ANÁLISE DOS ASPECTOS DE REPRESENTAÇÃO, AUTO-REAPRESENTAÇÃO, NARRATIVIDADE E MARGINALIDADE NA CRÔNICA BRASILEIRA

Cleber José De Oliveira

Capítulo 5 - Literatura marginal contemporânea: algumas considerações

            Como se viu no capítulo 3, Ferréz, à sua maneira, expõe o desejo de poder falar por si, de se auto-representar. Este desejo está inserido dentro de um desejo maior – a saber-   comunidades tradicionalmente excluídas de seus direitos sociais  poderem reivindicar esses mesmos direitos, uma . É desse contexto de enfrentamento ao discurso hegemônico que surge a narrativa e a poesia marginal.
            O contexto sócio-político brasileiro, das últimas duas décadas, fez germinar uma manifestação literária autodenominada literatura marginal. Exclusivamente produzida por escritores oriundos de periferias urbanas dos grandes centros. Partindo desse pressuposto, o presente trabalho busca descortinar como se manifestam às relações de representação e auto-representação nessa forma de narrativa. Entende que essa nova manifestação vem de encontro à chamada Tradição Modernista, onde autores como Graciliano Ramos, Clarice Lispector, João Cabral, Guimarães Rosa, entre outros, pertencentes a classes sociais altamente letradas produziram uma literatura que tomou para si a função de mediar e representar classes marginalizadas (principalmente o nordestino sertanejo). Fez isso  por meio de um  discurso alocado na boca de personagens subalternos e oprimidos (possivelmente consequencia pela falta de alfabetização e de letramento) como Fabiano, de Vidas Secas (1938); Macabea, de A Hora da Estrela (1977); Severino, de Morte e Vida Severina (1955-6); Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas (1956). Com o espraiamento dessa tradição, a função que desempenhava seus intelectuais (o de representante das classes subalternas) fica vago. Isso é o norteador  da hipótese principal levantada sobre esse tema - a saber - essa função, que por muito tempo foi feita pelos intelectuais modernista, é reivindicada e tomada agora pelos indivíduos oriundos das classes subalternas ( o intelectual marginal), porém de uma forma e com intenções diferentes.
            A contemporaneidade, inegavelmente, nos colocou diante de uma nova fórmula de se escrever literatura. Uma nova expressão ainda não sedimentada devido, talvez, sua complexidade, uma produção que não se restringe à narrativa de uma ficção, mas que esta emaranhada no enigmático e, tantas vezes perverso, universo que a legitima.  Uma produção que insinua um – novo lócus  literário um efeito colateral  de um sistema elitista e opressor. Uma produção de origem complexa amparada em uma circunstância social, econômica e política que se apóia em uma um termo inquieto que desafia os saberes da sociologia, da antropologia, da ciência política e da teoria literária, inquieto até para os seus próprios autores: “Literatura Marginal”. 
Então, para compreender melhor o surgimento e o desenvolvimento disso que chamo “Literatura Marginal Contemporânea”, é preciso ter claro que pré-existe uma tradição literária que por muito tempo tomou para si (mesmo que apenas no campo ficcional e/ou ideológico) a tarefa de enunciar os desejos, os sonhos, as angústias e as esperanças das classes subalternas. Esses enunciadores, dos desejos alheios, não raro, são romancistas, poetas, cronistas e letristas, oriundos de classes sociais totalmente opostas a daqueles que figuram como protagonista em suas narrativas. No Brasil, isso se deu, principalmente, a  partir do inicio do século XX, com o advento do Modernismo (1922-1960), o qual, entre outras, vinculou uma ideologia de valorização da cultura popular e consequentemente das camadas sociais marginalizadas. De certa maneira, isso serviu para apresentar aos centros (São Paulo e Rio de Janeiro) as condições subumanas, principalmente no nordeste brasileiro, em que viviam uma grande parcela da população brasileira (e que infelizmente até hoje vivem). Obras como O Quinze (1930), de Raquel de Queirós; Vidas Secas (1938), de Graciliano; Morte e Vida Severina (1954-5), de João Cabral, para ficarmos em alguns exemplos, são emblemáticas para ilustrar o esquema literário que permeou grande parte da chamada literatura brasileira modernista – a saber –   um escritor de classe média alta, altamente letrado, que fala, nestes casos,  por um pobre não-alfabetizado consequentemente marginalizado que quase nunca  figuram como prioridade nos planos do Estado.
O esquema de representar o marginal e sua condição como tema literário (aqui se deve entender como marginal: todo indivíduo e/ou comunidade que, de alguma forma, são subjugados socialmente devido à falta de letramento, de poder político, econômico) foi por muito tempo utilizado por vários intelectuais e, não raro, pelos intelectuais modernistas.  Por mais que essa representação embasada fosse por “boas intenções” no sentido de denunciar e criticar o tratamento que os representados recebiam (e recebem) do Estado e das camadas elitizadas, por outro lado, amordaçou e calou um desejo que por muito tempo tentou e tenta ecoar das bocas marginalizadas. Esse desejo é o de poder se auto-representar. De poder falar por si mesma. De firmar um lócus de enunciação de onde se possa reivindicar os direitos que por lei são assegurados a todos os indivíduos de uma sociedade e,  denunciar a falta desses  direitos devido o descaso do Estado.
Possivelmente é em decorrência desse contexto que na contemporaneidade germina uma “nova” expressão literária que, a meu ver, tem como uma de suas principais característica o deslocamento. Esse deslocamento pode ser visto sob dois aspectos principais – a saber –  o primeiro é o deslocamento do discurso, que sai da hegemonia que por décadas foi dos centros para também manifestar-se com força das margens onde, até então, não havia uma voz ativa. O segundo aspecto do deslocamento é o da crise da representação que forjou nessas comunidades uma espécie de rejeição aos representantes externos, ou seja, os que não são delas oriundos. Dessa maneira, começam a se destacar vozes intelectualizadas das próprias  camadas marginalizadas.  Isso que estou chamando de vozes intelectualizadas deve ser entendido como sendo os indivíduos que em sua grande maioria são autodidatas principalmente na questão do letramento e oriundos de periferias marcadas pela violência e falta de ação do poder público. Exemplo disso são os escritores, grupos de rap e grafiteiros que  surgem, sobretudo em São Paulo, questionando a ausência dos poderes públicos e denunciando a condição as vezes subumanas vividas nessas periferias.

Essa nova expressão literária autodenominada literatura marginal produzida nas ultimas duas décadas, não raro, está sempre em diálogo com o rap e o grafite, expressões originadas nos guetos das metrópoles. É preciso dizer que essas manifestações culturais são exclusivamente de origem urbana e marginal. Mas classificar uma obra literária como  margina vai além disso, envolve  compreender   qual   o   elemento   que determina sua classificação como  tal:  se é o modo alternativo de edição; se o estilo diferente dos moldes estabelecidos pela academia; se foi produzida   por   autores   oriundos   de   grupos sociais  marginalizados;   ou   então,   devido   ao fato da mesma retratar os  lugares e  territórios ditos   marginais. Nesse sentido esta literatura diferencia-se daquela literatura produzida entre as décadas de 70 e 80, que ficou conhecida como poesia marginal. Pode-se dizer que nestas gerações não havia ou não era o foco principal de seus escritores (intelectuais) a preocupação com o deslocamento do discurso e a constituição de um lócus de enunciação, até porque poucos escritores dessa época são oriundos das favelas. Mas uma exceção existe, uma década antes nos anos 60, (pelo menos no que diz respeito a sua origem) é  o caso de Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo (1960), livro que hoje desfruta do status de clássico. Carolina era favelada e semi-analfabeta, porém em seu diário com uma escrita longe de ser acadêmica ou literária (isso nos padrões tradicionais) conseguiu configurar o sistema social de sua época e ser reconhecida ainda em vida como escritora.  O reconhecimento (status) que Quarto de despejo alcançou entre grandes escritores como Clarice Lispector,certamente influenciou o bom aceite na academia, mesmo sob a categoria de escrita marginal, devido à origem de sua autora. Por outro lado, obras que foram publicadas entre a última década do século XX, e a primeira do século XXI,  que ainda não trazem consigo a condição (status) de clássicos, muito menos  a aprovação da grande maioria da academia sofrem pré-conceitos e, talvez por isso ainda se ve parte da academia torcendo o nariz para obras como Cidade de Deus (2002), de Paulo Lins e para Capão Pecado (2000), Cronista de um tempo ruim (2009), Literatura Marginal (2005), de Ferréz. Isso é um fato lamentável se levarmos em conta que esse tipo de narrativa, como já disse anteriormente, é fruto do contexto sociopolítico pelo qual passa nosso país. 

 A título de hipótese, emprego o termo literatura marginal contemporânea, às obras que estariam à margem do corredor comercial oficial de produção e divulgação – considerando se que os livros se igualam a qualquer bem produzido e consumido nos moldes capitalistas – e circulariam em meios que se opõem ou se apresentam como alternativas ao sistema editorial vigente. A  textos com um tipo de escrita que recusaria a linguagem institucionalizada ou os valores literários de uma época, como nos casos das obras de vanguarda. Enquanto o terceiro encontra-se ligado ao projeto intelectual de alguns escritores, oriundos da periferia, de reler o contexto de grupos oprimidos, buscando retratá-los nos textos. Diferentemente daquela literatura produzida na segunda metade do século XX, também sob o rótulo de literatura marginal e que teve a poesia como o principal foco. 
Trabalhando ainda sob o caráter de hipótese, essa expressão contemporânea da literatura marginal, se caracteriza por uma narrativa que oscila entre o testemunho e o ficcional, no sentido de que a vida se torna extensão do que se escreve. Assim a escrita esta consubstanciada com a realidade quase sempre vista ou vivida pelo autor. Surge daí, uma linguagem própria, a qual visa à consolidação de uma identidade própria, mais que isso, visa uma “tomada de posição” pelos indivíduos pertencentes a comunidades subalternas frente a um sistema que desde nossa colonização lhes impõe suas regras. Essa tomada de posição pode ser entendida como um elemento substancial de um projeto que transcende o literário e se vincula estreitamente a expressões culturais de rua como o rap e a arte dos grafiteiros. Possivelmente isso é pensado num plano de firmar um lócus de enunciação onde os alguns membros da mesma comunidade se constituem como porta-vozes dos anseios e angústias dos que sempre foram silenciados e, que estão em sua grande maioria nas periferias, nos guetos e nas favelas do sistema social. Com isso, e não por acaso, cria-se  uma  rejeição a representantes e mediadores externos que quase sempre estão vinculados a outras ideologias.         
Escritores como Ferréz e Paulo Lins podem ser vistos como artífices dessa expressão literária (literatura marginal contemporânea). Seus textos estão ou querem estar comprometidos com aquela ideologia que tem como intuito principal à entrada das classes subalternas no terreno do letramento e consequentemente no da escrita literária, consolidando seu próprio lócus de enunciação, de onde falam e ouvem sua própria voz. Infelizmente no Brasil a acessibilidade ao mundo letrado sempre foi negado as classes que são vistas como subalternas, porém contemporaneamente com a democratização da educação e com o advento da Internet e outros meios de comunicação(mas ainda não a do livro, artigo de luxo no em nosso país) alguns desses indivíduos – a  seu modo – se letraram.  Munidos, agora, com a tecnologia da palavra os grupos marginalizados reclamam sua participação efetiva nas decisões sócio-políticas e a partir disso tentam se “emancipar intelectualmente”. 
 Essa emancipação se dá a partir do momento em que essas camadas, historicamente vistas como inferiores intelectualmente, perceberam que o baixo nível de letramento e produção intelectual em que estão inseridos é uma das maneiras usadas, em nosso país, para se operar a  divisão de classes. Assim, assumir uma posição subversiva perante o Estado, assumir seu próprio discurso é, sobretudo, uma forma de demonstrar resistência a décadas de descaso. Essa  de consciência  é reflexo e pode ser atribuída ao momento atual em que a sociedade brasileira esta inserida, algo indefinido e confuso onde se cultua o consumismo desmedido,  onde ocorre uma carnavalização generalizada da política, o descaso com a educação, com a cultura, a falta de respeito, ócio e paz. Um caos. É possivelmente por isso que os indivíduos sociais estão se agrupando, ou melhor, se organizando numa tentativa de (re)afirmar uma identidade social. Movidos talvez pelo “sentimento de pertença”.Entendo isso com Hall (2008), “o sentimento de pertencer”  pode ser entendido como sendo parte integrante da identidade deste indivíduo, que se constitui de aspectos do “pertencimento a uma cultura marginal” de onde se é oriundo. Assim, o “sentimento de pertencer”é decorrente do sentimento de identidade, que satisfaz uma necessidade psicológica vital, criando uma sensação de conforto para os indivíduos. A partir desse pressuposto podemos entender o porque quase sempre a literatura marginal está vinculada a termos como literatura de mutirão ou literatura de comunidade.
Nem todas as crônicas resistem ao tempo. Publicadas diariamente em jornais e revistas, são lidas apenas uma vez e, em geral, esquecidas pelo leitor. Porém, a crônica com característica literária tem longa duração e é sempre apreciada pelo estilo de quem a escreve e pelo tema abordado. A produção de crônicas literárias é muitas vezes tarefa “encomendada” a escritores já reconhecidos pela publicação de outras obras, como contos, romances e poesia. São esses autores que, usando recursos literários e estilo pessoal, fazem seus textos perdurarem e serem apreciados apesar da passagem do tempo                (Cf. CANDIDO 1981,p. 4-8; ARRIGUCI Jr. 1987, p. 49; SÁ, 1985, p.53).
Para conseguir esse efeito, os escritores não destacam os fatos em si, mas a interpretação que fazem deles, dando-lhes características de “retrato” de situações humanas atemporais. Os temas geralmente são ligados a questões éticas, de relacionamento humano, de relações entre grupos econômicos, sociais e políticos. Dessa perspectiva, pode-se dizer que a crônica, mesmo utilizando o jornal ou a revista como meio de comunicação, difere da notícia e da reportagem pois não tem por finalidade principal informar o destinatário, mas refletir sobre o fato acontecido. Desta finalidade resulta que, neste tipo de texto, podemos ler a visão subjetiva do cronista sobre o universo narrado, como pode ser verificado em  reflexões promovidas por Antonio Candido (1981,p. 4-8) e Davi Arrigucci Jr. (1987, p. 49).
Partindo desses pressupostos, podemos dizer que a crônica, publicada em jornais ou revistas, virtuais ou reais, destina-se à leitura dos e sobre os acontecimentos sociais e cotidianos. Destaca-se: não busca a exatidão da informação. É pois, diferente da notícia, da reportagem, que trata de relatar os fatos que acontecem. A crônica os analisa num outro enfoque. Por assim se constituir, inaugura no real um colorido emocional, sutil, intenso. Oferece aos olhos do leitor uma situação comum e ao mesmo tempo inusitada, vista por outro ângulo, singular, íntimo, revelador. Com isso, a crônica, de certa maneira, deixou a fugacidade do jornal e da revista para perdurar no livro, como se pode ver nesta nota da editora José Olympio em uma coletânea organizada por Drummond            (Elenco de cronistas Modernos, 2005). Vejamos o que diz a nota

Publicando-a, procuramos dar ao público leitor, com vistas especialmente aos estudiosos de nossa literatura, uma visão de que vem a ser este gênero tão mal definido, egresso das páginas fugazes de jornais e revistas, e , no entanto merecedor das condições de permanência entre o que há de melhor no patrimônio literário do Brasil.    

Em geral, pode-se dizer que a crônica, publicada em jornais ou revistas, virtuais ou reais, destina-se à leitura dos e sobre os acontecimentos sociais e cotidianos. Destaca-se: não busca a exatidão da informação. É pois, diferente da notícia, da reportagem, que trata de relatar os fatos que acontecem. A crônica os analisa num outro enfoque. Por assim se constituir, inaugura no real um colorido emocional, sutil, intenso. Oferece aos olhos do leitor uma situação comum e ao mesmo tempo inusitada, vista por outro ângulo, singular, íntimo, revelador. Na crônica a narração capta um momento, um flagrante do dia a dia; o desfecho, embora possa ser conclusivo,nem sempre representa a resolução do conflito, e a imaginação do leitor é estimulada a tirar suas próprias conclusões. Os fatos cotidianos e as personagens descritas podem ser fictícias ou reais, embora nunca se espere da crônica a objetividade de uma notícia de jornal, de uma reportagem ou de um ensaio.

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