O SEGUNDO CICLO DE KONDRATIEV (1843-1896) E O SEU LIAME COM A PARTICIPAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS NA GUERRA DO PARAGUAI

Roberto Mauro da Silva Fernandes

INTRODUÇÃO

A Guerra do Paraguai foi um dos eventos mais sangrentos da história da América do Sul, mas inúmeros relatos sobre essa conjuntura foram realizados com um viés deliberadamente ideológico, com imparcialidades que tentam apontar alguns culpados, sem levar em consideração a colaboração de uma série fatores que estavam circunscritos ao contexto que originou o conflito.
Assim, a nossa intenção é dar uma contribuição no sentido de tentar desconstruir algumas narrativas que “satanizaram” o conflito platino como uma conjuntura militar na qual estavam envolvidos “mocinhos” e “bandidos”. Fazemos alusão aos discursos que estigmatizou a Grã-Bretanha como grande idealizadora de uma guerra “contra” o Paraguai, aquela que possuía um inexorável interesse em destruir o Estado Paraguaio, supostamente, pois o último estava se transformando numa séria “ameaça” ao sistema de poder britânico na América do Sul.


Veremos que a deflagração do conflito platino não se deu exatamente por esse motivo, outras questões no século XIX contribuíram para a sua eclosão. A concorrência comercial entre o governo Imperial brasileiro e o Estado Paraguaio, as disputas políticas internas na Bacia Platina pelo controle da região, a conjuntura econômica mundial no século XIX, a indústria de guerra norte-americana, assim como, a expansão política e militar dos Estados Unidos pelas Américas, foram alguns dos fatores preponderantes para que a Guerra do Paraguai fosse desencadeada.


Não faremos uma abordagem cronológica dos eventos que fizeram parte do conflito, ou seja, não iremos descrever os fatos que desenharam a Guerra do Paraguai, analisaremos alguns fatores que foram importantes para a sua deflagração, como também, apresentaremos algumas hipóteses que demonstram que os britânicos não foram os grandes culpados pela eclosão da Guerra do Paraguai.


Dessa forma, primeiramente contextualizaremos a relação dos Ciclos sistêmicos da economia mundial com os Ciclos de guerra, fazendo uma inserção desses processos à economia e a política da América do Sul no século XIX. Para sermos mais específicos, faremos uma análise dos Ciclos Longos de Kondratieff, na sua segunda “Onda K” (1843-1896), período que se caracterizou por um processo de ascensão econômica mundial de 1843 a 1864 e por uma fase de baixa entre 1864 e 1896.


Assim, poderemos verificar até que ponto esses ciclos de flutuações econômicas influenciaram o desenrolar do conflito que envolveu o Império do Brasil, os demais Estados Platinos, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha.
Adiantamos que os processos econômicos são importantes para se entender a Guerra do Paraguai e qualquer processo conjuntural que leve a uma reviravolta na ordem política, social, infra-estrutural, geopolítica, etc., de âmbito local, regional ou global. Não que os mesmos sejam os principais condicionantes para entendermos determinadas transformações sociais, políticas, culturais, mas, tais processos contribuem para o engendramento das territorializações de determinados grupos, sobretudo, naquelas relacionadas às políticas de Estado.
O recorte que fizemos, a partir de algumas questões relacionadas ao segundo Ciclo longo de Kondratieff (1843-1896), é importante para entendermos porque os processos econômicos contribuíram para a eclosão da Guerra do Paraguai. O expansionismo do Brasil na Bacia Platina, a livre navegação do rio Paraguai, o projeto de Solano Lopez em busca de um “Paraguai Forte”, a Doutrina Monroe, etc., são algumas das significativas questões que estão correlacionadas ao processo econômico circunscrito àquela América do Sul do século XIX.
Propomo-nos analisar algumas nuances dessa relação ciclo econômico/militar, para tentarmos demonstrar que no ano de 1864 (a Guerra do Paraguai iniciou-se em dezembro desse ano), início de um período de baixa na economia mundial, o interessado em um conflito no coração da América do Sul, não era o governo britânico, mas sim os Estados Unidos. Seus interesses na Bacia Platina e no continente sul-americano estavam circunscritos a sua crescente “indústria de guerra” (Guerra do Paraguai que foi um excelente mercado para os produtos bélicos norte-americanos) e as suas pretensões geopolíticas. 


Não estamos afirmando que os Estados Unidos (ou determinados setores desse Estado) tenham provocado o conflito, mas fizeram uso das constrições existentes entre os Estados platinos, na intenção de obterem vantagens econômicas e políticas no continente sul-americano. Esta hipótese pode ser explicável pelo fato do Estado estadunidense estar inserido numa “Ordem Internacional” (como os outros Estados que participaram da Guerra do Paraguai também estavam), caracterizada por um sistema de relações entre Estados que se articulavam (e ainda se articulam) para a manutenção de suas sobrevivências, seja em termos econômicos, políticos, sociais e, eventualmente, militares (ALBUQUERQUE, 2007, p. 37).


Além da hipótese que insinua a participação e o interesse norte-americano na Guerra do Paraguai (que está inserida no processo de movimentação de alguns setores dos Estados, devido às tendências de flutuação econômica que ensejam mecanismos para o acumulo de capitais, recondicionando os sistemas de liderança de uma determinada “Ordem Internacional”), faremos uma análise, em um segundo momento, das relações entre o governo Imperial brasileiro e o governo britânico durante o período pré-Guerra do Paraguai.


Entre os anos de 1843 e 1863 o Império do Brasil e a Grã-Bretanha viveram momentos conturbados, sobretudo, em relação aos seus laços políticos e econômicos (principalmente em conseqüência dos assuntos que giravam em torno do tráfico negreiro). Existiam grandes antagonismos entre os dois Estados, o Brasil confrontava um sistema capitalista industrial liderado pelos britânicos (em plena Pax Britânica). A economia brasileira estava pautada pela economia agrária voltada para exportação, característica que respaldou mecanismos de manutenção da mão-de-obra escrava. Um contexto que divergia em absoluto às pretensões britânicas, que prescindiam de mercados consumidores monetarizados, com uma maioria populacional que pudesse adquirir seus produtos (que não era o caso do Brasil).


Dessa forma, o choque entre um Brasil, que além, da necessidade econômica, mantinha o trabalho escravo por questões de status social, e a maior potência do mundo no século XIX (Grã-Bretanha), que exigia o fim da escravidão e do tráfico de escravos, (retórica que estava relacionada às suas necessidades políticas e econômicas, fundamentais para a manutenção da sua hegemonia na América Latina e no mundo) seria inevitável. O desfecho desta conjuntura é o rompimento diplomático entre o Império do Brasil e a Grã-Bretanha no ano de 1863 (um ano antes do início da Guerra do Paraguai).


Assim, até que ponto existem “verdades” no discurso de que a Grã-Bretanha capitaneou o Império do Brasil, no intuito de destruir o Paraguai de Solano Lopez? Ambos não estavam com relações rompidas? Adiantamos que era quase impossível um acordo governamental entre as duas nações com esse objetivo no período que antecedeu o conflito.


Em conseqüência dessas e outras indagações, no último capítulo desse livro fizemos algumas observações a análise historiográfica de Júlio José Chiavenatto, o idealizador das famosas elucubrações que deram origem as tendências discursivas nas quais o Paraguai foi destruído porque a Grã-Bretanha patrocinou o Brasil e a Tríplice Aliança (além do Estado brasileiro, pertenciam a mesma a Confederação Argentina e o Uruguai), visto a suposta ameaça que a nação guarani, já naquela época, poderia causar ao sistema de poder britânico. “O Genocídio Americano”, como esse autor denominou a Guerra do Paraguai, não foi originada, exatamente como o mesmo narrou.


Assim, o objetivo maior dessa discussão é contribuir com um possível esclarecimento de alguns fatos que deram origem a Guerra do Paraguai, sobretudo, pois o continente sul-americano atualmente passa por um processo integracionista, no qual os Estados envolvidos tentam proporcionar ações de  reciprocidades. O estreitamento das relações estatais na América do Sul não pode ficar somente no campo político e/ou econômico, para que esse processo seja profícuo, é preciso, acima de tudo, que os povos conheçam a sua e a história dos seus pares.

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