CAMINHOS DO JEQUITINHONHA: ANÁLISE DO PROJETO DE COMBATE Á POBREZA RURAL

Marcela de Oliveira Pessôa

3.2.2 – A comunidade de Piauí Pereira.

Situada no município de Itinga na fronteira com o município de Araçuaí, a comunidade de Piauí Pereira herdou o nome do rio que faz a divisão municipal e o nome da família mais influente/numerosa da comunidade. A constituição desta como comunidade, segundo seus moradores, é muito recente, embora seus habitantes já estivessem na localidade há muitos anos.
Essa comunidade foi formada através de um transporte escolar... que há anos atrás as criança daqui da região só estudava até a quarta série, e não tinha como continuar seus estudo porque não tinha como ficar na cidade para continuar por causa da pobreza. Sempre tinha que ficar procurando casa de parente, às vezes lá por acauso conseguia um estudar. Aí aconteceu de... uns anos aí, aconteceu que surgiu... eu não sei te falar... qual é dos presidente, que surgiu este negócio de transportar os alunos escolar da zona rural. E então o prefeito de Itinga, a gente procurou ele e ele resolveu colocar uma besta aqui pra colocar os alunos para estudar nesta comunidade aqui, que era parada, praticamente isolada. Então quando esse prefeito colocou esta besta começou a transportar todos os alunos a partir da quarta série para estudar em Taquaral.. então a comunidade começou influir pra querer ter sua própria comunidade e sua comunidade crescer. Aí procurou uma pessoa da comunidade para ser representante da comunidade […] aí nós procuramos maneira de registrar a comunidade”. (E.F)
“A comunidade aqui, ela tinha poucas casa porque isso aqui primeiro chamava de Arqueana1 ... Aqui era uma casa aqui, outra lá, era outra acolá, outra ali já caiu, outra lá colá... mas aí o quê aconteceu... começou os filhos casando, né, construindo... netos... e foi, foi e tá hoje esta pequena população que cê tá vendo aí. Aí o que aconteceu, quando foi em 1998, chegou a vereadora x de Taquaral […] que toda vida foi município de Itinga, mas ficava aqui, jogado... […] procurou para que a gente formasse uma creche, para as crianças que tinha desnutrida. […] Assistente social não vinha, não vinha educação, não vinha aquelas ajuda do governo pra tá ajudando as criança na alimentação […] então ela queria começar […] veio, fizeram reunião, a gente não tinha lugar pra fazer a reunião, não tinha transporte pra levar as criança pra estudar... Aí não tinha energia, né. A gente foi até Araçuaí e a energia que tem aqui a gente comprou, não é pública, ela não é comunitária, ela é comprada... o menino agarrado no peito e lá vai a gente vai atrás... e aí os irmãos davam aquele total, né, todo mês, R$26,75 centavos cada um. Naquela época ficou em dois mil e tanto, né, a luz e conseguimos rastar a luz pra cá... logo que conseguimos, outro povoado foi lá e comprou, né, lá na frente... Comprou a rede não, que a rede é da CEMIG2 , comprou o transformador. Aí começou a evoluir, porque quando chega energia numa certa localidade, então clareia, e ela começa a aparecer... porque uma comunidade só começa aparecer através da energia!  […]” (E.G)

Na vertente mais urbana (Figura 13), seus moradores residem a uma dispersão territorial considerável entre si, mantendo relações cotidianas com a comunidade da margem araçuaiense do rio Piauí, posto que de lá está a “outra parte” da comunidade: famílias, a escola ginasial, relações amorosas, além de se abastecerem das mesmas águas, o mesmo clima quente, as mesmas noites frias durante Junho-Julho, as intensas trocas e visitações durante os períodos de festas, leilões e afins. Como disse um dos moradores “o mesmo que se aplica lá, se aplica aqui”, a diferença é a divisa municipal tracejada pelo rio.  Assim, o requerimento do título de comunidade de Piauí Pereira se deu porque, embora as suas pessoas interagissem constantemente com o outro lado do rio, não recebiam os mesmos benefícios que viam chegar através do governo municipal de Araçuaí, de modo que resolveram reclamar a devida atenção junto ao governo municipal de Itinga. Isto os permitiu, por exemplo, a participação no Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável de Itinga e, a partir dele, solicitar o projeto aqui analisado, amparados pela sua Associação Comunitária de Piauí Pereira.
As pessoas tendem a trabalhar em suas pequenas porções de terra, sendo que a produção que se tem na comunidade, tal como relatado no Alfredo Graça, e de pequena produção familiar tendo em vista o autoconsumo e as feiras municipais de Itinga e a de Araçuaí.
O que sustenta aqui mais um pouquinho é a farinha, o pessoal planta a mandioca, né! Tem uns que nem tá plantando mais que a falta de chuva... Tá muito pouca... tem hora que ela consegue dar rendimento, tem hora que não consegue. Cada um tem hora que planta um pouquinho de milho, feijão... cê tá entendendo?! E aí vai dando o sustento de cada dia. Às vez um cria um porco. Aquilo serve pra despesa da casa ou pra vender. Cria uma galinha. Tem alguns que as vezes tem um gadinho. É um sustento especial aqui na região é o leite. Que o leite às vez não dá pra ele sobreviver, mas através de uma farinha, uma horta, que nem a minha ali na beira do rio […] uma galinha, um leite... nem todos que tem o leite... mas dá pra ir calçando a vida das pessoas. E a aposentadoria nem precisa falar, né. Geralmente a pessoa com sessenta anos, lavrador, aposenta, aí já dá pra ele viver... Mas e até chegar esses sessenta ano? Né?! […] Às vez tem lavrador que as vez não tem uma vaca pra tirar um leite.. a renda dele é pouca... ele não deixa de trabalhar. Ele não deixa de trabalhar pra si mesmo, mas ele mata seu corpo de serviço diarista trabalhando na roça pr’os outro pra ajudar, contribuir com aquele pouquinho que ele colhe. Que a colheita também é pouca, mas dá um calcinho!” (E.F)

O escoamento da produção da comunidade se dá através de transporte próprio ou da linha de ônibus que faz apenas uma rota por dia, partindo do extremo da comunidade por volta das 05:30 da manhã em direção à rodoviária de Araçuaí, com retorno da mesma para a comunidade as 17:00h. São também os meios de se chegar à comunidade excluindo aí a alternativa do ônibus escolar.
A comunidade se situa, por cerca de 17 Km de estrada de terra, à margem esquerda da BR 367. Do ponto de convergência entre a estrada de terra e a BR até a sede da cidade são mais 20 Km. A linha de transporte existente, no entanto se dirige ao município de Araçuaí, o que explicita a intensa relação da comunidade com este, muito embora Itinga seja considerada uma cidade de porte razoável em termos de Vale do Jequitinhonha; detendo na atualidade cerca de 15 mil habitantes com aproximadamente de 8 mil a residir na sua área rural (IBGE, 2010).
Para alguns Itinga foi considerada a “princesinha do Vale” para o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Isto pelo fato de ter sido a cidade a escolhida para que Lula se pronunciasse à mesorregião jequitinhonhesa assim que tomou posse em janeiro de 2003, durante a caravana Fome Zero. Tendo prometido aos moradores a construção da ponte sobre o Rio Jequitinhonha, que ligaria as duas partes do município, a obra fora concluída em 2003 e inaugurada pelo mesmo. A cidade de Itinga cresceu à outra margem do rio, isto é, do lado direito e oposto a que se construiu a BR 367. O acesso de quem vivia à margem esquerda do rio à cidade se dava por longo contorno pela BR 116, a partir de Itaobim, ou por travessia de canoa ou balsa. Isto justifica porque as comunidades do lado esquerdo do rio Jequitinhonha e, portanto, do lado direito da BR 367 terem desenvolvido, desde há muito, relações mais intensas com a cidade de Araçuaí: por ser mais acessível que sua própria sede até menos de uma década.
Também o Piauí Pereira para manter relações com a porção araçuaiense da comunidade utiliza de pequenas pontes que eram utilizadas especialmente durante o período de chuvas, quando o rio vivia trombas d’água intensas, fertilizando suas margens e ganhando profundidade considerável, a ponto de tornar arriscado a sua travessia. Contudo, na atualidade o Rio Piauí se vê enfraquecido, o que atemoriza e esmorece os viventes da comunidade.
Sob o clima quente típico do Médio Jequitinhonha, o abastecimento de água na comunidade se dá através das bombas dos próprios moradores e recolhimento de água das chuvas em tonéis daqueles que os têm. Não há sistema de tratamento de esgoto ou coleta de lixo, ficando à critério dos moradores o que fazer com o próprio lixo. No que tange ainda a infraestrutura, os seus habitantes contam com a creche anteriormente mencionada e se veem ocasionalmente contemplados por projetos da EMATER.
Alguns aspectos de campo importantes de salientar é que, dada a impossibilidade de ir por conta própria à comunidade pela primeira vez, cheguei a mesma com o auxílio do IDENE, tendo o agente institucional me levado por volta das 08:00 horas da manhã de uma sexta feira. Tive de pernoitar na casa de uma das famílias – o que não foi de modo algum sacrificioso, devida a receptividade, respeito e atenção que me dedicaram – retornando à Araçuaí com o ônibus de linha. Devido a ter chegado com o carro do IDENE e ter me acomodado na casa de um dos moradores, (sendo, inclusive, levada a casa de cada entrevistado, acompanhada por uma pessoa desta família) isto deve, de algum modo, ter interferido na resposta dos entrevistados ainda que não perceptível em primeiro momento. Mais notório ainda é o fato de que, retornando posteriormente à comunidade com automóvel próprio para realizar uma última entrevista, esta, aparentemente, foi a resposta que mais se viu envolta em artifícios. Isto é, pareceu-me que os demais entrevistados foram mais sinceros em suas respostas quando estive acompanhada por pessoa da comunidade, do que nesta entrevista, em que fui por conta própria.


1 A Arqueana de Minérios e Metais LMTD é um empreendimento situado entre Araçuaí e Itinga com a atividade de extração e beneficiamento de pegmatitos. Rochas cuja mineralogia apresenta minerais e gemas como quartzo, feldspato, micas, turmalina, topázio entre outros. A comunidade de Piauí Pereira está aos seus arredores.

2 Companhia Energética de Minas Gerais.

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