BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales


ANTECEDENTES DO CAPITALISMO

Carlos Gomes
 


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8.3 – POPULAÇÕES RURAIS E URBANAS

Os modos de vida urbana e rural são dois tipos de sociedade estreitamente interdependentes. Esta relação é determinada pelo duplo pressuposto da existência dum excedente agrícola e a possibilidade de trocar esse excedente. A realização desta permuta é determinada por um conjunto de factores em duplo sentido, nomeadamente através do uso dos transportes e do comércio. Uma parte do produto do trabalho dos camponeses converte-se em mercadorias a escoar para o mercado, dando começo à prática duma produção mercantil monetária. O campo proporciona a alimentação e os homens da cidade fornecem as ferramentas, os artigos manufacturados e a tecnologia. Se a agricultura tornou possível o nascimento da cidade e condicionou a sua evolução, por sua vez, a cidade tornou-se essencial para facilitar as trocas ou a aplicação e manutenção de inovações técnicas. As relações entre a cidade e o campo ligam o desenvolvimento do fenómeno urbano ao excedente agrícola. É evidente a impossibilidade da existência de cidades sem agricultura.

No essencial, a relação entre as classes dominantes das cidades e os camponeses e artesãos mantinham-se com pequenas variantes: uma concentração de população tributária composta de artesãos especializados e de camponeses que asseguravam a produção agrícola e o trabalho braçal como mão-de-obra para obras públicas, escavação de canais e construção de templos. A diferença entre a população urbana e rural não implica apenas uma diferença de domicílio e de actividade, mas também diferenças no estatuto profissional, no tipo de habitação, no ritmo de trabalho, etc.

A cidade aparece como centro de actividade duma classe artesanal organizada em corporações independentes e como centro de mercados internos e de trocas externas. A concentração na cidade dos ofícios e do comércio, acentua a separação entre a cidade e o campo. Com o desenvolvimento das cidades, os seus habitantes começaram a distinguir-se dos do campo e a ter a sua organização própria. Desenvolvem sistemas administrativos, jurídicos e fiscais correspondentes à natureza das suas actividades. Tomam nas suas mãos a função policial e a defesa dos ataques do exterior. Adquirem um estatuto privilegiado em relação ao dos habitantes do campo.

O poder urbano tende a exercer uma espécie de autoridade absoluta sobre as populações rurais forçando-as a servir os seus interesses de boa vontade ou pela coacção, se for capaz de a impor. Os camponeses resignam-se, por vezes, a obedecer-lhe por temerem a destruição da sua civilização e terem dificuldade em trocar os seus locais por outros. As cidades dependiam do campo para a sua subsistência, mas também os camponeses necessitavam dos mercados citadinos para vender os seus produtos. Por consequência, a agricultura adaptou-se às necessidades da população urbana. Pouco a pouco, a procura estendia-se às matérias-primas necessárias à produção industrial, como a lã e o linho. Campos de cultura do trigo foram transformados em pastagens. Tornou-se numa regra a especialização agrícola regional.

Na Europa Ocidental, no século XVI, a população rural representava uma grande maioria. Mas as cidades, mais do que as zonas rurais, começaram a ser as principais beneficiadas com o aumento populacional. Tratou-se dum fenómeno mais urbano que rural, estimulado pelo desenvolvimento industrial e comercial. O ambiente económico da época deu lugar a migrações que se traduziram quer numa tendência urbana quer numa tendência para a ruralidade próxima do meio urbano. Em alguns países, a população começou a abandonar o interior e a fixar-se na faixa costeira. Estas alterações correspondem mais a um novo equilíbrio económico inter-regional.


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