CAMINHOS DO JEQUITINHONHA: ANÁLISE DO PROJETO DE COMBATE Á POBREZA RURAL

Marcela de Oliveira Pessôa

4.3.3 – O caminho para o lago

Muito embora o Documento para Discussão mencione o papel fundamental que o PCPR pode ter na agregação das associações de produtores, que reconheça que o agrupamento de associações é uma forma mais bem sucedida para aumentar seu poder de negociação nos mercados e, ainda, que já existem experiências nas quais as ações do PCPR tem buscado ligar os beneficiários do PCPR aos agentes do mercado; acaba sendo pungente a elaboração deste subcapítulo. O motivo são alguns dos resultados obtidos nas entrevistas nas comunidades rurais, que retratam do seguinte:

  • Como já foi dito, não são promovidas feiras ou encontros para criar redes de contato ou discussão entre os participantes dos subprojetos com beneficiários de subprojetos semelhantes;
  • Não existem, na grande maioria dos casos, redes de encontros ou parcerias entre a comunidade e instituições públicas, mesmo que, ocasionalmente existam algumas relações mais frequentes com a EMATER e algumas organizações civis;
  • O IDENE não oferece às comunidades cursos de capacitação. Diante da dificuldade dos entrevistados em esclarecer sobre o mesmo, ficou registrado que o mais próximo que a instituição oferece é um curso de prestação de contas. Os cursos a que estas comunidades tem acesso são oferecidos ocasionalmente pela EMATER e outras institucionalidades, quando há estes vínculos, mas que nem sempre tem valor peremptório para as atividades dos subprojetos produtivos.

Estes são pontos os quais as lideranças comunitárias sentiram falta para ajudar a alavancar a tomada de atitude dos demais membros das comunidades. Mesmo que as pessoas destas comunidades se vejam como sujeitos importantes para o seu desenvolvimento, falta enfatizar a atuação conjunta como meio de resolução de seus problemas socioeconômicos, na constituição de um horizonte que supere a escala da sobrevivência comunitária. Falta-lhes estimular o associativismo para além de questões pontuais de sua realidade e com vistas a enfrentar com maior respaldo as condições de pobreza. Fortalecer este aspecto está também no encalço do PCPR.
Segundo Durston (2001), experiências indicam que as habilidades sociais institucionais, como liderança em gestão, trabalho em equipe, transparência social, prestação de contas, são formais e transmissíveis; logo, podem ser criados mediante agentes externos que use metodologias de capacitação de base. Através da afirmação de parcerias com outras instituições o IDENE tem como promover a capacitação das comunidades de forma razoável, a ponto de estimular-lhes a tomada de iniciativa. E não se trata de iniciativa exclusivamente das lideranças, mas da comunidade como um todo, pois, neste caso, não se pode considerar os indivíduos como insubstituíveis. Como também aponta Durston (2001), a capacitação coletiva tem ainda aspecto de conscientização, de modo que se todos são capacitados, nenhum líder é indispensável. Todos devem dar sua contribuição e a maioria deve estar devidamente preparada para suprir as atividades de um ou outro quando bem aprouver.
Não se pretende neste trabalho determinar a quais instituições o IDENE deve recorrer, mas sim relevar o quanto é útil a sua interferência no sentido de chamar parcerias e, também, atrair agentes de mercado como o Documento para Discussão se referiu sobre outros PCPR’s. Tal como pontua Portes (2000), as redes sociais não são um fator natural, tendo que ser criadas a partir de estratégias de investimento orientadas para a institucionalização da relação de grupo, que são úteis para acender a outros benefícios. Há necessidade, portanto, de outra ingerência institucional ao PCPR para que haja a maior agregação de forças pelo combate à pobreza rural; pois deve-se reconhecer, como faz Abramovay (2000), a importância de uma rede de atores para valorizar uma região, que nisto que se apoia o seu desenvolvimento. Tal ingerência institucional será considerada como “Anexo de Corrente” e visaria fortalecer os subprojetos produtivos nos seguintes moldes:
a) Capacitação para atividade produtiva
Por meio de parcerias com entidades públicas e privadas o sentido seria o de promover cursos de capacitação na área do desenvolvimento do produto a que se dirige o subprojeto produtivo nos aspectos de:

  • Produção I: mostrando as possibilidades de se realizar uma atividade produtiva amparada numa lógica sustentável, com aproveitamento de recursos e reaproveitamento de resíduos1 .
  • Produção II: ensinando a lidar com questões de asseamento durante a produção, embalagem e transporte para a melhor qualidade do produto.
  • Mercado: abordando questões como procedimentos para estabelecimento de preços e mecanismos de encontrar/atender demandas de mercado.
  • Legislação ambiental: mostrando procedimentos da legalização ambiental em que se sinalize os marcos legais que dizem respeito à pequena produção e à como utilizar dos mesmos em seu benefício 2.
  • Trabalho em equipe: para além de ensinar como fazer prestação de contas, a capacitação em trabalho em equipe visa demarcar a necessidade das comunidades de ter uma agenda fixa de reuniões para discutir as suas problemáticas comuns e, através da reflexão conjunta, buscar a resolução dos problemas. Além disto, deve-se discutir modos de comércio conjunto que evite a concorrência intracomunitária no mercado, que pode vir a danificar o capital social comunitário.

O nível de capacitação requerido, como se pode perceber, não se trata de elementos que demande muito tempo ou esforço da instituição e suas parceiras. São ações que, embora pareçam tópicas, provavelmente terão seus efeitos multiplicados, pois as comunidades tendem a reagir bem às motivações institucionais, ainda mais em resposta à confiança que tem para com o IDENE e seu PCPR.
b) Diálogo de redes
A proposta é proporcionar meios para a formação de parcerias que estendam o capital social e fortaleçam seus subprojetos gerando multiplicadores. Diferente do tópico anterior, o diálogo de redes pressupõe uma atividade perene, e se assenta na estrutura de Redes Comunitárias proposto por Fugimoto e Sarmento (2007). A ideia é que se realizem encontros com os seguintes enfoques:

  • Encontros comunitários: para que as comunidades que tem o mesmo tipo de subprojetos troquem experiências discutindo problemáticas presentes nas produções, possíveis soluções e, até mesmo, sobre as possibilidades de se promover cooperativas de produção e venda para mercados maiores.
  • Encontros institucionais: encontros ocasionais em que sejam convidadas, além das comunidades, entidades, como organizações civis e empresas, que possam ser parceiras das comunidades tanto no seu aspecto social como econômico. Assim como nas Redes Comunitárias descritas por Fugimoto e Sarmento (2007), a proposta seria colocar as atividades e interesses dos presentes para que se estabeleçam possíveis ligações. A proposta seria a de estabelecer um ambiente que estimule a cooperação e conexão entre atores e em que se fortaleça a confiança para projetos e ações sociais (FUGIMOTO e SARMENTO, 2007).

A proposta dos encontros institucionais, inclusive, pode servir de grande auxiliar à capacitação almejada para a atividade produtiva. Fica claro que o Diálogo de Redes só tem como funcionar em parceria com as Prefeituras Municipais, para que se ofereça tanto o transporte dos viventes nas comunidades rurais, como um espaço público para a realização dos encontros. Além disto, é importante mencionar que diferentemente dos CMDRS’s a ideia é que cada comunidade tenha presente os próprios representantes, e não representantes “regionais”.
Este aspecto do programa leva a canalizar as formas latentes para contornos mais formais e convenientes para a superação da pobreza. Tal como coloca Muls (2008), articulação em rede é essencial para o desenvolvimento econômico local, pois se não libertam o território das pressões vindas de fora pelo menos busca redirecioná-las a seu favor.


1 O CPCD, por exemplo, é uma organização civil que oferece este tipo de capacitação.

2 Este aspecto surgiu das observações feitas por algumas pessoas das comunidades que reclamam sobre o desconhecimento dos marcos da legislação ambiental e temem a retaliação do órgão executivo por desconhecer como agir perante as mesmas, especialmente, em seu benefício, pois se é um dever, também é um direito.

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