CAMINHOS DO JEQUITINHONHA: ANÁLISE DO PROJETO DE COMBATE Á POBREZA RURAL

Marcela de Oliveira Pessôa

2.3 – Identidade em contraste

Ainda na contemporaneidade são a extração mineral, a pecuária e a agricultura os principais meios econômicos da região. Existem aí mineradoras de grande porte – cuja atividade de dragagem e desvio dos rios geram grandes impactos ambientais–, garimpos mecanizados e também clandestinos (FERREIRA, 2004); atividade pecuária e agrícola, seja no âmbito da extensão latifundiária ou de pequenos produtores agrícolas. Desta forma, o Vale do Jequitinhonha é predominantemente caracterizado pelo rural e sua ocupação resultou numa “intensa diversidade cultural e social”, conforme pontuam Brandão e Wildhagen (2009). Neste território, bem como no Norte de Minas:
[…] se encontram comunidades de acampados e assentados de reforma agrária, assalariados rurais, produtores familiares (parceiros, meeiros, posseiros e arrendatários), proprietários rurais minifundistas e de grandes propriedades, populações tradicionais (ribeirinhas, pescadores artesanais, quilombolas), garimpeiros, povos indígenas, gerazeiros, atingidos por barragens, comunidades extrativistas, entre outros […] (BRANDÃO e WILDHAGEN, 2009, p.37).

E embora os índices de pobreza coloquem a mesorregião jequitinhonhesa como uma das mais carentes do país é, também, uma das regiões culturalmente mais expressivas do estado de Minas Gerais, abrigando rico patrimônio, que se manifesta tanto em edificações e monumentos quanto nas formas de expressão cultural ditas imateriais (SANTOS, 2004 p.2).
No Vale, a miséria foi e ainda é explorada como elemento de beneficiamento político, principalmente por tentar utilizar a população como massa de manobra política vinculada ao assistencialismo. Afinal, a situação de abandono da região em relação ao Estado fomentou uma espécie de apadrinhamento impulsionado pelos coronéis/políticos, que traziam algum tipo de atendimento à população, tal como ocorrera em outras regiões do país. A mesma condição de “miséria” trouxe consigo a estigmatização da população local como sujeitos atrasados. O próprio jornal “Geraes” (1978-1985), um dos jornais regionais de muita atividade durante sua circulação, em sua primeira fase concebeu o Vale como carente de recursos materiais e consciência política, considerando a imagem de abandono por parte dos governantes e concebendo a população como passiva e sem postura crítica (RAMALHO E DOULA, 2009).
Por outro lado, o jequitinhonhês também se vê dotado de uma identidade tradicional baseada numa cultura local, e que se expressa, especialmente, quando se vê obrigado a sair de suas terras para “ganhar a vida” em outros espaços que não lhe são próprios, como ocorre com seus migrantes sazonais. Como aponta Silva (2008), aquele que sai, só o faz como estratégia de manutenção de suas terras enquanto lugar de morada e sobrevivência. Neste caso, tempo “e espaço constituem uma simbiose, onde presente, passado e futuro se amalgamam. A terra é vista como uma espécie de espaço protetor, de reenraizamento, de porto seguro, de paraíso perdido”(SILVA, 2008, p.1). Esta identidade positiva também é explorada pelo jornal “Geraes” na sua segunda fase, quando passou a denotar a originalidade da cultura local do Vale do Jequitinhonha, que trata da representação de uma mentalidade de resistência e preservação do passado (RAMALHO e DOULA, 2009).
De sujeito passivo, marcado pela ausência de recursos econômicos, o homem do Jequitinhonha é representado como cidadão organizado e politizado, além de ser culturalmente resistente por manter-se atrelado aos valores tradicionais. O orgulho sertanejo passa a ser valorizado, baseado na idéia de uma vida simples, mas direcionada por valores essenciais como a honra, o trabalho e a honestidade. (RAMALHO e DOULA, 2009 p.11)

Como descrevem Ramalho e Doula (2009), a cultura popular passou a ser considerada como potencial econômico a ser explorado para possibilitar o desenvolvimento da região.  E mesmo a CODEVALE teria tido papel entusiástico para este tipo de iniciativa, posto que, como já referido anteriormente, colaborou para disseminar o artesanato local.
Outros pontos devem ser valorizados conquanto ao modo de vida do jequitinhonhês. De acordo com Ribeiro et al. (2004, p.6), o Vale do Jequitinhonha é singular, pois ao mesmo tempo em que há uso intensivo do solo agrícola, é lá que situa a “maior cobertura natural revegetada e manejada pela população rural de todo o estado de Minas Gerais”1 . E muito embora sua população seja afligida pelas secas e outras dificuldades oriundas das especificidades naturais da região (solos áridos e ácidos, ausência de perenidade nas várzeas e córregos etc.), a população desenvolveu um modo de subsistência sustentável articulada ao que o meio oferece. Como descrevem Ribeiro e Galizoni (2006), enquanto que no Alto Jequitinhonha há predominância do Cerrado, com unidades familiares na agricultura e posse pulverizada da terra, as microrregiões do Médio e Baixo Jequitinhonha são conformadas, respectivamente, por áreas de mata seca (savana e caatinga) e atlântica, utilizadas pela cultura pecuária e com comunidades de redutos de camponeses e agregados (os últimos, trabalhadores autônomos dentro das fazendas). À exemplo de uma atividade de produção sustentável e adaptada Ribeiro et al. (2004, p.21), mostram o caso do Alto Jequitinhonha, em que se disseminam diferentes tipos de cuidado com a terra e que aqui reproduzo novamente às escusas pela longa citação:
 A população rural do alto Jequitinhonha organizou sistemas produtivos muito adaptados ao meio e às suas condições materiais. As bases desses regimes agrários são assentadas em três pilares fundamentais.
- Primeiro: são baseados no trabalho familiar […] Essas forças de trabalho articulam-se em torno de […] reproduzir-se e conservar o domínio e o uso da unidade de produção familiar. Atuando planejada e estrategicamente, a família geralmente alcança os objetivos mesmo que tenha contra si as eventuais secas, dificuldades de comercializar e barreiras de acesso aos benefícios das políticas públicas.
- Segundo: são baseadas num profundo conhecimento da natureza, que permite decidir o que coletar, onde plantar, como utilizar os recursos naturais que estão disponíveis […].
- Terceiro: são baseados no uso comunal, conservacionista e extrativista de recursos naturais, que fundamenta-se no conhecimento local, na espacialidade comum e em acordos ajustados entre famílias e meio. […]
Assim, essas famílias e comunidades criaram regimes agrários muito ligados ao ambiente e, ao mesmo tempo, com possibilidades mínimas de repetir aquelas técnicas em outros locais ou regiões: técnicas produtivas chegam a variar de uma comunidade para outra vizinha; recursos naturais conhecidos e explorados numa localidade às vezes são completamente desconhecidos noutro. Esses sistemas e conhecimentos permitem àquela população viver e produzir, às vezes tendo contra si o tamanho das áreas de terras férteis, as dificuldades de entrar em mercados e de elevar as rendas. Estas limitações não são suficientes para abalar a solidez da organização produtiva da agricultura familiar na região. Pesquisas têm mostrado que, mesmo nas secas muito fortes – como no inverno de 2003 –, a população atravessa as intempéries sem maiores abalos porque sua estratégia de reprodução é baseada na produção autônoma do básico alimentar, resultante duma combinação inteligente entre:

  1. produção de alimentos resistentes à seca (feijão, andu, milho, mandioca);
  2. coleta regular de produtos nas áreas de terras comuns (frutos, essências, óleos)
  3. comercialização em pequena escala (trocas comunitárias, feiras e mercados locais)
  4. indústria doméstica rural 2, principalmente derivados da cana, milho e mandioca;
  5. rendas monetárias originadas de bolsas, aposentadorias e migrações sazonais.

E é por isto que no “tempo das águas” as feiras estão cheias de produtos extrativos, e durante as secas são os manufaturados os que se apresentam em maior diversidade: é estratégia de sobrevivência (Ribeiro et al, 2004). E é nesta liga de criatividade, adaptação e resistência que vai se desenhando a cultura, a identidade do jequitinhonhês; que se esboça como um forte, tal como o sertanejo romantizado por Euclides da Cunha.
E mesmo que, durante muito tempo, o povo do Vale do Jequitinhonha tenha sido tomado mais como objeto do que como sujeitos do processo histórico, há tempos resistem não apenas no plano de sua cultura prática, mas também em posicionamento político. Mesmo que não tenham obtido conquistas duradouras, existiram movimentos sociais de enfrentamento às políticas públicas implementadas durante o governo militar através de organizações sindicais, associativas e com o apoio das comunidades eclesiais de base, fazendo frente ao latifúndio, às reflorestadoras, ao poder público e pacto federativo como apontam Sgrecia e Gadelha (1987). Ainda hoje se articulam os sindicatos e movimentos, ligando-se à Comissão Pastoral da Terra, Pastoral dos Migrantes, entre outros. Além da busca pela manutenção da resistência cultural por meio de organizações como a Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha (FECAJE), que anualmente promove o Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha (FESTIVALE) há quase trinta anos.
Assim, pode-se conceber que o Vale do Jequitinhonha é rico, embora seja pobre. Um dos grandes problemas que enfrenta é o fato de que o “desenvolvimento para o rural é pensado pelo que o lugar não tem: uma produção agrícola intensiva, irrigada e capitalizada”, como denuncia Ribeiro (2007). “Dificilmente se percebe que a riqueza cultural é a contraface da sabedoria material que sua população soube criar e que raramente a sociedade urbana brasileira aprendeu a valorizar” (RIBEIRO et al, 2004, p.7). Sendo assim:
[…] é necessário mudar a forma de pensar o Jequitinhonha: antes de compreendê-lo como o lugar da pobreza e da ausência do progresso, é preciso pensá-lo como um lugar específico, particular, singular. Portanto deveria ser sujeito – e não apenas objeto – de políticas públicas particulares, específicas e diferentes. Analisar o Jequitinhonha numa perspectiva mais particularizada é um grande passo para criar propostas adaptadas de políticas pois, deixando de pensar a região pelo que ela não tem e passando a pensá-la pelo que tem, é que podem ser construídas políticas consistentes” (RIBEIRO et al., 2004, p.8) 


1 Cabe salientar que cobertura revegetada não se trata da atividade dita de “reflorestamento”, mas sim à atividade de pousio da terra, com tempo suficiente para seu restabelecimento.

2 Termo de uso específico deste grupo de pesquisadores. A indústria a que se referem concerne a transformação de produtos naturais em alimentos mais duradouros, como fazer da cana, rapadura.

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