AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

Daniela Cristina Comin

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Capítulo 3. A passagem da cultura Lockena para a cultura Kantiana: de rivais a amigos

As relações entre Argentina e Brasil foram marcadas durante muito tempo pela rivalidade, porém nunca chegando a uma guerra de fato. Tendo em vista a teoria de Wendt (1999) isto significa dizer que a estrutura ou a cultura existente era a Lockeana onde o papel que um atribuía ao outro era o de rival. Desta forma, nenhum dos dois países buscava a destruição do outro porque a soberania era respeitada, ou seja, era uma instituição compartilhada entre os dois países. Além disso, predominava a balança de poder, outra característica desta cultura. Argentina e Brasil balanceavam poder no sub-continente de modo que um buscava impedir que o outro se torna-se uma hegemonia regional.

Porém, a partir da década de 1980, a rivalidade perde força dando lugar a uma relação mais cooperativa que se desenvolve e culmina em 1991, com a assinatura do Tratado de Assunção cujo principal objetivo era o de constituir um Mercado Comum. Neste sentido, cabe a pergunta: como esta mudança foi possível?

Segundo Wendt (1999), a estrutura é sustentada pela prática dos agentes que dela fazem parte e tais práticas têm como fundamento suas identidades. Estas por sua vez são constituídas endogenamente embora parte delas seja individual. Desta maneira, uma mudança na estrutura implica em uma mudança nas identidades dos agentes que a constituem. Seguindo este raciocínio cabe buscar os fatores que fizeram com que Argentina e Brasil mudassem suas identidades, permitindo desta forma que houvesse uma mudança da cultura Lockeana para a cultura Kantiana na qual o papel predominante é o de amigo.

O primeiro destes fatores é a resolução da questão do aproveitamento das águas da Bacia do Prata mediante a assinatura do Acordo Tripartite de 1979 que colocou fim a um dos maiores momentos de rivalidade. Bandeira (1998) coloca que no momento da assinatura do acordo a Argentina estava envolvida em um conflito com o Chile e que, assim como o Brasil, também enfrentava pressões dos Estados Unidos relativas à política de direitos humanos de Carter. Por isso não era interessante para nenhum dos dois se envolver em novos desentendimentos. Assim, o acordo parece ter sido motivado por interesses egoístas, mas abriu caminho para as atitudes cooperativas que se seguiram. Isto remete ao argumento de Wendt (1999) de que atores podem fazer certas coisas mesmo que ainda não tenham as identidades que as práticas eventualmente irão criar.

Porém, mesmo antes da questão de Itaipu ser resolvida, intelectuais já refletiam a respeito da aproximação entre os dois países, como bem demonstra o livro de Lafer e Peña de 1973. Os autores colocam que o sistema de relações internacionais estava passando por mudanças e que os conflitos internacionais não seriam mais caracterizados pelo confronto nuclear, mas industrial e tecnológico e, desta forma, as potências seriam agora aqueles países com melhores condições de transferência internacional de recursos. É nesse contexto que os autores inserem a discussão de qual seria o papel dos países latino-americanos nessa nova forma de configuração do poder mundial.

Neste sentido, argumentam que Argentina e Brasil deveriam dar início a ações conjuntas, pois eram países com característica semelhantes: ambos foram dominados por potências hegemônicas e agora se encontravam em uma mesma posição no sistema internacional. Poder-se-ia dizer, que possuíam um destino comum. Vale lembrar que para Wendt (1999), o destino comum pode levar a formação de uma identidade coletiva. Assim, os países deveriam valorizar o contexto regional latino-americano “na perspectiva de uma estratégia de participação autônoma real e significativa no sistema internacional”. (LAFER; PEÑA, 1973, p.44). Desta forma, nota-se a percepção desde a década de 1970, de desafios comuns que deveriam ser enfrentados a partir de uma ação conjunta, embora este período ainda tenha sido caracterizado por rivalidade.

A década de 1980 foi um período muito difícil particularmente para os países da América Latina. O modelo de desenvolvimento econômico de substituição de importações mostrou-se esgotado. Além disso, os choques do petróleo da década anterior fizeram com que a dívida externa dos países latino-americanos se ampliasse em decorrência do aumento da taxa de juros mundial. Concomitantemente, assistia-se a uma bem sucedida evolução da integração na Europa que influenciou a elaboração das teorias de integração que por sua vez, também tiveram influência na aproximação entre Argentina e Brasil (OLIVEIRA, 2003, p.54).

Até a década de 1980, os governos da Argentina e do Brasil haviam dado pouca atenção à questão da integração , pois os modelos nacionalistas de desenvolvimento haviam proporcionado resultados satisfatórios até então. (VIGEVANI, 2005). Porém, o contexto interno e internacional dessa década levou os governos à quebra do consenso em relação a este modelo de desenvolvimento. Além disso, a assinatura do Acordo Tripartite representou uma vitória dos governos argentino e brasileiro em relação às resistências dos setores militares que tinham leituras não cooperativas da soberania nacional (VIGEVANI, 2005). Vale lembrar que as teorias geopolíticas tiveram forte influência na construção dos papéis de rival que havia predominado até então. Desta forma, também houve uma quebra do consenso em relação à idéia de que o Cone Sul era local de disputa de duas supremacias.

Embora Russel e Tokatlian (2003) não considerem que a democracia, a interdependência e uma reconstrução de uma identidade comum como os elementos que tenham sido responsáveis pela mudança na estrutura de rivalidade - “o fator chave foram as taxas diferenciadas de crescimento em favor do Brasil que tornaram inviável a estratégia argentina de restrição do poder brasileiro mediante o mecanismo de equilíbrio” (RUSSEL; TOKATLIAN, 2003, p.401) -, afirmam que a redemocratização possibilitou dar os primeiros passos em direção a uma nova cultura na qual o “outro” é percebido em termos de amizade.

Assim, o contexto de crise do período, o fim das teorias geopolíticas que alimentavam a rivalidade, a influência da integração européia e as idéias de alguns intelectuais dentro da Argentina e do Brasil teriam levado os dois países a uma reflexão crítica sobre o papel do “Outro”. Além disso, ambos estavam passando por um período de redemocratização (Argentina em 1983 e o Brasil em 1985). A mudança de governos comprometidos com a democracia também foi elemento essencial para que esta reflexão crítica ocorresse.

Segundo Fabbri (2005) os governos Alfonsín e Sarney viram seus países emergirem de um longo período de autoritarismo e entrarem em um caminho frágil da democracia. Além disso, havia a percepção mútua da vulnerabilidade econômica em razão do problema da dívida. Estes fatores fizeram os presidentes a buscarem alternativas abandonando as ações unilaterais. Desta maneira, emergiu uma proposta comum de liderança compartilhada na região através da consolidação da paz e da democracia no Cone Sul, visto que entenderam que apenas processos regionais poderiam ajudar para estabilização política e econômica da região.

Celso Lafer (1997) coloca que a redemocratização teve papel importante no sentido de eliminar a perspectiva de que o desenvolvimento de armas nucleares fortalecia o papel dos militares nos sistemas políticos da Argentina e do Brasil. Ou seja, com o advento da democracia a questão dos armamentos nucleares ganha um novo sentido para os dois países. O poder político não é mais medido em termos de quem tem mais armas nucleares, mas sim em termos de quem melhor consegue inserir seu país no novo cenário internacional.

Estou, no entanto, de acordo com a postulação de inspiração kantiana de que foi a chegada da democracia e a preocupação com os direitos humanos que fizeram o relacionamento mudar quase que imediatamente de patamar e de feição. Se a coincidência de regimes autoritários favorecia uma percepção algo semelhante da ordem internacional e da ordem interna, alimentava também a suspeita mútua no bilateral e sub-regional. A simultaneidade agora de regimes civis democráticos desarmava a tensão, e agregava um elemento de parceria na necessidade que sentiam os dois governos de afirmar e consolidar o controle civil e democrático sobre os militares. (LAFER, 1997, p.254).

Outro fator importante para entender a mudança de estruturas foi a ajuda brasileira à Argentina na Guerra das Malvinas em 1982. Segundo Bandeira (1995), o Brasil, na teoria, manteve uma postura neutra, mas forneceu à Argentina material bélico e oficiais - já que os argentinos não tinham pessoal apto para pilotarem os aviões brasileiros.

Assim, o Brasil ao fornecer ajuda pretendia demonstrar que a Argentina era vista não mais como um rival, mas como um amigo. Ou seja, o Brasil buscou com esta prática mudar a identidade da Argentina de modo que fosse possível uma mudança no sistema de interação, já que para mudar sua própria identidade é necessário mudar também a identidade do outro. Mais um exemplo seria a iniciativa unilateral adotada pelo Brasil logo após sua derrota na Guerra das Malvinas. “A primeira medida de Sarney, em 1985, foi ordenar a importação pelo Brasil de 1,3 milhão de t de trigo, além de petróleo cru e derivados, a fim de aliviar o déficit comercial da Argentina, que chegaria naquele ano, a US$ 400 milhões (...).” (BANDEIRA, 1987, p.74).

Em relação à Guerra das Malvinas, Campbell, Rozemberg e Svarzman (2000, p.35) descrevem que

A derrota das Malvinas implicou não só a ruína política definitiva do governo militar como o surgimento de um consenso crescente, tanto na classe política como no conjunto da sociedade, em torno da necessidade de viabilizar mudanças drásticas na orientação global da política exterior.

Pode-se dizer a partir desta afirmação que com a derrota na Guerra das Malvinas houve na Argentina um momento de reflexão em relação ao comportamento do país na condução de sua política externa. Ou seja, a derrota trouxe conseqüências cujas soluções exigiam uma nova tomada de posição. O contexto internacional também levou aquele país a uma reflexão crítica em relação ao papel do vizinho. Segundo Bruno

Num plano global, havia entre os policy makers argentinos a correta impressão de que, a despeito do conflito leste-oeste ainda ativo, o mundo avançava a passos firmes para a conformação de um novo político-econômico, fundado na existência de grandes espaços regionais (EUA somado a Canadá e México, o Mercado Comum Europeu, a URSS e o COMECON e, de forma ainda incerta, o sudoeste asiático articulado em torno dos investimentos japoneses e dos grupos de origem chinesa dessa região). Em conseqüência, a discussão econômica, a administração das principais variáveis da política comercial e até a própria “gestão de poder” estavam se transferindo de tradicional órbita nacional para a regional (1987 apud CAMPBELL; ROZEMBERG ; SVARZMAN, 2000, p.37).

Outros elementos importantes que teriam sido responsáveis pela reflexão crítica em torno da estrutura de papéis das relações argentino-brasileiras foi a atuação conjunta em fóruns internacionais. Em relação a este segundo fator Alvarez (2000, p.93-94) coloca que

Esta América Latina fragmentada y balcanizada de innicios de la década del ’80 encuentra em las presiones transnacionales de la negociación de la deuda um factor de aglutinación a partir de uma percepción de intereses comunes. Em este contexto de redemocratización la diplomacia latinoamericana elabora el “Consenso de Cartagena”, que fue citado em varias entrevistas como um momento decisivo em el cambio de las relaciones entre Brasil y Argentina [...] La crisis de la deuda externa produjo el Consenso de Cartagena que opera como anticrisis que lleva a superar la inércia de las relaciones entre Brasil y Argentina. Más allá de los resultados obtenidos este forum es el contexto donde se inicia la aproximación diplomática entre Brasil y Argentina, dos estados tenían uma relación marcada por el antagonismo y desconfianza. Desde el punto de vista de las representaciones de los actores este es um periodo valorado por la construcción de confianza mutua y aproximación.

O Consenso de Cartagena (1984) era a representação dos países latino-americanos em relação ao problema da dívida. Argentina e Brasil também tiveram participação ativa no Grupo de apoio da Contadora que tinha como objetivo buscar soluções para a crise centro-americana. Esta ativa participação somada ao apoio à construção e consolidação dos regimes democráticos nos demais países da região produziu um contexto favorável à identificação de interesses comuns. (CAMPBELL; ROZEMBERG; SVARZMAN, 2000).

Neste sentido, estes fóruns podem ser entendidos como plataformas organizacionais, isto é, espaços intelectuais onde se condensam conhecimento e informação e onde é elaborado o que os construtivistas chamam de evolução cognitiva. (OLIVEIRA, 2006). “Evolução cognitiva é uma teoria do aprendizado internacional, se entendermos por aprendizado a adoção, por policy-makers, de novas interpretações da realidade, a cada vez que forem criadas e introduzidas no sistema político por atores individuais e sociais.”(ADLER, 1999,p.227-228).

Além destes fóruns, encontros entre políticos e intelectuais argentinos e brasileiros como o ocorrido em 1981 em Buenos Aires também foram importantes para construir novos entendimentos coletivos “os quais, por sua vez, moldam as identidades e os interesses, e consequentemente as expectativas, dos atores sociais” (ADLER, 1999, p.277).

O encontro sobre as “Relações entre Argentina e Brasil” realizado em Buenos Aires nos dias 27, 28 e 29 de Novembro de 1981, contou com a cooperação da Fundação Getúlio Vargas, e com patrocínio do banco de la Nación Argentina e do Banco do Brasil, com a colaboração do Conselho Empresarial Argentino – Brasileiro e teve como coordenadores técnicos e relatores Félix Peña e Celso Lafer.

Este encontro foi importante na medida em que serviu como local de discussões e de formação de entendimentos acerca de desafios que eram comuns e que, portanto, poderia ser enfrentados conjuntamente. Uma análise dos pontos discutidos na agenda do encontro permite verificar o teor cooperativo das conversações. Os objetivos diziam respeito a medidas econômicas e políticas que poderiam ser tomadas em conjunto respeitando os diferentes pontos de vista e interesses de cada país. Além disso, buscava-se identificar valores e interesses comuns ou compartilhados. Interessante destacar ainda o objetivo em pauta de “acentuar o papel dos valores compartilhados na elaboração de um entendimento sólido e duradouro entre os dois países (dimensão cultural)”. (RBPI, 1981, p.8).

A análise dos artigos demonstrou que havia entre os políticos e intelectuais ali presentes a preocupação de comprovar quão importante era para os dois países uma maior aproximação nas mais diversas áreas, sobretudo tecnológica, de alimentos, industrial e cultural.

No que tange ao campo da cooperação industrial, Osíris Villegas , embaixador argentino, assinala que a importância do setor empresarial, “el hombre de negocios”, para que se desenvolva um maior fluxo de comércio e uma maior interdependência industrial entre Argentina e Brasil. Para o embaixador, os empresários deveriam dar continuidades às ações iniciadas pelos governos no campo econômico.

Asimismo deben interesarse por incrementar, permanentemente, dichas bases, porque son ellos los que, en forma activa, deben participar de su ejecución y de la distribución consiguiente de los lucros obtenidos y, no hay duda, son los que mejor sabrán defender sus intereses y velar para que los mismos se repeten. (VILLEGAS, 1981, p.93).

Para Villegas (1981), só haveria um intercâmbio cultural, técnico e econômico, positivo e autêntico entre Argentina e Brasil, quando estivesse consolidada a integração entre empresas, capitais e tecnologias, totalmente nacionais.

Luis Eulálio Vidigal apontava como uma das dificuldades para uma maior integração entre as economias dos dois países o escasso conhecimento de um em relação ao outro, o que dificultava a cooperação entre as indústrias, a viabilidade de novos investimentos, entre outros.

Da mesma maneira que Villegas, Vidigal (1981) apresentou a importância do setor empresarial. “Mais ainda, é o próprio empresariado dos dois países que deve tomar a iniciativa nessa aproximação e integração crescentes, procurando estabelecer uma linha comum de pensamento e atuação”. (VILLEGAS, 1981, p.99).

No mesmo sentido, argumentou Eduardo Braun Cantillo, “é indispensável tornar compatível os dois sistemas econômicos e essa tarefa exigirá enorme esforço tanto oficial quanto privado, para que se consiga um equilíbrio e se superem as discrepâncias que hoje subsistem no terreno ideológico” (CANTILLO, 1981, p.109).

No que tange a questão cultural, Guilherme Figueiredo (1981) defendeu uma maior integração neste campo, sobretudo no que se referia à educação das crianças para que existisse entre os países um maior conhecimento e para que haja o intercâmbio em áreas como a industrial e tecnológica.

Nota-se que para os participantes do encontro havia a preocupação de integrar todos os setores dos Estados no projeto de cooperação principalmente o econômico, embora este não fosse o único. Deveria, portanto, haver uma participação da sociedade no processo de integração regional e uma maior integração entre os países nas mais diversas áreas.

Fatos simbólicos também foram importantes para a desconstrução da imagem de rivalidade como relata Alvarez (2000, p.94-95)

El ex-presidente Sarney recuerda, lo que él denomina “la diplomacia de la foto”. Cuando se encontró com Alfonsín em 1984 posaron juntos para uma foto abrazados, com la imagen de la represa de Itaipu en el fondo: “Esa foto salió em la capa de todos los diarios. A pesar de que algunos diarios tenían uno o outro artículo donde se criticaba la aproximación bilateral, la foto em la que aparecíamos abrazados com Alfonsín tênia mayor impacto que mil palabras.” Esse abrazo, que tanto impacto produzo em la prensa, era el índice de um nuevo tipo de relación. Abri simbólicamente el camino para que sean superadas las tensiones y antagonismos que obstaculizaban el diálogo, los Ministerios de Relaciones Exteriores comenzaban a intercambiar propuestas e iniciativas destinadas a aproximar a los diferentes países [...].

Assim, alguns fatores fizeram com que certos consensos dentro da Argentina e do Brasil fossem quebrados principalmente no que diz respeito ao modelo nacionalista de desenvolvimento e às teorias geopolíticas que ao longo do tempo haviam alimentado a rivalidade. Isto levou a um processo de reflexão em relação ao papel que o other representava para o self e também em relação à identidade de self. Medidas como o apoio brasileiro à Argentina na Guerra das Malvinas foi uma maneira de mostrar àquele país que seu papel já era de amigo, levando-o a um questionamento em relação à sua própria identidade. Desta forma, as identidades de Argentina e Brasil modificaram-se e os dois países deram início a um processo de cooperação que logo depois levaria a constituição do Mercosul.

O primeiro passo formal em direção à integração foram a Declaração de Iguaçu e a Declaração Conjunta de Cooperação Nuclear assinadas em 1985 durante a inauguração da Ponte de Confraternização Tancredo Neves (CAMPBELL; ROZEMBERG; SVARZMAN, 2000).

Nas próprias palavras de Sarney

Em 1985, com apenas seis meses de Presidência, eu estava com Raúl Alfonsín assinando a Ata de Iguaçu, que consagrava uma vontade política de mudarmos a história do continente sul-americano, com o fim das divergências Brasil e Argentina, passando de uma atitude de confrontação para uma política de cooperação. Era necessário, para ingressarmos na chamada pós-modernidade, que se criasse um espaço econômico, político e cultural compacto para chegarmos a um mercado comum, nos moldes do exemplo europeu. E esse objetivo teria de passar por uma aliança estratégica entre Brasil e Argentina. (SARNEY, 2005).

Nota-se na própria declaração de Sarney como foi importante o fator “vontade política” para a integração, pois como assinala Vigevani, (2005, p.89) a “conveniência mútua” que levou à integração não surgiu através das leis do mercado, mas de interesses gestados em grande medida na sociedade política e no Estado. Neste mesmo sentido argumenta Mariano (2000, p.46), ao defender a idéia de que as primeiras alterações resultantes de uma integração regional não se dão no campo econômico, mas político, e argumenta que para que haja a integração e também a continuidade do processo integrador é de fundamental importância a existência de “vontade política”.

A Ata de Iguaçu de 1985 inaugurou as negociações bilaterais que se seguiram e que tinham por objetivo o aumento das relações comerciais, acordos complementares na área industrial e cooperação tecnológica. Para tanto, uma articulação burocrática binacional foi criada. (HIRST, 1997).

Criou-se assim uma força tarefa interministerial, com acesso direto ao mais alto nível político, cujo objetivo era fomentar resolutamente os aspectos técnicos das negociações. Paralelamente, e de modo mais reservado, estabeleceu-se um grupo informal de trabalho e consulta junto aos chamados capitães da indústria, a fim de obter seu aval político para a iniciativa e colher suas opiniões e inquietações de modo que facilitasse a identificação de fórmulas concretas para as negociações. Posteriormente, criou-se um comitê empresarial argentino-brasileiro, reservando-se os respectivos mandatários a possibilidade de incorporar novos membros. (CAMPBELL; ROSEMBERG; SVARZAMAN, 2000, p.49).

Além da assinatura da Declaração de Iguaçu e de 12 protocolos cujo objetivo era promover uma integração em diversos setores – comunicação, transporte, economia, tecnologia, energia, nuclear – também se assinou a Declaração Conjunta de Cooperação Nuclear, naquele mesmo ano. (CAMPBELL; ROSEMBERG; SVARZAMAN, 2000). Tal fato demonstra como já havia se criado um clima de confiança entre os dois países haja vista que a área de energia nuclear sempre foi uma preocupação de ambos durante o regime militar.

A Ata de Iguaçu criou em seu bojo a Comissão Mista de Alto Nível para Cooperação e Integração Bilateral , presidida por chanceleres e composta por peritos oficiais e representantes de empresas privadas. O objetivo da Comissão era apresentar programas, projetos e formas de integração já que a Ata não estabelecia um programa de integração propriamente (MARIANO, 2000).

O estabelecimento da Comissão Mista deixa clara a importância que era dada à participação de todos os setores das comunidades nacionais.

Porém não estabeleceu a forma como essa participação deveria se dar, apenas referindo-se a atuação do setor empresarial, entendida como agente dinâmico do processo. Essa característica pode ser explicada pelo fato da “Declaração” não consistir num programa, mas sim em um esboço do que viria a ser o Programa de Integração e Cooperação Econômica de 1986 (PICE). (MARIANO, 2000, p.49).

Segundo Hirst (1991 apud MARIANO, 2000) o objetivo dos governos era promover uma integração em setores que geravam conflitos entre os países - como o de transportes e trigo - além de buscar uma ampliação da cooperação por meio da promoção de iniciativas de complementação industrial e estatuto para empresas binacionais. Estas iniciativas visavam, sobretudo, eliminar a tradicional rivalidade. Nota-se que nesta fase inicial a principal preocupação era de consolidar o clima de cooperação que já existia e criar uma maior interdependência entre os países, mas não havia ainda um programa definido de quais etapas deveriam seguir a integração.

Embora a Ata de Iguaçu apresentasse a importância da participação das sociedades nacionais, a comunidade argentina em geral e os operadores políticos e econômicos não se mostraram muito interessados de início com a assinatura da Ata de Iguaçu; a maior parte do setor privado argentino via a integração mais como uma estratégia da política externa “progressista” do presidente argentino e de seu chanceler Caputo do que propriamente uma questão econômica. Da mesma forma, o setor privado brasileiro não mostrou interesse, pois aquele não era o mercado mais importante para a economia brasileira. (CAMPBELL; ROSEMBERG; SVARZAMAN, 2000).

A aproximação que vinha ocorrendo estabeleceu-se concretamente no campo político com a assinatura em 29 de Julho de 1986 do Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE).

Estabelecido pela “Ata para Integração Argentino – Brasileira”, de julho de 1986, o PICE determinava que a Comissão de Execução deveria avaliar o seu desenvolvimento, propor medidas, propor reuniões de consulta e incorporar, quando necessário, outras autoridades para propor medidas em campos específicos. Fazia parte do programa uma série de Protocolos setoriais que acabavam por definir os grupos de trabalho. (MARIANO, 2000, p.49).

Os protocolos que foram assinados ao longo de 1986 (inicialmente 12 aos quais foram sendo incorporados outros chegando a um total de 24 com a assinatura do PICE) tinham como princípios básicos o gradualismo, a flexibilidade e o equilíbrio e demonstravam que havia consciência por parte dos governos das conseqüências que a integração poderia acarretar caso não fossem seguidos tais princípios.

Os Protocolos abrangiam os mais diversos setores e visava criar uma maior interdependência entre Argentina e Brasil de modo a levá-los à integração. A consecução destes objetivos foi viabilizada pela articulação harmoniosa que ocorreu entre as burocracias dos dois países o que garantiu um dinamismo às tomadas de decisão. (MARIANO, 2000).

Em suma, todas essas iniciativas supunham a formulação de uma alternativa de desenvolvimento conjunto, por meio de um amplo programa de integração econômica entre os dois países na perspectiva do fortalecimento das economias nacionais, por meio da ampliação do mercado interno e da possível associação entre empresas dos dois países, elevando assim suas capacidades de produzir em escalas maiores, o que num segundo momento facilitaria a abertura comercial ao mundo externo e para a competitividade global, preservando ainda uma certa fronteira regional em relação ao espaço econômico mundial [...] No plano interno essas estratégias expressaram-se mais nitidamente no Brasil com o Plano Cruzado, mas também, num primeiro momento do Governo Alfonsín, com o Plano Austral [...].(OLIVEIRA, 2003, p.62).

Nota-se que com o decorrer do processo de integração começava-se a criar certa “identidade” entre as burocracias envolvidas o que garante a continuidade do mesmo. Fabbri (2005) argumenta que o PICE tornou-se possível em razão do entendimento intersubjetivo entre atores relevantes da Argentina e do Brasil, de que as relações bilaterais poderiam ser de cooperação e não de conflito, colocando fim às antigas rivalidades e desentendimentos e dando início a um novo modelo de relações.

Segundo Mariano (2000), no Brasil, as negociações ficaram à cargo do Itamaraty que fez a conexão entre os ministérios da área econômica, enquanto que na Argentina este papel foi exercido pelo Palácio San Martín. Segundo Hirst (1991 apud MARIANO, 2000), apesar da formulação das políticas de integração terem se concentrado no Itamaraty durante o PICE, alguns setores empresariais tiveram um papel ativo nas negociações inclusive conseguindo razoável poder de veto. A Ata de Integração conserva a noção do “empresariado ativo”, mas não traz como a declaração de Iguaçu o princípio da “participação de todos os setores das comunidades nacionais”. Porém,

Mesmo tendo mencionado a participação do setor empresarial, os mecanismos necessários para isto não foram determinados, e a forma de articulação das agências burocráticas também não estava esclarecida. Isso contrastava com o fato do PICE já ser um programa de integração econômica, e deste modo, seria natural apresentar uma estrutura decisória melhor delimitada. (MARIANO, 2000, p.51).

Ainda que tenha sido a primeira vez que tenha ficado explícita a intenção de constituir uma integração entre os países inclusive com o início da institucionalização desse processo, as negociações neste âmbito ficaram restritas aos Ministérios das Relações Exteriores argentino e brasileiro. Isso explica, em parte, o desinteresse de grupos sociais que viam com desconfiança a integração. (MARIANO, 2000).

Como assinala Vigevani (2005) não se considerou a inclusão de outros grupos e segmentos da vida política, social e econômica, como partidos políticos, parlamento, sindicatos e governos subnacionais.

Outro fator que explica o pouco entusiasmo dos grupos sociais e de outros órgãos governamentais foi o próprio contexto adverso. As economias dos dois países passavam por momentos de incerteza, ameaçadas por uma crise inflacionária, pela estagnação do crescimento e pelos contratempos que as respectivas dívidas externas geravam. Além disso, as democracias ainda não estavam bem consolidadas, pairando ainda percepções sobre ameaças de retrocessos e de golpes militares. (MARIANO, 2000, p.51).

Mariano (2000) afirma que tanto em relação à Declaração de Iguaçu quanto ao PICE optou-se por uma baixa institucionalização, concentrando-se na resolução de questões técnicas. Naquele momento o principal objetivo era dar agilidade, operacionalidade e eficiência ao processo. Acreditava-se que a participação de setores da sociedade ocorreria através de seus respectivos Estados Nacionais. (VIGEVANI, 2000).

Os próprios parlamentares brasileiros não se mostravam interessados no período pelo tema integração, apenas com o avanço do processo é que passa haver uma participação parlamentar em razão do aumento do interesse deste assunto por parte da sociedade temente das conseqüências que poderia sofrer. A ausência desta participação gerou um debate quanto ao déficit democrático da integração. A necessidade de incorporar setores sociais fez com que se cria posteriormente a Comissão Parlamentar Conjunta Subgrupo de Trabalho 11(SGT-11) que trata das questões trabalhistas e sociais. (VIGEVANI; MARIANO; OLIVEIRA, 2001).

Portanto, durante esta fase, não se verificou uma participação da sociedade em geral, de um lado, por razões de ordem interna – crise econômica e instabilidade política - e de outro, pelo fato de o próprio PICE não prever tal participação por não ser de interesse dos governos que ela ocorresse. O importante naquele momento era fazer com que o processo continuasse avançando e a participação da sociedade poderia prejudicar este avanço na medida em que setores que se sentissem prejudicados pela integração poderiam interferir.

Com o PICE gerou-se um aumento do intercâmbio comercial entre os países levando seus governos a almejarem uma estrutura institucional permanente de negociação que garantisse a continuidade da integração já que a conjuntura política e econômica em ambos era de instabilidade, como colocam Mariano e Oliveira (1999 apud OLIVEIRA, 2003). Segundo Oliveira (2003), os negociadores dos dois os países perceberam que seria necessária uma integração com o objetivo de promover uma inserção não-subordinada dos países e que, ao mesmo tempo, criasse as condições necessárias para a modernização empresarial e das estruturas produtivas dos mesmos. Havia assim, uma identificação de problemas comuns e a percepção de que a melhor saída era a integração.

Fabbri (2005) argumenta que o PICE (Programa de Integração e Cooperação Econômica) não emergiu de um vácuo, mas de um processo gradual de construção de confiança mútua que teve seu início em 1979 com a resolução da questão de Itaipu, e que prosseguiu com a assinatura de acordos nucleares a partir de 1980, com a Guerra das Malvinas, os problemas na área econômica e a redemocratização. Estas condições levaram os países a uma “dissonância ideacional” e a um progressivo compromisso com as relações bilaterais.

The worldviews of isolation, competition, and rivalry gradually lost salience in favour of shared views of interdependence and common fate. Change in bilateral relations was brought about and regulated by the shared conviction that both countries should view and relate to each other as partners, coordinating efforts towards common goals, and actively constructing spaces for shared leadership. Internalization took place amongst salient actors in both Argentina and Brazil and intersubjective understandings became deeply ingrained and taken for granted. (FABBRI, 2005, p.17).

O PICE tornou-se possível devido à compreensão intersubjetiva entre atores importantes na Argentina e no Brasil, de que as relações bilaterais poderiam ser de cooperação ao invés de conflito através de uma mudança que serviria para pôr fim a séculos de rivalidade e desentendimentos e dar início a relações de parceria. (FABBRI, 2005)

I recognize the fact that Brazil and Argentina increasingly share a common destiny […] The international context has changed radically since 1985 when we started our integration project. The pace of global changes has accelerated dramatically […] Brazil and Argentina must strengthen their trajectory of solidarity […] Integration is the obligatory step to modernize our economies and therefore the condition for Latin America. (COLLOR DE MELLO,1990 apud FABBRI, 2005)

Campbell, Rozemberg e Svarzman (2000) argumentam neste mesmo sentido ao afirmarem que o maior contato pessoal e interação entre as burocracias dos dois países favoreceram a emergência de uma comunidade de interesses eliminando as antigas percepções de rivalidade. Na opinião de Romero

“Creio que há uma espécie de simpatia sem precedentes entre argentina e Brasil [...] Diria que nunca se viu na história da diplomacia latino-americana um grau de comunicação, de interação e de solidariedade não retórica, manifesta e profunda, como que existe atualmente entre Argentina e Brasil, e os outros países da região”. (1988 apud CAMPBELL; ROZEMBERG; SVARZMAN, 2000, p.39-40).

Importante destacar a importância dos discursos visto que como afirma Wendt (1999), uma das maneiras de levar atores a atitudes cooperativas é por meio dos discursos. Wendt afirma que se um líder em seu discurso fala sobre o que “nós” deveríamos fazer consegue levar à formação de uma identidade coletiva muito mais rápido do que um tipo de comunicação não verbal, porque indica ao outro sua expectativa de que ele irá cooperar.

Neste sentido é importante a análise do discurso de Sarney (1987 apud CAMPBELL; ROZEMBERG; SVARZMAN, 2000, p.44) neste período

Chegamos à conclusão de que isoladamente nossos países pouco ou nada poderia mudar na ordem mundial. Juntos, ao contrário, haveremos de saber influir gradualmente nas decisões internacionais sobre as questões que nos interessam diretamente [...] Temos de criar mecanismos que nos defendam, ao Brasil e à Argentina, das barreiras protecionistas, da manipulação das altas taxas de juros, dos baixos preços de nossas matérias primas.

Apesar do clima intelectual que se criou em torno do tema da integração, desconfianças ainda permaneciam principalmente por parte da Argentina. Bandeira (1987) ressalta a preocupação que havia por parte de empresários argentinos em relação aos acordos firmados com o Brasil em 1986. Havia o temor de que os produtos argentinos não iriam conseguir competir com os brasileiros e que a Argentina voltasse à condição de exportador de produtos alimentícios e importador de manufaturados.

Segundo Wendt (1999), a interdependência entre países pode gerar o que ele chama de “medo de ser explorado” porque ela deixa os atores mais vulneráveis uns em relação aos outros. Em razão disso o auto-controle é uma variável importante e que pode se expressar pela internalização em terceiro grau da comunidade pluralística de segurança, pela transposição de políticas domésticas em seu comportamento externo, ou seriam por meio de iniciativas unilaterais onde um ator sacrifica certas coisas em nome do grupo.

Sarney procurou acalmar os temores argentinos como mostra a declaração do então presidente ao jornal argentino La Nación

“não se produziria o que se teme na Argentina, um dos países se especializando como exportador de produtos agropecuários e o outro como vendedor de produtos industrializados. Compreendemos que nenhum acordo pode conservar sua validade se qualquer das partes se considerar em desvantagem [...]” (La Nación, 27/7/86 apud CAMPBELL; ROZEMBERG; SVARZMAN, 2000, p.59).

Do lado brasileiro também havia uma burocracia-comercial-alfandegária contrária à integração, pois acreditava que somente a Argentina seria beneficiada. Diante disso, os argentinos estimularam a realização de encontros entre os funcionários das carteiras comerciais. (CAMPBELL, ROZEMBERG; SVARZMAN, 2000).

Apesar da oposição de alguns setores, a integração avançou graças à vontade política do presidente Sarney de se aproximar política e economicamente da Argentina e ao envolvimento de funcionários do Itamaraty e do Ministério da Fazenda que eram favoráveis à integração. (CAMPBELL; ROZEMBERG; SVARZMAN, 2000). Além disso, Paradiso (2005) ressalta que além de outros fatores, também foi importante “a fluidez dos vínculos entre os técnicos e os funcionários dos dois países, desenvolvidos no meio acadêmico, com identificações comuns com os valores democráticos e as escolas do estruturalismo econômico.” (PARADISO, 2005, p.279-280). No mesmo sentido Hirst (1997) afirma que na segunda metade da década de 1980 desenvolveu-se uma ativa diplomacia presidencial que estimulou um sentido de fraternidade política entre seus governos e que permitiu uma coordenação política em torno de temas internacionais e uma ativa política de cooperação e integração sub-regional.

Desta maneira, verifica-se que apesar dos receios por parte dos dois países, o compartilhamento de valores entre aqueles setores envolvidos diretamente com as negociações foi de grande importância para que a integração avançasse deixando para trás a tradicional rivalidade.

Uma demonstração de que a rivalidade já havia sido superada foi a visita de Sarney a uma usina nuclear argentina localizada em Pilcaniyeu (Rio Negro) em julho de 1987 e a posterior presença do presidente argentino inauguração do programa brasileiro de desenvolvimento nuclear situado em Aramar-Iperó. Para Seixas Côrrea (1996), esta atitude foi uma inovação corajosa e fundamental, pois inaugurou uma nova forma de relacionamento não mais baseado na desconfiança e no antagonismo entre os dois países.

Nesse cenário, valendo-se do inédito clima de confiança e cooperação entre os funcionários, técnicos, empresários e intelectuais dos dois países que o caminho percorrido muito contribuíra para gerar, e com o objetivo de criar um instrumento que servisse de lock in dos acordos e protocolos firmados entre 1985 e 1988 e dar uma resposta às limitações estruturais dos mecanismos originalmente estabelecidos nos mesmos, em abril de 1988 – quando de um encontro presidencial realizado em Brasília – os dois mandatários decidiram instruir seus chanceleres a negociar nos meses seguintes nesses preceitos, em novembro do mesmo ano Alfonsín e Sarney firmaram em Buenos Aires o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento entre a República Argentina e a República Federativa do Brasil. (CAMPBELL; ROZEMBERG; SVARZMAN, 2000, p.81).

Desta forma, é assinado em 1988, por Argentina e Brasil, o Tratado de Cooperação, Integração e Desenvolvimento. Nota-se a partir daí que o foco da integração começa a mudar. O objetivo agora passa a ser a promoção de uma integração quase que exclusivamente das economias dos dois países, como assinala Sarney

O Tratado de Cooperação e Desenvolvimento, assinado em 29 de novembro de 1988 por Brasil e Argentina, estabelecia "o prazo de dez anos para a remoção dos obstáculos tarifários e não-tarifários de bens e serviços" e "a harmonização das políticas macroeconômicas entre os dois países". Com a posse de Menem e Collor, os dois presidentes resolveram dar prioridade à união aduaneira e uma zona de livre comércio, postergando o mercado comum. A partir desse momento, o Mercosul deixava o objetivo primeiro de criar um mercado comum para concentrar-se na criação de uma área de livre comércio.

Em seu Artigo primeiro o Tratado estabelece que seu objetivo é “a consolidação do processo de integração e cooperação econômica entre a República Argentina e a República Federativa do Brasil”.

O Artigo terceiro, por sua vez, prevê que “a remoção de todos os obstáculos tarifários e não-tarifários ao comércio de bens e serviços nos territórios dos Estados-Parte serão alcançados, gradualmente, em um prazo máximo de dez anos, através da negociação de protocolos adicionais ao Acordo de Alcance Parcial das Preferências Outorgadas no Período (1962-1980)”.

Vigevani (2005) afirma que partir deste tratado houve um aumento do interesse por parte de outras instâncias governamentais, pois ele possibilitou uma maior confiança por parte dos Estados já que garantia uma maior previsibilidade do processo de integração.

Os governos dos dois países pelo Tratado de Cooperação, Integração e Desenvolvimento

expressaram o desejo de constituir, no prazo de dez anos, um espaço econômico comum, por meio da liberalização integral do intercâmbio recíproco, bem como a convergência entre as políticas macroeconômicas. Provavelmente esse tratado foi um indicativo importante de que no Estado brasileiro iniciava-se a absorção das idéias neoliberais, que já estavam enraizadas no argentino. (OLIVEIRA, 2003, p.64).

O Tratado, embora assinado em 1988, só foi ratificado no ano seguinte. Neste período, a Argentina estava em processo de eleições presidenciais que elegeram Menem presidente. A prioridade do governo argentino passa então a ser a estabilização monetária e cambial e a busca de uma inserção internacional das empresas argentinas. O contexto cria certa incerteza quanto aos rumos que tomariam a integração a qual é amenizada após a ratificação do tratado pelo parlamento argentino. (CAMPBELL; ROSEMBERG; SVARZAMAN, 2000).

As palavras do chanceler Domingos Cavallo (1989 apud CAMPBELL; ROSEMBERG; SVARZAMAN, 2000, p.102) demonstram o interesse da Argentina em dar continuidade ao processo integracionista

[...] Por isso decidimos que, em alguns aspectos de nossa política exterior, deveríamos dar sinais de continuidade [...] Pensamos que a decisão dos presidentes Alfonsín e Sarney de deixar de lado a competição e rivalidade que existiam entre os dois países desde de tempos imemoriais foi uma decisão transcendente, que abre a possibilidade de uma cooperação muito estreita em âmbitos antes inimagináveis[...] Em vez de adversários potenciais em conflito, começamos a nos ver como sócios concretos no quadro de um processo de integração que aspira a conformar um mercado comum [...] Decidimos que (essa iniciativa) deve ser continuada.

Segundo os autores a integração ganha nesse período uma importância mais política do que econômica embora as exportações da Argentina para o Brasil tenham aumentado de maneira considerável entre 1985 e 1989.

Peña (1997), também afirma que no período de 1986 a 1990, as negociações que levariam à formação do Mercosul, tiveram um forte perfil político, pois havia uma convergência quanto à necessidade de promoverem uma modernização interna das políticas e economias nacionais, visto que se estava diante de um contexto internacional caracterizado pela multipolaridade e pela globalização crescente e da necessidade de uma maior abertura das economias.

Na verdade, a integração adquire importância política no sentido de ser vista por ambos os países como uma estratégia comum para uma inserção mais competitiva no cenário econômico internacional. Porém, em termos de avanço na integração do bloco, este só ocorreu na área econômica deixando-se de lado os demais aspectos, concentrando-se apenas na formação de uma União Aduaneira.

Os demais aspectos da integração não eram prioridade tanto que, o Tratado não previa nenhum tipo de participação da sociedade, nem mesmo por parte dos empresários

isto é indicativo de que a participação do setor social seria cada vez mais controlada pelos negociadores, e de que suas demandas seriam canalizadas através destes órgãos que se encarregariam de coletar e selecionar as pressões sociais, adequando-as aos seus próprios interesses e objetivos. (MARIANO, 2000, p.52).

Contudo, as discussões acerca do caráter pouco democrático do processo negociador fazem com que se crie a Comissão Parlamentar Conjunta de Integração. O Artigo oitavo do acordo prescreve as características da referida comissão que teria caráter consultivo sendo composta por doze legisladores de cada país designados pelos respectivos poderes legislativos, com mandato de dois anos.

[...] apesar da tentativa de manter o controle sobre o processo por parte dos representantes governamentais, a estrutura institucional começa a se desenvolver por uma exigência do próprio processo, como evidencia o surgimento da Comissão Parlamentar Conjunta. O alcance das medidas adotadas pelos governos no que tange à integração começa a envolver novos interesses e, assim, buscam-se novas formas de amenizar impactos e facilitar a aprovação de medidas ao nível nacional de cada país. (MARIANO, 2000, p.53).

Como assinala Mariano (2000), a criação de um canal institucional com a finalidade de inserir novos atores no processo de integração demonstra que os negociadores sabiam que a participação da sociedade seria inevitável e eles deveriam se precaver para continuarem no controle das negociações. Nota-se, assim, que a criação da referida comissão foi em virtude da preocupação dos negociadores em manterem as negociações sob seu controle além de dar maior legitimidade ao processo.

Como já foi dito, a partir da assinatura do Tratado de 1988, fica claro que o objetivo principal da integração seria a formação de uma união aduaneira ou área de livre comércio e não mais de um mercado comum. Esta postura se reafirma nos anos 1990, com a assinatura da Ata de Buenos Aires pelos presidentes Menem e Collor em 6 de Julho de 1990. Porém, formalmente o acordo previa a formação de um Mercado Comum entre Brasil e Argentina até 31 de Dezembro de 1994, antecipando em cinco anos a constituição da união aduaneira. Como assinala Vigevani (2005), o principal objetivo da Ata de Buenos Aires era promover maior liberalização econômica, estabilização macroeconômica e controle da inflação deixando de lado a idéia de integração propriamente dita.

A integração que em seu início foi feita através de protocolos setoriais com vistas a promover uma abertura bilateral gradual e seletiva, agora a pretensão é que essa abertura seja mais generalizada permitindo não só uma abertura das economias, mas também apoiassem a inserção das mesmas no novo cenário internacional. Nesse contexto, os negociadores buscam mecanismos que acelerem o processo de integração e será então que são assinados a Ata de Buenos Aires e o Acordo de Complementação Econômica (ACE 14), ambos em 1990. (CAMPBELL; ROSEMBERG; SVARZAMAN, 2000).

O ACE 14 muda a integração que antes era gradual e setorial para um programa de redução progressiva, linear e automática para todo o conjunto do universo tarifário. Para a Argentina, a mudança de metodologia foi vista como um meio para assegurar o acesso preferencial ao mercado brasileiro, além disso, geraria possibilidades de minimizar as assimetrias entre os mercados, pois haveria uma coordenação das políticas macroeconômicas. Já para o Brasil, a vantagem seria a simplificação do controle do sistema de regras de origem e evitaria a triangulação de produtos o que impediria que produtos de terceiros países pudessem obter vantagens ao entrar no país. Além disso, os dois países deveriam agora negociar com terceiros de forma conjunta, o que configurava um bloco regional e permitia ao Brasil assumir uma posição mais proeminente na região e em âmbito internacional. (CAMPBELL; ROSEMBERG; SVARZAMAN, 2000).

As assinaturas dos acordos que ocorreram depois da Declaração de Iguaçu demonstram como Argentina e Brasil não se viam mais como rivais. Os vários fatores que foram analisados fizeram com que as identidades dos dois países mudassem e, em conseqüência a cultura de suas relações. Assim, foi possível a mudança da cultura Lockeana para uma cultura Kantina em que predomina o papel de amigo. Contudo, apesar desta mudança estrutural nas relações a internalização não ocorreu até o terceiro nível, ou seja, os atores não respeitavam as normas por considerá-las legítimas, mas por interesse. Os atores agiam “como se” fossem amigos não havendo a identificação entre o Self e o Other.

Segundo Wendt (1999) quando há a internalização da cultura kantiana pela legitimidade, os Estados agem levando em conta o grupo, ou seja, os interesses internacionais são parte dos interesses nacionais. No caso da Argentina e do Brasil cada um dos países continuou perseguindo seus interesses particulares não tendo havido, como será argumentado, a formação de um interesse coletivo. O Mercosul que é criado em 1991 pela assinatura do Tratado de Assunção era apenas um instrumento em comum para que interesses particulares fossem conseguidos. Esta não formação de interesses coletivos está relacionada à não formação de uma identidade coletiva que, por sua vez, não ocorreu pelo fato de não ter havido a internalização completa da cultura kantiana.

Se o período que precedeu a criação do Mercosul foi marcado pela convergência das orientações das políticas externas argentina e brasileira e por uma mesma “visão de mundo”, isto não se verificou a partir da década de 1990. Com a ascensão do governo Menem na Argentina e de Collor no Brasil – mas principalmente a partir do governo Itamar Franco –verifica-se uma mudança na forma como cada país analisava a nova conjuntura internacional. Enquanto a Argentina via o mundo do pós - Guerra Fria como unipolar - sendo os Estados Unidos a hegemonia mundial - o Brasil caracterizava a atual conjuntura como de “polaridades indefinidas”.

Estas diferentes “visões de mundo”, isto é, estas distintas percepções ou compreensões da realidade influenciaram as orientações das políticas dos dois países no período e, concomitantemente, a forma de se relacionarem um com o outro. Além disso, ficou claro que apesar da cooperação que agora fazia parte de suas relações, não existia ainda um sentido de comunidade, ou um sentimento de “nós”. (HURREL, 1995)

A partir da década de noventa, as políticas externas argentina e brasileira experimentaram transformações com vistas à adaptação ao novo contexto internacional, mas as percepções da ordem internacional estruturada por estes países adquiriram diferenças que influíram marcadamente sobre seus esforços de inserção externa. (SARAIVA; TEDESCO, 2001, p.1)

Menem é eleito em 1989 e adota uma política de orientação neoliberal. Um de seus principais objetivos era então promover uma abertura da economia do país e atrair investimentos. Porém, isto exigia uma estabilidade que gerasse certo grau de confiança no país. Assim, algumas medidas começam a ser tomadas neste sentido. A primeira delas foi uma reaproximação com o Reino Unido que era vista como condição para aproximar o país dos Estados Unidos. Esta aproximação era entendida como primordial para a estabilidade e o crescimento econômico do país. Além disso, houve uma redefinição dos conceitos de interesse nacional e soberania ambos agora relacionados a bem-estar econômico. (SARAIVA; TEDESCO, 2001).

É neste período que ganha destaque o chamado “realismo periférico” – expressão cunhada por Carlos Escudé - que expressava a idéia de que a Argentina deveria se reconhecer enquanto país periférico no sistema internacional e que, portanto, devera estabelecer relações de cooperação com as grandes potências e em particular com os dos Estados Unidos. É neste contexto que o chanceler argentino Guido Di Tella (1991-1999) pronuncia a famosa frase que caracterizaria as relações com a potência do Norte: as “relaciones carnales”. (SARAIVA, 2000)

O Realismo periférico surge como uma maneira de superar os supostos erros do passado, muitos dos quais teriam sido conseqüência do inclinamento ao Ocidente em detrimento de uma relação mais próxima aos Estados Unidos. O discurso do chanceler Guido di Tella no CARI (Centro Argentino de Relações Internacionais) em 18 de Abril de 1991, exemplifica bem como se pretendia conduzir a política externa Argentina no período

Señoras y señores: si tuviera que elegir tres palabras para definir esta política exterior que estamos llevando adelante yo diria que ellas son: pragmatismo, integración y apertura. El orden internacional que nos afecta tan sustancialmente, no puede ser moldeado según nuestras preferencias y necesidades. El voluntarismo anquilosa. Pero con ese trípode enunciado, podemos avanzar en relaciones mas maduras con los países centrales y sostenerlas, en el nivel de mayor eficacia, con todos los países de la tierra, directamente y a través de los organismos que representan a la comunidad internacional. Somos conscientes de que la autonomía no es sinónimo de la libertad de acción: la autonomia se consolida y expande con un uso prudente y sensato de sus resortes propios o se restringe a traves de un uso irresponsable de los mismos. Queda claro que no propugnaremos políticas de poder sin poder, que no sostendremos confrontaciones que no hagan a intereses vitales para el país, que cumpliremos los compromisos contraídos y sobre todo, que no nos manejaremos con criterios emocionales, de los que a veces arrojan réditos de popularidad que la realidad disipa velozmente. Es indudable que desafiar a una gran potencia puede tener un alto contenido emocional: los costos y perjuicios seran muchos mas altos; desde luego, nuestro pais no podría soportarlos.

Esta maior aproximação com os Estados Unidos teve reflexos na política externa do país. A Argentina passou a atuar em acordo com as posições defendidas por aquele país. Exemplo disso foi a mudança de seus votos na ONU , com posturas condizentes aos norte-americanos, envolvimento em operações de paz das Nações Unidas além de ter se tornado um membro extra-Otan.

O Brasil também estava vivendo no período sob um governo de orientação neoliberal. Collor foi eleito em 1990 e também promoveu uma abertura econômica aderindo às condicionalidades do Consenso de Washington. No plano da política também buscou uma aproximação com os Estados Unidos, mas procurou ao mesmo tempo expressar seu apoio em relação ao fortalecimento do multilateralismo universal.

A política externa brasileira, por seu turno, também viveu modificações, no início dos anos 90, com a chamada crise de paradigma. No governo de Collor de Mello, as linhas gerais, com base no paradigma globalista, que nortearam o comportamento externo brasileiro durante muitos anos foram questionadas; as premissas vinculadas ao nacional-desenvolvimentismo, que já vinham perdendo sua dinâmica durante os anos 80, foram definitivamente superadas, dando lugar a uma percepção de que, abrindo mão das queixas em relação à economia internacional e aproximando-se do espectro liderado pelos Estados Unidos, o país poderia colocar-se como interlocutor válido das potências no cenário internacional. Com isto, o governo Collor buscou modificar o perfil internacional do país, atualizando a agenda de acordo com os novos temas, construindo uma relação melhor com os Estados Unidos e descaracterizando o perfil terceiro-mundista com vistas a uma inserção mais competitiva que levaria o Brasil ao Primeiro Mundo. (SARAIVA, 2000, p.8)

Com a ascensão de Itamar Franco o Brasil buscou uma postura mais ativa no cenário internacional participando de vários fóruns multilaterais além de buscar diversificar suas relações. Em relação aos Estados Unidos procurou-se, nas palavras de Saraiva (2000) “desdramatizar” as relações, ou seja, nem se submeter a alianças incondicionais nem adotar uma postura de enfrentamento. Inaugurava-se assim, a visão do país como um global trader que também esteve presente no governo de Fernando Henrique Cardoso.

O Brasil passa a partir de então a buscar uma maior participação na formulação das regras internacionais defendendo uma maior institucionalização das mesmas. Esse novo paradigma seria consolidado na administração de FHC sob a denominação de autonomia pela integração, à qual se acrescentou o conceito de global trader como forma de expressar os interesses do país em nível internacional. (VIGEVANI; OLIVEIRA; CINTRA, 2003).

A autonomia pela integração significa uma “participação mais ativa em diferentes foros, organizações e regimes internacionais, mas principalmente, por meio da promoção e participação em processos de integração regional na América do Sul”. (MARIANO,2006, p.6). Além disso, estava relacionada a um novo conceito de soberania, o de “soberania compartilhada” que correspondia à “concordância de que, num mundo marcado por valores universais, os Estados estariam sujeitos às normas oriundas dos regimes internacionais.” (SARAIVA, 2000, p.9).

Em razão desta nova postura da política externa o Brasil pleiteou um lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas o qual não obteve apoio da Argentina. Além disso, também existiram divergências em relação a operações de paz como a decisão unilateral da Argentina de participar na Guerra do Golfo.

Portanto, no início da década de 1990, há uma redefinição de alguns conceitos por parte dos tomadores de decisão da Argentina e do Brasil. Soberania, por exemplo, ganha neste período uma conotação diferente para cada país. Enquanto para o primeiro, soberania passa a ser sinônimo de bem-estar econômico, para o segundo, ser soberano seria ter uma participação na elaboração das normas internacionais as quais todos os países deveriam se submeter. Como colocam Russell e Tokatlian (2003), enquanto o Brasil pretendia ter uma maior projeção nos âmbitos multilaterais a Argentina adotou uma posição pró-Ocidental.

Para Lafer (1997), as diferenças na área político-diplomática refletem um fenômeno no plano das mentalidades e que podem ser percebidas nas formulações das políticas exteriores pelos diplomatas dos respectivos países.

[...] existe um substrato próprio em cada uma das políticas externas, reflexo de diferentes sociedades e diferentes experiências históricas, que é difícil fazer coincidir perfeitamente. É nessa área que se pode ver uma Argentina mais inclinada para o Ocidente [...], enquanto o Brasil mais plural, mais múltiplo, volta-se para dentro [...] (LAFER, 1997, p.257).

Assim, as diferentes formas de analisar o contexto do pós-Guerra Fria – suas visões de mundo - e a definição de cada país do seu próprio papel naquele contexto fizeram com que Argentina e Brasil adotassem diferentes estratégias na condução de suas políticas externas. Estas diferentes posturas tiveram seus reflexos na forma como cada país avaliava a integração regional e demonstraram que apesar de terem passado de rivais a amigos, a cultura kantiana não fora completamente internalizada.