Contribuciones a las Ciencias Sociales
Julio 2010

HOSPITALIDADE: TRAJETÓRIA E POSSIBILIDADES

 

Marielys Siqueira Bueno (CV)
Maria do Rosário Rolfsen Salles
Sênia Regina Bastos
bseniab@terra.com.br

 

RESUMO

A questão da hospitalidade tem raízes profundas e acompanha o homem nos seus deslocamentos. Na antiguidade e nos mitos encontra-se o estimulo ao acolhimento considerado mesmo um dever sagrado. O progressivo desenvolvimento da humanidade acarretou sucessivas formas de acolher o estranho. O movimento migratório, os excluídos e os turistas determinam uma diversificação na questão do acolhimento e implicam na reflexão acadêmica sobre a hospitalidade. No entanto, a hospitalidade ganha uma dimensão muito mais ampla nas reflexões acadêmicas quando vista como uma dimensão da dádiva – conceito elaborado por Marcell Mauss, quando estudava as sociedades arcaicas. Hoje ele é retomado pela sua riqueza e potencialidade para explicar a base da sociabilidade humana e os estudiosos contemporâneos nele fundamentam suas análises da sociedade moderna. Para dimensionar adequadamente a função e os padrões da hospitalidade não se pode deixar de lado a noção de cultura e de sua interferência na lógica interna de uma sociedade, bem como a temporalidade em que se inscreve.

Palavras-chave: Hospitalidade, Acolhimento, Dádiva, Sociabilidade, Fronteiras.
 



Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Siqueira Bueno, Rolfsen Salles y Bastos: Hospitalidade: trajetória e possibilidades, en Contribuciones a las Ciencias Sociales, julio 2010, www.eumed.net/rev/cccss/09/bsb.htm 


Hospitalidade: trajetórias e possibilidades do conceito

A questão da hospitalidade tem raízes profundas e acompanha o homem desde sempre, nos seus incessantes deslocamentos.

Na hospitalidade, que Godbout (1997, p.16) chama de “dom do espaço”, está implícito o ultrapassar de limites, de fronteiras. Raffestin (1999) diz que quando a cidade se formou, formaram-se, conseqüentemente, os limites. Ele mostra que todas as configurações política, econômica e social vão estabelecer uma territorialidade que, por sua vez define um conjunto de relações que uma sociedade mantém com ela mesma e também com a exterioridade e a alteridade.

Ainda segundo Raffestin (1997), a passagem da exterioridade para a interioridade supõe um convite autorizado e/ou controlado. Assim, os grupos, mesmos os chamados “primitivos”, codificam e ritualizam o recebimento de estranhos ao grupo.

Mas Raffestin (1997) lembra que esse ato preliminar a toda construção das cidades não é um ato somente material mas é, também, imaterial na medida em que é igualmente uma regra moral. Diz ele: “Todo limite é intencional e voluntário e ele não é jamais arbitrário”.

A importância e a relevância dessa articulação são reforçadas pelos mitos que colocam o acolhimento, a hospitalidade, como um dever sagrado. Lashley (2004, p.6) diz que “o dever de ser não só generoso em relação ao forasteiro, mas também protetor é um importante aspecto desse filão de hospitalidade”. Diz também, citando Heal, que além da importância do tratamento aos forasteiros, a hospitalidade exercia um papel importante pela distribuição de alimentos a vizinhos e pobres, contribuindo, dessa maneira, para a coesão social. Mas, por outro lado ela ajudava a criar uma relação de poder das famílias da elite que por alimentar pobres e vizinhos, poderiam esperar obrigações mútuas de retribuição.

Mas o progressivo desenvolvimento da humanidade acarretou mudanças sucessivas na forma de acolher o estranho. Aos poucos esse acolhimento passou a ser remunerado e as políticas públicas se responsabilizaram pelo acolhimento dos necessitados, estrangeiros etc.

Conflitos políticos e desigualdades econômicas estimulam o movimento migratório e o processo de exclusão que, juntamente com o crescimento explosivo do turismo, vão determinar uma diversificação na questão do acolhimento, ampliando-se o campo da reflexão acadêmica sobre a hospitalidade.

Essa reflexão vai ganhar relevância ao associar a essência da hospitalidade enquanto dimensão da dádiva – alicerce da sociabilidade. A dádiva como mediadora das relações estabelecendo a ponte entre eu e o outro, entre Hermes e Héstia.

Entendida como um gesto de compensação, a hospitalidade implica na transposição de um espaço e em estabelecer um ritual de acolhimento. Ao admitir aquele que chega (o forasteiro) ao interior, estabelece-se uma desigualdade de lugar e de estatuto: um é o “dono do lugar” (autóctone) enquanto o que é recebido encontra-se ali temporariamente. Salienta-se que esse espaço “atravessado” não se reduz ao plano geográfico (urbano e doméstico), e contempla, no plano psíquico, o território do outro (GRASSI, 2004; VERNANT, 2008).

A hospitalidade incondicional tem origem mítica. Na mitologia grega os mortais receavam não receber bem ao hóspede, visto que poderia ser um deus disfarçado. Na habitação reina Héstia: personifica o interior, deusa do lar, preside as refeições, representa a vigilância e o princípio da permanência:

Tem a prerrogativa de presidir a refeição que, abrindo-se e terminando com uma invocação à deusa, constitui um círculo fechado no tempo; como o oikos forma um círculo fechado no espaço. Cozidos no altar da lareira doméstica, os alimentos realizam uma solidariedade religiosa entre os convivas; criam entre os participantes como que uma identidade de ser [...] Pela virtude da lareira, os comensais tornam-se “irmãos” como se fossem consaguíneos (VERNANT, 2008, p. 210).

Nesse contexto a comensalidade apresenta papel fundamental para a admissão do forasteiro ao círculo familiar, para a hospitalidade. Tal como Héstia, nessa sociedade mítica a mulher é associada ao lar e ao armazenamento - elementos essenciais para a prática da hospitalidade:

O lar, a refeição, os alimentos têm também a função de abrir a quem não é da família o círculo doméstico, inscrevê-lo na comunidade familiar [...] é junto a lareira que o estrangeiro deve ser conduzido, recebido, banqueteado, pois não se poderia ter contato, nem comércio com quem não fosse integrado ao espaço doméstico (VERNANT, 2008, p. 211).

Hermes, por sua vez, representa o exterior, a impulsão e o movimento, é o andarilho das portas, o Deus do acolhimento, guia dos viajantes. Associado ao homem, tem pele morena, pois diferentemente da mulher, realiza atividades externas.

Vivendo em meio aos mortais, em familiaridade com eles, é no próprio coração do mundo humano que se insere a sua presença divina. [...] não há nele nada de fixo, estável, permanente, circunscrito, nem fechado. Ele representa, no espaço e no mundo humano, o movimento, a passagem, a mudança de estado, as transições, os contatos entre elementos estranhos. Na casa o seu lugar é junto da porta, protegendo a soleira, afastando os ladrões porque ele próprio é o ladrão [...] aquele para quem não existem nem fechadura, nem cerca, nem fronteira [...] ele reside também na entrada das cidades, nas fronteiras dos Estados, nas encruzilhadas (VERNANT, 2008, p. 191-2).

Hermes e Héstia assumem funções conexas: “Os gregos que prestaram culto a essas divindades nunca viram nelas os símbolos do espaço e do movimento (VERNANT, 2008, p. 194).”

A hospitalidade perde a incondicionalidade e no estatuto do estrangeiro (o forasteiro), instauram-se condições e limites, é admitido na cidade com reservas. Esse processo chega a termo com a criação de hospitais, centros de acolhimento e os alojamentos a eles destinados.

Na Idade Média, de acordo com o direito senhoril, os nobres tinham o direito de ser alojados pelos seus vassalos, enquanto os vagabundos mais do que alojados eram vigiados, pois eram potencialmente perigosos. Predomina a hospitalidade motivada pela caridade cristã, cujo dever é o de acolher o pobre, os errantes em nome de Deus (monges e peregrinos) e em nome do rei (soldados e pessoal de guerra).

Hóspede indesejável, o forasteiro possui uma identidade negativa, é associado à desordem urbana, e por isso justifica-se alojá-lo na periferia da cidade, tal como Hermes. Espécie de gesto de compensação, igualização e proteção, em virtude de uma realidade de exclusão e desconfiança, a hospitalidade assume uma representação ambígua.

Dádiva e hospitalidade

A dádiva tem por função primordial promover vínculos sociais, rituais de apaziguamento e pactos de paz. É ponto pacífico a relevância dessa teoria, na Enciclopédia Edma, no seu volume sobre as idéias importantes do século XX, encontra-se destacado o trabalho de Mauss.

Lévi-Strauss (2003 [1950]) assinala o modernismo do pensamento de Mauss, cujo ensaio sobre o dom constitui acontecimento decisivo da evolução científica e Caillé (2002) a reputa como “o texto mais importante da história das Ciências Sociais.” Diz Lévi-Strauss (2003, p. 33), sobre “O Ensaio sobre o dom”:

[...] pela primeira vez na história do pensamento etnológico, um esforço era feito para transcender a observação empírica e atingir realidades mais profundas. Pela primeira vez o social cessa de pertencer ao domínio da qualidade pura - anedota, curiosidade, matéria de descrição moralizante ou de comparação erudita- e torna-se um sistema, entre cujas partes pode-se descobrir portanto, conexões, equivalências e solidariedades.

E, segundo Mauss (apud LÉVI-STRAUSS, 2003, p. 34), “pode-se provar que nas coisas trocadas... há uma virtude que força as dádivas a circularem, a serem dadas e redistribuídas”. Essas trocas de bens não são apenas objetos físicos, mas também dignidades, cargos, privilégios, cujo papel sociológico é o mesmo.

Embora essa observação tenha surgido da análise de sociedades arcaicas ela é igualmente válida para sociedades complexas e Godelier (2002, p.316) salienta a atualidade desse conceito: “diante da amplitude dos problemas sociais e a incapacidade do mercado e do Estado em resolvê-los, a dádiva está em vias de voltar a ser uma condição objetiva, socialmente necessária da sociedade”.

Martins e Ferreira (2004), na apresentação do livro “A nova ordem social”, são enfáticos em apontar a relevância do conceito de dádiva e, afirmam que ela não é uma teoria social a mais, uma mera teoria na moda, mas deve ser vista pelo fato de ser a modalidade específica de produção de convivência (entre os homens e entre os seres vivos em geral) e por essa razão é, segundo Alain Caillé (2002), um recurso paradigmático para compreender a formação, a natureza e a permanência dos vínculos sociais:

[...] o paradigma da dádiva constitui importante recurso para o processo de procura de respostas a questões que estão a espera de soluções, em particular a de saber que orientação crítica anti-utilitarista deve tomar na presente conjuntura mundial (MARTINS; FERREIRA, 2004, p.12).

Na linguagem corrente, a hospitalidade está associada a uma prática social da vida cotidiana desejada ou imposta por compromissos sociais. Nesse sentido, é uma dimensão complexa onde se observa a riqueza e os prazeres da convivialidade – onde as relações se estabelecem e se reforçam num jogo complexo de ajustamentos, conflitos, compromissos, manipulações (por isso há quem prefira a neutralidade dos hotéis e restaurantes).

Mas ao pensarmos em experiências de acolhimento e de hospitalidade que ultrapassam o domínio do doméstico, deparamo-nos com a questão, também espacial, de acolhimento ao desabrigado, ao imigrante, ao turista onde se observa um jogo complexo de barreiras invisíveis – o acolhimento e a exclusão.

A hospitalidade é, portanto, uma prática social que se encontra em diferentes dimensões da sociedade e, por sua vez, assume diferentes modalidades. Uma vez reconhecida a diversidade de suas manifestações é igualmente importante procurar identificar e compreender as especificidades das diferentes dimensões da hospitalidade.

Entre as possíveis diferenciações que se possa fazer das formas da hospitalidade, tanto Lashley e Morrison (2004) quanto Godbout (1999) as classificam em três domínios: o doméstico, o social e o comercial.

Doméstico

Na abordagem doméstica aflora uma multiplicidade de fatores que afetam o campo das relações pessoais mas que tem também um entrelaçamento importante com a rede de relações sociais mais amplas. No seio da família, o acolhimento, a forma de hospitalidade estarão relacionadas com o lugar que o indivíduo ocupa no grupo familiar e as formas de acolhimento obedecerão a um complexo ritual visando a coesão do grupo, o fortalecimento dos vínculos, do compromisso e pertencimento na medida em que as relações se reforçam ao longo do tempo, no âmbito das relações familiares.

Social

No livro “Espírito da Dádiva”, Caillé e Godbout (1999) pretenderam mostrar que “bens e serviços valem, muitas vezes de modo preponderante em função da sua capacidade de criar e reproduzir relações sociais”. No entanto Caillé (2000) indica que essa é uma definição restrita, pois a idéia de visar um elo social além de restritiva é excessivamente finalista pois exclui a priori do campo do dom todo o conjunto de comportamentos e ações que entretêm uma relação evidente com o registro da generosidade.

Aqui seria o espaço das associações, do voluntariado etc. que no dizer de Ruth Cardoso engloba múltiplas experiências de trabalho nas quais cidadãos exprimem sua solidariedade através da doação de tempo, trabalho e talento para causas sociais.

Como a hospitalidade é uma dimensão da dádiva onde está em jogo a questão de espaço e de fronteira, cabe nesse domínio a questão do imigrante, do excluído e, de certa forma a questão do turista e do urbanismo.

Comercial

A sociedade necessita do aparelho estatal e também do mercado. Sem eles, a dádiva acarretaria fenômenos de dominação pessoal, particularmente graves, efeitos perversos de clientelismo. Numa sociedade há uma proporção importante de vínculos entre desconhecidos. Ora, o mercado e o Estado são sistemas para tratar esse tipo de relação. Eles não acarretam os fenômenos de combinação pela dádiva (todos louvaram as vantagens do Estado previdenciário em relação à caridade privada). Todo problema, segundo Godbout (1999), está nas condições da interpenetração entre as três dimensões – Estado, economia e a dádiva. Ele entende que os outros sistemas devem ser submetidos ao sistema da dádiva senão haverá imposição de uma forma ou de outra: os sistemas socialistas quiseram submeter a dádiva ao Estado, à solidariedade estatal; o capitalismo quis (e quer) submeter tudo ao mercado. “A dádiva não é uma coisa, mas uma relação social”, por isso permeia todos os outros domínios e, segundo Godbout, nenhuma instituição, nenhuma instância social se manteria sem que nela circulasse um mínimo da dádiva.

Ao analisarmos o papel exercido pela dádiva nas relações sociais, ao avaliarmos o efeito da sua circulação, é importante, também, ressaltar o papel e o efeito das emoções que são estimuladas nesse sistema, aspecto de certa forma negligenciado nas Ciências Sociais.

Por estar presente na circulação da dádiva a atenção, a deferência, o carinho, o prestígio que tocam as pessoas fazendo surgir sentimentos de gratidão e de dívida, Godbout (1999, p. 253) pergunta:

Como, em virtude de que proeza as Ciências Sociais conseguem falar dos vínculos sociais sem usar as palavras que os designam na vida corrente: desprendimento, perdão, renuncia, amor, respeito, dignidade, redenção.... tudo que está no cerne das relações entre os seres que é alimentado pela Dádiva.

O autor adverte para o fato de que os impactos gerados pela expansão acelerada do mercado, emitem sinal vermelho de alerta convocando intelectuais para a busca de novos entendimentos, novos horizontes para a compreensão da sociabilidade no mundo moderno.

Para Baumam (2004, p. 22) o estilo da vida moderna é brutal e isso alimenta o medo – medo de exclusão social – o excluído não é só o pobre, mas também os gordos, feios, negros, que tem espinhas etc. – é muito grande o medo de fracassar, de não dar conta, de envelhecer... “Enfim de não conseguir ser tudo que é necessário para estar em alta no mercado”. Isso gera, evidentemente, individualismo, competitividade, aspectos que podem ser superados pelos pactos de paz, pelas alianças, pela circulação das trocas nas relações e seus significados.

A questão da hospitalidade tem raízes profundas e acompanha o homem nos seus deslocamentos. Na antiguidade e nos mitos encontra-se o estimulo ao acolhimento considerando mesmo um dever sagrado.

Assim, como se viu, o progressivo desenvolvimento da humanidade acarretou sucessivas formas de acolher o estranho. O movimento migratório, os excluídos e os turistas vão determinar uma diversificação na questão do acolhimento e se amplia a reflexão acadêmica sobre a hospitalidade.

No entanto, a hospitalidade vai ganhar uma dimensão muito mais ampla nas reflexões acadêmicas quando vista como uma dimensão da dádiva – conceito elaborado por Mauss, quando estudava as sociedades arcaicas. Hoje ele é retomado pela sua riqueza e potencialidade para explicar a base da sociabilidade humana.

Para dimensionar adequadamente a função, os padrões da hospitalidade não se pode deixar de lado a noção de cultura e de sua interferência na lógica interna de constituição da dádiva e/ou hospitalidade

Lashley (2004, p.6) diz que “o domínio social das atividades de hospitalidade sugere que é preciso estudar o contexto social em que estas ocorrem especificamente”. Daí a necessidade de aliarmos a questão do contexto cultural nas reflexões sobre a atuação da dádiva/hospitalidade na trama das relações sociais

A noção de cultura é inerente à reflexão das Ciências Sociais pois, como diz Vitule (2003, p.22) “os homens, ao produzirem suas condições materiais de existência produzem as normas e padrões de interação social”.

Herskovits (1973, p.35) ao salientar a força, a importância da interferência da lógica interna de uma realidade cultural diz que é preciso entender sua natureza essencial, resolvendo seus paradoxos que não devem ser ignorados. São eles:

1- a cultura é universal na experiência do homem, entretanto, cada manifestação local ou regional da mesma é única. 2 – a cultura é estável mas é, ao mesmo tempo, dinâmica, evidenciando contínua e constante mudança. 3 – a cultura preenche e determina amplamente o curso de nossas vidas e, ao mesmo tempo, raramente temos consciência desse processo.

Assim, especificamente, quando falamos em hospitalidade, estamos falando de um tipo de relação entre pessoas – daí ser necessário tocar na questão das suas conexões com a cultura e apontar algumas características culturais da sociedade contemporânea. Martins (2004) adverte para o fato de que os impactos gerados pela expansão acelerada emitem sinal vermelho de alerta convocando intelectuais para a busca de novos entendimentos, novos horizontes para a sociabilidade no mundo moderno.

Analisando a sociedade européia da sua época, Durkheim discordava das teorias que responsabilizavam os fatos econômicos pela crise das sociedades européias. Para ele, era de fundamental importância encontrar novas formas morais capazes de guiar a conduta dos homens. Ao contrario de Marx, via com otimismo a divisão de trabalho porque acreditava que ela provocaria uma relação de cooperação e solidariedade entre os indivíduos e não seria a causa dos conflitos na sociedade moderna.

Goudbout (1999, p.123) nos conta que Aristóteles:

[...] foi provavelmente o primeiro e, durante 2500 anos, o maior teórico da dádiva. A amizade, diz ele, a philia repousa sobre a capacidade de dar e de retribuir, sobre a reciprocidade (antipeponthos). Sem amizade não pode existir comunidade (koïkonia), e sem comunidade não há ordem política possível ...

Eis por que se erige um templo às Graças (Cárites) em local onde se possa vê-lo bem; é para aprender a retribuir os benefícios recebidos. É isso que é próprio da graça; é preciso não apenas orar por quem deu provas de sua graciosidade, mas também tomar a iniciativa de um gesto gracioso (ARISTÓTELES apud GODBOUT, 1999, p. 123).

Considerações finais

Procurou-se evidenciar, neste artigo, a importância dos debates contemporâneos sobre a hospitalidade e a dádiva que não se restringem à realidade do mundo antigo ou às sociedades arcaicas. É possível, ao retomarmos o “Ensaio sobre o Dom”, de Mauss, evidenciarmos o alcance do conceito de dádiva para a compreensão da hospitalidade no mundo contemporâneo. Autores contemporâneos como Caillé, Godelier, Godbout, Lashley e entre os brasileiros, Martins, Nunes e outros, além do Movimento Anti-Utilitarista em Ciências Sociais (M.A.U.S.S.), têm procurado evidenciar que a “dádiva entre os modernos”, titulo de um dos livros de Martins (2002), circula e fundamenta as relações e a sociabilidade em todos os domínios em que se efetiva. Como se procurou mostrar, não apenas o doméstico, mas o social e o comercial, propiciam as bases para a convivência, num mundo cada vez mais competitivo e conflitivo.

Assim, o conceito de dádiva refere-se não ao empírico propriamente dito, a fatos novos, mas à força das trocas não utilitárias, aos seus aspectos simbólicos, que podem sedimentar parte importante das relações sociais e da vida em sociedade. Como diz Lévi- Strauss (2003, p. 29), “o social é uma realidade autônoma; os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”. Na sociedade contemporânea, as dimensões da sociedade, do mercado e do Estado, permanecem e se transformam, mas revestem-se de uma compreensão mais clara da sua especificidade na vida social à luz da circulação da dádiva e da hospitalidade.

Referencias

BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro, Zahar, 2005.

CAILLÉ, Alain. Antropologia do dom: o terceiro paradigma. Petrópolis, Vozes, 2002.

GODBOUT, Jacques; CAILLÉ, Alain. O espírito da dádiva. São Paulo, Fundação Getúlio Vargas, 1999.

GODELIER, Maurice. L’énigme du don. Paris, Champ/Flammarion, 2002.

GRASSI, Marie-Claire. Hospitalité. Passer lê seuil. MONTADON, Alain (dir). Le livre de l'hospitalité. Accueil de l’étranger dans l’histoire et les cultures. Bayard: Paris, 2004.

HERSKOVITS, Melville J. Antropologia cultural. São Paulo, Editora Mestre Jou, 1973.

LASHLEY, Conrad; MORRISON, Alison. Em busca da hospitalidade: perspectivas para um mundo globalizado. São Paulo, Manole, 2004.

LÉVY STRAUSS, Claude. Introdução. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

MARTINS, Paulo Henrique (org.) A dádiva entre os modernos: discussão sobre os fundamentos e as regras do social. Petrópolis, Vozes, 2002.

MARTINS, Paulo Henrique; NUNES, Brasilmar Ferreira (org.). A nova ordem social: perspectivas da solidariedade contemporânea. Brasília, Paralelo 15, 2004.

MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

RAFFESTIN, Claude. Réinventer l’hospitalité. Communications. L’ hospitalité, Paris, Seuil, n. 65, 1997.

VERNANT, Jean-Pierre. Héstia-Hermes: sobre a expressão religiosa do espaço e do movimento entre os gregos. In: . Mito e pensamento entre os gregos. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008.

VITULE, Maria Luiza. N Guia de Viagem: cultura e mundo contemporâneo. São Paulo, Unimarco, 2003.

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