CAMINHOS DO JEQUITINHONHA: ANÁLISE DO PROJETO DE COMBATE Á POBREZA RURAL

Marcela de Oliveira Pessôa

Introdução

Ao longo da experiência acadêmica alguns fatores tornam-se determinantes na escolha do campo profissional a se dedicar. Na sociologia, um dos aspectos mais relevantes parte da própria formação do pesquisador ainda como sujeito social, pois, como aponta a crítica weberiana (BARBOSA e QUINTANEIRO, 2003), o ofício sociológico deve saber-se não totalmente neutro uma vez que o sociólogo é, ele mesmo, parte de seu objeto. Isto quer dizer que as inspirações do cientista provem dos seus valores e ideias próprios e por isso ele “deve estar capacitado a estabelecer uma distinção entre reconhecer e julgar, […] os próprios valores […] devem ser obrigatoriamente expostos e jamais disfarçados de ‘ciência social’ ou ‘da ordem racional dos fatos’” (BARBOSA e QUINTANEIRO, 2003, p.98). Posto desta forma, deve-se conceber que o interesse por um campo tem em si vestígios do reconhecimento do sociólogo para com o mesmo, de onde surge o questionamento que move o seu fazer científico. Assim, o ofício sociológico implica no próprio questionamento da relação pesquisador-objeto, dadas as motivações e interesses de um para com o outro.
Por outro lado, diferentemente de Weber (1979), que considera possível a separação entre ciência e política, Florestan Fernandes (2004) levanta que o trabalho sociológico carrega consigo um aspecto político que de forma alguma deve ser negligenciado. Na sua concepção:
É deveras importante que o cientista se proponha os alvos ideais que persegue, em termos do padrão de integração da civilização baseada na ciência e na tecnologia, porque de outro modo ele fica desarmado perante as iniciativas dos grupos que manipulem o poder e orientem o uso que venham a fazer dos dados ou das descobertas científicas (FERNANDES, 2004).

Vistas estas peculiaridades, é lúcido dizer que as motivações, interesses e perspectivas científicas de um pesquisador nascem a partir de um todo social e deve ter a finalidade de servir à sociedade. O sociólogo é parte do que estuda e reconhecer isto deve ser o primeiro passo para a construção crítica da ciência e da sociedade.
Convém, portanto que se situe a pesquisa aqui desenvolvida a partir de seu berço: ela é o desencadeamento da monografia intitulada “Relações inter-regionais: o trabalho sazonal de migrantes do Vale do Jequitinhonha-MG para o corte de cana em Campos dos Goytacazes-RJ” (PESSÔA, 2008), que foi desenvolvida a partir da íntima inquietação de conhecer as dificuldades socioeconômicas da região e descobrir o constante translado de conterrâneos para o trabalho nos canaviais campistas. Naquela se verificou as condições subhumanas a que os trabalhadores jequitinhonheses se submetem como alternativa de geração de renda para a manutenção de si e sua família nas regiões de origem; servindo de mão de obra barateada e sobre-explorada nas localidades para as quais se dirigem. Foi considerando que o fator que leva estas pessoas a migrarem e se submeterem a estes tipos de atividades parte das problemáticas intrarregionais é que surgiu o questionamento sobre quais as respostas possíveis para trazer a melhoria da qualidade de vida desta gente em sua localidade de origem.
Devida à condição de pobreza material da região, a busca por soluções passou, primeiramente, pelo crivo da ação do Estado no campo das políticas públicas, o que exigiu cuidadoso estudo sobre a própria ação do Estado até traduzi-la na realidade jequitinhonhesa. Entre algumas das iniciativas a que se teve conhecimento no Vale do Jequitinhonha, ganham notoriedade o Projeto de Combate à Pobreza Rural (PCPR) aqui analisado e a ação da instituição responsável, o Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (IDENE). Conhecer o IDENE levou ao questionamento sobre como se tem processado, a partir do Estado, a implementação de alternativas para as problemáticas regionais; e foi percebido que instituição e projeto estão inseridos no desdobramento de mudanças sociopolíticas do contexto nacional, de modo que acabam por refletir os anseios e conflitos presentes em tais processos.
Seguindo esta corrente de raciocínio a pesquisa aqui desenvolvida é articulada sobre três partes principais: concepção do desencadeamento dos fatos históricos nacionais e sua repercussão na região trabalhada, reconhecimento do espaço e do projeto analisados e, por fim, uma cuidadosa articulação e análise dos dados levantados. Tais partes são dividas em quatro capítulos, sendo que a primeira parte é dividida entre o contexto nacional e a realidade jequitinhonhesa.
O primeiro capítulo é essencialmente teórico e busca promover uma reflexão sobre a realidade nacional. Para tanto, pontua como se deu a concepção das políticas sociais no sistema capitalista, uma vez que o PCPR se circunscreve como uma política social voltada para os grupos menos abastados do Vale do Jequitinhonha. Na elucidação do contexto de gestão das políticas públicas nacionais, dá-se especial notoriedade ao modelo de desenvolvimento adotado pelo Estado no século passado, bem como aos benefícios e ônus que foram produzidos a partir dele. Além disto, ganha importância a reflexão sobre as formas de participação da sociedade civil neste desenvolvimento, primeiro no âmbito de uma “cidadania regulada” (SANTOS, 1979) e, posteriormente, com a proposta de se alcançar uma maior participação desta mesma sociedade na gerência do Estado.
O segundo capítulo apresenta o Vale do Jequitinhonha a partir da caracterização do seu espaço e história. Faz o levantamento sumário das principais instituições e políticas que foram empreendidas na região visando seu desenvolvimento e traceja os contrastes presentes a elas. O capítulo também esboça a identidade peculiar do jequitinhonhês e seu modo de vida, particularizando sua realidade rural. Por fim, insere o IDENE e o PCPR como derivados da realidade jequitinhonhesa em relação ao marco sociopolítico do contexto nacional.
O terceiro capítulo concerne no esmiuçamento da pesquisa de campo realizada, delineando os aspectos metodológicos que foram adotados. Por tratar-se de pesquisa exploratória, o capítulo busca traduzir a realidade encontrada a partir da caracterização do espaço em que foi feito o levantamento de dados e da apresentação da estrutura física oferecida pelo projeto em análise. Além disto, define a concepção de “comunidade” utilizada no Vale do Jequitinhonha a partir da perspectiva dos entrevistados em consonância à conceituação de Durston (2001), expressando o sentimento de pertença identitária e cultural típico da região. Ao final, são delineados os aspectos comuns às diferentes localidades e estruturas que compuseram o campo de pesquisa.
No quarto capítulo faz-se a análise pormenorizada dos dados coletados, buscando promover uma reflexão complexa que conecte a realidade local ao contexto nacional e supranacional para entender e explicar as vicissitudes encontradas no PCPR. Para tanto a crítica é construída, primeiramente, pelo olhar das pessoas das comunidades que compuseram o campo de pesquisa e, posteriormente, com aprofundamento sociológico. Ao fim do capítulo são feitas propostas circunstanciais, visando contribuir no aperfeiçoamento da ação institucional nas lacunas encontradas nesta tentativa de alcançar os benefícios a que instituição e projeto se propõem. O último capítulo detém-se em apresentar as principais conclusões obtidas na pesquisa.
Reconhecendo que a formação desta autora, além de base sociológica, é de identidade jequitinhonhesa, pontuo que esta pesquisa foi movida pela ambição em tentar compreender a realidade e contribuir para que as políticas públicas voltadas para o Vale do Jequitinhonha consigam atingir, mais que uma proposta formal, a mudança efetiva em direção à melhoria da qualidade de vida de sua população. 

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