AS NUANCES DO ATUAL PROCESSO DE INTEGRAÇÃO DA AMÉRICA DO SUL: RELAÇÃO DE FORÇAS DO ESTADO E ENTRE OS ESTADOS

Roberto Mauro da Silva Fernandes
Adauto de Oliveira Souza

1.2 OS “ANOS DOURADOS” E A INTERVENÇÃO DO ESTADO: A construção de paradoxos que convergiram

Em termos gerais a economia de mercado ocidental e a economia estatizada não foram forças antagônicas simplesmente, após a Segunda Guerra Mundial os países capitalistas adeptos ao livre mercado e que sofreram as mazelas da Depressão de 1929, encontraram no planejamento econômico a solução para se evitar futuras crises. O mundo pós-1945 seria de produção e comércio crescente, pleno emprego, industrialização e modernização, e essa modificação estrutural se daria por meio de um sistemático controle governamental, da administração de economias mistas e da cooperação com movimentos trabalhistas organizados (HOBSBAWM, 1995, p.268).
Assim ressaltamos que o Estado no capitalismo pós/Segunda Guerra Mundial possuiu no planejamento governamental sua principal arma de articulação política e econômica, pois atuava como regulador do mercado com planejamento público e, ao mesmo tempo, aproximou-se das classes trabalhadoras. Conjuntura política, social e econômica protagonizada pelo Estado, que encontrou grande contribuição da economia planificada Soviética, que fora pioneira no planejamento econômico (HOBSBAWM, 1995, p.265).
É preciso também lembrar que esse período da história da humanidade estava contextualizado pela previsibilidade, pelo automatismo e auto-regulação da Guerra Fria, ou seja, do jogo, sobretudo, ideológico do capitalismo versus socialismo. As principais economias capitalistas, atuando de forma contundente através dos seus governos solapavam as estruturas políticas, sociais e ideológicas do mundo da “esquerda”. Como atestou Hobsbawm (1995):
Na verdade, a esquerda concentrava-se em melhorar as condições de seus eleitorados operários e em reformas sociais para esse fim. Como não tinham soluções alternativas a não ser exigir a abolição do capitalismo, o que nenhum governo social – democrata sabia como fazer, nem tentara fazer, tinham de depender de uma economia capitalista forte e criadora de riqueza para financiar seus objetivos (HOBSBAWM, 1995, p.267).
Nos “Anos Dourados” o capitalismo passou por reformulações, e os principais articuladores dos Estados inseridos nesse sistema passaram a reconhecer a importância da classe trabalhadora e a observar de forma diferenciada as aspirações social-democratas. Hobsbawm (1995) também ressalta, “mesmo regimes dedicados ao liberalismo econômico e político podiam agora, e precisavam dirigir suas economias de uma maneira que antes seria rejeitada como socialista” (Idem, 1995, p.267). As economias capitalistas utilizaram-se, de certa forma, de semelhantes mecanismos sociais e econômicos que se constituíam na base das políticas chamadas socialistas, ajudando a regular suas economias e também criou uma esfera ideológica favorável ao capitalismo em relação às classes trabalhadoras.
No pós-Segunda Guerra a economia mundial estava em ascensão, e é possível identificar tal processo teoricamente através dos Ciclos Kondratiev, sucessão de ondas longas de cerca de meio século de extensão, que formou o ritmo básico da história econômica mundial1 desde o início do século XIX, observe o gráfico nº1:

Nº 1 - As Quatro Ondas do Ciclo Kondratiev (Séculos XIX e XX).
 
Fonte: PASTORE (2007, p.113).
De acordo com Pastore (2007), “o ciclo econômico pode ser definido, simplesmente, como um período flutuante e alternado de expansão e retração da atividade econômica como um todo, de um país ou de um conjunto de países” (PASTORE, 2007, p.108). Nesse gráfico o ciclo ascendente com início em 1940 e termino em 1973 representa os “Anos Dourados”.
Para Fortunato Pastore um ciclo econômico apresenta seis fases distintas: depressão absoluta, recuperação econômica, atividade econômica, com os índices atingindo o seu ponto mais elevado, de estagnação e equilíbrio aparente e breve, de crise, seguida pela contração, e a depressão (PASTORE, 2007, p.109). O autor também afirma que existem dois tipos de ciclos econômicos, os de curta e os de longa duração:
Os de curta duração, também conhecidos como Movimentos Breves possuem, basicamente, três dimensões temporais. A menor, de quarenta meses (entre três e quatro anos), conhecida como Ciclo dos Estoques ou Kitchin (do economista Joseph Kitchin. Os ciclos levam o nome do economista que o estudou primeiro ou o fez de forma mais detalhada); a segunda, com uma duração maior, em torno dos oito ou nove anos, chamada de Ciclo Juglar. De Clément Juglar, o economista francês (médico de profissão) que fez fortuna na Bolsa de Valores ao aplicar os seus conhecimentos no mercado de ações (análise ex-ante!). E, por fim, o Ciclo Labrousse, com média de onze anos. [...] Três também são os ciclos de longa duração: o Kuznets (de Simon Smith Kuznets, economista norte-americano, de origem russa), um duplo Juglar, isto é, uns vinte anos; o Kondratieff (Nikolai Dimitrievitch Kondratieff, 1892-1930, economista e estatístico russo), em torno de meio século, e o Ciclo Secular ou Tendência Secular (Trend, em inglês) (PASTORE, 2007, p.109-110).

O Ciclo Kondratiev, segundo as análises de Pastore (2007), é um ciclo de meio século, ou seja, um dos de longa duração e possui quatro ondas longas que representam os movimentos de retração e ascensão da economia, nas quais se identificam processos de alternância na hegemonia econômica e política mundial, ensejados, sobretudo, pelas mudanças tecnológicas no decorrer dos séculos XIX e XX.
Assim na “Era de Ouro”, como também a denomina Eric Hobsbawm, houve uma espantosa “explosão” da economia, período sistêmico movido pela revolução tecnológica, baseada na mais avançada pesquisa científica, e que ganhara aplicação prática em poucos anos (HOBSBAWM, 1995, p. 259/60). Nessa etapa da história do planeta uma substancial reestruturação e reforma do capitalismo acontecera, como também, ocorrera um avanço imensamente espetacular na globalização e internacionalização da economia:
A primeira produziu uma “economia mista”, que ao mesmo tempo tornou mais fácil aos Estados planejar e administrar a modernização econômica e aumentou enormemente a demanda [...] A segunda multiplicou a capacidade produtiva da economia mundial, tornando possível uma divisão de trabalho internacional muito mais elaborada (HOBSBAWM, 1995, p.264).

O surgimento de “economias mistas” esta relacionado ao planejamento governamental, orientando e administrando a modernização econômica e aumentando demandas, com a criação de programas de industrialização dirigida, financiada, executada pelos governos. E como ainda atesta Hobsbawm (1995), “ao mesmo tempo, o compromisso político dos governos com o pleno emprego e, em menor medida, com redução da desigualdade econômica, isto é, um compromisso com a seguridade social e previdenciária” (HOBSBAWM, 1995, p.264).
Para Robert Kurz, a aglutinação entre o planejamento estatal através do seu governo e a economia de mercado foi viável e existiu em vários momentos da historia do mundo, seja no espectro de ideologias, de políticas econômicas e mesmo na forma de reprodução político-econômicas como constituintes de um mesmo sistema de referências:
[...] o planejamento estatal mais extremado somente pode planejar nas formas do mercado, ou seja, nas categorias da mercadoria e do dinheiro, como sabidamente sempre foi o caso na economia soviética. Inversamente, contudo, também o radicalismo mais extremado, em prol do mercado, nunca consegue medrar sem o pólo estatal político (KURZ, 1998, p.93).

Dessa forma, apesar da Guerra Fria apresentar pólos distintos político-ideológicos, no campo histórico do sistema econômico mundial, esses referenciais excludentes também se condicionaram reciprocamente. No mundo ocidental complementaram-se durante os “Anos Dourados” para evitar o desemprego em massa, para disciplinar a classe trabalhadora e administrar a economia, ampliando o sistema produtivo a partir da industrialização, levando os governos capitalistas a promoverem intervenções e planejamentos no campo econômico, assim o pioneirismo planejador ou planificador da então União Soviética foi fundamental.
 O Estado dos “Anos Dourados” planejava e administrava a economia, disciplinava seus trabalhadores e garantia o seu “bem-estar”. Não podemos nos esquecer que a conjuntura de reestruturação do capitalismo mundial e dos seus Estados, preconizada pelas principais economias do planeta, contribuiu para a condição transformadora do cenário político e econômico do chamado Terceiro Mundo, sobretudo, na América Latina, engendrando uma nova divisão internacional do trabalho pós-1945.
Sobre o desenvolvimento dessa nova divisão internacional da produção oportunizada pelos “Anos Dourados”, vamos recorrer mais uma vez a Hobsbawm (1995):
De início, isso se limitou em grande parte ao conjunto das chamadas “economias de mercado desenvolvidas”, ou seja, os países do campo americano. [...] e os países em desenvolvimento mais dinâmicos do Terceiro Mundo, na década de 1950, optaram pela industrialização segregada e planejada, substituindo sua própria produção pela importação de manufaturas (HOBSBAWM, 1995, p.264).
 
Esta conjuntura indiscutivelmente vai incidir sobre os Estados Sul-Americanos, que passaram a adotar mecanismos de industrialização planejada a partir de políticas governamentais, pautada pela ideologia desenvolvimentista e regulada por sujeitos externos, construtores do contexto político-econômico do cenário mundial. É preciso também destacar que na Era de Ouro o principal fator de estabilidade provinha da economia estadunidense, suficientemente respaldada pelo dólar (HOBSBAWM, 1995, p.266).           
Dessa forma, os mecanismos elaborados pelos governos dos Estados durante os “Anos Dourados” ensejaram um surto surpreendente de prosperidades econômicas e tecnológicas, proporcionaram um bojo de transformações sociais de seguridades ao trabalhador, com a garantia do pleno emprego, etc. O Estado, atuou como regulador, disciplinador e orientador das atividades concernentes a sua esfera de influência num ambiente regulado pela economia de mercado e pelas políticas planejadoras da antiga URSS. Um sincretismo que vai de encontro à concepção de bipolaridade inexorável da Guerra Fria, apesar do aspecto Realista das relações entre os Estados durante este contexto histórico, as aglutinações entre os sistemas socialistas e capitalistas foram evidentes (mesmo que alguns mecanismos da economia planificada tenham sido utilizados como arma ideológica contra as concepções da esquerda) e fundamentais para a elaboração da estrutura econômica dos Estados Sul-Americanos.


1 Do mundo ocidental capitalista, visto que a trajetória econômica do oriente  se deu de outra forma, e que não é o foco da nossa discussão.

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