EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA MOEDA


Yolanda Vieira de Abreu
Sanay Bertelle Coelho

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A expansão da economia e política monetária de 1967 a 1984

Segundo Lago (1990), em 1964 e 1965, a economia cresceu 3,4% e 2,4% respectivamente, causando um pequeno declínio do produto per capita. Em 1966, a taxa de crescimento do PIB foi de 6,7%, sendo, portanto, satisfatória. A crise de estabilização que aconteceu na metade do ano (1966), causada pelo aperto da liquidez, reduziu esta taxa para 4,2% em 1967. A partir de 1968, ano que se implantou uma política mais expansionista, o produto global e o produto setorial apresentaram um considerável crescimento. Entre 1968 e 1973, o PIB real cresceu 11,2%, chegando a 14% em 1973. O crescimento industrial também foi bastante significativo. No mesmo período, a indústria de transformação e a indústria de construção cresceram à taxa de 13,3% e 15%, respectivamente. Os serviços de utilidade pública cresceram a uma taxa anual de 12,1%. O desempenho do setor primário e do setor terciário também foi muito satisfatório. Todo esse crescimento dos diversos setores da economia foi influenciado por políticas governamentais como o grande volume de crédito concedido à agricultura pelas autoridades monetárias, destaque da soja nas exportações e a mecanização acentuada da agricultura. Este período de expansão da economia entre 1968 a 1973 foi chamado “milagre brasileiro”.

No período de 1967 a 1973, foram utilizados os instrumentos tradicionais de política monetária a fim de reforçá-la. De acordo com Lago (1990), na metade de 1966, realizou-se um forte aperto da liquidez. A partir de 1967, a nova equipe econômica reverteu esta situação expandindo a oferta de moeda. A média de expansão da oferta de moeda em 1967 foi de 2,7%; uma das mais fortes do pós-guerra até o início dos anos 80. Nos anos seguintes (1968 a 1970), houve uma desaceleração dessa taxa e uma aceleração entre 1971 a 1973. Assim, o crescimento médio dos meios de pagamentos alcançou 14% em 1967, 12% em 1968, e 5 a 10% entre 1969 e 1971. A inflação neste período baixou, ficando inferior a 20% de 1967 a 1973.

Um fato importante abalou a economia mundial e brasileira em outubro de 1973: o petróleo quadruplicou os seus preços. A brusca elevação dos preços de produtos essenciais que o Brasil importava como petróleo, carvão, aço, petroquímicos, fertilizantes, papel e diversos produtos industrializados, principalmente os bens de capital, provocou um acentuado déficit na balança comercial e no balanço de pagamentos. Essas alterações nas estruturas dos preços fizeram a inflação retomar um impulso ascendente, acelerando-se.

De acordo com Baer (2002), de 1974 a 1984 os meios de pagamentos se expandiram como se pode observar no quadro 04. Observemos também que a taxa de crescimento dos meios de pagamentos reais (M1) foi menor que a taxa de inflação. Esse crescimento negativo é atribuído ao declínio na demanda por moeda enquanto a inflação acelerava. Houve uma troca para a quase-moeda (poupança, depósito à prazo fixo e títulos do governo) que era indexada de acordo com a inflação.

O crescimento da base monetária, durante a década de setenta, financiado pelo Banco Central e Banco do Brasil, também é atribuído aos aportes de capital estrangeiro e às atividades extraorçamentárias especiais por parte do governo. O Banco Central fornecia os recursos especiais destinados ao setor financeiro, às empresas de exportação e à compra de moeda estrangeira. Caso seus recursos não fossem suficientes para atender a essas obrigações, ele emitia mais moeda. Assim, os empréstimos concedidos pelo Banco do Brasil, os créditos ao setor financeiro e as operações com moeda estrangeira, foram as principais fontes de expansão da base monetária. Mário Simonsen, ex-ministro da Fazenda e Planejamento do Brasil, como relata Baer (2002), frisou este ponto destacando que o sistema monetário brasileiro possuía uma tendência em direção à expansão dos meios de pagamentos. Reconhecia que era difícil evitar a inflação quando o governo tinha a autoridade de emitir moeda para financiar seus déficits.

Resumindo

Desde 1964, um dos principais objetivos do regime brasileiro foi a eliminação da inflação e suas distorções na economia. Vários governos foram bem-sucedidos. Segundo Baer (2002), a inflação foi reduzida de 92% em 1964 para 15,5% em 1973. Isso resultou de medidas de estabilização fiscal e monetária, de uma política salarial restritiva, de um realinhamento de preços controlados, de um sistema cambial ajustado lentamente, da obtenção de recursos não-inflacionários, estimulação da poupança e impedimentos das distorções causadas por forças inflacionárias.

A partir de 1973, começam acontecer mudanças espantosas nas taxas de inflação. De acordo com Gremaud (2006), a taxa mais que duplicou entre 1973 e 1974, ficando de 30% a 48% nos anos seguintes e quase dobrando em 1978 a 1979 (38,9% e 55,8%, respectivamente).

Na primeira metade dos anos 80 a inflação brasileira atingiu o patamar de três dígitos (100% ao ano de 1980 – 1982, e em seguida 200% ao ano de 1983 – 1985). Juntamente o setor real da economia registrou, segundo Rossetti (1998), inconfortáveis indicações de recessão (mesmo sendo satisfatório o crescimento do PIB nos anos de 1980 e 1985, o crescimento plurianual foi praticamente zero entre 1981 a 1984, fazendo o produto per capita recuar aos níveis de cinco anos atrás, formando uma taxa de ociosidade de quase 30% da capacidade de produção).

Assim, neste período, ocorre uma inflação crescente juntamente com uma recessão predominando um cenário de estagflação. O quadro 05 reúne indicadores da estagflação dos anos de 1980 a 1985.

Pode-se observar no quadro 05 uma expansão dos agregados monetários (base monetária, M1, M2, M3 e M4) que registrou três compatíveis com a variação dos preços, onde a variação de M4 indica grande preferência do público por acumulação de ativos financeiros indexados, diminuindo a procura por ativos reais. A velocidade – renda da circulação da moeda, M1, passou de um quociente de 9,6 para 23,1, indicando o repúdio do público pela moeda convencional à medida que a inflação acelerava. Isso acontece devido aos agentes econômicos estarem se desfazendo dos seus estoques convencionais de moeda, convertendo-os em ativos quase-monetários quando estes estão sendo protegidos pela correção monetária integral (indexação).

Segundo Rossetti (1998) os monetaristas ortodoxos consideravam que a causa central da inflação do período (1980-1985), era a multiplicidade e o desequilíbrio dos orçamentos públicos. O recurso à emissão acabava, então, como um mecanismo de nivelamento das receitas e despesas públicas. Assim, a expansão da base monetária ou a emissão de títulos públicos pelo Banco Central por conta do Tesouro Nacional acabavam sendo instrumentos de financiamento do déficit público. Com a expansão da base monetária, os meios de pagamentos expandiram inflacionariamente, e com a emissão de títulos as taxas de juros se elevariam, induzindo a uma especulação financeira. Então, o valor da moeda se deterioraria, enquanto os juros e a garantia de correção monetária levariam à um aumento da demanda por ativos financeiros, deprimindo as atividades produtivas no setor real da economia. A política dos ortodoxos, então, seria o saneamento dos orçamentos públicos através de cortes nos gastos de custeio e de investimento, deprimindo ainda mais as atividades da economia. Por isso, as medidas ortodoxas não eram bem aceitas pelo público, fortalecendo então, as abordagens estruturalistas e inercialistas que enfatizavam que uma economia exposta ao mecanismo inercial de indexação e às estruturas oligopolistas de oferta, a solução seria a extinção da correção monetária e o congelamento geral e indiscriminado dos preços.


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