CAMINHOS DO JEQUITINHONHA: ANÁLISE DO PROJETO DE COMBATE Á POBREZA RURAL

Marcela de Oliveira Pessôa

3.2.4 – A Comunidade de Queimadão

A comunidade de Queimadão situa-se na à noroeste da cidade de Itaobim, a cerca de 13 Km à esquerda da BR116, que parte a cidade em duas. O Município detém uma população de 21 mil habitantes, sendo apenas 5 mil viventes na zona rural (IBGE, 2011). Assim como Ponto dos Volantes, a cidade é entrecortada pela BR 116, sendo que na entrada da cidade, no sentido Rio-Bahia, há o cruzamento entre a BR 116 com o Rio Jequitinhonha. Queimadão fica do outro lado da cidade, e seu acesso se dá por meio de estrada de terra ao sair da rodovia.
Pode-se dizer que a comunidade de Queimadão se estabelece nos entornos de uma “grota”. Todas as comunidades até então visitadas estiveram situadas em áreas de tabuleiro1 , diferentemente, em Queimadão a maioria dos moradores ocupam um terreno altamente acidentado, num vale entre montanhas que não detém um curso d’água perene, tal como um rio ou nascente.
As águas que correm pela grota normalmente são as águas das chuvas vindas pelas montanhas que “numa hora inunda tudo, com pouco, duas hora tá assim, de novo!” (E.R). Por ser assim, a escassez de água se faz grande problema para os viventes na comunidade. Parte deles recebem água por meio de um sistema tubular vindo do “Córrego da Onça”, propriedade particular que cede o recurso para os moradores da comunidade por saber da sua dificuldade. Outros ainda abrem minas para ter o recurso, especialmente para suprir as suas reses com a água salobra que brota da terra; sendo que há um poço artesiano que provê aqueles que não têm acesso à minas, embora a bomba aí utilizada estivesse quebrada há mais de dois meses quando da minha presença na comunidade. O ponto mais profundo do vale em que se situa a comunidade tende a ser onde passam as enxurradas das chuvas, e é no mesmo ponto que as pessoas usualmente escavam as minas.
As atividades produtivas na comunidade de Queimadão também se devem à pequena produção familiar, onde se cultiva, como já mencionado, reses e agricultura de pequena escala para consumo familiar ou para gerar alguma renda nos mercados locais, tal como fumo.

Neste modo de vida estão, além da própria comunidade de Queimadão que conta com cerca de 27 famílias, algumas comunidades circunvizinhas que também detém pequeno número de habitantes, tais como Córrego de Areia, Cilindro e Sulamérica.
A história da comunidade de Queimadão parte da expansão de um núcleo familiar com até duas gerações.
Esta comunidade quando... existia com três moradores.. como avô dele, e aí veio os filhos... e aí formou os moradores. Depois foi criando família, né! Inclusive aqui tem só três família que é de outras pessoas... Aí […] tinha essa terrinha aqui, os outros lá no alto... […] Aí hoje tem esta comunidade. Não tinha energia, não tinha estrada de se passar automóvel, né, era só estrada da gente passar à cavalo, muito ruim... aí foi indo, fez estrada, fez escola. […] A estrada é há mais de 30anos. A energia foi em 94...96! E aí foi melhorando, né... reforma de casa... Essas casa aqui era tudo pau-a-pique... construção de banheiro para todas as famílias. Aí em 94 foi fundada a associação e a partir desta associação melhorou muita coisa, né! Trouxe benefícios, vários projetos... […] A associação foi nós mesmo da comunidade que fundou, mas com a ajuda do pessoal. Juntou o pessoal da comunidade e formou a associação e a Emater vem nos ajudando, né! E a prefeitura também! (E.R)
No tempo, foi difícil porque naquele tempo as pessoa mais antiga eles não tinha muito assim, um dom de entendimento […] às vez muitos achavam que viver só era melhor […] Só que depois […] Foi reunindo aquelas pessoa, as pessoa também da... EMATER começou nos visitar e orientar. E aí, o que acontece, a gente foi... conversando que conseguiu formar uma associação. […]Pra a gente chegar onde tá […] corremos muito atrás! Sempre cobrando muito. Todos os presidentes que passaram pelo poder, passou, cobrou alguma coisa. Às vez até os político aí, com toda a dificuldade, a gente deve favor.  Então isso... […] Porque muitas associação no tempo já era registrada. Como a gente, no tempo, não tinha energia elétrica, como tem hoje lá, as estrada que tinha era péssima, então a gente resolveu afundar uma associação. Por que no caso as vizinha não interessava tanto, né! A gente era uma associação, comparando assim, isolada! Não tinha quase contato com ... com... só tinha contato assim com os político na época de política, mas depois que passava era esquecido! Aí a gente teve a orientação de pessoas preparada, às vez no tempo, que trabalhava aqui [na cidade] ... os pessoal da EMATER, a mulher aí que hoje é... Leda, mulher do prefeito daqui de Itaobim, falou assim “Ô gente, cês tem que fundar uma associação, vocês aqui mesmo, de vocês mesmo!” No tempo […] o Zè Wilson resolveu, juntou aquelas pessoa mais velha que tinha e fundou a associação. (E.18)

Assim, a comunidade é formada por membros da mesma família cujos vínculos conjugais se entrelaçaram à alguns membros das comunidades vizinhas ou da mesma comunidade. As terras em que habitam pertenciam ao pai de alguns dos seus membros. Com a sua morte as terras foram divididas entre os filhos que pensavam ter para seu usufruto 8 alqueires de terra até que, com a medição apropriada, verificaram deter apenas 4 alqueires. A comunidade de Queimadão chama atenção pela divisão acuidada das terras entre seus moradores, todas delimitadas por cercados e suas porteiras, e uma das explicações fáceis para tamanho cuidado nas delimitações é o cuidado para não haver a invasão do gado, dos burros e afins à propriedade alheia e seu manancial de água.

Por não ter sequer abastecimento de água encanada na comunidade, já se espera que não haja coleta de esgoto; tampouco de lixo, ficando ao critério dos moradores seu destino. Além da EMATER atuar na comunidade, há, segundo um dos entrevistados, o contato com outra instituição cuja atividade não ficou clara.

Cheguei a esta comunidade com membro da mesma que faz transporte cotidiano das pessoas à cidade com o seu automóvel (uma D20). O membro da comunidade sai em direção à cidade por volta das 7:00 da manhã e retorna por volta das 13:00h da tarde. Há também o transporte escolar dos alunos a partir do 6ºano; mas este só se direciona para a cidade à tarde, retornando pela noite. Na parte da manhã o transporte leva os alunos da comunidade de Queimadão para a comunidade de Córrego de Areia, onde se situa uma pequena escola para os ensinos básicos. Na comunidade de Queimadão também está uma escola, porém, desativada.
Três das entrevistas que realizei ocorreram na casa dos próprios entrevistados, com a presença dos seus familiares, mas sem nenhuma interferência. Duas outras procederam na cidade de Itaobim, à sombra das árvores de uma praça próxima ao “ponto” 2 dos moradores de Queimadão, às vistas de toda a dinâmica do centro relativamente movimentado de uma cidade pequena. Excetuando um grupo de crianças que, durante algum tempo, insistia em brincar ao nosso redor em uma das entrevistas, não houve maiores contratempos.


1 Segundo a população local as áreas de tabuleiro concernem a uma faixa de terra plana onde há um nível de aproximação maior com os cursos d’água.

2 Na cidade de Itaobim os moradores de Queimadão tendem a frequentar todos uma mesma casa de comércio, especialmente o senhor responsável pelo transporte cotidiano entre a comunidade e a cidade; por isto a casa de comércio é apelidada como “rodoviária”, segundo o seu próprio proprietário.

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