ANÁLISE DOS ASPECTOS DE REPRESENTAÇÃO, AUTO-REAPRESENTAÇÃO, NARRATIVIDADE E MARGINALIDADE NA CRÔNICA BRASILEIRA

Cleber José De Oliveira

Capítulo 4- A crônica: inúmeras possibilidades de se narrar o cotidiano

           
            O capítulo a seguir apresenta algumas considerações sobre o conceito de narrador à luz de Walter Benjamin (1985) e Silviano Santiago (2004). Além disso, traça um panorama entre o chamado narrador moderno e o pós-moderno visando apontar rupturas e continuidades entre um e outro.   

4.1- Benjamim e o narrador moderno: algumas considerações 

            Em “O narrador”, de Walter Benjamin (1985), traz uma reflexão sobre o desaparecimento do narrador na história da civilização. O autor pondera sobre a importância da narrativa e traz algumas observações bastante pertinentes sobre sabedoria, informação e experiência. Para isso, Benjamin parte do trabalho do escritor Nikolai Leskov para defender a tese de que a arte de narrar histórias está em extinção. Acredita que guerra fez com que os combatentes ficassem mais pobres em experiência comunicável.

O primeiro indício da evolução que vai culminar na morte da narrativa é o surgimento do romance no início do período moderno. O que separa o romance da narrativa (e da epopéia no sentido estrito) é que ele está essencialmente vinculado ao livro. A difusão do romance só se torna possível com a invenção da imprensa (BENJAMIN, 1985, p.201).
           
            O autor afirma que as melhores narrativas escritas são “as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos”. (1985). Esses narradores se dividem em dois tipos: o narrador que vem de longe (figura do marinheiro comerciante) e o narrador que vive sem sair de seu país, e conhece bem a tradição (figura do camponês sedentário). No entanto, Benjamin lembra que a extensão real do reino narrativo só pode ser compreendida se levarmos em conta a interpenetração desses dois tipos. Benjamin associa o abalo da experiência à perda da capacidade de narrar. A narração é uma experiência do relato, que se desenvolveu até o surgimento do livro.No entanto, ela só foi possível graças a um enorme saber acumulado pelos narradores. Podemos dizer que existe na narração oral uma ética do saber.
            Ao falar sobre o narrador, seu ofício, sua ligação com o trabalho manual, o autor nos lembra a importância da sabedoria, e principalmente, nos lembra o quanto esse conceito está desaparecendo: “A arte de narra está definhando porque a sabedoria – o lado épico da verdade – está em extinção.” (Benjamin, 1985). Destaca dois indícios da evolução que culminarão na morte da narrativa: o romance e a informação. O romance, diferente da narrativa, está ligado ao livro.       Ele não procede da tradição oral nem a alimente. A origem do romance é o indivíduo isolado, que não recebe conselhos nem sabe dá-los. A informação, para o autor, é mais ameaçadora e provoca uma crise no próprio romance. Diferentemente da narrativa, cujo saber vinha de longe, a informação pede uma verificação imediata. Só tem valor no momento em que é nova. Para Benjamin, a narrativa é ela própria uma forma artesanal de comunicação, onde o narrador “deixa sua marca” na narrativa contada.
             Benjamim retoma, ao fim do texto, a importância da figura do narrador: “o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. O narrador é o homem que poderia deixar luz tênue de sua narração consumir completamente a mecha de sua vida.

Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer a um acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira. O narrador é o homem que poderia deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente a mecha de sua vida. Daí a atmosfera incomparável que circunda o narrador: em Leskov como em Hauff, em Poe como em Stenvenson. O narrador é a figura na qual o justo se encontra consigo mesmo (BENJAMIN, 1985, p. 219)
 
         Promovidas as devidas reflexão, inicia agora a investigação na tentativa de entrever aspectos, num primeiro momento, do narrador à moda de Benjamim e, num segundo momento, do narrador pós-moderno de Santiago nas referidas cronicas. Tomemos contato com a crônica “O padeiro”de Rubem Braga, entendida aqui, como sendo aquela que manifesta o narrador clássico:

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo. Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. Enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando: - Não é ninguém, é o padeiro! Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?"Então você não é ninguém? "Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não, senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como o pão saído do forno. Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!" E assobiava pelas escadas (BRAGA, 1999, p.37-38)

       Aqui, o foco narrativo está em primeira pessoa. O narrador parte de uma situação vivenciada por ele, característica, marcante do narrado caracterizado por Benjamim (1999). O cronista coloca em evidência a vida de um simples e anônimo homem do povo no caso um padeiro, que entendemos ser a representação de toda uma classe social, a dos trabalhadores mais humildes. Esta postura é assumida por Rubem Braga e pela grande maioria dos cronistas que escreveram entre as décadas de 50 e 80 (Cf. ARRIGUCCI, 1987), momento da vida brasileira entendido como sendo a fase de ouro da crônica nacional (Cf. SIMON, 2006). Nesse período circulam além das crônicas de Rubem Braga, as de Carlos Drummond de Andrade, Stanislaw Ponte Preta, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, dentre outros, escritores de estilo reconhecidamente modernista, e que têm a referida preocupação de inclusão expressa acima.

        A crônica em questão se estrutura de modo coerente com o restante das crônicas de Rubem Braga e com o projeto estético-político em que está inserido – nesse caso, o Modernismo brasileiro e sua preocupação com a inclusão. Vemos que o cronista tenta uma aproximação com o padeiro, buscando afinidade e empatia. O esforço de Braga é o de relativizar as diferenças milenares entre os ofícios. O padeiro artesão, ligado ao trabalho braçal, se opõe ao artista, o escritor cronista, está ligado ao trabalho intelectual; o útil, “o pão nosso de cada dia”, se opõe ao supérfluo que é a arte (sobretudo a crônica, cujo caráter artístico se põe sempre em questão).
Aproximando ofícios, Braga também aproxima classes sociais: padeiro e cronista pertencem a classes sociais distintas, uma pertence ao mundo do trabalho mal remunerado das classes sociais subalternas, o outro, ainda que, eventualmente empobrecido, ou mesmo pobre, circula nas classes sociais médias e altas. Um, não raro é não-letrado; o outro, por definição, deve ser letrado. Sobretudo nos anos 50, quando essa crônica é escrita, essas diferenças são muito mais expressivas que nos dias de hoje. De resto, o letramento no Brasil sempre foi índice de pertencimento à elite cultura, econômica e material – claro que com raríssimas exceções.
A crônica ganha, por outro lado status de bem necessário. Aparece como o alimento do intelecto, assim como o pão é o alimento do corpo. O que se vê também,é o cronista tentando fazer-se útil, como se sua tarefa não fosse meramente a de entreter e divertir. No limite, o pão, metonímia da comunhão entre homens (lembremos o pão da eucaristia cristã), empresta à crônica sua capacidade de unir, de tornar “colegas” padeiro e cronista, de torná-los “companheiros” (lembremos aqui também que na palavra “companheiro” está a palavra “pão”; a etimologia de “companheiro” remonta a “compartilhar o pão”).
        Além disso, no trecho, destaca-se a reflexão sobre a humildade. O cronista recebe do padeiro uma lição de humildade: o padeiro é ninguém – e o cronista, escritor-autor de reportagens que por vezes sequer assina, é também figura anônima. O cronista, nessa linha, permite-se aprender com o homem do povo e transmite a lição que aprende ao seu leitor.
        Outro aspecto importante. O cronista aprende “por acaso”, aprende de ouvido. O padeiro, sem ser um especialista, de repente ensina ao cronista. E este tem a sensibilidade de aprender, de perceber nas palavras do padeiro uma lição. As lições que recebe veem-lhe quase sempre por acaso, através das coisas e das pessoas mais simples; aprende-se sem que pessoas e coisas queiram dar lições ao cronista.
Por meio das análises feitas até aqui, já se pode esboçar um perfil do narrador que fala na crônica de Rubem Braga. Pode-se dizer que Braga fora influenciado pelos preceitos modernistas da década de 20 e 30, principalmente no que diz respeito à estilização de uma linguagem simples, criada para comunicar à moda Brasileira (Cf. CANDIDO, 1981-4). Braga nesse aspecto é o cronista por excelência; conseguindo reconhecimento como literato exclusivamente por suas crônicas, conseguiu também imprimir em suas crônicas um tom displicente, de quem está falando coisas sem maior conseqüência, como se pusesse de lado à preocupação com o lado verídico do assunto abordado em sua crônica e do veículo que a projeta (Cf. ARRIGUCCI, 1987). Com isso tornou-se o referencial da crônica nacional, despertando a admiração na critica literária, como afirma Davi Arrigucci Jr.:

A sensibilidade de Braga para a poesia das coisas parece ter-se aguçado no trato profundo com o próprio meio moderno que escolheu para se exprimir, como se o jornal lhe tivesse afinado o senso do instantâneo e do perecível (ARRIGUCCI JR. 1987, p. 49).
 
Em síntese, essa crônica configura a visão social de um autor que colocou seu talento em prol de um projeto que valoriza o popular e tenta atenuar as diferenças entre as classes. Pois, num país como o Brasil, onde se costuma identificar superioridade intelectual e literária devido ao nível de requinte gramatical utilizado na escrita, Braga, por meio de suas crônicas, operou facetas de simplificação e naturalidade neste gênero discursivo. Neste sentido Rubem Braga é um legitimo intelectual comprometido com o projeto ideológico modernista dos anos 50 e 60. Por isso, em suas crônicas é recorrente a existência de um narrador com características muito semelhantes às evidenciadas em “O narrador”  por Benjamin (1985). 

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