BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales


ANTECEDENTES DO CAPITALISMO

Carlos Gomes
 


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4.3 – TROCA INDIRECTA

A troca é uma forma de circulação de bens e serviços que implica um acordo de vontades recíprocas, uma transmissão entre as partes, uma avaliação e uma negociação. Resulta duma alienação recíproca de produtos do trabalho ou do intercâmbio de actividades entre pessoas, que se manifesta directamente na produção. É um acto económico conducente à entrega dum bem ou dum serviço que surge associada a uma contrapartida. O aparecimento de excedentes regulares é determinante desse novo fenómeno da vida económica que é a troca. Esta deixa de ser um acto isolado e circunstancial de bens e converte-se numa forma constante, e não casual, de relações entre os produtores e entre estes e os consumidores.

Segundo Karl Marx, “A constante repetição da troca torna-a num processo social regular. Por isso, com o correr do tempo, uma parte dos produtos de trabalho, pelo menos, tem de ser produzida intencionalmente com vista à troca.” (O Capital, primeiro volume, livro 1, pag. 105, Edições Avante, 1990)

A troca indirecta é realizada através dum acto de compra e venda por intermédio duma unidade de medida, de que resultou o aparecimento dum equivalente geral, o dinheiro, e posteriormente a criação da moeda. O acto de troca é dividido em duas fases: na primeira, a mercadoria é cedida contra o dinheiro; na segunda, utiliza-se o dinheiro assim obtido para trocar por outra mercadoria. Do ponto de vista formal, é uma transformação de mercadorias em dinheiro e depois uma transformação do dinheiro em mercadorias. Na troca indirecta entre duas mercadorias estabelece-se uma relação qualitativa que depende da sua utilidade e uma relação quantitativa ligada ao trabalho socialmente necessário à produção de cada uma delas.

Contrariamente à troca directa, as duas operações de compra e venda já não estão ligadas apenas às necessidades directas. Trata-se dum movimento entre indivíduos, em que o primeiro cede mercadorias em troca dum equivalente geral que posteriormente aplica na compra doutras mercadorias para seu próprio consumo, para acumular ou utilizar noutro processo produtivo. Este movimento assume a forma: mercadoria – equivalente geral – mercadoria.

A troca directa foi assim ultrapassada pela circulação mercantil com a realização das transacções através dum intermediário e duma outra mercadoria que desempenha as funções de equivalente geral. Tal mercadoria expressa o valor de todas as outras e pela qual todas se trocam, assumindo assim o aspecto de forma geral de valor. Do mundo das mercadorias separa-se espontaneamente uma que goza de grande procura no mercado. O aparecimento deste equivalente implica já um nível bastante elevado do desenvolvimento da produção mercantil e a existência de trocas regulares.

A troca de mercadorias é uma consequência do desenvolvimento dos meios técnicos e da divisão social do trabalho que, por sua vez, amplia o campo das trocas e influi sobre a expansão da produção e a separação dos produtores. A divisão entre camponeses e artesãos acentuou a necessidade de recorrer à troca, primeiro directa e depois através de mercadores a desempenhar um papel de intermediários As compras e vendas de instrumentos de produção foi crescendo ao longo do tempo. A especialização das produções, que é a base duma economia de trocas, arrastou consigo o desenvolvimento dos meios de transporte.

Na agricultura um dos factores decisivos para a expansão das possibilidades de troca das mercadorias foi a passagem da renda paga sob a forma de géneros ou serviços à renda em dinheiro. Os agricultores não dispõem de dinheiro, mas possuem o seu equivalente em produtos das suas colheitas e em cabeças de gado ou produtos dos animais como o leite, a lã, as peles, coisas que a população citadina necessita e procura em troca de dinheiro.

A troca indirecta torna-se uma forma de distribuição das mercadorias produzidas, constitui um vínculo entre produtores especializados e simultaneamente separados e liga a produção e a distribuição com o consumo. A par duma produção destinada ao consumo e à acumulação de bens pelos governantes, surge a produção doutros bens com a finalidade de serem especificamente objecto de troca interna e externa, como actividade mercantil. O desenvolvimento e a complexidade do sistema de trocas deu lugar à formação dum novo grupo profissional – o mercador – dedicado apenas a intervir como intermediário nas transacções efectuadas, com tendência a alargar-se pela própria lógica do crescimento das trocas.


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