which remains independent of the territory where they are.
Keywords: Colônia Witmarsum; cultural heritage; tourism.



Para citar este artículo puede uitlizar el siguiente formato:

Carla Caroline Holm y Poliana Fabíula Cardozo (2015): “Exploração do patrimônio étnico em colônia Witmarsum: os menonitas e suas diversas migrações ao redor do mundo”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, n. 27 (enero-marzo 2015). En línea: http://www.eumed.net/rev/cccss/2015/01/witmarsum.html


Introdução

Que terra estranha é essa, indignaram-se. Que povo diferente, amigo, prestativo e sorridente... Graças a Deus, exclamaram, Finalmente encontramos uma pátria livre e um povo hospitaleiro! Brasil: aqui construiremos o nosso lar! Aqui queremos trabalhar, progredir e ficar!
(PAULS, 2010, p. 38)

Por muitos anos o Estado e a Igreja estiveram unidos orientando o modo de vida das pessoas e estas em suas necessidades espirituais, sociais, políticas e culturais, por exemplo. Todavia, por volta do século XVI a Europa inicia uma nova forma de administrar estas questões, rompendo a união dos governantes e buscando, a partir disso, uma Igreja livre de interesses político-administrativos e baseada nos ensinamentos bíblicos. Desta ação, surgiram nomes importantes na história tais como Martino Lutero, Calvino e Menno Simons, para exemplificar (ENNS; CAMARGO; KRÜGER, 2000). Tal movimento fez com que estes líderes e seus seguidores passassem a ser perseguidos, considerados rebeldes, perigosos e até mesmo hereges. Por defenderem o batizado de adultos, passaram a ser chamados de anabatistas e tal movimento espalhou-se pela Suíça, Alemanha e Países Baixos.
Menno Simons (1496-1561) coordenou um grupo cuja fé baseava-se somente nos escritos bíblicos, tal grupo foi denominado de menonita haja vista o nome do líder. Ele “pregava uma igreja livre e pacifista, desvinculada de governos” (ENNS; CAMARGO; KRÜGER, 2000, p.07). Menno Simons “não aceitou qualquer compromisso com o Estado ou compromisso algum que desrespeitasse os ensinamentos claros da Bíblia.” (PAULS, 2010, p. 31). Deste modo e a partir do princípio da fé, Menno Simons ganhou fiéis seguidores, cujo número cresceu ao longo dos anos e espalhou-se pelos países do norte Europeu. Por pregarem o pacifismo, a não participação em guerras e uma sociedade desvinculada dos poderes da Igreja, o grupo passou a ser hostilizado e perseguido e, a partir daí iniciaram as migrações dos grupos menonitas motivadas por perseguições políticas e religiosas (ENNS; CAMARGO; KRÜGER, 2000), (PAULS, 2010), (AMPCW, 2014).
Em 1796 as comunidades menonitas que ainda viviam no norte europeu, com destaque para Alemanha e Holanda, foram convidadas por Catarina A Grande, czarina russa, para colonizar regiões do Volga, tendo em vista que estes alemães, como eram denominados, eram conhecidos por seu potencial de organização e trabalho (ENNS; CAMARGO; KRÜGER, 2000); (ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA DOS MORADORES PROPRIETÁRIOS DE WITMARSUM - ACPMW, 2001); (PAULS, 2010).
Catarina propunha colonizar o sudoeste da Rússia com os grupos menonitas, assegurando-lhes a isenção do serviço militar russo e
também o direito de autoadministração, com todas as implicações de infraestrutura ligadas à organização civil das diversas colônias. Isso incluía direitos e deveres, impostos internos e externos, a administração de heranças e partilha de bens, amparo às viúvas, aos órfãos e outros carentes, proteção e combate contra incêndios, construção e manutenção de estradas, hospitais, escolas, etc. (PAULS, 2010, p.36)

No entanto, a partir de 1874 os privilégios adquiridos com o acordo entre os alemães-menonitas e a Czarina Catarina iam aos poucos sendo retirados, uma vez que a Russia não era tinha mais a mesma administração. Restava, portanto, às comunidades menonitas migrarem mais uma vez. Muitas delas foram para a América do Norte, outras voltaram para a Alemanha e aos menos favorecidos que ficaram no país restou a perseguição constante. (ENNS; CAMARGO; KRÜGER, 2000). A partir disso, percebe-se que a história de formação do povo menonita está vinculada a uma transformação no cenário sócio-político mundial, tendo em vista a desvinculação entre Estado e Igreja e seu posicionamento em relação ao comportamento humano.
Levando em conta as diversas migrações dos alemães-menonitas ao redor do mundo desde a formação deste povo, o presente trabalho busca analisar uma comunidade específica, denominada Colônia Witmarsum, que está localizada no interior do Paraná, no município de Palmeira. Aqui, tem-se como objetivo da pesquisa identificar o patrimônio cultural alemão-menonita de Colônia Witmarsum, de modo que este possa ser divulgado por meio da atividade turística, incrementando o leque de atrativos da localidade. Esta é uma das maneiras de contribuir para a valorização da história do povo menonita e também de fomentar o mantenimento dos elementos que fazem parte de sua cultura.
Para tanto, utilizou-se de uma pesquisa qualitativa dividida em dois momentos, no qual o primeiro foi o levantamento teórico acerca dos temas centrais, a saber, história da comunidade, cultura, patrimônio e identidade étnica e o segundo foi a pesquisa de campo, baseada na execução de inventário e aplicação de entrevistas com roteiro semiestruturado pré-definido, buscando saber o que definia o alemão-menonita e quais eram os elementos culturais preservados pelos moradores.
Desta maneira, conseguiu-se atingir o objetivo proposto anteriormente, identificando os elementos que compõe o patrimônio cultural da comunidade menonita estudada, destacando-os como potencialidades a serem utilizadas pela atividade turística, trazendo deste modo, contribuições positivas no que diz respeito à divulgação da história e do local.
Cabe ressaltar que a presente pesquisa mostra-se válida para compor as discussões relacionadas a imigração, valorização da história de origem, reconhecimento da identidade e pertencimento do imigrante alemão-menonita e uso destes diferenciais pelo turismo, como uma alternativa para a geração de emprego e renda para os moradores desta comunidade.

Construções teóricas: cultura, patrimônio e identidade étnica

Estudar a etnicidade consiste, então, em inventariar o repertório das identidades disponíveis em uma situação pluriétnica dada a descrever o campo de saliência dessas identidades nas diversas situações de contato. (POUTIGNAT E STREIFF-FENART, 2011, p.117)

O termo cultura é adotado para retratar manifestações de diferentes ordens no cotidiano das pessoas. Para Cuche (2002, p. 25) “tudo o que é autêntico e que contribui para o enriquecimento intelectual e espiritual será considerado como vindo da cultura”. A partir disso, a cultura pode ser entendida como um leque variado de possibilidades que engloba o sujeito e o meio em que este habita, ela mostra-se como uma forma do sujeito enxergar o mundo.
É por meio da cultura adquirida que o sujeito é capacitado a transformar o meio em que habita de forma a facilitar o cotidiano do grupo com que se relaciona. Para Claval (2001) a cultura pode ser entendida como um agente capaz de moldar indivíduos e grupos. Para Cuche (2002, p. 28) com base nas teorias de Tylor e Franz Boas
a cultura vem da alma, do gênio de um povo. (...) A cultura aparece como um conjunto de conquistas artísticas, intelectuais e morais que constituem o patrimônio de uma nação, considerado como adquirido definitivamente e fundador da sua unidade.

Claval (2001) afirma que a cultura é uma herança e seu mantenimento depende da transmissão realizada entre as gerações, pois é este repasse de conhecimentos ordinários ou não que garantirá a união e identidade cultural do grupo. Desta forma, a cultura é um patrimônio coletivo.
O patrimônio é um tipo de bem herdado e que serve como uma das fontes de identificação. Configura-se como patrimônio bens tangíveis e intangíveis que são repassados entre as gerações para que sirvam de base para a sua formação cultural. De acordo com Camargo (2002, p. 15) o patrimônio pode ser percebido como “herança e identidade cultural que não quer se perder. Ou enquanto identidade nacional que se quer afirmar ou reafirmar, ainda que se desloque e se descentre em nossos dias”. Deste modo, há relação entre aquele que recebe o bem e seu significado e aquele que o repassa, pois o patrimônio só existe caso haja reconhecimento de sua importância mesmo entre as gerações.
Desta feita, o patrimônio pode ser um dos instrumentos de reconhecimento de um grupo e é o seu significado que o torna importante. Nesta perspectiva, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - UNESCO (2014, s/p) conceitua o patrimônio como sendo:
o legado que recebemos do passado, vivemos no presente e transmitimos às futuras gerações. Nosso patrimônio cultural e natural é fonte insubstituível de vida e inspiração, nossa pedra de toque, nosso ponto de referência, nossa identidade.
           
Assim, pode-se evidenciar a estreita relação entre cultura e patrimônio, pois ambos tratam da identidade e do sentimento de pertença de um indivíduo. Percebe-se que o patrimônio cultural é a maneira de um grupo identificar-se com a cultura de forma materializada, uma vez que quando trata-se de cultura há certa abstração em relação à sua aplicabilidade. Para Camargo (2002) o patrimônio cultural compreende os bens culturais e o conjunto de símbolos que estão impregnados neste bem. Para o autor, o patrimônio é uma das formas de identidade e por isto seu mantenimento mostra-se importante para o grupo que o detém.
            Com relação a isto, pode-se afirmar que a identidade é um sentimento manifestado em contextos de diferença, ela caracteriza-se por apresentar sentimentos de pertencimento em relação a determinadas ações ou costumes praticados por um grupo e só é percebida quando o ator social não está junto de seu grupo. A identidade, portanto, é uma maneira de apresentar o sujeito à sociedade, dizendo quem ele é, de onde ele vem e quais são os valores que carrega consigo.
No que diz respeito à identidade étnica, voltada ao grupo imigrante a qual este estudo refere-se, ela pode ser compreendida como sendo um sentimento que fortalece os laços identitários entre os semelhantes, de modo a garantir que esta união venha assegurar autodefesa em possíveis situações de conflitos; para Cardoso de Oliveira (2006, p.38) “a identidade étnica agrupa, agrega, unifica, malgrado a diferença os ecossistemas e, com eles, a presença de alguma variação cultural interna à etnia.”
Neste contexto, pode-se perceber que a identidade étnica estará de maneira clara sempre relacionada a um cenário grupal, mesmo que dentro deste hajam distintas formas de serem manifestadas a cultura, uma vez que as bases que os unem são comuns. É possível desta forma afirmar a similitude existente entre a identidade e a etnicidade, de modo que ambas referem-se a interesses coletivos relacionados à cultura.
            Neste sentido, o sujeito se reconhece dentro de um grupo étnico por estar tratando interesses partilhados e ainda tal identidade serve para auto-representação ou de representação para os que deste grupo cultural não fazem parte (GRÜNEWALD, 2003). Para Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 40, grifo dos autores) a partir do ponto de vista de Weber (1971)
A identidade étnica (a crença na vida em comum étnica) constrói-se a partir da diferença. A atração entre aqueles que se sentem como de uma mesma espécie é indissociável da repulsa diante daqueles que são percebidos como estrangeiros. Esta ideia implica que não é o isolamento que cria a consciência de pertença, mas ao contrário a comunicação das diferenças das quais os indivíduos se apropriam para estabelecer fronteiras étnicas. O conteúdo da comunidade étnica é a crença em uma honra específica: a honra étnica, pela qual os estilos de vida particulares se encarregam de valores sobre os quais se fundam as pretensões à dignidade daqueles que o praticam...

            A identificação étnica, deste modo, é acionada nos contextos de diferença e permite ao grupo organizar-se em torno de seus interesses. Assim, é possível perceber a relação estreita entre a cultura e a etnicidade e, mais que isto, a linha tênue entre estas e a identidade dos grupos. A etnicidade compõe a miríade de bens que são herdados entre gerações, ou seja, o patrimônio do grupo e por isto, manifesta-se com intensidade quando percebida em contexto de diferença, pois trata-se de um patrimônio adquirido e preservado para que as pessoas sejam facilmente identificadas.

Patrimônio e a identidade alemã-menonita

Hoje, Witmarsum é um lugar para ser feliz... É um ótimo espaço para trabalhar e viver, para descansar e para o lazer, em perfeita harmonia com o meio ambiente. Aqui a alma do povo respira liberdade...
(PAULS, 2011, p.241)

            Colônia Witmarsum localiza-se há 60 Km da capital do Estado, Curitiba, no município de Palmeira (ACPMW, 2014). Vivem nesta comunidade cerca de 300 famílias, sendo que totalizam uma média de 2000 pessoas. Destes moradores estima-se que 1200 sejam alemães menonitas praticantes e 800 não menonitas. 
Depois das diversas migrações que ocorreram com o povo alemão-menonita, como já contextualizado anteriormente, em 1951 formou-se a Colônia Witmarsum, constituída a partir da aquisição de 7800hc de terras da então Fazenda Cancela. A compra das terras ocorreu com a ajuda de instituições menonitas localizadas nos Estados Unidos e Canadá (ENNS; CAMARGO; KRÜGER, 2000); (ACPMW, 2001).
Tão logo instalaram-se na antiga Fazenda Cancela em 1951, os alemães menonitas organizaram-se e montaram a Cooperativa Agropecuária de Witmarsum Ltda, de modo que esta se responsabilizaria pela administração e comercialização dos produtos fabricados na comunidade, tais como: leite e derivados, frangos de corte, milho, soja, trigo, etc. (ACMPW, 2001); (WITMARSUM COOPERATIVA, 2014).
A partir dos anos 2000 passou a compor o cenário econômico local a atividade turística (ACMPW, 2014). Ainda que de maneira tímida, aos poucos foram sendo construídas pousadas, restaurantes e cafés visando atender os comerciantes que chegavam para tratar de negócios na Cooperativa. Para a ACMPW (2001, p. 11) “Localizada em região geograficamente privilegiada e possuindo tradição e cultura para apresentar aos visitantes, o turismo é uma fonte alternativa de receita.” Atualmente, a atividade tem ganhado expressão no local, haja vista que o número de visitantes tem crescido, bem como os investimentos no setor.
Tendo sido feita esta exposição teórica acerca dos temas condutores do presente trabalho e da história de formação da comunidade objeto deste estudo, serão apresentados a seguir os resultados obtidos por meio da pesquisa de campo desenvolvida em Colônia Witmarsum. Cabe aqui ressaltar, que o objetivo desta etapa foi identificar o que caracteriza ser um alemão-menonita, a partir da fala dos próprios moradores da comunidade, e com isto, verificar quais elementos do patrimônio cultural étnico são mantidos vivos no cotidiano das famílias.
Foram realizadas 27 entrevistas, com membros ordinários da comunidade e também representantes institucionais. O critério utilizado para atingir um número de respostas satisfatórias para o cumprimento da pesquisa foi o de repetição, no qual se buscava primeiramente um número expressivo de entrevistados e, a partir do momento em que as respostas se repetissem continuamente, as entrevistas seriam encerradas.
Deste modo, a abordagem inicial foi a de conhecer os atores participantes da pesquisa, todos voluntários, independendo o sexo, idade e ocupação. Foram feitas perguntas sobre o local de nascimento dos sujeitos e também a origem da família (pais e avós), visando uma melhor compreensão do histórico do participante.
Quando perguntados sobre os elementos que fazem parte da cultura do grupo, 24 dos 27 entrevistados apontaram primeiramente para o uso da língua alemã oficial ou do dialeto denominado Plautdietsch, seguido da religião, música, dança, arquitetura e gastronomia, com destaque. Já quando questionados sobre o motivo de preservarem o uso da língua alemã ou o dialeto mesmo não estando mais no local de origem do povo, os 24 sujeitos responderam que preservam porque foi a forma de comunicação que aprenderem com os pais e muitas vezes nem se dão conta de que estão falando em sua língua materna/oficial.
Devido ao fato da origem do grupo estar situada no norte europeu, mais especificadamente Prússia, atual Estado da Alemanha, percebe-se que comunicar-se no referido idioma é uma das formas que os menonitas da atualidade em todo o mundo encontraram de fazerem referência e, em certa medida, até mesmo homenagem, aos antepassados que contribuíram para a formação do grupo.
Para os autores Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 86) os elementos citados pelos entrevistados demonstram vinculação étnica, haja vista que “a etnicidade refere-se a um conjunto de atributos ou de traços tais como a língua, a religião, os costumes, o que aproxima na noção de cultura, ou à ascendência comum presumida dos membros (...)” e estes são elementos que compõe o patrimônio de um grupo ao passo em que são herdados de seus antepassados, mantidos vivos porque possuem importância e são repassados às gerações vindouras na ânsia de que sejam valorizados e assim haja preservação da identidade do grupo.
Os entrevistados ainda apontaram que utilizam a língua materna, assim denominada pelos próprios participantes da pesquisa, em todo o seu cotidiano e que se utilizam do português apenas na presença “dos outros”, como foi apontado. Nota-se que “os outros” a quem é feito referência, são pessoas não nascidas na comunidade e que não descendem de alemães. Estas também eram denominados nas entrevistas como “os brasileiros”. As fronteiras culturais, deste modo, são invisíveis e extrapolam as questões territoriais, pois mesmo que apenas 6 dos 27 entrevistados tivessem origem estrangeira (Alemanha, Rússia, Ucrânia, Paraguai e Finlândia) todos referiam-se aos membros externos à comunidade como “os outros” ou “os brasileiros”.
Percebe-se que a questão étnica está arraigada nos moradores de Colônia Witmarsum e embora a maioria deles sejam brasileiros de nascimento, a identidade étnica destes atores sociais está vinculada à história de origem de seu povo, que se deu no norte europeu como já exposto. Quando perguntados sobre o que era ser um alemão-menonita 20 participantes da pesquisa apontaram em primeiro lugar a fé e crença nos princípios bíblicos. Em segundo lugar, estes mesmos 20 indivíduos sinalizaram a valorização da história de seu povo, seguido do trabalho árduo e com forte influência do cooperativismo.
Outros 6 entrevistados inverteram a ordem da resposta, no entanto, apontaram os mesmos três elementos, sendo a valorização da história de formação de seu povo, seguido da religião e crença nos princípios bíblicos e por fim o estilo de trabalho, focado no campo e vinculado à cooperação entre o grupo. Apenas 1 entrevistado não soube apontar características pontuais sobre o que caracteriza  um alemã-menonita e desta maneira, optou por não responder à pergunta.
Quando os entrevistados faziam menção à fé e/ou religião, podia-se perceber que os vínculos confundiam-se a todo momento com a história de origem do povo, haja vista que esta está baseada num movimento surgido dentro da igreja, como exposto já no início do trabalho. Sem embargo, pode-se afirmar que os moradores de Colônia Witmarsum caracterizam o típico grupo de sujeitos em migração, pois mesmo estando em outro lugar, que não o seu de origem, mantém em seu cotidiano traços identitários e de pertencimento que os conectam a um local de origem, cuja história mantem-se viva por meio do patrimônio que é herdado e transmitido de geração para geração.
Estes traços étnicos que se mantém vivos ao longo dos anos, servem para identificar o sujeito e também para orientar o modo de vida dos que pertencem ao grupo. Para Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 115) “a identidade étnica é definida como um quadro cognitivo comum que constitui um guia para a orientação das relações sociais e a interpretação das situações...”. Neste sentido,  dar conta de compreender os sentimentos que motivam um grupo a manter-se fiel à sua origem é também passar a compreender a pluralidade do mundo atual, composto por distintas significações e identidades.
Para compreender a etnicidade é necessário admitir que existem fronteiras baseadas sempre no Nós/Eles, estas fronteiras existem devido ao fato de: existirem diferenças culturais; estas diferenças serem assumidas como estereótipos do grupo, o que permite ser julgado quem faz parte do “nós” e quem faz parte do “eles”; e também admitir que algumas características culturais são fixas e que desta forma asseguram uma identidade étnica a um grupo percebido em contexto de diferença.

Considerações finais

Os menonitas, distantes daquele tempo de imigrantes, estão integrados ao povo brasileiro. Presentes e atuantes na indústria e no comercio, na arte e na cultura, integrados na vida profissional e social, contribuem para o crescimento, à prosperidade e a grandeza do Brasil. Torcem pelo futebol, vibram com as vitórias verde-amarelas no esporte e amam, com gratidão, a terra que um dia os acolheu e lhes ofereceu o pão.
(PAULS, 2011, p. 254)
           
            A história de formação do povo menonita está baseada numa construção de fé que manteve-se viva mesmo diante das perseguições sofridas pelo Estado e Igreja em todo mundo. Todavia, pode-se perceber que a origem deste povo está fundada em princípios pacifistas e de comunalidade que permitiram aos descendentes dos pioneiros manterem-se vivos e sobretudo dando continuidade ao trabalho anteriormente iniciado.
            Os elementos característicos da cultura alemã menonita mantidos ao longo dos anos, mesmo nos contextos das diversas migrações, permitem que hoje o grupo destaque-se como um caso de sucesso no que diz respeito à superação às adversidades e tornam os menonitas um destaque na região em que estão inseridos.
            Estes traços identitários que são mantidos pelo grupo, permitem aos seus membros relembrarem a todo instante sobre a sua história de formação e sobre os desafios que foram enfrentados até que juntos encontrassem um lugar para chamar de seu. Atualmente, os grupos menonitas espalhados pelo mundo, mantém contato de distintas maneiras e compartilham de elementos comuns que os permitem estarem unidos de algum modo mesmo em um mundo globalizado.
            O patrimônio, tipo de bem que herdaram, serve como uma das fontes de identificação e está sendo mantido por meio de distintas ações. Fatores externos podem colaborar para o cuidado destes bens e entre eles pode-se afirmar que a atividade turística pode ser um importante aliado nesta tarefa. Diz-se isto em virtude da atividade trazer bons resultados nos locais onde ocorre, cooperando para o mantenimento de manifestações que retratem o patrimônio cultural que uma localidade possui.
            Para Cardozo e Melo (2009, p. 2) a união entre o patrimônio cultural e a atividade turística é de relevância “porque o patrimônio cultural é um dos elementos de atratividade turística, e o turismo chamado cultural é um dos que mais cresce no mundo”, de modo que o fluxo de visitas fomente o desejo do grupo em manter determinado bem ou tradição vivos e reais para que outras pessoas tenham acesso à sua cultura.
            Tendo em vista a identificação de elementos que configuram o patrimônio cultural étnico de Colônia Witmarsum, a saber: o uso da língua alemã oficial ou o dialeto Platdietsch; a religião e os princípios bíblicos em que baseiam suas vidas; a história de formação do grupo menonita; o modo de trabalho; a música; a dança; a arquitetura; e a gastronomia, percebe-se que a atividade turística pode beneficiar-se a partir da exploração destes elementos, contribuindo para a formação de uma imagem a ser comercializada da comunidade e, a partir disto, no incremento da oferta turística local.
            Como já dito anteriormente, desde os anos 2000 o turismo passou a incorporar o mercado de trabalho na comunidade, porém este tem se desenvolvido em diferentes segmentos, sendo o natural e cultural os dos mais trabalhados. Nota-se que a partir da existência de um público que já visita o local motivado pela cultura que ele tem a oferecer, é possível que os elementos identificados sejam melhor explorados turisticamente, fomentando assim a disseminação da cultura do grupo de migrantes e mais que isto, incentivando a própria comunidade a valorizá-la e mantê-la assegurando o seu mantenimento.
            Atualmente, o público que visita Colônia Witmarsum é atraído pelos cafés e restaurantes localizados na comunidade, porém existem outras possibilidades de elementos que podem compor a oferta turística local. O turismo mostra-se como uma atividade alternativa ao trabalho no campo, com a criação de gado leiteiro, frangos e produção de alimentos derivados do leite; todavia, mesmo sendo uma atividade secundária, não pode ser menos valorizada, haja vista sua expansão no cenário brasileiro e mundial.
            Incentivar a prática da atividade turística, baseada na cultura local, é também reconhecer a importância destes imigrantes para a região em que estão inseridos e mais que isto, é valorizar a história deste povo, formado por reimigrações constantes e que encontraram no Brasil um local para chamar de seu, um lugar para construir suas vidas, famílias e negócios.
            O fenômeno migratório é uma prática constante na sociedade globalizada, porém é preciso compreender que mesmo que não hajam fronteiras físicas, que separam as pessoas umas das outras, existem fronteiras imaginadas que ainda persistem na dicotomia “nós” e “eles” e que favorecem para a existência de um mundo cada vez mais plural culturalmente.
            Este mundo instiga a percepção sobre o fato de que as pessoas seguem sendo parte do todo, mas que preservam a sua identidade e a suas características mais particulares, É a partir da valorização destes elementos que pode-se iniciar a compreensão da sociedade moderna, cuja cultura humana está baseada no sentimento de pertencimento.

Referências

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WITMARSUM COOPERATIVA. Site institucional. Disponível em http://www.witmarsum.coop.br/. Último aceso em 06/12/2014.


Recibido: 09/12/2014 Aceptado: 15/02/2015 Publicado: Febrero de 2015

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