Observatorio de la Economía Latinoamericana


Revista académica de economía
con el Número Internacional Normalizado de
Publicaciones Seriadas ISSN 1696-8352

ECONOMÍA DO BRASIL

RESULTADOS CONTÁBEIS E FLUXO DE CAIXA OPERACIONAL: UMA ANÁLISE EM UM GRUPO DE EMPRESAS REGISTRADAS NA BOVESPA





Alexandre Costa Quintana (CV)
professorquintana@hotmail.com
Cristiane Gularte Quintana (CV)
Universidade Federal do Rio Grande





Resumo
O gerenciamento de resultados é um tema de interesse para analistas, reguladores, investidores, e outros profissionais ligados aos investimentos das empresas. A demonstração contábil pode ser alvo de manipulação em função da presença dos accruals discricionários ou não discricionários, que prejudica a qualidade da informação gerada pela contabilidade, refletindo nos investimentos realizados nas empresas, provocando distribuições de riquezas sem uma justificativa adequada. Considerando o exposto acima, o objetivo desse estudo é analisar se os resultados contábeis apurados por um grupo de empresas registradas na BOVESPA no nível Novo Mercado, tem relação com fluxo de caixa de operacional obtido na Demonstração dos Fluxos de Caixa destas empresas. Em termos metodológicos, é um estudo descritivo e quantitativo, com uso da análise de conglomerados e regressão linear. Os resultados apontam que as empresas que apesar de uma razoável relação entre a variável Fluxo de Caixa Operacional e a variável Resultado antes dos Tributos e Resultado Financeiro, a presença de accruals é evidente, neste sentido quanto maior forem estes accruals, maior será a possibilidade de existência do gerenciamento de resultados.

Palavras-chave: Accrual, gerenciamento de resultados, informação contábil.

Para ver el artículo completo en formato pdf pulse aquí


Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:

Costa Quintana, A. y Gularte Quintana, C.: "Resultados contábeis e fluxo de caixa operacional: uma análise em um grupo de empresas registradas na Bovespa", en Observatorio de la Economía Latinoamericana, Número 181, 2013. Texto completo en http://www.eumed.net/cursecon/ecolat/br/13/resultados-contabeis-fluxo-caixa-operacional.hmtl


Introdução
           
            Um dos elementos mais importantes para os diversos usuários da contabilidade é o resultado. Em vários casos é base para análise do desempenho das empresas. Parte desse resultado pode ser ajustado de forma discricionária, ou seja, sem qualquer relação com a realidade do negócio. Esses ajustes levam os gestores a gerenciar os resultados contábeis na direção que eles desejem (MARTINEZ, 2001).
            A possível manipulação de resultados é um tema de interesse para analistas, reguladores, investidores, e outros profissionais ligados aos investimentos das empresas. De acordo com Martinez (2001) a manipulação em demonstração contábil prejudica a qualidade da informação gerada pela contabilidade, refletindo nos investimentos realizados nas empresas, provocando distribuições de riquezas sem uma justificativa adequada, com sensível prejuízo ao mercado de capitais.
            De acordo com Oliveira e Bispo (2009), o grau de subjetividade da informação contábil tem por consequência negativa, custos de agência, assimetria de informações, custos de transação, e outras.
            Segundo Becker et al. (1998), em relação ao gerenciamento de resultados, percebe-se que os gestores têm estímulos naturais para ajustar os resultados procurando melhorar o valor da empresa, aproveitando a possibilidade de escolhas contábeis que interferirem no resultado da empresa.
            Para Murcia et al. (2008) o gerenciamento de resultados pode ser observado em casos de fraudes que envolveram diversas companhias (Enron, WorldCom, Adelphia, Parmalat,  Tyco, Xerox, etc.), resultando em total perda da credibilidade das demonstrações contábeis como componente relevante na divulgação de informações aos diversos usuários.
            Considerando o exposto acima, o objetivo desse estudo é analisar se os resultados contábeis apurados por um grupo de empresas registradas na BOVESPA no nível Novo Mercado, tem relação com fluxo de caixa de operacional obtido na Demonstração dos Fluxos de Caixa destas empresas.
            A justificativa para o presente estudo decorre de que quanto maior for a presença de accruals e menor a relação entre os resultados e o fluxo de caixa apurado, maior será a possibilidade de existência do gerenciamento de resultados, assim este estudo pode servir de base para futuro aprofundamento na análise do gerenciamento dos resultados das empresas selecionadas nesta amostra.
            O presente estudo, em seu referencial teórico buscou evidenciar o reflexo do gerenciamento de resultados contábeis nas empresas e quais são os elementos que podem influenciar neste gerenciamento. Assim, o estudo está estruturado da seguinte forma: referencial teórico da pesquisa; metodologia; resultados; e considerações finais.

2 Referencial Teórico

2.1 Informações Contábeis
            De acordo com Hendriksen e Van Breda (2010), um dos principais objetivos das divulgação de informações contábeis é fornecer informações para a tomada de decisões, exigindo a divulgação apropriada de dados financeiros e outras informações relevantes.
            Os principais instrumentos de divulgação das informações contábeis são as demonstrações contábeis, que segundo o CPC 26, são aquelas cujo propósito reside no atendimento das necessidades informacionais de usuários externos que não se encontram em condições de requerer relatórios especificamente planejados para atender às suas necessidades peculiares.
            As demonstrações contábeis são consideradas como instrumentos que propiciam a redução da assimetria. Esse entendimento é baseado no conceito de que as demonstrações materializam a teoria do conhecimento comum, representando uma forma de compartilhamento de informações, em que a informação em poder de um agente pode ser conhecida por um segundo (SUNDER, 2002).
            A preocupação com a divulgação de informações contábeis abrangentes, envolvendo aspectos econômicos, financeiros, sociais, ambientais, de produtividade e de gestão, entre outros, é um fator relevante. A análise de como evidenciar essas informações e o acompanhamento de sua evolução estão presentes nas discussões tanto acadêmicas e empresariais, principalmente entre os agentes ligados ao mercado de capitais (PONTE et al., 2007).
            Conforme o CPC 26, o objetivo das demonstrações contábeis é o de proporcionar informação acerca da posição patrimonial e financeira, do desempenho e dos fluxos de caixa da entidade que seja útil a um grande número de usuários em suas avaliações e tomada de decisões econômicas.
            Para Hendriksen e Van Breda (2010), as demonstrações contábeis serve efetivamente para fornecer informações aos usuários externos, mas o profissional da contabilidade também deve fornecer instrumentos, aos gestores internos, para fins de controle e de tomada de decisões.
            No entanto, as informações geradas pelas demonstrações contábeis possuem certo grau de subjetividade, mesmo havendo um conjunto de normas contábeis, que regulamentam a sua estrutura, permitindo assim, que os gestores utilizem a sua discricionariedade na definição dos critérios contábeis.    
            Nessa linha, fatores, como os interesses particulares dos profissionais que elaboram as demonstrações, podem exercer influência decisiva sobre o que será divulgado, podendo prejudicar a neutralidade da divulgação da informação contábil (GOULART, 2007).

2.2 Gerenciamento de Resultados
            De acordo com Schipper (1989), quando ocorre uma intervenção proposital nas demonstrações contábeis, com a intenção de obter benefícios particulares, percebe-se o gerenciamento de resultados.
            Conforme Healy e Wahlen (1999), o gerenciamento de resultados ocorre quando os gerentes usam julgamento nos relatórios financeiros e na estruturação de operações para alterar estes relatórios, seja para disfarçar uma informação sobre o desempenho econômico da empresa ou para influenciar os resultados contratuais que dependem de números contábeis apresentados.
            Gerenciamento de resultados é definido por Matsumoto e Parreira (2007) como a manipulação formal das contas de resultado ou de atividade operacional, por meio de escolhas discricionárias de práticas e estimativas contábeis com implicações no resultado e com base em princípios e nas normas contábeis.
            Portanto, de acordo com Oliveira e Bispo (2009), o gestor usa de julgamento para realizar suas escolhas em razão dos incentivos que o levam a apresentar um resultado distinto daquele expresso pela realidade concreta dos negócios. Além disso, o gerenciamento também pode ocorrer por meio de decisões e atos efetivos, que provocam implicações no fluxo de caixa da empresa e não diretamente na manipulação formal das contas de resultado. Os autores complementam, que percebe-se que o gerenciamento de resultados envolve ações dos gestores com a intenção de alterar as informações divulgadas sobre o desempenho da empresa. Normalmente, estas atitudes gerenciais possuem alguma motivação, que pode não ser condizente com o objetivo das demonstrações financeiras
            A gestão é a utilização de julgamento na informação financeira tem custos e benefícios. Os custos são a má alocação de recursos potenciais que surgem do gerenciamento de resultados. Os benefícios incluem potenciais melhorias na gestão por meio da comunicação adequada de informação privada para investidores externos (HEALY e WAHLEN, 1999).
            Em relação a perspectiva informacional, o gerenciamento tem a qualidade de revelar informação sobre o valor da empresa. De acordo com Martinez (2001, p. 43), existem diversas modalidades de gerenciamento de resultados contábeis, onde pode-se destacar:  gerenciamento de resultados contábeis para aumentar ou diminuir os lucros; gerenciamento de resultados contábeis para reduzir a variabilidade; e gerenciamento de resultados contábeis para reduzir lucros correntes em prol de lucros futuros.
            Jones (1991, p. 206) afirma que o gerenciamento de resultados pode ser obtido pelo uso dos accruals, mudanças nos métodos contábeis e mudanças na estrutura de capital da empresa.        

 

2.3 Accruals
            A teoria dos accruals é baseada na observação que são essencialmente ajustes temporários que o dinheiro sofre por meio de mudança de períodos de tempo. No entanto, os benefícios de accruals vêm com o custo de fazer suposições e estimativas que devem ser posteriormente corrigida em accruals futuros. Por exemplo, se os resultados líquidos de contas a receber são menores do que a estimativa original, isto implica que a estimativa original continha um erro, e os registros de entrada, quanto de realização do fluxo de caixa, necessitam de uma correção do erro de estimação.   (DICHEV e DECHOW, 2001)        
            Os accruals justificam a diferença entre o fluxo de caixa operacional e o lucro, assim sem a existência a presença dos accruals a contabilidade seria realizada apenas pelo regime de caixa (COSTA et. al., 2002).
            Para Richardson et al. (2001) as informações relativas ao emprego dos accruals são consideradas relevantes para o usuário da contabilidade, em função de fornece informações adicionais ao fluxo de caixa, por outro lado, são considerados menos confiáveis que as informações de recebimentos e pagamentos de caixa.
            Nesse sentido, Hendriksen e Van Breda (2010) lembram que, os gestores reagem ao que supõem ser o comportamento de investidores e credores ao lucro publicado.
            O balanço fornece uma classificação sistemática de accruals contábeis
com base na natureza dos benefícios subjacentes ou obrigações que eles representam. Alguns equilibram categorias do balanço, tais como títulos e valores mobiliários e de curto prazo da dívida, podem geralmente ser medido com alta confiabilidade. Por outro lado, contas como de ativos a receber e intangíveis, são geralmente medido com menor confiabilidade. Neste ponto, decompor accruals destas categorias, usando o conhecimento das questões subjacentes de cada categoria de accrual para fazer avaliações qualitativas quanto à confiabilidade relativa de cada categoria. Estas avaliações fornecem a base para as previsões sobre a magnitude relativa dos coeficientes de persistência em cada uma das categorias de accrual (RICHARDSON ET AL., 2005)
            Dessa forma, para Paulo et al. (2007), as pesquisas sobre gerenciamento de resultados baseados em accruals, deve separá-los em: accruals discricionários e accruals não discricionários.
            Para Costa et al. (2002), discricionário é a possibilidade da administração escolher como tratar um evento contábil quando existir mais de uma opção igualmente aceita. Por exemplo, a escolha do método de avaliação dos estoques, muitas vezes esta escolha pode ser baseada apenas como uma opção tributária.
            A diferença entre o lucro líquido e o fluxo de caixa líquido é definida como accruals. Assim, os accruals são aqueles resultados que entraram na apuração do lucro, mas que não refletem em movimento nas disponibilidades (MARTINEZ, 2001; SLOAN ET. AL., 2001).
            Colauto et al. (2003) lembram que o desencaixe entre lucros e fluxo de caixa é relacionado ao Princípio da Realização da Receita e da Confrontação das Despesas, também conhecido com Princípio da Competência.
            A literatura contábil considera que os accruals discricionários são uma proxy do gerenciamento de resultados contábeis. Apenas, destacando que nem todo accrual é evidência de manipulação da informação contábil. (PAULO et al. 2007).

 

3 Metodologia

            Para alcançar o objetivo proposto, realizou-se um estudo quantitativo e descritivo com as empresas registradas na BMFBovespa no nível Novo Mercado, assim a partir desta população foi selecionada uma amostra. De acordo com Martins e Theóphilo (2009, p.107) uma avaliação quantitativa envolve “organizar, sumarizar, caracterizar e interpretar os dados numéricos coletados”, sendo necessária a aplicação de métodos e técnicas da Estatística.
            A opção pelas empresas elencadas no Novo Mercado da Bovespa deve-se ao fato de ser um segmento de listagem com alto padrão de governança corporativa, por consequência, com proximidade à questões como transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa.
            A população total do estudo representa 127 empresas listadas no Novo Mercado, sendo que duas delas foram identificadas como outliers, visto que na aplicação do primeiro modelo estatístico utilizado apresentaram-se com características diferenciadas em relação as demais empresas prejudicando o modelo. 
            Os dados coletados foram Total do Ativo, Total do Patrimônio Líquido, Receita de Vendas Líquida, Resultado antes dos Tributos e do Resultado Financeiro e Fluxo de Caixa Operacional. Os dados das empresas coletados no site da BMFBovespa são referentes ao dia 31 de dezembro de 2011.
A primeira etapa do estudo procurou agrupar os indivíduos em conglomerados ou clusters. A análise de conglomerados, segundo Fávero (2009, p.195) “é uma técnica estatística de interdependência que permite agrupar casos ou variáveis em grupos homogêneos em função do grau de similaridade entre os indivíduos, a partir de variáveis predeterminadas”.
Para agrupar as empresas registradas na BMFBovespa do Novo Mercado foram utilizadas as variáveis: Total do Ativo, Total do Patrimônio Líquido e Receita de Venda Líquida; no sentido de identificar a similaridade destas empresas em função das variáveis escolhidas.
O primeiro passo foi a aplicação da técnica de Análise de Conglomerados, no procedimento hierárquico, com a finalidade de determinar o número de agrupamentos na solução, sendo utilizado o método Average linkage com a medida de distância quadrática Euclideana. Conforme citado anteriormente foram identificados e excluídos os outliers, e novamente, aplicada a técnica. Assim, a medida de distância entre os conglomerados indicava a escolha de quatro clusters ou menos na solução. O teste One-Way ANOVA indicava que as médias eram diferentes para todas as variáveis, sendo adotada a solução com quatro agrupamentos. Usando-se o número de clusters sugeridos pelo procedimento hierárquico, foi processado o método K-Means Cluster para obtenção da melhor solução que minimizasse a variância dentro dos grupos e maximizasse a variância entre os grupos.
            A partir da análise de conglomerados (técnica exploratória) foi possível selecionar um grupo de empresas, os quais por meio da técnica de regressão linear, foi realizada uma aplicação entre as variáveis “Resultado antes dos Tributos e Resultado Financeiro” e a “Fluxo de Caixa Operacional”, para identificar se existem correlação entre as variáveis e identificar o risco de presença de accruals.

 

4 Resultados

            Conforme o site da BMFBovespa o Novo Mercado trata-se do mais elevado padrão de Governança Corporativa. As companhias listadas no Novo Mercado só podem emitir ações com direito de voto, as chamadas ações ordinárias (ON). Por se tratar de uma mudança relevante nas estruturas de capital das companhias, é mais comum que as empresas que decidem abrir o seu capital, já tomem esta decisão de integrar o segmento especial de listagem do Novo Mercado durante este processo.
            Desta forma, optou por utilizar como universo da pesquisa as empresas listadas no Novo Mercado da BMFBovespa. No entanto, para selecionar a amostra, o primeiro passo foi aplicar a análise de conglomerados, por meio do teste One-Way ANOVA, presente na Tabela 1, onde foi constatado que todas as variáveis possuem significância para o estudo e que a variável Receita de Vendas Líquidas foi a que mais contribuiu para a formação dos conglomerados.

                                                                                 Tabela 1 - ANOVA


 

Cluster

Erro

F

Significância

 

Mean Square

df

Mean Square

df

Mean Square

df

Zscore (Total do ativo)

32.793

3

.212

121

154.864

.000

Zscore (Total do PL)

27.792

3

.336

121

82.782

.000

Zscore (Receita de vendas líquida)

36.109

3

.130

121

278.755

.000

 

            Do total da população, com o uso do método Average linkage com a medida de distância quadrática Euclideana, foi possível definir o número de conglomerados e a quantidade de empresas em cada cluster, conforme Tabela 2.

Tabela 2 – Número de Empresas em cada Conglomerado


Cluster

1

104

 

2

4

 

3

16

 

4

1

Total

125

           
            Com base nas informações presentes na Tabela 2, foi escolhido como amostra para analisar o objetivo proposto neste estudo o “Cluster 3”, composto por 16 empresas, em virtude de ser um agrupamento com um número razoável de incidências, que tende a produzir um resultado mais confiável. As empresas selecionadas estão descritas na Tabela 3.

Tabela 3 – Empresas selecionadas


Case Number

Empresa

Cluster

Distance

2

ALL AMERICA LATINA LOGISTICA S.A.

3

1.171

10

BMFBOVESPA S.A. BOLSA VALORES MERC FUT

3

3.573

13

BR MALLS PARTICIPACOES S.A.

3

.911

19

CCR S.A.

3

1.449

26

CPFL ENERGIA S.A.

3

1.903

31

CYRELA BRAZIL REALTY S.A.EMPREEND E PART

3

1.026

36

EMBRAER S.A.

3

.978

37

EDP - ENERGIAS DO BRASIL S.A.

3

.712

44

FIBRIA CELULOSE S.A.

3

2.513

51

HYPERMARCAS S.A.

3

.791

83

OGX PETROLEO E GAS PARTICIPACOES S.A.

3

1.088

87

PDG REALTY S.A. EMPREEND E PARTICIPACOES

3

.458

88

PORTO SEGURO S.A.

3

1.161

97

REDECARD S.A.

3

2.320

102

CIA SANEAMENTO BASICO EST SAO PAULO

3

1.605

117

TRACTEBEL ENERGIA S.A.

3

1.027

 

            Considerando exposto por Sloan et. al. (2001) e Martinez (2001), a diferença entre o lucro e o fluxo de caixa é definida como accruals. Pode-se aferir que os accruals são os resultados que entraram na apuração do lucro, mas que não refletem em movimento nas disponibilidades. Desta forma, foi realizada na sequência uma regressão linear no sentido de identificar se existe alguma correlação entre o “Lucro ou Prejuízo Contábil antes dos Tributos e do Resultado Financeiro” e o “Fluxo de Caixa Operacional”.
            De acordo com Martinez (2001), algumas empresas focam seus esforços em manter os lucros em determinado padrão, entretanto outros componentes do resultado, como lucro operacional, EBITDA (lucro operacional antes do pagamento de juros e da dedução das despesas de depreciação e amortização), podem ser fatores de motivação. Assim, a regressão proposta, procura identificar se existe associação entre as variáveis propostas, bem como, o quanto a variável Lucro ou Prejuízo Contábil antes dos Tributos e do Resultado Financeiro pode ser explicada pela variável Fluxo de Caixa Operacional.
            A Tabela 4 descreve os valores das variáveis da amostra que serviram para a elaboração da regressão.

            Tabela 4 – Resultado antes dos Tributos e Resultado Financeiro x Fluxo de Caixa Operacional (em milhares de reais)


EMPRESA

Resultado antes dos Tributos e Resultado Financeiro

Fluxo de caixa Operacional

ALL AMERICA LATINA LOGISTICA S.A.

1.149.000

697.883

BMFBOVESPA S.A. BOLSA VALORES MERC FUT

1.307.481

1.684.313

BR MALLS PARTICIPACOES S.A.

1.445.374

207.173

CCR S.A.

2.277.019

1.890.267

CPFL ENERGIA S.A.

3.050.547

2.488.652

CYRELA BRAZIL REALTY S.A.EMPREEND E PART

730.779

(154.286)

EMBRAER S.A.

521.728

1.145.446

EDP - ENERGIAS DO BRASIL S.A.

1.188.496

1.490.742

FIBRIA CELULOSE S.A.

377.659

1.348.200

HYPERMARCAS S.A.

421.009

580.234

OGX PETROLEO E GAS PARTICIPACOES S.A.

(733.994)

(434.827)

PDG REALTY S.A. EMPREEND E PARTICIPACOES

910.969

(546.443)

PORTO SEGURO S.A.

(74.108)

703.746

REDECARD S.A.

1.442.334

256.299

CIA SANEAMENTO BASICO EST SAO PAULO

2.354.387

2.717.058

TRACTEBEL ENERGIA S.A.

2.408.598

2.053.674

 

            As empresas listadas na Tabela 4 movimentam um contingente expressivo de recursos, visto que somando o total de seus ativos, em 31 de dezembro de 2011, chega-se a um valor de R$ 291 bilhões, e a soma de suas receitas de líquidas de vendas representam mais de 78 bilhões de reais em 2011.
            A Tabela 5 demonstra o resultado do coeficiente da regressão aplicada.
 
                 Tabela 5 - Coeficiente da regressão


Modelo

R

R Square

Adjuste R Square

Std. Error of the Estimate

1

.714(a)

.510

.475

722400.41955

              
            Na regressão linear, o R representa a correlação simples entre a variável dependente e a explicativa. Neste caso, o coeficiente representa 0,51, ou seja, a variável independente Fluxo de Caixa Operacional explica 51% do Resultado Antes dos Tributos e Resultado Financeiro, conforme descrito na Tabela 5. Neste sentido, é possível que o percentual restante represente accruals, assim, nestes casos. havendo uma razoável margem para gerenciamento de resultados.
            Na Tabela 6 é evidenciado o nível de significância do modelo proposto.    
                                                                  
                             Tabela 6 – Significância do modelo - ANOVA


Model

 

Sum of Squares

df

Mean Square

F

Sig.

1

Regression

7604306635168.600

1

7604306635168.600

14.571

.002(a)

 

Residual

7306073126351.140

14

521862366167.939

 

 

 

Total

14910379761519.750

15

 

 

 

              
               A Tabela 6 descreve a ANOVA (análise de variância) apresentando o resultado de significância do modelo proposto e, por meio do Sig F = 0,002 < 0,05, é possível rejeitar a hipótese nula de não-significância conjunta dos parâmetros da equação a 5%, ou seja, o modelo é significante.
            Os coeficientes padronizados indicam a importância relativa de cada variável explicativa, neste caso, apenas uma, para o comportamento da variável dependente. A importância relativa da variável Fluxo de Caixa Operacional na variável Resultado antes do Resultado Financeiro e Tributos é de 71,4%, que é exatamente a correlação simples entre as variáveis, conforme evidenciado na Tabela 7. 

Tabela 7 – Significância dos parâmetros


Modelo
 

Unstandardized Coefficients

Standardized Coefficients

t

Sig.

95% Confidence Interval for B

 

 

B

Std. Error

Beta

 

Lower Bound

Upper Bound

1
(Constant)

461478.493

259646.798

 

1.777

.097

-95408.503

1018365.489

 
Fluxo de caixa Operacional

.706

.185

.714

3.817

.002

.310

1.103

            Com base na Tabela 7 é possível elaborar uma equação de previsão para esse grupo de empresas, no qual a previsão do reflexo no Resultado antes dos Tributos e Resultado Financeiro é definido pela seguinte equação:
            Resultado antes dos Tributos e Resultado Financeiro = 461.478,49 + 0,706 (Fluxo de caixa operacional)
            Assim, para cada real de Fluxo de Caixa Operacional adicionado o reflexo no Resultado antes dos Tributos e Resultado Financeiro será de R$ 0,70.

 

5 Considerações Finais

            O presente estudo teve como objetivo principal analisar se os resultados contábeis apurados por um grupo de empresas registradas na BOVESPA no nível Novo Mercado, tem relação com o fluxo de caixa de operacional obtido na Demonstração dos Fluxos de Caixa destas empresas, assim identificando a possível presença de accruals.
            Para atingir o objetivo proposto foram utilizadas duas técnicas de análise de dados multivariadas, ou seja, a análise de conglomerados e a análise de regressão linear, que possibilitaram em um primeiro momento selecionar um grupo de 16 empresas e na sequência identificar a possível existência de accruals.    
            Partindo do exposto por Sloan et. al. (2001) e Martinez (2001), para identificar a presença de accruals, nota-se que os resultados apontados pela regressão linear, evidenciam um poder explicativo de 51% e uma importância relativa de 71,4% da variável explicativa em relação a variável independente, percebe-se assim, uma presença significativa de possível accruals, que dependendo de sua composição e principalmente, da possível presença de accruals discricionários podem ter relevante efeito sobre o gerenciamento de resultados.
            Neste estudo, apesar de uma razoável relação entre a variável Fluxo de caixa Operacional e a variável Resultado antes dos Tributos e Resultado Financeiro, a presença de accruals é evidente, assim quanto maior forem estes accruals, maior será a possibilidade de existência do gerenciamento de resultados.
            Sugere-se como estudos futuros detalhar os accruals identificados neste estudo de forma dividi-los em accruals discricionários e não discricionários, no sentido de perceber se as empresas estão manipulando resultados, em prol de interesses de mercado.

 

Referências:

BECKER, C. L.; DEFOND M. L.; JIAMBALVO J.; SUBRAMANYAM K. R. The effect of audit quality on earnings management. Contemporary Accounting Research. v. 15, n. 1. Spring, 1998.

BMFBOVESPA. Portal institucional. Disponível em: <http://www.bmfbovespa.com.br>. Acesso em: 18 jul 2012.

COLAUTO, R. D.; BEUREN, I. M.; SOUSA, M. A. B. Um estudo sobre a influência de accruals na correlação entre o lucro contábil e a variação do capital circulante líquido de empresas. In: XXVII EnANPAD, 2003, Atibaia-SP. Anais... Curitiba: Associação Nacional dos Programas de Administração (ANPAD), 2003, CD-ROM.

COMITE DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS. Pronunciamento Técnico CPC 26 (R1) – Apresentação das demonstrações contábeis. Disponível em: < http://www.cpc.org.br/pdf/CPC26_R1.pdf> Acesso em: 05 jan. 2012.

COSTA, A. C. de O.; TEIXEIRA, A. J. C.; NOSSA, V. Conservadorismo, Accruals e Qualidade dos Lucros Contábeis. In: EnANPAD, XXVI, 2002. Salvador-BA. Anais... Bahia: ANPAD, 2002. CD-ROM.

DICHEV, I. D.; DECHOW, P. M. The Quality of Accruals and Earnings: The Role of Accrual Estimation Errors (July 2001). Disponível em <SSRN: http://ssrn.com/abstract=277231>. Acesso em: 20 dez 2012.

FÁVERO, L.P.; BELFIORE, P.; SILVA, F.L. da; CHAN, B. L. Análise de dados: modelagem multivariada para tomada de decisões. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

GOULART, A. M. C. Gerenciamento de Resultados Contábeis em Instituições Financeiras no Brasil. 2007. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo. São Paulo: FEA/USP, 2007.

HEALY, P. M.; WAHLEN, J. M. A review of the earnings management literature and its implications for standard setting. Accounting Horizons. v. 13, n. 4, p. 365-383, dec. 1999.

HENDRIKSEN, E. S.; VAN BREDA, M. F. Teoria da contabilidade. São Paulo: Atlas, 2010.

JONES, J. J. Earnings Management During Import Relief Investigations. Journal of Accounting Research. v. 29, n. 2, 1991.

MARTINEZ, A. L. “Gerenciamento” dos resultados contábeis: estudo empírico das companhias abertas brasileiras. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo. São Paulo: FEA/USP, 2001.

MARTINS, G. de A.; THEÓPHILO, C. R. Metodologia da Investigação Científica para Ciências Sociais Aplicadas. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2009.

MATSUMOTO, A. S.; PARREIRA, E. M. Uma pesquisa sobre o Gerenciamento de Resultados Contábeis: causas e conseqüências. Revista UnB Contábil. UnB, Brasília, v. 10, n. 1, jan./jun. 2007.

MURCIA, F. Dal-Ri; BORBA, J. A. B.; SCHIEHLL, E. Relevância dos red flags na avaliação do risco de fraudes nas demonstrações contábeis: a percepção de auditores independentes brasileiros. Revista Universo Contábil. Blumenau, v. 4, n. 1, p. 25-45, jan./mar. 2008.

OLIVEIRA, G. J. P.; BISPO, O. N. de A. Qualidade da Auditoria e Gerenciamento de Resultados Contábeis em Initial Public Offering (IPO). In: SEMEAD Ensino e Pesquisa em Administração, 12, 2009, São Paulo: USP, 2011.

PAULO, E.; MARTINS, E.; CORRAR, L. J. Detecção do gerenciamento de resultados pela análise do diferimento tributário. Revista de Administração Contemporânea. v. 47, n. 1, p. 46-59, jan./mar. 2007.

PONTE et al. Análise das Práticas de Evidenciação de Informações Obrigatórias, Não-Obrigatórias e Avançadas nas Demonstrações Contábeis das Sociedades Anônimas no Brasil: um Estudo Comparativo dos Exercícios de 2002 e 2005. Revista de Contabilidade e Finanças – USP, v. 18, n. 45, p. 50 – 62, set./dez. 2007.

RICHARDSON, S. A.; SLOAN R. G.; SOLIMAN M. T.; TUNA, I. Information in Accruals about the Quality of Earnings. University of Michigan Business School, Ann Arbor, MI 48109, 2001.

RICHARSON, S. A.; SLOAN, R. G., SOLIMAN, M. T.; TUNA, A. I. Accrual Reliability, Earnings Persistence and Stock Prices. Journal of Accounting & Economics, v. 39, n. 3, Sep 2005.

SCHIPPER, K. Commentary on earnings management. Accounting Horizons. Sarasota, v. 3, p. 91-102, 1989.

SLOAN, R. G.; DECHOW, P. M.; HUTTON, A. P. An empirical assessment of the residual income valuation model. Journal of Accounting and Economics, v. 26, p. 1-34, 2001.

SUNDER, S. Knowing what others know: common knowledge, accounting and capital markets. Journal of Management Accounting Research. v. 16, 2002, p. 305-319.


Nota Importante a Leer:

Los comentarios al artículo son responsabilidad exclusiva del remitente.

Si necesita algún tipo de información referente al artículo póngase en contacto con el email suministrado por el autor del artículo al principio del mismo.

Un comentario no es más que un simple medio para comunicar su opinión a futuros lectores.

El autor del artículo no está obligado a responder o leer comentarios referentes al artículo.

Al escribir un comentario, debe tener en cuenta que recibirá notificaciones cada vez que alguien escriba un nuevo comentario en este artículo.

Eumed.net se reserva el derecho de eliminar aquellos comentarios que tengan lenguaje inadecuado o agresivo.

Si usted considera que algún comentario de esta página es inadecuado o agresivo, por favor, pulse aquí.

Comentarios sobre este artículo:

No hay ningún comentario para este artículo.

Si lo desea, puede completar este formulario y dejarnos su opinion sobre el artículo. No olvide introducir un email valido para activar su comentario.
(*) Ingresar el texto mostrado en la imagen



(*) Datos obligatorios

Grupo EUMEDNET de la Universidad de Málaga Mensajes cristianos

Venta, Reparación y Liberación de Teléfonos Móviles
Enciclopedia Virtual
Economistas Diccionarios Presentaciones multimedia y vídeos Manual Economía
Biblioteca Virtual
Libros Gratis Tesis Doctorales Textos de autores clásicos y grandes economistas
Revistas
Contribuciones a la Economía, Revista Académica Virtual
Contribuciones a las Ciencias Sociales
Observatorio de la Economía Latinoamericana
Revista Caribeña de las Ciencias Sociales
Revista Atlante. Cuadernos de Educación
Otras revistas

Servicios
Publicar sus textos Tienda virtual del grupo Eumednet Congresos Académicos - Inscripción - Solicitar Actas - Organizar un Simposio Crear una revista Novedades - Suscribirse al Boletín de Novedades
 
Todo en eumed.net:
Eumed.net > Observatorio de la Economía Latinoamericana

Congresos Internacionales


¿Qué son?
 ¿Cómo funcionan?

 

15 al 29 de
julio
X Congreso EUMEDNET sobre
Turismo y Desarrollo




Aún está a tiempo de inscribirse en el congreso como participante-espectador.


Próximos congresos

 

06 al 20 de
octubre
I Congreso EUMEDNET sobre
Políticas públicas ante la crisis de las commodities

10 al 25 de
noviembre
I Congreso EUMEDNET sobre
Migración y Desarrollo

12 al 30 de
diciembre
I Congreso EUMEDNET sobre
Economía y Cambio Climático

 

 

 

 

Encuentros de economia internacionales a traves de internet


Este sitio web está mantenido por el grupo de investigación eumednet con el apoyo de Servicios Académicos Internacionales S.C.

Volver a la página principal de eumednet