CAMINHOS DO JEQUITINHONHA: ANÁLISE DO PROJETO DE COMBATE Á POBREZA RURAL

Marcela de Oliveira Pessôa

3.3.2 – Fabriquetas de farinha

A produção de farinha tende a ser mais complexa que a produção de rapadura, devido às inúmeras atividades que envolvem. Primeiro a mandioca deve ser descascada e triturada. Depois é lavada e separa-se a água da massa com a prensa 1. A massa é torrada em uma fornalha, sendo sobre ela movimentada até que tome o ponto perfeito da farinha. Já a água é guardada em algum recipiente para que o pó da farinha se deposite ao fundo. Este pó, depois de separado da água, é chamado polvilho.

A primeira fabriqueta de farinha visitada foi a de Piauí Pereira. Nesta pode-se verificar os inúmeros procedimentos necessários para se realizar a atividade produtora a partir da introdução de maquinário.
É importante mencionar que a estrutura da fabriqueta também faz o tratamento da água utilizada no processo de fabricação para que não atinja os mananciais de água.
Do que se pode ressaltar do projeto da comunidade é até a visita à comunidade poucos beneficiários utilizaram a fabriqueta (no máximo 3), isto porque, de acordo com os entrevistados a mandioca que havia ainda não estava no ponto de ser colhida. E antes disto, também houve atraso para o início da atividade produtora porque a madeira da estrutura da prensa teve de ser modificada, dado que a primeira estrutura não ficou de acordo com o que era de interesse da comunidade. Diferentemente da produção manual, a fabriqueta de farinha tem condição de funcionar com apenas duas pessoas “tocando” as máquinas:

Semana que vem ela vai começar a funcionar... […] é uma experiência que a gente vai viver ainda, né! […] pra poder.. eu sei que ainda vai chegar […] com fé em Deus, na hora que o pessoal acreditar que tem uma torradeira sem coração...Que o quê que é uma torradeira sem coração: é a mulher máquina! […] A hora que ês acreditar na mulher máquina aí vai gerar renda, porque uma família só dá pra poder fazer farinha pra exportação, a hora que ês acreditar aí vai ter bastante renda. (E.G)

Mas até a visita na comunidade apenas duas pessoas detinham conhecimento sobre como operar o maquinário, de modo que para a atividade futura os beneficiários esperam ter um fiscal de produção para garantir que não haja o uso inadequado das mesmas.
Na fabriqueta de farinha da comunidade de Pedra Alta, além da estrutura de farinheira a instalação detém um moedor de café/milho, visto que também é atividade corrente na comunidade. Esta fabriqueta foi a mais antiga dos subprojetos do PCPR visitados, sendo de 2007, e por ser assim, os moradores detém uma maior experiência com relação à atividade produtiva; havendo também um número considerável de famílias que usufruem das instalações tanto para a produção de farinha como de café e farinha de milho.

Em média, eu não sei... porque às vez em dois anos, quinze família que tá ali desfrutando daquela farinheira, e às vez nos próximos dois anos, […] já são famílias diferentes por causa do plantio. […]
Hoje, […] o projeto da farinheira a gente pode falar que concluiu e, vamos supor, hoje em dia o trabalho que a gente tem é manutenção. Depois que veio a farinheira a gente teve que organizar como manter esta farinheira, né... porque tem contas pra pagar, tem o maquinário que precisa de manutenção. Então a associação, ela mesmo escolheu dentro dos associado alguma pessoa pra tá ali responsável. Pra não parar, porque vai que uma máquina dá problema, quem é que vai correr atrás, né! O presidente num pode tá resolvendo isso aí! Então a própria associação fez uma reunião e ali escolheu cada pessoa pra tá tomando conta ali.. Tem a máquina... o moinho de café, então escolheu a pessoa e então, sempre... era pra de dois em dois anos também tá trocando, mas né! A pessoa quebrou, a gente achou quem administrou muito bem então tá até hoje! (risos) […] Cada pessoa, ali, a questão da... do dia que a gente faz uma farinha mesmo, a pessoa, ele mesmo tem o direito de ir lá, lavar a farinheira... lavar as máquina que precisa de lavar. A questão das grade da prensa, estas coisa assim. A pessoa mesmo é responsável, né! Então a associação já colocou isto na consciência, disse “ó, isto aqui é seu, cê tem que cuidar!”, né! […] Chega e já encontra limpo, porque eu, quando faço... eu terminei hoje, então eu vou lá amanhã e limpo. Aí depois de amanhã quem fazer já encontra limpo... só que ele tem que deixar limpo sempre! Quem chega já acha limpo […] (E.L)

Nesta farinheira também houve modificações da estrutura produtiva. Na realidade nada internamente foi mudado, porém alguns produtores, por não gostarem do aspecto/sabor/densidade da farinha torrada no maquinário, optaram por anexar a farinheira uma torradeira manual, de modo que usufruiriam de todo o maquinário das instalações, exceto o forno industrial.

A farinheira da comunidade de Queimadã foi a única em que não se realizou nenhuma atividade produtiva, devido a dois fatores:
1) Assim como na comunidade de Alfredo Graça, a rede elétrica não favorecia o empreendimento da farinheira, tendo sido necessário trocar o transformador, o que só ficou pronto a pouco tempo.
2) As dificuldades que levam à escassez de água conforme mencionado na seção 3.2.4, também limita a produção de farinha que demanda uma quantidade considerável de água:

Pro projeto seria melhor.. […] depois que ês iniciar essa água, cair aí […] porque praticamente, as família aqui tem muitos que tem […] é beneficiado a água, e tem muitos que sequer... Carrega os baldinho na cabeça pr’as casa... Então, depois que pegar funcionar, que a água cair pra todos, pra todo mundo, pra nenhum precisar ficar pegando na casa de um e de outro, aí eu sei que seria bem melhor pra todo mundo.
No entanto, é a única fabriqueta que detém um descascador industrial conforme se pode visualizar à esquerda da figura 47, que foi obtido mediante projetos externos para complementar a atividade produtiva 2.  Até a data de visita à comunidade não havia previsão de quando a fabriqueta começaria a ser utilizada; até porque naquela semana a comunidade iria se organizar para iniciar uma “roça comunitária”, em que se plantaria a maniva para beneficiar a todos os produtores.


1 A prensa é utilizada quando o maquinário é disponível, quando a farinha é produzida artesanalmente o escoamento da água é feito através da coagem do material moído numa espécie de rede, conforme a figura 37.

2 Refere-se ao projeto não esclarecido citado na seção 3.2.4.

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