CAMINHOS DO JEQUITINHONHA: ANÁLISE DO PROJETO DE COMBATE Á POBREZA RURAL

Marcela de Oliveira Pessôa

3.3.1 – Fabriquetas de rapadura

Das fabriquetas visitadas, duas foram de rapadura. A produção de rapadura, ainda que na fabriqueta, é de procedimento principalmente manual. Consiste em triturar a cana para extrair o caldo, que por um sistema tubular é levado até os tachos. A partir daí toda a prática é manual, onde o produtor movimenta o caldo até que este adquira a consistência adequada (melaço). Assim constituído, o tacho é retirado do forno e entornado sobre as formas de rapadura para que nelas o material seja resfriado naturalmente.
A primeira visita foi à comunidade do Alfredo Graça. Alguns dos aspectos relevantes sobre a produção na fabriqueta no Alfredo Graça são os seguintes:
1) Durante a visita à comunidade a fabriqueta não estava em período de produção de rapadura. Isto porque a fabriqueta opera apenas durante meio ano, visto que os moradores da comunidade não têm recurso (financeiro e de disponibilidade de águas) para realizar a irrigação no cultivo da cana durante todo o ano, ficando a mercê da densidade de chuvas. Enquanto isto, os beneficiários da fabriqueta se dedicam a outras atividades complementares:
“Planta [cana], no caso, limpa os canavial, planta milho, mandioca, planta feijão, vai roçar os mangueiro, né! As manga às vez precisa roçar, a pastagem, né, vai roçar. Vai tirar lenha pra preparar pro próximo ano. Vai se organizando pra quando chegar a época poder mexer” (E.B).

2) Embora o projeto inicial visasse contemplar 23 famílias da Associação de Trabalhadores rurais, nem todos se interessaram por realizar a produção, tendo apenas 3 produzido até então. Mas das famílias participantes:

“[…] foi elas que ajudou iniciar e elas que ajudou a cabar. Independente delas usar ou não, qualquer hora que elas quiser acionar a vez delas, elas pode entrar […] ela não é obrigada a fazer, ela tem a fabriqueta pra fazer, se não quiser fazer, ela vai abrir mão pra outra pessoa para outro sem problema nenhum” (E.B).
“Se por exemplo eu não quero... este ano não vou fabricar rapadura, também não vou impedir do outro de fazer, entendeu! Não vou impedir d’outro arrumar cana fora também e fabricar. A fábrica tá ali pra aquilo, cada um que tá no projeto mesmo que não queira, abre espaço para quem queira, né, pra não deixar parado, pra fabricar e assim segue. Muitas vez quando o cara não quer fabricar ele dá a cana pra outro “ô fulano, cê quer fabricar? Fabrica pra nós dois”, e assim anda.” (E.D)

Assim, embora nem todos estivessem produzindo, até o momento de campo, suas possibilidades não estavam fechadas. Além disto, os beneficiários da Associação dos Trabalhadores Rurais também abrem espaço para os demais sujeitos da comunidade participar da produção. Não atuam diretamente, mas a partir da “meia”; isto é, se o não associado tiver cana e interesse de utilizar da fabriqueta, recorre a algum associado para oferecer a sua cana, este último o produz e dividem o que for produzido. Caso um associado não queira produzir pode fazer o mesmo. 
3)  Alguns fatores que impediram o início das atividades produtivas assim que a fabriqueta foi construída foram: o fato de a verba da fabriqueta não ter sido o suficiente para a compra dos tachos, o que ficou a critério da possibilidade financeira dos beneficiários. O fato de o transformador de energia ser de voltagem inferior à necessária para ligar as máquinas, o que demandou negociações (e tempo) com a Prefeitura Municipal e CEMIG.

Embora a obra da fabriqueta tenha sido terminada em 2009, só ouve, portanto, uma produção, e nesta o usufruto de apenas alguns poucos beneficiários. Estes dirigiram a sua produção ao mercado municipal de Araçuaí, e um deles, que produziu açúcar mascavo, destinou sua produção à compra de produtos alimentícios da Escola Estadual situada na comunidade.
A outra fabriqueta de rapadura visitada foi na Comunidade de Paredão (Figura 33) e, embora a instalação da fabriqueta fosse de 2009 a primeira produção tinha sido realizada dias antes da visita à comunidade.
Alguns aspectos relevantes sobre a produção nesta fabriqueta são:
1) A fabriqueta foi reformulada por seus beneficiários. Segundo o que foi levantado, o valor disponível para a obra seria para fazer uma fabriqueta para apenas um tacho. Por ter sobrado dinheiro, resolveram (e aqui o sujeito fica realmente oculto porque não se sabe de quem partiu a ideia) colocar dois tachos, mas a estrutura não era apropriada de modo que, após concluída a obra, não foi possível iniciar as atividades.

“Depois dela pronta... aí ficou... Porque vem as formas técnicas e... eu digo, a teórica pra prática, né! Alguma coisa no projeto técnico que, quando nós chegamos lá, vimos que não funciona, não dava para funcionar pra gente, aí fizemos uma mudança. Aí.. voltamos a depender da prefeitura... […] Aí é que ficou pronta... [Foi o problema dos tachos?] É, os tacho... e... as fornalha também, né. Que o modelo de fornalha não era aquele. Era uma fornalha... o sistema dele lá era pra você ... não dava pra gente não, sabe.. pr’ocê tirar o melaço do tacho com uma cuia! Um sistema que não funcionava, né! E as fornalhas eram interligadas […] Até que fizemos aquela readaptação lá! […] Ia ser as duas mesmo, né! No projeto original ia ser as duas fornalhas, só que o seguinte, o que tava ficando era os tacho pra trás […] mas como houve uma sobra de recurso, de rendimento e tal, deu pra comprar os tacho, o projeto era dois tacho. Só que a fornalha era o seguinte, elas eram interligadas uma na outra. O fogo que funcionava ne uma, funcionava nas duas... Então, aí, o seguinte, se tivesse uma aberta […] a outra não ia esquentar, né, por causa do local aberto. Então cê tem os dois tacho, os dois ao mesmo tempo, e lá é possível hoje. […]” (E.X)
Embora tenha havido diferenças entre o que foi dito pelos beneficiários e o técnico do IDENE responsável pela atividade naquela época, o que importa é que os dois tachos funcionavam com apenas uma fornalha e o espaço construído não era condizente, o que levou a maior desgaste de tempo e recurso financeiro para se refazer a instalação.
 
2) Outro aspecto importante é que no entorno da comunidade de Paredão há muitas abelhas. O que, embora não tenha levado ainda na primeira produção a problemas, pode gerar transtornos posteriores aos produtores, visto que os animais são atraídos pelo cheiro do melaço. Segundo moradores mais experientes na arte da produção de rapadura – que já é tradicional na comunidade – a solução temporária é ceder aos animais parte do melaço dissolvido em água nas proximidades da fabriqueta para que estas estejam “entretidas” durante a atividade produtiva. Outros já veem como solução “coletar os animais” e doar para outra comunidade que produza mel.

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