O SEGUNDO CICLO DE KONDRATIEV (1843-1896) E O SEU LIAME COM A PARTICIPAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS NA GUERRA DO PARAGUAI

Roberto Mauro da Silva Fernandes

1.3 A “INDÚSTRIA DE GUERRA” NORTE-AMERICANA E O CONFLITO PLATINO

Uma questão extremamente importante a se abordar é fato do mundo, durante a segunda metade do século XIX, passar por uma fase em que a “industrialização de guerra” transformava o processo industrial, associando as atividades bélicas à atividade industrial produtora de bens, desde os meados da década de 1840 (ARRIGHI, 1996, p.78).

Para Arrighi (1996, p.78/79), a “industrialização de guerra” vai destruir a ordem mundial Britânica, esse processo de inovações tecnológicas vai ser de grande utilidade, por exemplo, na Guerra da Criméia (1854-1856), conflito internacional que fora um dos de grande intensidade e que, geralmente, acontecem no início das fases de alta da economia, na qual as grandes potências entram em choque em busca de novos mercados, matéria-prima, etc.. De acordo com Fortunato Pastore, “a cada onda K corresponde uma grande guerra, mas em duas Ondas K consecutivas ocorrem uma grande guerra e uma super guerra” (PASTORE, 2007, p.117).

Sendo assim, em conflitos de alta ou de baixa intensidade, a reposição de equipamentos bélicos em curto período de tempo nos campos de batalha é de grande importância estratégica para a manutenção e ganho de posições.
Entre 1855 e 1870, os métodos artesanais das indústrias de armamento vão ser substituídos pelo “sistema de fabricação norte-americano”, inclusive os primeiros a importar os equipamentos norte-americanos neste período foram os Britânicos, e a partir de 1870 as demais potências européias fariam o mesmo. Exércitos inteiros puderam ser reequipados em questão de anos, ao invés de décadas, e essa aceleração, por si só, converteu-se num fator de inovações incessantes na criação de armas de baixo calibre (ARRIGHI, 1996, p.79). A “industrialização de guerra”, também, é importante para tentarmos desmistificar o envolvimento dos Britânicos como interessados na destruição do Paraguai.

Se entre as décadas de 50 e 70 um novo processo tecnológico surgia com os norte-americanos, e não com os Britânicos, que inclusive passaram a se utilizar dele, conflitos de baixa ou alta intensidade viriam a beneficiar os primeiros e não os últimos. Porque atestar isso?

As “Ondas K” demonstram que para cada fase de ascensão existe uma grande guerra correspondente. Constatou-se também que há aumento de preços no início da fase de ascensão precedendo a grande guerra (guerra de pico e global), o que potencializa este processo, gerando, por fim, uma onda inflacionária ainda maior. Para Pastore (2007):

[...] é somente na fase A, com o aumento do lucro, dos investimentos, da produção e da riqueza, que as nações podem ter melhores condições para armar, montar e equipar grandes e poderosas forças militares (PASTORE, 2007, p. 118).

Cria-se assim, espaço para se aumentar o preço de determinados produtos (alimento, combustíveis) e gerar divisas com os produtos industriais bélicos com o grande conflito, como também, contribui para mudanças na hegemonia global e de liderança mundial.

De acordo com Immanuel Wallerstein a Hegemonia global (Tabela nº 2) deu-se primeiramente com o Império Habsburgo, de 1450 a 1575, passando posteriormente aos Países Baixos (Holanda), no período de 1575-1672, a Grã-Bretanha comandou o mundo de 1798 a 1897 e a partir de 1897, os Estados Unidos da América assumem a hegemonia mundial.

Tabela nº 2 - Ciclos de Hegemonia Global (Immanuel Wallerstein)

Potência Hegemônica

Período

Império Habsburgo

1450-1575

Países Baixos (Holanda)

1575-1672

Grã-Bretanha

1798-1897

Estados Unidos da América

1897-...

Fonte: PASTORE, F. (2007, p.119).

Modelski apresenta um ciclo de liderança mundial com os portugueses (1500 a 1580), um ciclo com os holandeses durante os primeiros quarenta anos do século XVII (1620 A 1660), dois ciclos de liderança mundial para a Grã-Bretanha (todo século XVIII e XIX) e nos anos de 1900 o ciclo norte americano. Em relação ao ciclo britânico, fora o único a ser repetido, ressalta Fortunato Pastore, “Somente a Grã-Bretanha conseguiu repetir o ciclo” (PASTORE, 2007, p.119/120).

O interessante é que a Grã-Bretanha, tanto na escola de George Modelski, quanto na de Immanuel Wallerstein, situava-se como o grande Estado hegemônico no período entre 1855 e 1870, mas não fora precursora e nem detinha nova tecnologia bélica nesse período (os norte-americanos possuíam tal tecnologia, e como vimos os britânicos importaram equipamentos dos mesmos nesse período).

Assim, esse fato nos leva a pensar: Para a Grã-Bretanha patrocinar um conflito na Bacia Platina, na qual tinha um grande mercado consumidor, significaria destruí-lo e principalmente fazer os produtos da indústria norte-americana de armamentos invadirem o cenário Platino, liderando a pauta das importações dos países que participavam da guerra, afinal era a indústria norte-americana que possuía a nova tecnologia militar.

Dessa forma, é imperativo destacar que os norte-americanos venderam armamentos durante o conflito tanto para o Brasil quanto para o Paraguai, e se realmente os britânicos tinham a intenção de um conflito na Bacia do Prata, conseguiram (de alguma forma) gerar lucros para indústria norte-americana, ao invés das suas.
Estamos sendo irônicos, pois é inconcebível que tal processo pudesse ser possível, ao menos que as indústrias Britânicas tivessem uma tecnologia militar compatível ao da indústria estadunidense, possibilitando assim, uma ferrenha concorrência com seus produtos militares. Mas, mesmo que a hipótese fosse possível, além de destruírem o mercado interno platino e os seus negócios, abririam caminho para intervenções do governo dos Estados Unidos, que já há algum tempo tinha interesses na Bacia Platina.

Deixando um pouco de lado, as suposições, vamos para alguns fatos. Segundo Bandeira (1985, p.127) e Pereira (2007, p.186), os norte-americanos abasteceram o exército de Solano Lopez com esforços de guerra, equipamentos bélicos que chegavam ao Paraguai pelo território boliviano (durante a Guerra do Paraguai, o território boliviano ainda possuía saída para o mar, para o oceano Pacífico, perdida após o conflito com o Chile), visto o bloqueio empreendido pelo Império brasileiro nos rios da Bacia Platina aos paraguaios.
O Brasil também manteve estreitas relações com A indústria norte-americana em busca de equipamentos de guerra. Como afirma Castro (2007):
Foram comprados nos Estados Unidos 5.000 fuzis raiados de retrocarga, de um sistema praticamente desconhecido, os Roberts, bem como 2.000 clavinas de cavalaria, de retrocarga e repetição, do sistema Spencer (CASTRO, 2007, p.09/10).

A “industrialização de guerra” que, segundo Giovanni Arrighi, ensejaria a destruição da hegemonia Britânica, permite-nos criar outra hipótese (logicamente levando em consideração as alterações na liderança mundial, absolutamente associadas às reviravoltas do sistema econômico mundial, referentes à segunda “Onda K” entra 1843 a 1896 e que leva a uma reviravolta política e econômica do planeta e da América latina), se havia um país interessado na Guerra do Paraguai, esse seria os Estados Unidos da América.

Ciclo Kondratieff no período de 1864 a 1896 representa uma fase de baixa na economia mundial, e inserida neste ciclo se encontra a “Grande Depressão” (1873-1896), período que derrubou os rendimentos do capital, fazendo os lucros encolherem e as taxas de juros caírem, solapando as bases industriais Britânicas, oportunizando assim o forte florescimento da “indústria de guerra”, esta que vai oportunizar aos norte-americanos, a partir de 1896, iniciarem o seu processo de liderança hegemônica mundial, consolidado antes da primeira guerra mundial (ARRIGHI, 1996, p74/76).

Todavia, queremos ressaltar que o possível interesse dos norte-americanos no conflito, não está relacionado à destruição do Paraguai por possuir um futuro econômico promissor, digno de ameaçar as potências econômicas no século XIX que ditavam o andamento político da América do Sul, mas sim, para manter suas posições geopolíticas na America do Sul e ganhar sobre a mesma um maior controle. Não podemos nos esquecer que o governo norte-americano estava em pleno processo de expansão militar, econômica e política pelas Américas.
Mesmo após 1864, um período de baixa na economia mundial, caracterizado por repressão e crise, os Estados Unidos estavam em condições de continuar seu processo expansionista vendendo os seus equipamentos bélicos, ou seja, atraindo divisas, e aproveitando o ensejo para se utilizar das conseqüências dos conflitos externos ao seu território.

Vamos abrir um parêntese para evidenciarmos o quanto as guerras de baixa intensidade podem ser vantajosas para os Estados, dependendo das conjunturas. De acordo com Pastore (2007), às guerras de baixas na economia (fase B), são caracterizadas como conflitos de baixa intensidade ou de curta duração, e mais:
Estas guerras de baixa normalmente são menos custosas que as de alta, pois os preços estão em baixa também. As guerras de fase B contribuem para a saída da depressão, pois, exigem investimentos para serem implementadas (PASTORE, 2007, p.118).

Pastore (2007, p.123), também classifica os conflitos na América Latina de Guerra Externa ou Guerra Interna, a primeira refere-se ao fato de ser um conflito inter-Estados, enquanto que o conceito de Guerra Interna relaciona-se aos conflitos tipo intra-Estados. A Guerra do Paraguai foi um conflito de fase B, e apesar da longa duração, é classificada como uma Guerra Externa. E como todo conflito em período de baixa na economia, serviu como válvula de escape para as pressões econômicas.

Ocorrem guerras internas no período de crescimento econômico e mais conflitos externos nos momentos de crise, isso significa que em períodos de crise as nações canalizam as tensões para fora do país, já a economia em alta a busca pelo poder interno é mais viável (PASTORE, 2007, p.136/137).

A grande “coincidência” dessas definições com a Guerra do Paraguai está no fato do Império brasileiro passar por uma crise financeira interna muito forte, assim o conflito serviu de alguma forma, para resolver seus problemas econômicos, pois eliminaria assim um concorrente em potencial que era o Paraguai, abrindo caminho para obtenção do controle do mercado regional da erva-mate e do externo de algodão.

O governo paraguaio, por outro lado, através da casa Rothschild tentava alcançar o mercado europeu para fazer circular os seus produtos, como também buscava novos mercados e controle da sub-região (Bacia Platina), e caso saísse vencedor do conflito obteria vantagens frente ao seu concorrente o Brasil.
Assim, os países platinos ao resolver suas questões internas, mediante um conflito de baixa intensidade, num período de queda da economia mundial, concomitantemente, fortaleciam a economia norte-americana, que nesta mesma conjuntura econômica do cenário mundial, teve como válvula de escape as suas pressões econômicas, a venda de sua nova tecnologia bélica, sem endividar os cofres do seu Tesouro nacional e sem ter o seu sistema produtivo destruído. 
Devemos ressaltar que o ambiente doméstico norte-americano a partir de 1965 estava estabilizado, condicionando o seu governo a elaborar políticas no plano exterior; e a indústria bélica seria a sua grande base de sustentação. Como também, os Estados Unidos estavam em busca de novos mercados e maior controle político, econômico e militar da América do Sul, aproveitaram-se das tensões platinas, vendendo seus produtos bélicos e “agarrando” a grande oportunidade para tentar desestabilizar o mercado que se encontrava na Bacia do Prata, até então, sob controle absoluto dos Britânicos.

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