AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

Daniela Cristina Comin

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1.10 O pensamento geopolítico argentino e brasileiro e sua influência na construção da rivalidade

Ao se analisar a história das relações entre Argentina e Brasil com o intuito de entender como a noção de rivalidade foi construída em ambos os países, não basta apenas verificar os principais acontecimentos que marcaram estas relações sem se levar em conta as idéias que em cada momento influenciaram de maneira direta ou indireta os tomadores de decisão. Em outras palavras, para melhor entender o que levou cada país a agir de uma determinada maneira é preciso entender qual era a percepção que cada um tinha da situação em questão e como tais percepções foram construídas.

Segundo Camargo (1987), as relações entre Argentina e Brasil sempre foram marcadas pela percepção mútua de que o outro teria uma “vocação de hegemonia e expansionismo” a qual era alimentada por geopolíticos e militares e influenciou a formulação das políticas externas dos dois países.

Para Capelato (2000), desde que o Brasil se tornou independente passou a tomar conta do ideário nacional a idéia de um “destino manifesto” brasileiro e que o país teria, portanto, um “futuro grandioso no continente”. Esta crença teria sido responsável pelo fato de o Brasil não ter construído uma identidade latino-americana, vendo seus vizinhos hispânicos como “a outra América”. Enquanto isso a Argentina via seu vizinho como uma ameaça sendo este, inclusive, excluído do projeto bolivariano de criação de uma confederação de países recém-independentes.

O processo de independência das colônias hispânicas e do Brasil foram diferentes: enquanto nas primeiras a independência ocorreu após várias disputas e a consolidação das repúblicas foi marcada por lutas internas, no Brasil não houve nenhum conflito pela independência e, mesmo após esta, o país continuou sendo regido por um governo imperial. Nesse contexto, o Brasil percebia a situação da América Espanhola como uma anarquia enquanto que ele era visto como retrogrado por conservar o regime imperial e escravocrata O Brasil era assim temido porque se acreditava que ele buscaria um “expansionismo territorial” seguindo a lógica do “Antigo-Regime”. (CAPELATO, 2000).

Por outro lado, também existia no pensamento da elite argentina do final do século XIX, a idéia de um “destino manifesto argentino” “expansionista, com sentido misional para su nación, impregnada de nuevas doctrinas como las de darwinismo social o la del poder naval desarroladas por Alfred Thayer Mahan”(ETCHEPAREBORDA, 1978, p.101). Este pensamento teria sido inspirado no Destino Manifesto Norte-americano que impulsionou o expansionismo daquele país em busca da conquista de novos territórios sob o argumento de que lhes levariam o “progresso” e a “civilização”.

A crença no progresso infinito de seu país foi um sentimento dominante entre as camadas mais abastadas e cultas da sociedade argentina de fins do século XIX e do início deste século: a Argentina estava destinada a trilhar um futuro grandioso de prosperidade e de paz política e social, colocando-se assim entre as grandes potências ocidentais. A garantia dessa evolução repousava nas riquezas naturais, na variedade de climas e na existência de uma população cada vez mais européia (BEIRED, 1996, p.5).

Sob a influência deste pensamento norte-americano foi que a chamada “Geração de Oitenta” construiu a identidade da Argentina a qual seria um país superior racialmente, já que a maioria de sua população era branca de origem européia, o que daria ao país vantagens para se tornar uma hegemonia na América do Sul. ( INGENIEROS apud RUSSEL; TOKATLIAN, 2003).

Além da questão racial Etchepareborda aponta outros elementos que influenciaram a classe dirigente argentina no início da década de 1890:

1) Darwinismo social, ley lamarckiana y darwinyana de la lucha y selección entre las naciones y los pueblos; 2) superioridad de la raza blanca, neolatina para algunos, de estirpe hispánica para otros, sobre las razas inferiores del Continente; 3) Destino Manifesto, expansión necesaria y vital, natural reconstitución del virreinato; 4) determinismo, crecimiento y decadencia de las naciones; 5) doctrina del poderío naval; 6) supremacía del más fuerte, lucha por la vida; 7) complementación del comercio por una eficiente militarización; 8) la guerra como elemento de la política, superior medio de gobierno, etc.(ETCHEPAREBORDA, 1978, p.113).

Estes elementos teriam embasado uma ideologia expansionista e ativista formulada por parte da elite dirigente argentina cujo principal entusiasta, de acordo com Etchepareborda (1978), teria sido o embaixador Estanislao Zeballos.

Zeballos inspirado pela teoria do geopolítico Mahan pregava um fortalecimento da marinha argentina, pois considerava que um grande poderio naval era importante para garantir a integridade do país. Ao se analisar este pensamento entende-se o porquê da grande preocupação do embaixador com a compra dos encouraçados pelo Brasil que acabou gerando um conflito diplomático entre ele e o Barão do Rio Branco. Além disso, era clara a idéia presente naquele momento da superioridade argentina no continente chegando-se a declarar que o país fazia parte do Concerto Europeu. (ETCHEPAREBORDA, 1978).

Para os autores Russel e Tokatlian (2003), a classe dirigente Argentina havia avaliado sua política em termos realistas visto que era essa a corrente vigente na Europa naquele período.

Existia no período certo descaso em relação ao Brasil no que diz respeito à cultura e a economia, mas no plano político havia uma grande preocupação em razão do “expansionismo territorial” brasileiro. (RUSSEL; TOKATLIAN, 2003).

A visão do Brasil como uma ameaça não era exclusiva de Zeballos. Como descreve Etchepareborda (1978), Roque Sáenz Peña também teria declarado a Enrique B. Moreno, em carta a ele enviada, que era necessário que a Argentina se armasse contra o Brasil. Bernardo Irigoyen, por sua vez, teria afirmado que, embora o Brasil fosse um país amigo ele possuía pretensões de caráter imperialistas na região.

No que diz respeito à questão da superioridade racial ela teria sido afirmada por José Ingenieros. Para ele a Argentina teria condições de superar o Brasil e o Chile na região por possuir um povo de raça branca, além de um vasto território, terra fecunda e clima temperado. Estes elementos permitiriam, assim que a Argentina se tornasse uma hegemonia na América do Sul. (ETCHEPAREBORDA, 1978).

Outra figura importante desse período foi Luis P. Tamini que publicou vários artigos na revista de Zeballos “Revista de Derecho, Historia y Letras”. Este autor considerava nociva a aproximação que estava ocorrendo por volta de 1912 entre Argentina, Brasil e Chile argumentando que acordos diplomáticos deste tipo limitavam a liberdade de ação argentina. (ETCHEPAREBORDA, 1978). Tamini considerava inevitável a guerra contra o Brasil e é clara sua visão preconceituosa do país vizinho. Segundo ele “la Argentina compensa con su fuerza moral la material del Brasil” (ETCHEPAREBORDA, 1978, p.124).

Portanto, existia na Argentina na década de 1880 e início da década de 1890, parte da elite dirigente argentina que compartilhava de uma corrente de pensamento a qual tinha por inspiração o “Destino Manifesto” norte-americano e também teorias de base geopolítica e social que a alimentavam. Tal corrente contribuiu dessa forma para alimentar a rivalidade entra Argentina e Brasil no período na medida em que, de um lado, proclamavam a superioridade argentina e seu desejo expansionista, e, de outro, viam o Brasil como uma ameaça constante por considerá-lo um país com pretensões imperialistas.

No que se refere ao Brasil, Capelato (2000), avalia qual era a visão do país quanto ao seu lugar no continente. Segundo a autora, havia divergências no que se refere ao caminho que o país deveria adotar para ter um “futuro grandioso”. Havia os defensores de uma união pan-americana sob hegemonia dos Estados Unidos e outros que viam com maus olhos os países hispânicos.

Eduardo Prado, por exemplo, era um monarquista e considerava o Brasil superior aos seus vizinhos por ali ser lugar de ditaduras, guerras civis, autoritarismo. Esta visão era compartilhada por Oliveira Lima em uma coletânea de textos escrita entre 1903-1906 intitulada, “Impressões da América Espanhola”. Porém, este autor era favorável a uma união latino-americana para fazer frente aos Estados Unidos. (CAPELATO, 2000).

Capelato (2000), ao analisar o pensamento dos autores brasileiros deste período afirma que o Brasil considerava-se um país fora do continente latino-americano e superior aos seus vizinhos da América Espanhola acreditando estar destinado a “um futuro grandioso no continente”. Esta postura teria sido responsável pela não aproximação do país com os vizinhos, o que só mudaria a partir da década de 1980 por um conjunto de problemas comuns que levaram à necessidade de uma união e que, ainda hoje, prejudicaria, até certo ponto, o projeto de integração latino-americano.

No Brasil esta crença foi alimentada principalmente pelo pensamento de geopolíticos, sobretudo pelas idéias de Travassos e Meira Mattos. Marina Regina Soares Lima em seu artigo publicado na Revista Brasileira de Comércio Exterior, intitulado “Política externa brasileira. Aspiração internacional e política externa” também analisa essa questão. Ela descreve que especialistas afirmam que a política externa brasileira é estável e que esta estabilidade está relacionada à

uma aspiração compartilhada pelas elites brasileiras desde o início da formação nacional do país, a saber, a crença de que o país está destinado a ter um papel significativo na cena nacional e o reconhecimento desta condição pelas principais potências mundiais, em função de suas dimensões continentais, de suas riquezas naturais e da ‘liderança natural’ entre os vizinhos.(SOARES de LIMA, 2005, p.5-6).

Segundo Camargo (1987), o Brasil era visto como um país isolado na região cujos vizinhos estavam sob liderança Argentina. “Esta percepção de que a Argentina constituía o adversário mais forte do Brasil no continente, fazia parte da bagagem intelectual dos militares, a partir, sobretudo da Guerra do Paraguai, tendo sido reforçada posteriormente pelos constantes conflitos territoriais e pela disputa pela hegemonia na região sul-americana”. (CAMARGO, 1987, p.22).

A autora descreve a percepção do general Tasso Fragoso que fora adido militar na Argentina entre 1909 a 1911, o qual acreditava que a Argentina seria predestinada a ser líder na América do Sul. Além disso, Fragoso declarou que era desejo daquele país reconstituir o vice-reinado do Prata sob sua hegemonia. (CAMARGO, 1987).

Camargo (1987) assinala ainda que para os militares da década de 1930, a Argentina pretendia isolar o Brasil na América do Sul.

Um dos principais geopolíticos brasileiros foi Mario Travassos que ganha destaque com seu primeiro livro “Projeção Continental do Brasil” de 1931. De acordo com o Mattos o pensamento de Travassos teve forte influência não só no meio geopolítico brasileiro como também no sul-americano sendo inclusive muito discutido principalmente na Argentina.

O autor preocupou-se, principalmente, com projetos geopolíticos, visando a elevar o Brasil à posição incontestável de primeira potência de nosso subcontinente austral [...]. Propôs o que está sendo realizado, os hoje ‘corredores de exportação’, carregando para os nossos portos sulinos – Santos, Paranaguá, Porto alegre e Rio Grande – o interesse econômico do nosso território platino (o maior território desta bacia internacional). (MATTOS, 2002, p.86).

Miyamoto (1995) mostra como Travassos fez uma análise da posição ocupada por Buenos Aires no continente, pois suas ferrovias estavam ligadas a Santiago, Assunção e La Paz o que lhe permitia ter uma saída também para o Atlântico além de lhe possibilitar maior influência nos Andes. Tais fatos levaram Travassos a definir o país vizinho como um fator de ameaça, pois poderia desequilibrar a situação regional ao seu favor.

Neste sentido, o autor apontava as tendências centrífugas que ameaçavam a bacia platina.

Primeiro, está a má posição da foz do Prata, que por simples questão de latitude se torna secundária, notadamente quanto aos portos de Santos e são Francisco. Depois, o domínio da bandeira argentina em algumas da bacia platina – os paises mediterrâneos (Paraguai e Bolívia) gostariam de dispor de novos caminhos para o Atlântico. Por fim as comunicações ferroviárias brasileiras que, apesar das vacilações de nossa política viatoria e inúmeras causas dissociadoras, cada vez mais vão pesando na balança. (TRAVASSOS, 1935, p.123-124).

A década de 1940, por sua vez, foi um período marcado por desconfianças em razão de suas posturas distinta na guerra mundial. Enquanto o Brasil apoiou os Aliados a Argentina demorou a abandonar sua posição de eqüidistância gerando desconfianças em relação a este país acreditando-se que poderia estar ao lado do Eixo. (CAMARGO, 1987).

Outro motivo de desconfiança foi a postura do governo argentino Perón, que declarou a chamada Terceira Posição, que era, em resumo, a escolha de não alinhamento a nenhum dos dois pólos que haviam se formado no pós-guerra. “Para o Brasil, esta aproximação com o Terceiro Mundo implicava uma tentativa de Buenos Aires de criar um bloco de estados hispano-americanos através da reconstituição do Vice-Reinado Colonial do Prata. (CAMARGO, 1987, p.25).

Segundo Miyamoto (1995), os anos 1940 foi o período mais importante da geopolítica no Brasil. O trabalho de Travassos inspirou outros autores e o clima da guerra também teria contribuído para o aumento das discussões nesta área. Para o autor, este momento foi importante, pois serviu como uma espécie de ensaio para trabalhos posteriores em um contexto que se cria a Escola Superior de Guerra (ESG).

A ESG é criada no contexto da Guerra Fria e foi responsável pela formulação da Doutrina de Segurança Nacional (DSN). Neste momento surge uma nova geração de geopolíticos no país dentre eles Golbery do Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos.

De acordo com Miyamoto, é nos trabalhos de Golbery Couto e Silva que se podem encontrar os principais eixos do pensamento da ESG.

A geopolítica de Golbery do Couto e Silva está fundamentada nas concepções de Segurança Nacional. Através da tentativa de resguardar o território nacional propôs a elaboração de um plano geopolítico que abrangesse todo o território, protegendo-o, ao mesmo tempo em que se ocupa o espaço vazio (MIYAMOTO, 1995, p.98).

Outro geopolítico que se destacou no período foi o general Meira Mattos que acreditava que o Brasil poderia se tornar não somente uma potência continental, como pensava Travassos, mas uma potência mundial.

Mattos (2002) resume suas principais idéias as quais também foram muito importantes para o pensamento geopolítico brasileiro. Como ele próprio afirma, suas idéias foram inspiradas nas teses de Travassos, contudo, enquanto este previa um destino de potência continental para o Brasil, aquele argumentava que o país tinha todas as condições necessárias para se tornar uma potência mundial.

Abaixo os principais pontos presentes em seus trabalhos:

-o Brasil possui condições para virar uma das potências mundiais;

-para isto, terá que empreender um Amplo Projeto de Desenvolvimento Social;

-este projeto, visando todo o território, terá que dar prioridade à área da Amazônia;

-nosso Projeto de Desenvolvimento deverá respeitar a vocação e o estilo de vida democráticos do povo;

-o desenvolvimento da Amazônia deverá ser tratado por meio de uma ação de vontade política conjunta de todos os oito paises condôminos da imensa bacia internacional; e

-a Segurança Nacional não poderá ser descuidada, e sua necessidade crescerá na medida do êxito do projeto desenvolvimentista. (MATTOS, 2002, p.88).

Mattos (2002) faz uma descrição dos principais geopolíticos brasileiros e conclui que embora cada autor tenha dado ênfase à determinadas idéias e projetos geopolíticos para o país, existe um tema central que é comum a todos: “o Brasil possui todas as condições geográficas e humanas para se tornar uma grande potência.”(MATTOS, 2002, p.94).

Mattos (2002) argumenta que embora existam várias definições do conceito de potência, todos levam em consideração cinco elementos: “dimensão geográfica, população, posse de recursos naturais, capacidade tecnológica e científica e coesão interna”. (MATTOS, 1979, p.101).

Dessa forma, o autor vai argumentar utilizando-se, inclusive, de dados para comprovar sua afirmação, que o Brasil teria todas as condições para se tornar uma potência não apenas regional, mas mundial.

Nas palavras do autor,

A apreciação dos atributos essenciais de potência selecionados por tantos estudiosos da ciência política e da geopolítica revela a nós, brasileiros, que possuímos todas as condições para aspirarmos a um lugar entre as grandes potências do mundo. (MATTOS, 1979, p.102).

De acordo com Miyamoto (1995), o governo de Castelo Branco estabeleceu a conduta da política externa brasileira de seu governo baseando-se na doutrina esguiana. Porém, com Costa e Silva e mais tarde Médice, a ESG é mantida longe da formulação da política brasileira. Já no governo Geisel ela volta a ter certa importância embora não na mesma intensidade que durante o primeiro governo militar.

Segundo Miyamoto (1995), durante os governos militares o número de trabalhos em geopolítica não aumentaram, contudo, o assunto continuou sendo importante embora agora estivesse mais voltado para a projeção do país considerando não apenas suas características geográficas, mas também aspectos econômicos. No período militar o Brasil conseguiu um grande e rápido desenvolvimento econômico em virtude das políticas desenvolvimentistas adotadas no período que possibilitaram ao país viver o que se denominou de Milagre Econômico Brasileiro. O período do Milagre ocorreu durante os anos de presidência do governo Médice que procurou enaltecer a imagem do país utilizando-se de slogans como “Pra frente Brasil”, “Ninguém segura este país” alimentando a ideologia do “Brasil Potência”. Esta idéia já vinha sendo desenvolvida nos anos 40 e 50 e permaneceram nos trabalhos dos geopolíticos nas duas décadas posteriores principalmente em Meira Mattos, Pimentel Gomes e Eduardo Celestino Rodrigues, sendo que, estes dois últimos, utilizaram-se de dados econômicos para suas análises.

Segundo Camargo (1987, p.25)

Nos últimos anos da década de 60 e no princípio dos anos 70, apesar da coincidência dos modelos políticos adotados pelos dois países – ambos eram governados por regimes de segurança nacional – persistia a imagem de uma Argentina com vocação expansionista, pronta a engolir seus vizinhos continentais.

Em 1974, por exemplo, a Argentina inaugura a Central de Atucha, com conseqüente desconfiança brasileira de que o país estaria apto a fabricar armas atômicas.

De acordo com Miyamoto (1995), os trabalhos dos geopolíticos brasileiros como Golbery do Couto e Silva, Carlos de Meira Mattos, Paulo Henrique da Rocha Correia, Therezinha de Castro, Álvaro Teixeira Soares e outros, “Sempre foram utilizadas pelos geopolíticos do continente para tentar mostrar que a política brasileira era fundamentada nas concepções desses autores brasileiros” (MIYAMOTO, 1995, p.134).

Para Santos (1987), a geopolítica do Brasil ao contrário da Argentina não permaneceu no nível teórico, mas foi aplicada na prática. A instituição que sistematizou a geopolítica da Argentina, o Instituto Argentino de Estudios Estratégicos (INSAR) só foi criada em 1969 e não teve influência na elaboração da política externa daquele país como teria ocorrido no Brasil. Para a autora o que houve foi apenas uma coincidência entre as ações estatais e as teorias elaboradas no âmbito do INSAR.

Por volta da década de 60, surgem trabalhos geopolíticos que preconizavam a projeção internacional que o Brasil estaria apo a exercer, e, em contrapartida, aparece principalmente na Argentina, um número considerável de trabalhos que visam a criticar esta pretensão brasileira. Ou seja, em um determinado momento a Geopolítica argentina passou a preocupar-se com a formulação de projetos defensivos para fazer frente à Geopolítica ofensiva no Brasil. (SANTOS, 1987, p.98).

Segundo a autora, os precursores do pensamento geopolítico argentino foram Sarmiento, que escreveu sobre as articulações do Rio da Prata e Alberdi que defendia a não participação Argentina, ao lado brasileiro, na Guerra do Paraguai. Outro nome importante teria sido o chanceler Estanislao Zeballos que realizou estudos sobre a região de Missões.

Vários militares também merecem destaque como: Juan E. Guglialmelli, Atencio, Briano, Juan D.Perón, Isaac Rojas, entre outros.

Segundo Camargo (1987), os geopolíticos argentinos definiam seu “projeto nacional” tomando por base os trabalhos da geopolítica no Brasil. Eles argumentavam que o país, desde o período colonial, considerava o território como sinônimo de poder e por isso temiam um expansionismo brasileiro. Os geopolíticos argentinos consideravam que o desejo brasileiro de integrar a Bacia do Prata à Bacia Amazônica era um exemplo dessa “vocação expansionista”.

Camargo (1987) também descreve que os Argentinos acusavam o Brasil de ter uma “aliança automática” com os Estados Unidos e que o apoio norte-americano e de suas multinacionais teriam como conseqüência um prejuízo à economia Argentina que ficaria restrita à produção de bens primários.

Segundo Russel e Tokatlian (2003) durante as décadas de 1930 e 1940 a preocupação da Argentina era com o equilíbrio sub-regional durante o conflito mundial A postura brasileira de alinhamento aos Aliados durante a Segunda Guerra gerou na Argentina “uma nueva visión del Brasil, inscripta em la lógica de la rivalidad geopolítica, como ‘país llave’ de la acción futura norteamericana em el continente.” (RUSSEL; TOKATLIAN, 2003, p.383)

Segundo Santos (1987), os geopolíticos argentinos sempre se preocuparam muito com a hegemonia e com a expansão territorial brasileira não só em relação a seu país, mas também a todo o continente.

Russel e Tokatlian apontam as principais preocupações da Argentina em relação ao Brasil

La relación con o país vecino se definió en clave de rivalidad desde el acento en el desequilibrio del poder entre ambos países con una indisimulada envidia por los resultados del milagro brasileño; y la teoría de la dependencia, que destacaba el peligro del ‘subimperialismo brasileño’en la cuenca del Plata y el papel del Brasil, a partir de una alianza privilegiada con Washington, de gendarme de los Estados Unidos en la sub-región. (RUSSEL; TOKATLIAN, 2003, p.388).

De acordo com os autores, surgiu neste contexto uma série de trabalhos geopolíticos. De um lado havia os que destacavam a rivalidade argentino-brasileira apontando o perigo de que a balança de poder pendesse para o lado brasileiro; e, de outro, os que defendiam uma cooperação entre os dois países como forma de superar o desenvolvimento que lhes era condição comum. Contudo, segundo os autores, esta aliança tinha, na verdade, o objetivo principal de conter o poder brasileiro. Portanto, era uma estratégia de formar uma aliança para restringir seu sócio.

Porém, também foram produzidos no período trabalhos que não eram de matizes geopolíticas favoráveis à cooperação sob o argumento a semelhanças históricas e geopolíticas dos dois países além de percepções comuns de seus lugares no sistema internacional. Exemplo disso foi o livro de Celso Lafer e Felix Penha, publicado em 1973. (RUSSEL; TOKATLIAN, 2003)

Mas foi também na década de 1970 que a rivalidade argentino–brasileira atingiu alto grau de intensidade. O principal fato que marcou essa rivalidade e que gerou uma série de críticas por parte dos geopolíticos argentinos foi a construção da Usina de Itaipu.

Yahn Filho (2005, apud CAUBET, 1989) explica que “a exploração integrada do potencial econômico das bacias hidrográficas do Cone Sul não é uma novidade incorporada pelo Tratado da Bacia do Prata. Seus antecedentes, no século XX remontam a acordos assinados desde a década de 1930.”

O projeto de construção de uma usina em conjunto com o Paraguai para o aproveitamento do potencial hidrográfico de Sete Quedas gerou protestos argentinos. De um lado havia a questão técnica de que a construção de Itaipu prejudicaria o aproveitamento da usina argentina de Corpus e, de outro estavam, as razões geopolíticas, visto que na visão argentina o projeto representava um desequilíbrio na balança de poder no Cone Sul.( MELLO, 1996).

De fato, a controvérsia Itaipu-Corpus se inseria nas concepções desenvolvimentista e geopolítica dos militares e argentinos, uma vez que, por um lado, a energia era de fundamental importância para a industrialização dos dois países, e, por outro, estava em jogo a disputa pela supremacia na América do Sul. (YAHN FILHO, 2005, p.89).

Esta mesma visão é compartilhada por Bandeira

Mas à medida que se atribuía significado geopolítico à industrialização, da qual a capacidade de geração de energia representava fator fundamental, os obstáculos da Argentina à construção de Itaipu constituíam reações defensivas vis-à-vis a expansão econômica do Brasil, que já erguera, sobre o rio Paraná, as hidrelétricas de Urubupungá, Jupiá, Ilha Solteira e acari [...].( BANDEIRA, 1987, p.49).

O Bandeira (1987) relata que o projeto de Itaipu foi fortemente criticado pelos geopolíticos argentinos principalmente por Isaac Rojas que descrevia o projeto como uma forma de o Brasil exercer sua “vocação imperialista”.

Declaração de Rojas frente à construção de Itaipu

se construísse a represa brasileiro-paraguaia em Itaipu, ou seja, 17 Km águas acima da desembocadura do Iguaçu, com nível de restituição baixo (105m sobre o nível do mar), as águas impedidas de não elevarem-se em Iguaçu circularão pelo canhão até Corpus com grande pendente, e haverão consumido, necessariamente, a energia potencial de que dispunham em Iguaçu, não ficando um desnível para utilizar em Corpus, que, portanto, não poderia construir-se. Em conseqüência, essa solução parcial que se intenta dar entre Paraguai e Brasil ao problema da singularidade geográfica não é conveniente (ROJAS apud SANTOS, 1987, p.102).

A mesma visão era compartilhada por Guglialmelli que argumentava que “o Brasil levantará, associado com o Paraguai, a represa de Itaipu, com uma cota de descarga de 105 metros, não obstante que esta altura afetará o rendimento ótimo de Corpus”. (SANTOS, p.102, 1987).

Assim, Santos (1987) coloca que na visão dos geopolíticos argentinos a construção de Itaipu era “um projeto eminentemente político” que pretendia consolidar a influência brasileira sobre Assunção e era condizente com a vocação hegemônica do Brasil.

Massot (1995), afirma que as formulações geopolíticas brasileiras preocupavam os argentinos, pois elas tinham a influência necessária para que fossem transformadas em objetivos do governo. Destaca neste sentido Golbery do Couto e Silva cujas idéias eram resultado, em parte, do pensamento esguiano e de grupos de pressão do país. O mesmo não ocorria com Isaac Francisco Rojas e Juan Henrique Guglialmelli os quais não tinham nenhum poder de decisão no âmbito da política do país.

Após a resolução da questão da construção das hidrelétricas de Corpus e Itaipu, com a assinatura do Acordo Tripartite em 1979, o clima de rivalidade diminui e Argentina e Brasil começam a caminhar para um processo de cooperação.

Com a redemocratização nos dois países deixou de existir a tese do imperialismo brasileiro que tanto fora alimentado pelos trabalhos desses geopolíticos. Assim, os países não mais levariam em conta aspectos da geopolítica na tomada de suas decisões prevalecendo uma visão integracionista e cooperativa. (MIYAMOTO, 1995).

Massot (1995) explica que a “inimizade” fora construída neste período em razão do pensamento dos geopolíticos argentinos e brasileiros os quais sofreram influências das idéias sobre hipóteses de conflito formuladas na Europa, na segunda metade do século XIX. Assim, os geopolíticos dos dois países teriam criado “uma teoria de la confrontación que hallaba su epicentro em la Cuenca del Plata”(MASSOT, 1995, p.221).

Porém, razões de ordem externa como a queda do muro de Berlim, a globalização econômica e a necessidade dos países de se inserirem nesse novo contexto, somados com o fim das formulações geopolíticas e da idéia de que o Cone Sul era local de disputa de duas supremacias, teriam contribuído para por um fim no que o autor chama de “equilíbrio de inimizades”. (MASSOT, 1995).

Portanto, ao analisar a história de relações entre Argentina e Brasil, nota-se que a rivalidade não foi somente construída baseando-se em fatores concretos, como por exemplo, levando-se em conta o potencial econômico e militar do outro país. Claro que tais fatores são importantes, mas o que se verifica é que as idéias, sobretudo de geopolíticos, tanto em relação à imagem de seu respectivo país, quanto relativa à imagem do outro, são elementos muito importantes para que se compreenda como se estabeleceu a rivalidade argentino-brasileira.