BRASIL E CORÉIA DO SUL: UMA ANÁLISE COMPARATIVA DA DINÂMICA DAS EXPORTAÇÕES NO COMÉRCIO INTERNACIONAL, 1985-2002.

Heriberto Wagner Amanajás Pena

2.2.2.1 Crítica neoclássica

                Os neoclássicos, que têm em Krueger e Balassa alguns dos seus principais expoentes, tecem algumas críticas específicas em relação ao regime de substituição de importações defendido pelos estruturalistas da década de 50.De acordo com esta visão ortodoxa, a concessão de subsídios e a proteção à indústria doméstica teriam distorcido o funcionamento do mercado, ocasionando vieses, setorial e de mercado.
       O viés setorial teria surgido pela determinação de uma estrutura de incentivos às indústrias diferente daquela que teria prevale­cido em caso de respeito ao livre comércio. Estes incentivos teriam sido incompatíveis com a dotação de recursos da economia, promovendo atividades industriais que não refletiam as vantagens comparativas do país (BALASSA, 1982).
       O viés de mercado, por sua vez, originava-se da utilização de mecanismos protecionistas contra importações (via proteção tarifária ou não tarifária, cotas e controles técnico-administrativos), o que, juntamente com a adoção de uma taxa de câmbio sobre-valorizada, teria prejudicado as atividades exportadoras, levando a um desenvolvimento da indústria voltado para dentro. Ao guiar-se somente pelo mercado interno, as empresas teriam se tornado ineficientes, com reduzida produtividade, tendo deixado de aproveitar os ganhos de escala e especialização provenientes do comércio internacional. A ausência de abertura comercial teria eliminado o fator concorrência, e assim, em meio a um mercado interno atrofiado, tornando as empresas acomodadas, levando ao estabelecimento de estruturas oligopólicas de produção (BALASSA, 1982).
       Em muitos casos, a adoção desta estratégia exigiu a imposição de medidas drásticas de proteção ao comércio como as citadas acima para superar as limitações inerentes a produção para um mercado em geral pequeno. Tais políticas em muitos casos levaram a subestimar a importância do setor agrícola, negligência esta que acarretou sérios estrangulamentos no desenvolvimento de vários paises.
       A tendência também foi de desestimulo as indústrias exportadoras, uma vez que estas pagariam preços mais altos do que seus concorrentes internacionais, dado que estes adquiriam o produto importado, enquanto as industrias exportadoras o similar nacional (de preço mais alto), além disso, sofriam com taxas de câmbio valorizadas em relação aos que seriam no caso do comércio livre.
            A visão neoclássica procura ainda inverter o raciocínio desenvolvimentista segundo o qual a intervenção governamental seria necessária para solucionar as crises estruturais do balanço de pagamentos, argumentando que tais crises são ocasionadas pela iniciativa do governo em comprimir as importações, enfraquecendo ao mesmo tempo as exportações.
            A intervenção do governo teria causado, além dos problemas anteriormente citados, distorções no mercado de fatores. A adoção de baixas taxas de juros para a promoção da industrialização substitutiva de importações incentivava a utilização de técnicas intensivas em capital, incompatíveis com a necessidade de absorção de uma mão-de-obra abundante, e ao mesmo tempo atrofiava o sistema financeiro, na medida em que provocava a fuga de capitais e de grandes poupadores (KRUGUER, 1985)
       Os males causados pela intervenção governamental, de acordo com o pensamento ortodoxo, teriam se manifestado ainda no mercado de trabalho através da adoção de uma postura populista ao estabelecer salários bem acima da produtividade do trabalho, diminuindo a competitividade das exportações industriais (KRUGUER, 1985).
       Na verdade, a visão ortodoxa procura mostrar que os países da América Latina permitiram, através da implementação da estratégia de industrialização substitutiva de importações, que suas indústrias se escondessem atrás das altas tarifas de proteção impostas às importações. Este mecanismo teria levado a um crescimento inicial, mas que, no entanto, não teria durado muito mais tempo do que o necessário para o “esgotamento” de um mercado interno atrofiado. O objetivo de proteger a indústria nascente teria criado um ambiente que não estimulava a promoção das inovações administrativas e tecnológicas das empresas. Os lucros resultantes teriam sido construídos graças à atividade ineficiente de empresas domésticas (BALASSA, 1982; KRUGUER, 1985)
            A partir das criticas acima expostas, a visão neoclássica ortodoxa acredita ter descoberto as verdadeiras causas do fracasso industrial e macroeconômico de vários países de industrialização tardia, como Brasil e México. Ao mesmo tempo em que identificam na adoção desta proposta de industrialização o erro maior destes países, os teóricos neoclássicos entendem que o sucesso dos tigres asiáticos foi resultado da adoção de um regime totalmente oposto: o regime de promoção às exportações (BALASSA, 1978)
       Segundo a argumentação ortodoxa, ao contrário da proposta de ISI, o regime de incentivo às exportações tem como objetivo estimular a formação de um parque industrial em meio a um clima de maior competição.
            De acordo com Suzuki (1975), um representante do pensamento ortodoxo, a adoção do regime de promoção às exportações não significa, necessariamente, que toda a, ou grande parte da, produção industrial tenha obrigatoriamente que se destinar ao mercado externo. A exportação somente se torna possível se o preço do produto em questão for competitivo em relação aos produtos estrangeiros. Sendo assim, o regime de promoção às exortações objetiva o fortalecimento da competitividade da indústria, o que lhe permite fornecer produtos tanto para o mercado externo quanto para o interno, sem preferência em relação a uma das duas opções (neutralidade em termos de mercado).
       Segundo a argumentação ortodoxa, o desempenho bem-sucedido dos países do Leste Asiático possui relação com o papel reduzido do Estado. A intervenção estatal nestes países teria sido mínima e sobretudo funcional, objetivando a redução de alguns obstáculos como: falha de mercado nas áreas tecnológica, de capital humano e infra-estrutura — que dificultavam o desenvolvimento industrial, além da manutenção de uma estabilidade macroeconômica capaz de tornar viáveis os investimentos de longo prazo (BALASSA, 1983)
       Consistente com a estratégia de promoção às exportações, a taxa de câmbio teria sido mantida em um nível realista, o que tornou possível a importação de insumos, a preços de mercado, para a produção destinada à exportação. Tendo estas condições como base, os exportadores não teriam incorrido em custos que os prejudicasse na competição do mercado internacional.
       Segundo esta explicação neoclássica, como complemento, teriam sido eliminadas todas as rigidezes estruturais do mercado de trabalho, facilitando a dinâmica da relação entre oferta e demanda de trabalho, permitindo que o salário acompanhasse o ritmo de crescimento da produtividade, aumentando a competitividade das exportações industriais.
            Tendo como ambiente um regime próximo do nível ideal de laissez-faire, acreditam os ortodoxos, que a alocação de recursos na economia tenha sido maximizada. Além disso, ao contrário dos países adeptos do regime de substituição de importações, onde as restrições em relação às importações e a discriminação das exportações criavam problemas de balança de pagamentos, as experiências bem-sucedidas do Leste Asiático demonstraram que a adoção de uma política de incentivo às exportações conseguiu eliminar o problema de crises cambiais freqüentes. Por fim, os ortodoxos chamam ainda atenção para a série de benefícios que a adoção de uma política de incentivo à inserção da economia no comércio internacional teria levado às empresas: em meio à abertura comercial e à pressão concorrêncial decorrente, elas seriam pressionadas a cortar custos e aumentar a produtividade, evitando portanto o desperdício de recursos.
         Mais do que apontar o regime de promoção às exportações como sendo a fórmula do sucesso utilizada pelos países do Leste Asiático, a corrente neoclássica procura mostrar que este bom desempenho prova a relação de causalidade entre abertura comercial— laissez-faire — crescimento econômico.


 2.2.3 A escola alternativa


Alguns estudos empíricos realizados na década de 80 nasceram de um tremendo esforço de economistas desenvolvimentistas procurando verificar uma aproximação da variante pregada pela “nova ortodoxia”. Esses estudos buscaram identificar em que medida a presença maciça do estado teria influenciado para o sucesso das economias do Sudeste Asiático quando comparadas com as economias da América Latina.
            Ram (1986), com base em uma amostra de mais de cem países, concluiu que as variáveis “dimensões do governo” e crescimento econômico apresentaram, na maioria dos casos, correlação positiva, entretanto, demonstraram que essas relações não eram tão evidentes como os neoclássicos acreditavam ser. Ao mesmo tempo ganhava força uma corrente alternativa de interpretação que, entre outros pontos, enfatiza a importância do papel do Estado no desempenho bem-sucedido dos países do Leste Asiático.
            A explicação alternativa para as diferenças de desempenho macroeconômico entre América Latina e Ásia, ou mais especificamente entre Brasil e Coréia do Sul se encontra segundo esta corrente na autonomia e capacidade de imposição de políticas industriais formulada em cada um dos casos, de acordo com suas especificidades socioculturais, políticas, entre outras mais que divergem com o pensamento neoclássico.
       Esta nova argumentação, que tem como principais destaques os trabalhos de Amsden (1989), Wade (1990) e Moreira (1995), acreditam que muitos destes países alcançaram tão alto patamar de desenvolvimento em virtude das políticas governamentais implantadas desde os anos 50.
       Segundo a abordagem alternativa, a intervenção estatal nestas economias teria sido importante, embora diferente daquela apresentada pela política de industrialização substitutiva de importações. No Leste Asiático, o governo teria sido um agente efetivo; porém, em virtude da abertura comercial, as políticas implementadas tiveram de seguir disciplinas diferentes, compatível com a criação de uma indústria internacionalmente competitiva.
             A intervenção estatal no processo de industrialização do Leste Asiático teria sido dirigida à correção de falhas de mercado, cada vez mais evidentes em função da abertura comercial. Ao contrário, do que pensavam os neoclássicos, a abordagem alternativa acredita que a intervenção governamental não deve ser somente funcional, mas, sobretudo seletiva, objetivando a solução de falhas de mercado relativas à industrialização.De acordo com Moreira, a existência de falhas nos mercados de produtos e de fatores, nos países de industrialização tardia, justifica a necessidade de intervenção do governo.
       Em relação ao mercado de produtos, a presença de fatores dinâmicos (aprendizado e diferenciação de produto) e estáticos (economias de escala, escopo e internacionalização), em conjunto com as externalidades, compromete as atividades das empresas. As empresas integrantes de uma indústria retardatária precisam adquirir rapidamente capacidade tecnológica, o que demanda investimentos em desenvolvimento tecnológico, que são, por natureza, arriscados e caros. Além disto, estas empresas encontram um mercado dominado por outras maiores, com alto grau de diversificação produtiva, e já há algum tempo instaladas. Tudo isto leva às empresas nascentes uma perspectiva de longas dificuldades e prejuízos, o que contribui para tornar mais árdua a sua entrada no mercado, enfraquecendo assim o interesse privado (WADE, 1990).
       Deste modo, há necessidade de proteger a indústria nacional através de uma política de auxilio que seja: seletiva em relação aos setores, em função das diferentes falhas de mercado para cada um deles; neutra em relação ao mercado, condicionando a proteção ao desempenho exportador; e seletiva em relação a empresas, no sentido de não beneficiar as filiais de multinacionais que já desfrutam de vantagens dinâmicas e estáticas das matrizes.
       A abordagem alternativa analisa ainda as falhas no mercado de fatores, identificando gargalos nos mercados financeiro, de capital humano e tecnológico que contribuem para dificultar o desenvolvimento industrial.
            De acordo com Moreira, o mercado financeiro dos paises de industrialização tardia caracterizava-se por operações de curto prazo, em função da incerteza gerada pela deficiência do sistema de informações, comprometendo as operações de longo prazo. A necessidade de investimentos para dar conta do processo de aprendizado e capacitação tecnológica das empresas nascentes, bem como para a ampliação da capacidade produtiva das mesmas, não era satisfeita em função de um mercado de capitais deficiente em face do reduzido nível de renda.
            Em virtude desta falha, as intervenções dos governos do Leste Asiático tiveram a preocupação de canalizar recursos bancários dispostos em poupanças de curto prazo, a fim de estimular a formação de um mercado de crédito para empréstimos de longo prazo. A atração destes recursos se deu por meio de incentivos à propriedade conjunta de bancos e empresas, com o objetivo de reduzir os riscos dos bancos e firmas no envolvimento com empréstimos de longo prazo; linhas de crédito subsidiadas para encorajar o investimento em indústrias propensas à imperfeição e a externalidades; e estabelecimento de tetos de taxa de juros para promover o investimento. (MOREIRA, 1995).
            Quanto ao mercado de capital humano, em função da presença das externalidades tecnológicas, as quais exercem influência sobre a difusão do conhecimento e da deficiência do mercado de capitais despreparados para o financiamento de gastos com qualificação da mão-de-obra os investimentos em treinamento e educação não são alocados de maneira eficiente pelos mecanismos de mercado. Deste modo, cabe ao governo aplicar recursos para melhor preparar a força de trabalho, e assim constituir uma base para o desenvolvimento de qualificações industriais.
       O mercado de tecnologia, segundo a abordagem alternativa, também apresenta falhas. Por se tratar de uma “mercadoria” transacionada em um ambiente caracterizado pela assimetria de informações entre os que compram e os que vendem, a tecnologia não é perfeitamente comercializável. Sendo, portanto, um mercado que envolve custos muito altos, há uma tendência ao subinves­timento privado. Em função disto, há a necessidade de o governo intervir no sentido de promover esforços através, por exemplo, de investimentos em infra-estrutura de C&T, incentivos fiscais a P&D  a fim de acelerar a capacitação tecnológica (AMESDEN, 1988; MOREIRA, 1995).
           De modo geral, esta interpretação dita revisionista procura mostrar que se existem falhas de mercado, então o argumento de laissez-faire que assumem mercados perfeitamente competitivos é totalmente falho. Um regime de laissez-faire não é capaz de revolvê-las; daí a importância da mão orientadora do governo como solucionador destes problemas.
       Segundo esta interpretação, a participação estatal no processo de desenvolvimento econômico dos países do Leste Asiático teria estado muito além do compromisso de manutenção da estabilidade macroeconômica. A principal função da intervenção governamental teria sido amenizar as falhas de mercado que entravavam o desenvolvimento industrial. Muito mais do que isso, o governo teria estado sempre por trás deste desenvolvimento por meio de uma política industrial ativa e de setores alvos (AMSDEN, 1989)
       Tal visão alternativa acredita que, ao longo de todo o processo de crescimento e transformação da estrutura industrial, o Estado, no Leste Asiático, teve capacidade para fazer com que o mercado funcionasse melhor, trazendo, portanto mais benefícios para a sociedade. A partir de um padrão de intervenção junto às empresas  que condicionava a concessão de subsídios ao desempenho, sobretudo exportador, o governo teve condições de viabilizar a transformação do setor produtivo às mudanças nos preços relativos (AMSDEN, 1989; WADE, 1990; MOREIRA, 1995)
            Por fim, a corrente alternativa chama a atenção para a importância da política seletiva, como tendo sido o instrumento responsável pela promoção de setores novos, tidos como setores industriais promissores. Por meio desta política seletiva, o governo concedeu incentivos financeiros — viabilizados pela canalização de recursos realizada pelo próprio governo — e proteção contra as importações, o que assegurou às empresas condições de operação ou em escalas produtivas eficientes.


 2.2.4 A nova concepção sobre as orientações de mercado


            A inserção internacional das economias agora também estaria condicionada não somente as adoções de política econômica, mas também a uma dinâmica prevalecente na demanda do comércio internacional. Estas tendências recentes na reestruturação econômica mundial apontam mudanças substancias durante os últimos quinze anos, classificando segundo metodologia da CEPAL os produtos em dinâmicos ou não, e sua importância quanto à densidade de recursos naturais e em tecnologia.
A transformação estrutural do comercio internacional abriu oportunidades para os países em desenvolvimento para que melhorem sua inserção na economia internacional, através do aumento na participação de mercado (market share) em setores dinâmicos, este fato esclarece o sucesso dos tigres asiáticos na integração mundial e o insucesso dos países da América Latina.
            O sucesso atual das estruturas exportadoras dos países deve estar condizente com o dinamismo do comercio internacional, assim existem produtos que pela sua natureza e especificidade garantem um alto potencial de consumo internacional, e apresentam baixa volatilidade nos níveis de preços contribuindo portanto para uma maior estabilidade nas rendas das economias.
Atualmente apesar de claras as diferenças entre as estruturas exportadoras do Brasil e Coréia do Sul, no passado recente não se poderiam dizer o mesmo, em 1980 a participação das exportações brasileiras nas exportações mundiais aproximava-se a 1%, razão esta superior a Coréia. São países de industrialização tardia e que adotaram inicialmente a mesma estratégia de industrialização. As experiências de industrialização desses dois países fazem parte de trajetórias de desenvolvimento econômico, geradora de uma estrutura econômica e responsável pela inserção das exportações na dinâmica do comércio internacional (AMSDEN, 1989).
            A polarização entre uma modalidade  de crescimento liderado pelas exportações e um crescimento liderado pelo mercado interno, ou como assim se refere o Banco Mundial, a existência de uma via “orientada para fora” e uma outra “orientada para dentro” tal como as que supostamente teriam predominado na  Ásia e América Latina revelam interpretações e mecanismos de causalidade muito distintos e mesmo opostos (MEDEIROS; SERRANO, 1999).
            As diferenças entre as políticas aplicadas e em particular quanto cada país se concentrou mais na promoção de exportação ou na substituição de importações em determinado período se devem muito as características da estrutura produtiva e ao contexto histórico (econômico e também geopolítico) em que estes países estavam inseridos (MEDEIROS; SERRANO, 1999).
            Nesse sentido, o tipo de indústria prevalecente, o grau de orientação da economia (mercado interno ou externo) e o papel dos agentes econômicos, são em ultima instância alguns dos fatores relevantes que explicam o dinamismo das exportações das economias do Brasil e Coréia do Sul.
            Embora sejam agrupados dentro de um conceito que se convencionou chamar de NICs  são economias altamente heterogêneas. Eles variam enormemente em tamanho geográfico e populacional, na dotação natural de fatores, em seus complexos sociais, políticos e culturais. Porém existe um ponto de interseção entre eles, a saber, o papel central do estado na condução da industrialização e desenvolvimento econômico (DICKEN, 1998).
            O papel central exercido pelo estado na industrialização do Brasil e Coréia do Sul foi diferente, o grau e a natureza de seu envolvimento varia de um país ao outro. Esses são exemplos da falta relativa de sucesso das economias da América Latina em comparação com as economias do Sudeste Asiático. Segundo esta visão, o insucesso das primeiras economias foi de ter adotado uma orientação voltada para o mercado interno seguido de fortes intervenções estatais que teriam prejudicado a ação do mercado, enquanto que as economias do sudeste asiático teriam adotado uma orientação para fora, e um perfil de intervenção mínimo que possibilitasse a ação do livre jogo das forças de mercado (BANCO MUNDIAL, 1993).
            Outra corrente discute que jogar para baixo o papel do estado no desenvolvimento econômico dessas economias é no mínimo ignorar a evidencia, e os caminhos para a industrialização e inserção no mercado internacional tiveram mesmo o papel central exercido pelo estado.
            Na América Latina em geral, o papel estatal no aprofundamento da industrialização substitutiva de importações se deu a partir de 1950 (caso brasileiro) com abertura da economia aos investimentos estrangeiros, este antes da segunda guerra mundial concentraram-se na exportação de recursos naturais. No pós-segunda guerra mundial enfatizou-se em industrias avançadas como automóveis, maquinaria, substancias química, porém destinados ao mercado interno.
            Os NICs asiáticos, seguiram uma sucessão contrastante. A exemplo da Coréia seu rápido crescimento não começou até meados de 1960, devido a um período estendido de colonização pelo Japão antes de 1945, somente com a infusão maciça de ajuda norte-americana nas próximas décadas e com a uma mudança de estratégia (mercado externo) é que a Coréia começou a se lançar numa inserção dinâmica no comercio internacional.
            A política de industrialização a partir daí (1960) passou a ser a orientada para o mercado externo visando gerar divisas externas, as industriais inicias na Coréia foram àquelas caracterizadas como grandes demandadoras de mão-de-obra, como exemplos: azulejos, têxteis, artigos de vestuário e eletrônica do consumidor, entre outras. Em fases subseqüentes, ocorreu grande sucesso das industrias coreanas nas mais pesadas, como aço, petroquímica, construção naval, manufatura de veículos (GEREFFI e WYMAN, 1989).
            As mudanças domésticas provocadas pela industrialização foram importantes no processo de inserção externa das economias do Brasil e Coréia do Sul. A ISI (Industrialização por substituição de importações) iniciou-se em muitos países Latino-americanos como reação a descontinuidade causada pela primeira Guerra Mundial, depressão econômica dos anos trinta (caso brasileiro) e segunda Guerra Mundial, quando os produtos importados não eram em geral disponíveis, ou não havia moeda estrangeira suficiente para adquiri-los, o que levou a substituição dos produtos anteriormente importados por produtos produzidos internamente (COLMAN; NIXSON, 1981).
            A crise prolongada dos anos 1930, no entanto, pode ser encarada como o ponto crítico da ruptura do funcionamento do modelo primário-exportador. A violenta queda na receita de exportação acarretou de imediato uma diminuição de cerca de 50% na capacidade para importar da maior parte dos países da América Latina (TAVARES, 1972).
            A difusão, porém da estratégia de ISI deu-se no mundo pós-segunda Guerra Mundial (caso da Coréia) estimulados por dificuldades no balanço de pagamentos (substituir importações era mais “fácil” do que promover exportações), governos de países recém-tornados independentes procurando estimular o desenvolvimento industrial, impondo tarifas  protecionistas à importação de produtos manufaturados.
            Baseado numa análise das fases e prioridades da industrialização da América Latina e Leste Asiático são possíveis apontar determinantes das diferenças entre as estruturas exportadoras, e mais do que isto apontar as causas de uma melhor inserção no mercado internacional. As estratégias de orientação das economias do Brasil e Coréia do Sul são a razão de uma determinada inserção no mercado global.
            Nesse sentido, a cronometragem das fases de industrialização do Brasil e Coréia do Sul é uma condição prévia para a discussão de uma inserção no comercio internacional. As estruturas  exportadoras de ambos foram resultantes dessas sucessivas fases. Não obstante, a escolha entre produzir para o mercado interno ou para o externo sofre influência de inúmeros atores sociais, e o papel das políticas de governo na alocação industrial doméstica dos recursos visando à relação da economia com as nações internacionais, foi crucial, porém os instrumentos e as conseqüências deste envolvimento variam em cada caso.
            A industrialização da América Latina e Leste Asiático, marcam o desenvolvimento nacional no século XX, estes NICs passaram de uma estrutura produtiva baseado essencialmente em recursos naturais (caso brasileiro) a uma economia industrial que caracterizou um processo de inserção junto à nova divisão internacional do trabalho. Os ganhos provenientes do comércio internacional passaram a ser fruto de uma orientação de política econômica e da especificidade de produtos exportáveis.
            As diversidades entre Brasil e Coréia do Sul é o norte para se entender como as motivações de política públicas e as diferenças estruturais foram usadas para transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas. De um lado as abundancias na dotação de fatores naturas e a relativa escassez no outro, fizeram com que as políticas públicas fossem o principal elo para uma estratégia de inserção competitiva internacional e as diferenças entre as opções explicam os diferentes caminhos perseguidos pelas duas economias.
            É possível destacar os passos seguidos pelas economias brasileira e sul-coreana rumo ao processo de inserção internacional. Num primeiro momento a condição da estrutura econômica em ambos os países é a exportação de commodities primárias, que começou e acabou um pouco mais cedo no Brasil em relação à Coréia do Sul. Nessa época o único componente de aumento da demanda agregada da economia era o setor externo, principal demandante dos produtos agrícolas, minerais, entre outros. Na fase seguinte, o fenômeno da industrialização tardia ocorre primeiro no Brasil, como descontinuidade da demanda externa provocada pela crise de 1929, nessa época a estrutura exportadora do Brasil se concentrava em poucos produtos, notadamente o café, e a queda brusca da demanda externa do produto, forçou o Governo brasileiro a redirecionar para o mercado interno os impulsos de aumento da demanda agregada. Notadamente, o mesmo processo de primeira fase do ISI se deu na Coréia do Sul, logo depois de declarada sua independência nacional, no período pós-segunda guerra mundial, pois, se considerava mais fácil nos estágios iniciais da industrialização estabelecer a proteção ao mercado interno a promover exportações, inclusive num período de recessão da demanda internacional e restabelecimento da economia doméstica.
            A busca inicialmente pelo mercado domestico e não o externo, se deve em grande parte aos problemas de estrutura econômica prevalecentes nas duas regiões, como encarar a concorrência em setores que iniciariam as fases da industrialização, produzir para o mercado interno no mínimo significava exigências menores quanto à qualidade e uma garantia de consumo e manutenção das taxas de investimentos para que o processo avançasse.
            Na verdade a política de substituição de importações foi mais um mecanismo de defesa junto às forças do mercado internacional, nesta primeira fase da substituição de importações a produção interna visava substituir bens de consumo não duráveis, taxando as importações deste mesmo setor, este fato se presencia tanto no Brasil como na Coréia, apenas com diferenças no retardamento desta última.
            Na década de 50, enquanto a Coréia do Sul ainda desfrutava de sua fase inicial do ISI a economia brasileira entrava na chamada segunda fase da substituição de importações, agora baseada na produção interna de bens de consumo duráveis como automóveis, elétrico-eletrônicos, material de transporte, equipamentos mecânicos, complementaram os investimentos públicos em metalurgia básica e em infra-estrutura, constituindo assim o primeiro ciclo da industria pesada. Esta segunda fase da substituição de importação não fez parte no inicio da década 60 da implantação do projeto estatal-industrialista surgido num contexto de forte “autonomia relativa” do Estado em relação aos processos locais de acumulação de capital (CANUTO, 1994).
            Ao contrário da economia brasileira a Coréia do Sul desde o inicio dos anos 60 apresentou preocupação com a exploração do mercado externo, entre os fatores determinantes para esse impulso em enxergar o mercado internacional como componentes estimuladores do crescimento foram: a existência de mão-de-obra qualificada, grandes números de empresários dispostos a correr riscos (os chaebol) e um contexto internacional favorável.
            Em suma, a partir dos anos 60 a ênfase de política econômica adotada pela Coréia do Sul se caracteriza pela industrialização orientada para exportação numa primeira fase, baseada na produção e na exportação de manufaturas leves intensivas em mão-de-obra, condizentes com a disponibilidade existente desse fator, esta primeira fase da promoção de exportação se estende até 1972. Desde então, a economia sul coreana da inicio a segunda fase de crescimento liderado pelas exportações presentes até o momento, com a conquista de mercado externo através da produção de bens intensivos em capital, o envolvimento estatal também fez presença através de políticas industrias ativas e instrumentos de proteção comercial.
            A economia brasileira continua seu avanço no processo de substituição de importações no decorrer da década de 70 completando o ciclo com a terceira fase através da diversificação das exportações, produzindo bens de capital e intermediários necessários ao processo de produção da industria doméstica completando o segundo ciclo da industria pesada.
            Os impulsos subjacentes para a mudança de postura econômica da Coréia do Sul esta relacionado, as restrições impostas ao programa de substituição de importações nas suas fases subseqüentes, haja vista o mercado interno ser insuficiente para gerenciar o processo, as suas características internas naturais, geográficas, o envolvimento de grandes grupos empresários.
            Segundo Gereffi (1990) os estágios iniciais de industrialização foram comuns entre os NICs em ambas as regiões, no entanto a divergência subseqüente aos caminhos escolhidos entre ambos, diz respeito aos problemas básicos associados com a perpetuação da substituição de importações na sua primeira fase. A duração deste modelo de desenvolvimento varia entre os dois países (Brasil e Coréia do Sul) prevalecendo mais tempo no primeiro, porém a Coréia começou seu crescimento liderado pelas exportações no momento de extraordinário dinamismo da economia mundial.
            A disjunção entre as estratégias de industrialização do Brasil e Coréia do Sul são resultados de condicionantes diferentes de políticas econômicas influenciadas no primeiro caso (Brasil) pela Comissão de economistas para América Latina, e por excelentes resultados auferidos com o modelo logo após a segundo guerra mundial, a idéia de mudança para uma outra estratégia pareceria não representar uma boa opção, já que a abertura econômica só prejudicaria as industriais infantes. No caso da Coréia, apesar de ser mais “fácil” partir para uma substituição de importações logo após sua efetiva independência, os problemas estruturais presentes na economia sul-coreana pareciam motivar uma busca pelo mercado externa, nem que para isso fossem motivados golpes militares e a manutenção de uma repressão que tornasse inviável a criação de sindicatos, pois, sob o controle efetivo do estado seria mais fácil conduzir a economia.
     A figura-1 revela não apenas as fases de industrialização do Brasil e Coréia do Sul, mas também supõe uma dinâmica nos setores exportadores dela proveniente. O crescimento industrial do Brasil e Coréia do Sul foi acompanhado em cada caso, de momentos de acelerada mudança estrutural intra-industria, com peso crescente de setores que exigiam processos tecnológicos menos simples e com volumes de capital e de escala mínimas bem maiores que aqueles exigidos na produção de manufaturas leves tradicionais de consumo (CANUTO, 1994).
       Segundo Canuto (1994) esse processo se verifica primeiramente no Brasil, já por volta da década de 50 enquanto que na Coréia do Sul o mesmo processo só ocorre a partir de 70 de modo concentrado, onde a liderança industrial tinha como carro chefe, o setor industrial pesado (metalurgia, química, maquinaria, metal-mecânica...)
            Os processos revelam que os avanços nas trajetórias de desenvolvimento industrial e de inserção externa estavam se reproduzindo nos países em desenvolvimento, com mudanças significativas nas estruturas de produção presentes até então somente nos países desenvolvidos, com diferenças no intervalo de tempo necessário para atingir o estágio do processo, de acordo com Canuto (1994) tal reprodução estaria se dando através de uma repetição das trajetórias das economias avançadas num espaço de tempo menor que na experiência original, com espaço temporal ainda menor no caso da Coréia do Sul.
            O direcionamento da produção para o exterior no caso da Coréia do Sul convergiu automaticamente sua base industrial para os padrões internacionais de competitividade, mesmo este país possuindo reduzido mercado interno. A mudança para a orientação exportadora atual foi um importante elemento de pressão concorrêncial e ajustamento externo ao passo que o Brasil consolidou uma via de desenvolvimento explicada pela dinâmica endógena do mercado interno como variável fundamental do crescimento econômico  na reprodução e avanço da substituição de importações como modelo de desenvolvimento. 

   
            Outra diferença marcante entre Brasil e Coréia do Sul, diz respeito ao maior grau de abertura comercial mensurado em termos de exportação e importação em relação ao produto industrial, condizente com a mudança de trajetória experimentada a partir da década de 60. A industrialização pesada da Coréia comprava tal fato, pois, tornou-se relativamente mais intensiva em importações e mais dependente de exportações de congêneres de países da América Latina. Outro fato foi a grande explosão das exportações coreanas em produtos e atividades não intensivas em mão-de-obra qualificada.
            A origem das diferenças, no dinamismo do setor industrial e das estruturas exportadoras, estaria presente nas divergentes opções diante da disjuntiva ao final da 1º fase da industrialização por substituições de importações. O que se verifica na figura-1 é que enquanto o Brasil enveredava para a segunda fase do ISI no decorrer dos anos cinqüenta, já nos primeiros anos da década de sessenta a Coréia do Sul se encarregava de formular e implementar reformas em busca da promoção as exportações.
            Os descaminhos da industrialização entre Brasil e Coréia do Sul têm na década de sessenta seu ponto inicial, mas o sucesso de ambas as políticas adotadas em cada pais em direção ao avanço industrial, passando os dois pelo referidos milagres econômicos, sustentavam o processo em cada um dos casos. No inicio dos anos oitenta, porém, Brasil e Coréia do Sul são impactados pela recessão mundial, queda na liquidez internacional e aumento dos juros externos, provocando a elevação do endividamento externo e comprometendo novos empréstimos internacionais.                              
            Este quadro internacional desfavorável, aliado a mudanças na estrutura produtiva mundial, marca o inicio de diferentes desempenhos econômicos entre Brasil e Coréia do Sul, as diferenças de performance econômica não diferenciam apenas quanto aos indicadores macroeconômicos, mas parece que agora os efeitos de mudanças na opção de estratégias industriais passadas começam a surtir implicações diferenciadas.
            A inserção ao mercado externo de produtos manufaturados com elevado nível de sofisticação, na eletrônica profissional e de consumo, assim como na industria automobilística, consolidando setores relevantes na industria pesada  tradicional, deram a Coréia do Sul o destaque no ranking internacional, permitindo a estes setores economias de escala e escopo para competir no mercado externo.
            A comparação com o Brasil permite inferir, que apesar de décadas de crescimento industrial prolongado, não se sustentou tal crescimento na presença de uma crise conjuntural (década de oitenta), ou ainda que a falta de políticas industriais não aprofundaram a industrialização da economia brasileira em setores verdadeiramente dinâmicos no comercio internacional.
            As diferenças de desempenho econômico do Brasil e Coréia do Sul a partir dos anos 80 revelam também mudanças profundas na lógica de produção e reprodução da economia mundial, e talvez a diferença maior entre essas economias, esteja na resposta de cada modelo de desenvolvimento adotado as transformações internacionais ocorridas.

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