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A UTOPIA NEGATIVA: LEITURAS DE SOCIOLOGIA DA LITERATURA

Jacob J. Lumier




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Introdução

Neste trabalho encontram-se reunidos textos e artigos expondo minhas leituras de Sociologia da Literatura. Evitei polemizar sobre certos produtos da indústria cultu-ral que muitas vezes são lançados como se tivessem a aparência de literatura. O leitor benevolente verá nesta coletânea que passei à margem dessas estórias extravagan-tes em que os extraordinários efeitos visuais dos filmes nos são oferecidas em volumes que parecem livros onde seria de esperar conteúdo literário.

Tampouco me detive no catastrofismo saboreado pe-los best-sellers das grandes editoras. É claro que o con-sumismo dos chamados gêneros fantásticos e dos roman-ces-reportagens sensacionalistas também é pesquisado em sociologia, e serve ao desenvolvimento do mercado edito-rial. Sei disso e não preconizo uma sociologia da literatura elitista ao dar aproveitamento e atualidade às fontes histó-ricas que revalorizam a arte de Proust.

Pelo contrário. A utopia negativa como horizonte crí-tico da cultura alimentada pelo "Sempre-Igual" descobre a referência básica da sociologia literária na pesquisa so-bre a ambiguidade do romance tornado técnica de comu-nicação: exige verificar a situação do gênero romanesco em face da realidade, no momento antirrealista do ro-mance ao século vinte.

Neste quadro se compreende a arte monológica de Proust nas antípodas da Utopia Negativa.

Isto, desde que se tenha em vista no monólogo interior os conhecimentos do homem experiente ou experimenta-do, suas recordações, e o valor humano exemplar das lembranças proustianas que escapam ao sistema, e são mais do que impressões subjetivas.

Desta forma, pode dizer que a arte de Proust serve de contraponto para aprofundar o universo da utopia negati-va, sobretudo serve de referência ou ponto de vista na desmontagem da ideologia do futurismo, originalmente segregada no bem conhecido romance de Aldous Huxley “The Brave New World”, ideologia essa já integrada na cultura de massa e bem propagada na mídia, lá onde o sistema é projetado indefinidamente no horizonte dos fil-mes de "ciência ficção".

Com efeito, do ponto de vista da arte de Proust se a-firma a recordação pelo monólogo interior. Personificada em sua realidade humana pelo narrador proustiano ou mesmo para-além dele, a arte de Proust atualiza o dilet-tantismo: o modo de ser do homme de lettres como sujei-to social de conhecimentos; o homem no exercício expe-rimental de suas recordações e por esta via vinculado ao Iluminismo e à liberdade de pensamento.

Além de experiência não-generalizável, a recordação se exerce por intenção tenteadora, se experimenta como esperança ou desilusão e vale o critério que confirma ou refuta para si mesmo as observações do sujeito como in-divíduo humano.

Trata-se de uma alternativa à supressão do objeto do romance em face da reportagem no século XX, implican-do e alterando a posição do narrador que, por diferença do realismo literário do século XIX, não mais possui a ex-periência do conteúdo a ser narrado - situação essa clas-sificada como crise da objetividade literária, reconhecida a impossibilidade em narrar algo especial e particular.

As principais linhas que orientam as “leituras” de so-ciologia da literatura reunidas neste e-book são as seguin-tes :

→A situação do narrador que não mais possui a expe-riência do conteúdo a ser narrado (crise de objetividade literária) estivera em correspondência com uma situação já antecipada por Dostoyevski, a saber: o sentimento de que o romance estava obrigado a romper com o positivo e apreensível e a assumir a representação da essência como das qualidades humanas. Se há psicologia na obra de Dostoyevski trata-se de uma psicologia de caráter inteligível, uma psicologia da essência.

→A supressão do objeto do romance, por efeito cultu-ral da preeminência da informação e da ciência, leva à seguinte situação do romance do século XX: para perma-necer fiel à sua herança realista e continuar dizendo como são realmente as coisas, o romance tem que se afastar de um realismo voltado para reproduzir apenas a fachada e tem que promover o equívoco desta.

Segundo T. W. Adorno, essa tarefa não era estranha ao romance que, desde o século XVIII com o Tom Jones, de Fielding, já encontrara seu verdadeiro objeto no confli-to entre os homens vivos e as petrificadas (ou mumifica-das) relações, de tal sorte que a própria alienação se converte para o romance em meio artístico.

→Novamente reencontra Proust. O procedimento nar-rativo do monólogo interior desenvolvido em sua obra lite-rária e romanesca estaria conforme a exigência de sus-pensão ou redução da ordem objetiva espacio-temporal (onde predomina a coisificação ), suspensão essa que unicamente permite ao narrador fundar um espaço interi-or.

Será exatamente pela arte do monólogo que o mundo vai sendo arrastado ao espaço interior assim fundado, e todo o externo se apresenta como um fragmento de inte-rioridade: momento da corrente da consciência resguar-dado em face da refutação pela ordem do mundo alheio. Tal é a “técnica micrológica” que T.W. Adorno interpreta ao observar que todo o primeiro livro de Proust -Combray - não é mais do que o desenvolvimento das dificuldades que tem uma criança para dormir quando a mãe bonita não lhe deu o beijo de boa noite.

Desta forma, T.W. Adorno descobre em Proust o e-xemplo de uma maneira de proceder artístico para o autor literário evitar a pretensão de que sabe exatamente “co-mo foi”, a “pretensão de conhecimento”, o gesto e o tom do “foi assim”, que romance deve excluir.

Nessa constatação percebe-se o elemento da fantasia - “o quimérico” - na arte de Proust, no seu proceder mi-crológico, a saber: as significações da unidade do vivo fracionada em átomos, que em sociologia crítica da cultu-ra chamar-se-á “o esforço do sensório estético" .

Na abordagem crítica da cultura, a ação dramática do romance é vista a partir de seu envolvimento em uma técnica da ilusão, que reserva previamente ao leitor o papel limitado de realizar algo já realizado, e participar assim do caráter ilusório do conteúdo representado - ainda que esse caráter ilusório vá sendo suprimido na história literária conforme se passe de Flaubert para Proust, Gide, Thomas Mann ou Musil e desemboque no que T.W. Adorno chama “reabsorção da distância estéti-ca”.

Não que, por sua vez, a análise crítica da cultura seja desprovida de interesse específico para a sociologia lite-rária. Sua orientação é verificar como disse a situação do romance em face da realidade no momento antirrealista do romance.

Nada obstante, por esse modo vem a ser favorecida a prevalência da relação com o leitor, por fora e em detri-mento da união autor-personagem-leitor, porquanto a as-serção de que a alienação se converte em meio artístico para um tipo de romance cujo impulso é decifrar o enigma da vida externa, exige pôr em relevo como disse além da fantasia a ambigüidade do romance como técnica de co-municação.

→Será por via do quimérico, da fantasia, que se pode passar da sociologia crítica da cultura à leitura personalis-ta, respectivamente, passar de T.W. Adorno a Nathalie Sarraute.

A presença de Proust é justamente tomada como i-gualmente decisiva para enfrentar a crise do romance centrado na vida mental dos personagens, incluindo as narrativas em primeira pessoa, como se convencionou a designação romance psicológico, assim classificado para dife-renciar dos dramas históricos ou coletivos, ou dos ro-mances focados nas mudanças dos costumes.

Para Nathalie Sarraute, célebre romancista e refinada ensaísta crítica do romance, em modo diferente da socio-logia crítica da cultura, o objeto do romance é antes de tudo o objeto literário: é a fantasia posta em questão na análise da crise do "romance psicológico", de tal sorte que a reflexão estética reporta-se sobre a união em ato (de leitura e de composição) entre o autor, o personagem e o leitor.

O problema do caráter inteligível e das qualidades hu-manas deve ser investigado a partir das próprias descri-ções oferecidas pelos romancistas nas manifestações dos seus personagens.

Dessa maneira, antes de voltar-se ao exame da repre-sentação da essência obscurecida pela consciência alie-nada, a orientação é otimista, e dá-se prioridade à expe-riência do fato literário como tal, admitida plena ou relati-vamente acessível.

→Em relação à representação da essência em ambiên-cia de alienação, como meio artístico, podem ver em nossa autora que os personagens de Dostoyevski dão uma impressão irreal.

Essas figuras já têm tendência a tornarem-se o que os personagens de romance serão cada vez mais, isto é, não tanto tipos humanos, como aqueles que a gente a-credita perceber em torno do ambiente, e cujo desmem-bramento “parecia ser o objetivo principal do romancista”, mas, sim, somente “simples suportes”: os personagens como portadores de estados da subjetividade, que as pessoas podem reencontrar nelas mesmas, ainda que se-jam estados ou “movimentos” ainda inexplorados.

Será com referência a este traçado do elemento “per-sonagem” como simples suporte que Nathalie Sarraute aventa a hipótese de que o esnobismo mundano de Proust, “a repercutir-se com um caráter de obsessão qua-se maníaca em todos os seus personagens”, não seja ou-tra coisa senão uma variedade dessa mesma carência obsessiva de fusão, verificada em Dostoyevski, só que, por sua vez, cultivada em um solo artístico composicional diferente, formalista e dos começos do século XX.

Na pior alternativa, nossa autora considera como ad-quirido que, vista com a distância entre o leitor dos anos de 1960 e os começos do século XX, a obra de Proust mostra como aqueles estados complexos e sutis já verifi-cados na composição da fantasia em Dostoyevski foram captados por Proust, em sua procura ansiosa através de todos os seus personagens.

Mais ainda: aqueles estados da subjetividade são o que subsiste na obra proustiana de mais precioso e mais sólido, são o que se preserva, mesmo se os invólucros pelos tipos humanos de Swann, Odete, Orianne de Guer-mantes ou os Verdurin tenham se tornado com a distância do contexto um pouco espessos demais.

→Trata-se de saber como deve ser vista a trajetória da figuração do elemento “personagem” no romance mo-derno, como levando ao deslocamento de seu centro de gravidade, com o personagem deixando de figurar tipos humanos e se tornando essencialmente o simples suporte ou portador dos estados de alma sutis e complexos, inclu-ídos sob a noção sociológica de fantasia.

Nesta abordagem otimista de Nathalie Sarraute, a tra-jetória do “personagem” está em correspondência com a via que exprime os estados de alma coletivos, que expri-me o sentimento coletivo. Tais estados complexos e sutis não somente estão ancorados num fundo comum, mas, através dos invólucros que os separam tendem sem cessar a se reagrupar e a se misturar na massa comum. Tais es-tados complexos “passam de um personagem ao outro, se reencontram em todos, são refratados em cada um segundo um índice diferente e nos apresentam cada vez uma de suas inumeráveis nuances ainda desconhecidas”.

→Em relação à ambigüidade do romance, como técnica de comunicação no ambiente da alienação, em que ponti-fica a obra de Kafka, se comparados observariam que, “no seio do mais fraternal mundo que seja”, a trajetória dos personagens de Dostoyevski os conduz a buscar como já o disse “uma espécie da sempre possível interpe-netração ou fusão total", enquanto que, por sua vez, os esforços dos heróis de Kafka seriam orientados para um objetivo mais modesto e mais longínquo.

Ou seja, oferecendo as palavras do próprio narrador kafkiano, nossa ensaísta nos diz que, para os persona-gens de Kafka, “aos olhos dessa gente que os miram com tanta desconfiança”, trata-se de se tornarem somente nem tanto seus amigos, mas enfim seus concidadãos; ou, sob outro aspecto, malgrado todos os obstáculos, trata-se de empenharem-se em preservar com aqueles mesmos que lhes são mais próximos algumas tênues semelhanças de relações.

Para Sarraute, as interpretações metafísicas de Kafka são devidas às características desta acanhada busca, sua desesperada obstinação, a profundidade do sofrimen-to humano, a indigência e o abandono total que nessa acanhada busca se revelam, e que transbordam o plano psicológico.

Nada obstante, nossa autora repele que se possam i-dentificar os heróis de Kafka “à imagem da realidade hu-mana como despojada de todas as convenções psicológi-cas”.

Vale dizer, esta perspectiva personalista reencontra sim a ambigüidade do romance, como técnica de comuni-cação, porém constata que, não obstante a consciência alienada, a auto-alienação na utopia negativa, nem os personagens de Kafka podem ser vistos como se houves-sem sido esvaziados de todo o pensamento e de toda a vida mental subjetiva.


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