AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

Daniela Cristina Comin

Volver al índice

 

 

 

 

1.6 As Guerras Mundiais

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Argentina permaneceu em uma postura de neutralidade enquanto que o Brasil declarou-se beligerante tendo, inclusive, participado da criação da Liga das Nações ao final do conflito.

Já na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ambos sofreram internamente pressões de grupos divergentes. Contudo, a Argentina optou novamente pela neutralidade e o Brasil por declarar-se beligerante em favor dos Aliados.

As diferentes posturas adotadas por estes dois países diante das duas Grandes Guerras devem ser analisadas levando-se em conta a importância que os Estados Unidos tinham para cada um deles.

Em 1930, o presidente Hipólito Yrigoyen sofreu um golpe de Estado articulado pelo general José F. Uriburu ascendendo ao poder o também general Augustín P. Justo o qual devolveu o poder aos conservadores levando a Argentina novamente à dependência da Grã-Bretanha (desde a Primeira Guerra Mundial os Estados Unidos eram o principal fornecedor de manufaturas àquele país).

O golpe de Estado que levou Getúlio Vargas ao poder em 1930, ao contrário do que ocorreu na Argentina, pôs fim à hegemonia da elite cafeeira com a inclusão de outros setores no poder como militares, classe média, proletariado, pecuaristas do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais. Contudo, o Brasil continuava dependendo dos Estados Unidos que continuava sendo o principal importador do café brasileiro. (BANDEIRA, 1995).

Os vínculos de dependência econômica e comercial, que a Argentina e o Brasil estabeleceram com potências diferentes e rivais – Grã-Bretanha e Estados Unidos -, sempre influenciaram, de um modo ou de outro, as relações bilaterais entre aqueles dois maiores países da América do Sul. (BANDEIRA, 1995, p.26).

Assim, essas relações também tiveram influência nas posturas divergentes adotadas na Segunda Guerra Mundial. O Brasil, em razão da sua ligação econômica com os Estados Unidos, decidiu pelo alinhamento, enquanto que, a Argentina, preferiu permanecer neutra para evitar que seus navios não fossem atingidos pela Alemanha durante seu trajeto até a Grã-Bretanha. Contudo, “não distante intrigas, ânimo de guerra não havia nem na Argentina nem no Brasil” (BANDEIRA, 1995, p.43).

Em 1933, por exemplo, o presidente argentino Juan B. Justo havia visitado o Brasil e, na ocasião, Vargas deu enorme destaque à amizade argentino-brasileira, “tradição arraigada na alma dos dois povos”. Lembrou que, “se no passado tivemos mal-entendidos, isso ocorreu como repercussão das diligências dinásticas de nossos colonizadores que transportaram para a América os germes de suas discórdias peninsulares”. Salientou a identidade de interesses entre os dois países e as “possibilidades de intercâmbio econômico, cultural, e de mútua assistência para assegurar a tranqüilidade interna e a paz exterior”. (CAPELATO, 2000, p.299).

Candeas (2005), porém, afirma que no período da Guerra o alinhamento brasileiro foi visto como uma forma de obtenção de benefícios econômicos e estratégicos dos Estados Unidos, reforçando a idéia de que o Brasil desejava representar os interesses norte-americanos no subcontinente.