AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

Daniela Cristina Comin

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1.8 A OPA e o Encontro da Uruguaiana

Com a morte de Vargas em 1954, Juscelino Kubitschek é eleito em 1955. Nesse período a Argentina vivia uma crise econômica e a política nacionalista de Perón já não correspondia à realidade marcada pela liberalização econômica e pelo predomínio norte-americano (BANDEIRA, 1995). Assim, Perón é deposto por um movimento que ficou conhecido como “Revolução Libertadora”. Dois generais passaram pela presidência até serem realizadas as eleições: Lonardi, e, posteriormente, Aramburu. Em 1958, Frondizi assume a presidência da Argentina e impõe novas diretrizes à política externa do país: aproxima a Argentina do bloco Ocidental aderindo ao Acordo de Bretton Woods e passa a fazer parte do FMI, do Banco Mundial e do GATT (VEGAS, 1995).

No Brasil, JK criou o Plano de Metas com o objetivo de acelerar a industrialização do país adotando o slogan “50 anos em 5”. Também lançou a OPA (Operação Pan-Americana) que visava angariar recursos norte-americanos para o desenvolvimento do país. Contudo, o argumento usado era o de que o atraso econômico era uma ameaça à segurança continental haja vista que o mundo vivia o contexto da Guerra Fria. Frondizi apoiou a iniciativa brasileira levando a uma maior cooperação entre os dois países o que possibilitou a criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Associação Latino-americana de Livre Comércio (ALALC). (BANDEIRA, 1987; BANDEIRA, 1995; VEGAS, 1995).

Em 1961, Jânio Quadros é eleito presidente do Brasil imprimindo novas diretrizes à política externa que ficou por isso conhecida como “Política Externa Independente” pela qual se buscava uma postura mais autônoma do país, sem alinhamentos. Nesse contexto, a cooperação com a Argentina era essencial “por modo a consolidar, pelo menos, a unidade dos países da América do Sul” (BANDEIRA, 1995, p.133).

Quadros propõe então que se realize um encontro com Frondizi, o que gerou desconfiança tanto dos setores internos da Argentina, sobretudo das Forças Armadas, como dos Estados Unidos que temiam uma aliança entre os dois países pois poderiam fazer frente ao poder norte-americano.

A despeito destes fatores, o encontro realizou-se em Uruguaiana em 20 de Abril de 1961. “Ambos concordaram então em afastar as desconfianças que os dois países reciprocamente alimentavam, bem como superar por um esforço comum de cooperação a antiga rivalidade” (BANDEIRA, 1995, p.135).

Dentre os vários acordos que ficaram estabelecidos nos textos da Convenção de Amizade e Consulta e da Declaração de Uruguaiana pode-se citar a defesa por uma maior cooperação nos campos econômico, financeiro, judiciário e cultural além do estabelecimento de uma ação comum na solução de problemas internacionais. Segundo Bandeira (1995), o acordo não teve boas repercussões na Argentina, principalmente entre os militares que temiam uma postura extremada de Quadros frente às questões internacionais.

Capelato (2000) afirma que houve uma aproximação entre Argentina e Brasil nas décadas de 50 e 60, motivadas pelas políticas desenvolvimentistas adotas pelos governos militares. Foi nesta fase que foi criada a ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio) e do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Pode-se afirmar que o Encontro da Uruguaiana foi o momento de maior cooperação entre Argentina e Brasil até então, e que poderia ter avançado não fossem os regimes militares que passaram a governar ambos os países e que reavivaram as desconfianças mútuas.

No Brasil o regime militar teve início em 1964 e se estendeu oficialmente até 1985, enquanto que na Argentina sucederam-se dois períodos, de 1956 a 1973 e de 1976 a 1983.