ECONOMIA SERGIPANA

Cid Olival Feitosa

A indústria como “motor” da atividade econômica sergipana

No que se refere ao Produto Interno Bruto, verifica-se, através da Tabela 2.23, que durante esses 25 anos o PIB sergipano cresceu em média a 10,3% ao ano, superando o crescimento do PIB nordestino (7,3% ao ano) e brasileiro (7,5% ao ano). Contudo, se observarmos a variação dos diversos subperíodos, veremos que embora acompanhasse a tendência de crescimento das economias nordestina e brasileira, na década de 1960, o PIB sergipano apresentou crescimento levemente superior ao da economia nordestina, mas ficou abaixo do crescimento da economia brasileira; no decênio seguinte, seu crescimento (9,1%) ficou abaixo tanto da economia nordestina (10,5%) quanto da brasileira (10,3%), ainda que tivesse apresentando crescimento ao longo da década, acompanhando a tendência regional e nacional, ou seja, embora as taxas se diferenciassem as tendências foram semelhantes, situação que não se verificaria no qüinqüênio seguinte.
Para Araújo (1997), essa coincidência de tendências significava que a integração econômica articulou a dinâmica da economia brasileira nas diversas regiões do país, contrariando uma das teses do GTDN que dizia que enquanto a economia nordestina apresentava crescimento negativo, a do Centro-Sul apresentava situações de elevado crescimento positivo.
Na primeira metade da década de 1980, porém, o PIB sergipano mostrou-se totalmente destoante do que se verificou com a economia nacional e regional. Convém lembrar que neste período a economia nacional apresentou fases bem distintas na evolução das atividades econômicas: entre 1981 e 1983, um crítico processo recessivo e a retomada do crescimento entre 1984 e 1985. Para a economia sergipana foi o período de maturação dos investimentos estatais realizados em 1977 e de novas inversões, realizadas em 1982, o que poderia explicar, em parte, a elevada taxa de crescimento do qüinqüênio.
Outro aspecto a ser considerado no início dos anos 1980, no que diz respeito às diferenças existentes no crescimento do PIB sergipano, regional e nacional, está no fato de que a integração econômica verificada na economia brasileira não significou uma homogeneidade das estruturas produtivas regionais do país. Assim, as regiões permaneceram com suas “diferenciações” produtivas, embora integradas nacionalmente. Em função destas particularidades produtivas, a Região Nordeste, e Sergipe, em especial, foram menos atingidos pela crise dos anos oitenta, pois essa afetou mais fortemente o setor industrial, principalmente os segmentos produtores de bens de capital e de bens de consumo duráveis e a região Nordeste havia se especializado na produção de bens intermediários, contribuindo também para que o PIB sergipano, bem como o nordestino, ficassem acima da média nacional (ARAÚJO, 1997).
Deve-se considerar, ainda, que o excelente desempenho do PIB sergipano no qüinqüênio 1980/1985 deveu-se, também, ao repasse da alta dos preços do petróleo no mercado nacional, devido ao choque de 1979, o que promoveu uma mudança favorável nos preços relativos do produto, beneficiando a economia sergipana (SILVA, 1989).
Sob o aspecto das mudanças estruturais, vale mencionar que, em 1960, a indústria nordestina contribuía com 11,7% para o produto regional, ficando o setor agrícola com 41,3% e o setor de serviços com 47,0%. Em 1985, a composição da economia do Nordeste teria passado por uma radical transformação: a participação do setor secundário atingiria 38,8% do total da produção regional, o setor agrícola sofreria uma acentuada perda de posição, caindo para 17,0%, enquanto o setor de serviços, mantendo sua condição de segmento majoritário, contribuía com 44,2% do produto regional, conforme tabela abaixo.


Tabela 2.24

NORDESTE - SERGIPE

Evolução da Participação dos Setores no PIB

1960-1985

(%)

Ano

NORDESTE

SERGIPE

Agropecuária

Indústria

Serviços

Total

Agropecuária

Indústria

Serviços

Total

1960

41,3

11,7

47,0

100,0

42,7

10,8

46,5

100,0

1965

41,9

10,4

47,7

100,0

43,6

9,6

46,8

100,0

1970

22,4

18,3

59,3

100,0

21,3

25,6

53,1

100,0

1975

21,0

23,7

55,3

100,0

17,3

30,4

52,3

100,0

1980

16,7

32,1

51,2

100,0

17,4

28,9

53,7

100,0

1985

17,0

38,8

44,2

100,0

8,2

67,8

24,0

100,0

Fonte: Ipeadata (2006)

A economia sergipana também apresentou mudanças estruturais significativas, semelhante ao que ocorreu com a Região Nordeste como um todo, apresentando, inclusive, maior ímpeto no que diz respeito a participação do setor industrial no final do período em análise. Desse modo, em 1960, a participação da indústria sergipana correspondia a 10,8% da produção estadual, ao passo que a agricultura contribuía com 42,8% e o setor de serviços perfazia 46,5% da produção total. Em 1985, a economia sergipana apresentava uma participação industrial altamente elevada, uma vez que este setor representava 67,8% da produção estadual. O setor de serviços teria sido reduzido à metade, representando 24,0% do produto sergipano e o setor agrícola apresentaria queda vertiginosa, atingindo a marca de 8,2%.
Deve-se ressaltar que a participação da indústria na composição setorial de Sergipe em 1985, não quer dizer, necessariamente, que o estado era (altamente) industrializado, uma vez que tais indicadores deviam-se, em grande medida, à indústria extrativa (concentrada, sobretudo, nas atividades da Petrobrás e de outras empresas estatais de exploração mineral) e de construção civil que, juntas, totalizavam 30,2% do setor industrial do estado, ao passo que a indústria de transformação era responsável por 36,8%, conforme dados das Contas Regionais, do IBGE (2006).
Embora sejam conhecidas as diferenças metodológicas apresentadas entre a FGV/IBGE1 e a SUDENE, o que pode apresentar informações distintas para o mesmo indicador, e embora se utilize ao longo de todo o trabalho dados coletados pela FGV/IBGE, calculados pelo IPEADATA, gostaríamos de apresentar a participação dos grandes setores no PIB industrial sergipano, calculado pela SUDENE, como forma de ilustrar a importância e crescimento da indústria extrativa mineral, ou do setor público, para a economia do estado. A utilização dos dados da SUDENE ocorreu em virtude da dificuldade de obtenção de informações com maior nível de desagregação, que pudessem exemplificar a participação dos grandes setores industriais (indústria de transformação, indústria extrativa, construção civil e energia elétrica e abastecimento de água) na composição do PIB sergipano. Assim, reitera-se que para o período ora analisado não se encontrou, nos dados da FGV/IBGE, nem no Ipeadata, informações desagregadas por grandes setores industriais, o que nos obrigou à utilização das estatísticas da SUDENE. Contudo, sabemos e assumimos os riscos de se utilizar uma base de informação distinta daquela utilizada ao longo de todo o trabalho.
De acordo com as informações da Tabela 2.25, em 1970, a indústria extrativa mineral respondia por 22,2% do PIB industrial sergipano e a indústria de construção civil por 44,4%, ao passo que a indústria de transformação por 33,3% do PIB industrial do estado, ou seja, a indústria de transformação e construção civil respondiam por mais de 2/3 da produção industrial de Sergipe, o que pode ser atribuído, em parte, aos incentivos fiscais da SUDENE.

A partir de 1975, a indústria extrativa passou a predominar no setor industrial do estado, com 36,5%, superando tanto o setor de construção civil quanto a indústria de transformação. Em 1984, a indústria extrativa mineral respondia por quase 58,4% do total da indústria de Sergipe, fato que decorre dos investimentos associados ao II PND, conforme apontamos anteriormente.
Comparando-se a evolução industrial de Sergipe com a do Nordeste, percebe-se que não obstante a indústria extrativa nordestina tivesse apresentado crescimento constante ao longo de todo o período, a indústria de transformação apresentou participação muito superior aos demais setores industriais. Esse fato confirma a nossa hipótese de que o crescimento da economia sergipana, capitaneada pelo setor industrial, foi decorrente dos investimentos realizados pelo setor público, através das suas empresas estatais, não apresentando grandes investimentos dos setores produtivos privados de capital nacional ou multinacional.
Desse modo, a economia sergipana tornou-se extremamente dependente da indústria extrativa mineral, onde a decisão de ampliação da produção e desenvolvimento do setor são de responsabilidade do governo federal e sujeita a injunções diversas, diferente do que ocorreu com a economia nordestina como um todo que recebeu a participação de diversos grupos privados nacionais e multinacionais (IESAP, 1988).
Outro aspecto importante foi que a repartição do PIB sergipano segundo as atividades econômicas mostrou que o único setor que apresentou crescimento ao longo de todo o período abaixo da média nacional e regional foi a agropecuária, demonstrando a fragilidade da agricultura sergipana em detrimento do crescimento do setor industrial e de serviços. O setor de serviços, por sua vez, apresentou taxas de crescimento que se deviam, em grande parte, ao processo de urbanização do estado e ao aumento do gasto público. O crescimento industrial, conforme demonstrado, devia-se às inversões do setor público, em especial das empresas estatais.


Tabela 2.26

BRASIL – NORDESTE – SERGIPE

Taxa Média de Crescimento do PIB, segundo atividade econômica (em %)

1960 – 1985

Setores

BRASIL

NORDESTE

SERGIPE

Agricultura

3,8

3,5

3,2

Indústria

10,7

12,5

18,6

Serviços

7,1

6,9

7,3

Fonte: Ipeadata (2006)

Pode-se dizer que, contraditoriamente, o período de crise da economia brasileira foi exatamente o período áureo do crescimento industrial sergipano, em que a sua participação no PIB regional aumentou significativamente, suplantado os estados que tradicionalmente apresentaram índices superiores aos de Sergipe e ficando abaixo apenas dos estados que sempre concentraram os maiores indicadores econômicos do Nordeste, ou seja, Bahia, Pernambuco e Ceará. Assim, se em 1960 a participação sergipana ficava em penúltimo lugar na composição do PIB regional, decorrente de todo o processo de integração do mercado brasileiro, em 1985, Sergipe teria apresentado um crescimento expressivo, em função dos investimentos do setor público, realizados ao longo do período, saltando para a quarta posição na participação do PIB regional.

Tabela 2.27

NORDESTE

Participação dos Estados no PIB do Nordeste

1960/1985

Estados

Anos

1960

1965

1970

1975

1980

1985

Alagoas

5,5

5,2

5,8

5,7

5,5

6,1

Bahia

28,7

26,9

32,5

33,4

36,2

37,9

Ceará

13,3

14,5

12,3

11,7

12,9

12,2

Maranhão

7,5

7,1

7,0

6,6

7,1

5,3

Paraíba

9,6

9,3

6,1

6,3

5,5

5,1

Pernambuco

23,5

24,4

24,9

24,3

21,2

18,6

Piauí

2,8

3,2

3,1

3,2

3,1

2,8

Rio Grande do Norte

6,0

6,0

4,6

5,3

5,3

5,5

Sergipe

3,3

3,4

3,7

3,6

3,3

6,5

Nordeste

100

100

100

100

100

100

Sergipe/Brasil

0,5

0,5

0,4

0,4

0,4

0,9

Nordeste/Brasil

14,8

15,3

11,7

11,1

12,0

14,1

Fonte: Ipeadata (2006)

Contudo, a expressividade da economia sergipana no cenário regional não teria longa duração. Além da crise fiscal e financeira que abateu a economia brasileira ao longo dos anos 1980 e que chegaria a Sergipe pós-1985, reduzindo as inversões públicas no estado, a situação da economia sergipana seria agravada com as políticas de cunho neoliberal, implantadas a partir da década de 1990, conforme será apresentado no capítulo seguinte.

1 A utilização da conjugação FGV/IBGE como instituições que utilizam a mesma metodologia de pesquisa diz respeito ao fato de que os dados oficiais da economia brasileira, até 1984, eram coletados e calculados sob a responsabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV); a partir de 1985, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) assume tal encargo.

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