GEOTECNOLOGIAS E O PLANEJAMENTO DA AGRICULTURA DE ENERGIA

Heloísa Rodrigues Nascimento
Yolanda Vieira de Abreu

2.3. Bioetanol

A História do emprego do etanol no Brasil data do início do século XX, quando as primeiras tentativas para o uso do álcool em veículos foram realizadas pela Sociedade Nacional da Agricultura (SNA). A ocorrência do desabastecimento de combustível, oriundo da Primeira Guerra Mundial em território europeu, e a queda do preço do açúcar no mercado internacional conseqüência da crise de 1929, fez com que o Presidente Getúlio Vargas instituísse a obrigatoriedade da adição de álcool anidro à gasolina consumida no território nacional através do decreto nº 9.717 de 20 de fevereiro de 1931, à proporção de 5% em volume (MENEZES, 1980 apud MARCOCCIA, 2007; LEME, 2004).

Em novembro de 1975, por meio do Decreto nº 76.593, o Presidente Ernesto Geisel criou o Programa Nacional de Álcool (PROÁLCOOL), um programa de incentivo à produção do álcool combustível visando alternativas para enfrentar a crise do petróleo que ameaçava as economias mundiais importadoras do produto. O programa tinha como objetivo garantir o suprimento de etanol no processo de substituição da gasolina. Tinha também como meta apoiar o desenvolvimento tecnológico da indústria sucroalcooleira. Na primeira fase do programa, até 1979, a ênfase foi a produção de etanol anidro para ser misturado à gasolina. Na segunda fase, a ênfase passou a ser o etanol hidratado, usado puro em motores adaptados para o combustível (ANP, 2010).

Entre 1983 e 1988, mais de 90% dos automóveis vendidos no País eram movidos a etanol. Quando os preços do petróleo começaram a cair, no fim da década de 1980, a produção do etanol hidratado declinou. Ao fim da década de 1990, apenas cerca de 1% dos carros vendidos tinham motores a etanol (ANP, 2010).

Porém, depois de um período de incertezas, ao longo da década de 1990, o interesse pelo álcool combustível no Brasil, voltou a ter um papel relevante na matriz energética brasileira, em virtude das novas perspectivas de mercado com as oscilações do preço do petróleo proporcionadas pelos constantes conflitos no Oriente Médio. No Brasil, houve o lançamento dos veículos bicombustível (flex fuel). Externamente, aumentam o interesse em substituir oxigenantes da gasolina altamente poluentes, como o MTBE (metil-butil terciário) e o chumbo tetraetila, pelo álcool; e também cresce o interesse em substituir parte da gasolina por álcool, em virtude das vantagens econômicas que isso poderia propiciar em cenários de alta nos preços do petróleo (LEME, 2004).

Atualmente o Brasil se defronta com a perspectiva de um aumento significativo da demanda de álcool combustível. Essa previsão se sustenta em três realidades de mercado: 1) aumento interno do consumo de álcool hidratado pelo sucesso da tecnologia flex-fuel no mercado de veículos automotivos leves; 2) expansão das exportações brasileiras de álcool, em função do crescente interesse mundial pela mistura do álcool à gasolina, como forma de enfrentar o aquecimento global; 3) opção brasileira pela produção do biodiesel, utilizando etanol na transesterificação dos óleos vegetais (BONOMI; FELIPE, 2010).

A Figura 2.5 mostra a evolução da área e produtividade de cana-de-açúcar no Brasil, desde o período do lançamento do Proálcool até o ano de 2008, elaborado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Figura 2.5 - Evolução da área e produtividade de cana-de-açúcar no Brasil
Fonte: BRASIL (2009)

A Figura 2.6 mostra a evolução brasileira de etanol por tipo, sendo dividido em etanol anidro e etanol hidratado no período de 1975/76 ao período de 2008/09, elaborado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
 Figura 2.6 - Evolução da produção brasileira de etanol por tipo
 Fonte: Elaborado a partir dos dados de BRASIL (2009).

O Brasil possui algumas vantagens na sua produção de etanol, em relação a outros países, como por exemplo, dominar todo o processo de produção de álcool, possuir abundância de terra e mão-de-obra. Tais vantagens o levam a possuir o menor custo de produção do álcool no mundo, porém os Estados Unidos atualmente divide com o Brasil as primeiras posições entre os maiores produtores do mundo. Para que essas vantagens comparativas venham a produzir resultados efetivos no mercado nacional e mundial é necessário continuar investindo em pesquisa e desenvolver cooperação efetiva entre empresários do setor e o governo para extinguir potenciais entraves e problemas oriundos dessa nova expansão do programa do álcool (MICHELLON; SANTOS; RODRIGUES, 2008).

Além de ter os custos de produção mais baixos do mundo, o etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil tem outra vantagem importante: na Região Centro-Sul do País, somente uma unidade de energia fóssil é usada para cada 8 a 9 unidades da energia produzida pelo etanol de cana. A redução das emissões do carbono beneficia-se também do ethanol do sugarcane: para cada metro cúbico de etanol de cana-de-açúcar usado como combustível, há uma redução de 2,1 a 2,4t de CO­­2 (dióxido de carbono), emitido na atmosfera (CRUZ, 2010).

Outra vantagem refere-se à eficiência energética, que é a quantidade de energia produzida em relação à quantidade de energia necessária para produzi-la. Novamente o etanol de cana-de-açúcar apresenta o melhor desempenho. A tabela 2.2 apresenta o balanço energético das principais matérias-primas atualmente utilizadas para a produção de etanol. Observa-se que para a cana-de-açúcar, cada quantidade de energia fóssil utilizada resulta na produção de 8,3 unidades de energia renovável, ou seja, um balanço energético extremamente favorável para esse produto (MORAES, 2008).

Tabela 2.2 – Balanço energético das principais matérias-primas


Matéria-prima

Energia Renovável Produzida/ Energia Fóssil Consumida

Trigo

1,2

Milho

1,3-1,8

Beterraba

1,9

Cana-de-açúcar

8,3

Fonte: Macedo et al., 2006, F.O.Lichts 2004, IEA apud MORAES (2008)

De acordo com a ÚNICA (2009), a produção de cana-de-açúcar no Brasil concentra-se na Região Centro-Sul, sendo que na safra 2008/2009 correspondeu a aproximadamente a 88,74% enquanto que a Região Norte-Nordeste corresponde a aproximadamente 11,26%.

A possibilidade de se produzir cana-de-açúcar em todo o território nacional representa vantagem para o país, pois o período de safra entre as regiões Centro-Sul e Norte-Nordeste são complementares, permitindo a produção de cana o ano todo. No entanto esse potencial ainda precisa ser desenvolvido, pois a produção é muito concentrada na região Centro-Sul de forma que qualquer adversidade climática que atinja esta região impactará negativamente na produção de álcool e açúcar e afetará os mercados nacional e internacional visto que a produção do Norte-Nordeste está muito aquém do total necessário para atender a demanda (SOUZA, 2006).

A Figura 2.7 mostra a distribuição percentual da produção de etanol anidro e hidratado, segundo grandes regiões no ano de 2009.

Figura 2.7 - Distribuição percentual da produção de etanol anidro e hidratado nas Grandes Regiões -2009
Fonte: ANP (2010) elaborado por MAPA, SPAE, DAA

Outra importante característica do setor sucroalcooleiro é sua capacidade de utilização da cogeração de energia elétrica, produzindo energia mais que suficiente para o próprio consumo das usinas de açúcar e álcool, na época da safra, mas também produzindo excedentes de energia que são vendidos às redes de distribuição de eletricidade e que dependendo do contrato realizado com a concessionária poderá ser utilizada nas entressafras (FILHO, 2009).

O conceito de cogeração possui diversas definições encontradas na literatura, sendo que muitas se aproximam daquela adotada por Lizzaraga (1994) apud Ensinas, Arnão e Nebra (2010) que define esse termo como a “produção conjunta, em processo sequencial de eletricidade (ou energia mecânica) e energia térmica útil”.

O processamento da cana-de-açúcar é altamente intensivo no uso de energia, principalmente energia térmica para a concentração do caldo, destilação e desidratação do etanol. No início do Proálcool, grande parte das usinas consumia quantidades consideráveis de lenha para complementar o bagaço como combustível. Além disso, boa parte da energia elétrica necessária à operação da planta era adquirida das concessionárias por preços ainda muito baixos. Hoje, as usinas mais modernas geram excedentes de energia elétrica para a venda e ainda operam com sobra de bagaço (LEAL, 2010).

O progresso do setor sucroalcooleiro observado no Brasil foi baseado no uso de apenas um terço do potencial energético da cana-de-açúcar: o caldo, para produção do açúcar e etanol. Agora estamos no limiar do uso em larga escala dos outros dois terços da planta – o bagaço e a palha – para gerar eletricidade, conhecida como bioeletricidade (JANK; RODRIGUES, 2007).

A bioeletricidade se encontra disponível próxima dos principais centros de consumo, reduzindo os custos de transmissão. Além disso, ela é produzida durante a safra da cana-de-açúcar, que corresponde ao período seco, de maior demanda por eletricidade e maior custo de geração do sistema nacional, sendo altamente complementar à energia gerada pelas hidrelétricas. Ainda se podem listar outras vantagens, tais como: A) energia totalmente renovável; B) de baixo impacto ambiental; C) reduzido prazo para construção (inferior a 30 meses). Tem-se que levar em consideração o aumento do mercado de máquinas, equipamentos, setores comerciais, serviços e industriais para atender a demanda da indústria de bioeletricidade (JANK; RODRIGUES, 2007).

Além disso, as demandas sociais crescentes por uma política energética que valorizasse a minimização do impacto ambiental, a adoção de fontes alternativas de energia e a racionalização do uso de insumos energéticos mostraram a necessidade de investimentos no melhor aproveitamento dos resíduos da cana-de-açúcar. Assim com a eliminação das práticas de queimadas nos canaviais, com a colheita mecanizada e a recuperação de pontas e folhas da cana-de-açúcar, pode representar também um aumento significativo na disponibilidade de biomassa usada como combustível nos sistemas de cogeração, aumentando ainda mais a geração de excedentes (ENSINAS; ARNÃO; NEBRA, 2010).

Portanto, pode-se afirmar que a produção de etanol no Brasil é dinâmico quanto a pesquisa e desenvolvimento (P&D) e tende a ser eficiente e cada vez ambientalmente mais adequado em comparação com os combustíveis fósseis.

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