Observatorio de la Economía Latinoamericana


Revista académica de economía
con el Número Internacional Normalizado de
Publicaciones Seriadas ISSN 1696-8352

ECONOMÍA DO BRASIL

O TRABALHO AGRÍCOLA EM COMUNIDADES RURAIS: A PRODUÇÃO COMERCIAL DO GUARANÁ NA COMUNIDADE DE SANTA LUZIA DO MARAUARU NO MUNICÍPIO DE PARINTINS-AM, BRASIL





Luís Fernando Belém da Costa (CV)
Rogério Oliveira Prestes (CV)
Francisco Alcicley Vasconcelos Andrade (CV)
luis.geouea@gmail.com
UEA/AM





RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo principal analisar a relação do trabalho agrícola aliado ao modo de vida dos moradores da Comunidade de Santa Luzia do Marauaru, localizada em uma área rural de terra firme no município de Parintins-AM, dando ênfase para a apropriação capitalista do trabalho agrícola através do processo de monocultura do guaraná. A plantação e comercialização do guaraná na Comunidade pesquisada é a principal atividade econômica, da qual os moradores locais retiram sua renda; o guaraná em um período de quatro anos está pronto para o início da colheita. Esses trabalhadores ao produzirem o guaraná (monocultura) para o mercado, ficam reféns da lógica capitalista, visto que não produzem outras formas de agricultura, e essa condição funciona como apropriação pelo capital e perda da policultura no sentido de que os moradores não se dedicam mais as outras atividades na obtenção da fonte de renda, como a pesca, a caça, extrativismo e a roça como antigamente,ao invés disso, ficam condicionados a lógica da produção comercial, deixando cada vez mais de lado as antigas atividades econômicas. A pesquisa é importante pelo fato de haver a necessidade de se empreender novos olhares sobre o trabalho agrícola na Amazônia, reconhecendo as mudanças estruturais na forma de trabalho a partir do processo de apropriação capitalista nessas áreas, e esse trabalho poderá contribuir para entendimento dessas mudanças.

Palavras-chave: Comunidade Ribeirinha, Apropriação Capitalista do Trabalho, Atividades Econômicas.

ABSTRACT

This study aimed to analyze the relationship between agricultural work allied to the lifestyle of the residents of the community of Santa Luzia Marauaru, located in a rural area of land in the city of Parintins-AM, with emphasis on the capitalist appropriation of agricultural work through the process of monoculture guarana. The planting and marketing of guarana in the Community researched is the main economic activity, which local residents derive their income; guarana in a period of four years is ready for the start of harvest. These workers to produce guarana (monoculture) to market, are hostages of capitalist logic, since they do not produce other forms of agriculture, and this condition acts as appropriation by capital and loss of mixed farming in the sense that the residents do not spend more other activities in obtaining the source of income, such as fishing, hunting, extraction and the garden as before, instead, are conditioned to the logic of commercial production, increasingly leaving aside the old economic activities. The research is important because there is a need to undertake new perspectives on agricultural work in the Amazon, recognizing the structural changes in the form of work from the process of capitalist appropriation in these areas, and this work may contribute to understanding these changes.

Keywords: Community Riverside, Appropriation Capitalist Labor, Economic Activities.

Para ver el artículo completo en formato pdf pulse aquí


Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:

Belém da Costa, L., Oliveira Prestes, R. y Vasconcelos Andrade, F.: "O trabalho agrícola em comunidades rurais: a produção comercial do Guaraná na comunidade de Santa Luzia do Marauaru no município de Parintins-AM, Brasil", en Observatorio de la Economía Latinoamericana, Número 187, 2013. Texto completo en http://www.eumed.net/cursecon/ecolat/br/13/atividades-economicas.hmtl


INTRODUÇÃO

Qualquer pesquisa que trate dos estudos de Comunidades rurais na Amazônia se torna algo desafiante para os que se propõem, visto que se trata de uma tarefa na qual o pesquisador tende a se defrontar com inúmeras dificuldades, principalmentepelas questões de transporte ou em outros casos pela falta de apoio das próprias universidades, entre outros órgãos, mas sem duvida, conhecer um pouco melhor sobre o modo de vida das pessoas que moram nessas Comunidades é algo que proporciona uma aprendizagem única e enriquecedora.
Diante da necessidade de conhecer melhor o trabalho e os modos de vida nas Comunidades ribeirinhas da Amazônia, em especial as localizadas no Município de Parintins, realizou-se esse estudo, no qual se optou em pesquisar a Comunidade de Santa Luzia do Marauarú (recorte geográfico da pesquisa), que pertence à região do Uaicurapá, localizada no Município de Parintins-AM, por entender que na mesma está ocorrendo um processo de apropriação capitalista das atividades agrícolas, nesse caso, a lógica acontece a partir do momento em que os agricultores ao se dedicarem exclusivamente para a produção comercial do guaraná, acabam ficando subordinados a uma lógica capitalista, que funciona também como desprendimento das antigas atividades econômicas praticadas pelos moradores.
Este trabalho tem como objetivo geral: compreender o processo de apropriação do trabalho agrícola voltado para a produção comercial do guaraná na Comunidade de Santa Luzia do Marauarú no município de Parintins-Am. E específicos: fazer uma analise dos aspectos socioculturais e econômicos dos moradores da Comunidade de Santa Luzia do Marauarú. (renda, atividades econômicas, benefícios sociais, etc.). E entender de que forma a produção comercial do guaraná influência na perca das outras atividades econômicas e na mudança dos modos de vida rural na Comunidade de santa Luzia do Marauarú.
Para o alcance dos objetivos propostos, utilizou-se uma pesquisa de cunho qualitativa e como método fundante o dialético. Para a execução deste trabalho empregou-se os seguintes procedimentos metodológicos: a observação direta, e entrevistas com os moradores como principal forma de conseguir as informações que estão propostas nos objetivos deste trabalho.
O artigo está organizado da seguinte forma: A lógica do capitalismo nas áreas rurais: apropriação e resistência, no qual se discute teoricamente as relações de apropriação do capitalismo nos espaços, assim como do processo de resistências imbuídas nessa lógica.Comunidades rurais da Amazônia: modos de vida e a cultura ribeirinha, onde se discute teoricamente as relações sociais e culturais que se estabelecem em Comunidades ribeirinhas da Amazônia.
A Comunidade de Santa Luzia do Marauarú: aspectos socioculturais e econômicos, é discutido os aspectos socioculturais e econômicos da comunidade de Santa Luzia do Marauarú. E O trabalho e a produção comercial do guaraná na Comunidade de Santa Luzia do Marauarú, onde se analisa o trabalho na comunidade pesquisada associado à produção comercial do guaraná, e discute nesse contexto a lógica de apropriação capitalista do trabalho agrícola nessa comunidade.

A lógica do capitalismo nas áreas rurais: apropriação e resistência

O sistema capitalista segundo David Harvey (2005) é extremamente condicionado pela acumulação permanentemente progressiva do capital, o que o torna um sistema inevitavelmente movido pela constante renovação da produção das mercadorias. “o sistema capitalista é, portanto, muito dinâmico e inevitavelmente expansível; esse sistema cria uma força permanentemente revolucionaria que, incessante e constantemente, reforma o mundo em que vivemos”. (HARVEY, 2005, p. 43).
Essa lógica do capitalismo de acumulação requer não somente a adequação da economia baseada numa lógica de consumo exacerbado, como requer também uma manipulação de gostos e estilos, ou seja, o capitalismo mesmo tenta sempre criar novas necessidades através de uma ideologia universal de valores. (HARVEY, 2005).
Nesse sentido Harvey (2005) destaca que nesse processo de incorporação a tendência do capitalismo é destruir e absorver modos de produção não - capitalistas, ao mesmo tempo que os utiliza para criar espaço novo para a acumulação do capital.
Candido (2001, p. 203) de acordo com esse contexto ressalta que “O agrupamento descrito revela passagem duma economia auto-suficiente para o âmbito de economia capitalista, manifestando sintomas de crise social e cultural”. Para esse autor o processo de incorporação dos povos tradicionais na economia moderna capitalista funciona como ajuste social, econômico, ecológico, cultural e psíquico.
Candido (2001) ao estudar povos caipiras (termo adotado pelo autor) do estado de são Paulo verificou que a incorporação na economia capitalista gera a perda da autonomia do caipira, os mesmos ficam reféns das condições impostas pelo mercado, tendo agora que trabalhar de sol a chuva para cumprir suas tarefas para os grandes comerciantes. Então para Candido (2001, p. 213).

A expansão do mercado capitalista não apenas força o caipira a multiplicar o esforço físico, mas tende a atrofiar as formas coletivas de organização do trabalho (mormente ajuda mutua), cortando as possibilidades de uma sociabilidade mais viva e de uma cultura harmônica.

Nessa nova fase de mudança o caipira acaba tendo que comprar o que antes produzia, se desprende das técnicas e conhecimentos que constituíam o seu acervo cultural próprio, para usar técnicas e conhecimentos novos que, num universo diferente, compensarão a atrofia da sua cultura, pela sua incorporação a uma cultura nova. (CANDIDO, 2001).

O aumento de dependência econômica condiciona um novo ritmo de trabalho; ambos condicionam uma reorganização ecológica, que transforma as relações com o meio e abre caminho para novos ajustes; este fato provoca alteração no equipamento material e no sistema de crenças e valores, antes condicionados pela manipulação do meio físico imediato e pelo apego as normas tradicionais. (CANDIDO, 2001, p.251).

Para o autor Carlos Brandão (2007), a tendência do capitalismo nos espaços que ainda mantem relações de resistência quanto à penetração das relações capitalistas, o mesmo afirma que o poder do capital se incorpora por etapas, sendo permeadas por uma lógica primeiramente de homogeneização do capital nos lugares, seguidas de um processo de integração e polarização até chegar a ultima etapa, na qual o capitalismo se torna hegemônico.
Outro autor que trabalha nessa perspectiva, principalmente se tratando da penetração do capitalismo no campo, é Oliveira (2007), que chama atenção para o fato de que existem duas correntes teóricas que tratam dessa questão. Uma corrente afirma que o capitalismo tende a homogeneizar o campo, criar de um lado um patrão e do outro um empregado, ou seja, o capitalismo então se tornaria totalmente hegemônico nas áreas rurais, destruindo dessa forma toda e qualquer forma de relação não – capitalista. Porém, o mesmo chama atenção para o fato de que existe outra corrente teórica que entende que justamente pelo capitalismo ser extremamente contraditório, ele mesmo cria as condições de não homogeneização de suas relações, ou seja, o próprio capital mantem, criando e recriando as relações não - capitalistas dentro dele mesmo.
Como se percebe as análises sobre o processo de incorporação capitalista não são unilaterais, são sim, divergentes e contraditórias, porém, entende-se aqui que o capitalismo realmente destrói certas relações não capitalistas, porém, sofre resistência no seu processo de penetração, ou seja, o mesmo não consegue se estabelecer da forma desejada em todos os lugares.

Comunidades rurais da Amazônia: modos de vida e a cultura ribeirinha

As Comunidades rurais amazônicas, principalmente as ribeirinhas que são aquelas localizadas nas margens dos rios, lagos e igarapés, que no caso compõe a maioria dessas Comunidades, tem um modo de vida peculiar, principalmente voltado para uma relação direta com a natureza (rio e floresta). Porém, estão nos últimos anos sofrendo com uma imposição da racionalidade capitalista e urbana de forma mais intensa, uma logica que funciona tanto como mudança sociocultural, como econômica consequentemente.
Sobre o termo ribeirinho, este é usado principalmente por autores que fazem estudos nas áreas rurais da Amazônia, enfocando geralmente as ditas comunidades Ribeirinhas. Sobre este termo Therezinha Fraxe (2004, p. 23) ressalta o seguinte “não se trata, assim, de definir os caboclos ribeirinhos como uma classe, uma essência ou substancia, mas como pessoas inseridas em uma dinâmica social, com características especificas”. Outro autor que chama atenção para esse termo é Mazulo (2007, p. 08).

Ribeirinhos, aqui entendidos, literalmente, como quem mora nas margens dos rios, ou em alguns casos, sobre o rio, em casas flutuantes ou palafitas, assim temos ribeirinhos no campo, e na cidade, os quais moram ás margens dos rios, dos igarapés. [...] O rio é um complemento da vida ou a própria vida.

Então para os autores o termo ribeirinho é apropriado para o estudo de quem mora nas Comunidades ribeirinhas da Amazônia, posto que o rio é meio de vida; transporte, subsistência, e elemento cultural no modo de vida desses povos que habitam as margens dos rios, lagos e igarapés.
Para analisar o modo de vida desses povos é também necessário analisar do ponto de vista da formação das Comunidades rurais da Amazônia (de várzea e terra firme), visto que investigar sobre a vida desses povos historicamente construídos (ribeirinhos, quilombolas, indígenas, entre outros) é pensar a organização dos mesmos, o modo como foram se agrupando e formando suas Comunidades.
Nessa questão Fraxe (2011) argumenta que a igreja católica teve e ainda tem um papel muito importante, visto que a mesma está presente como instituição politica, social e cultural na vida destes povos. Basta pensar a configuração socioespacial de uma Comunidade, onde geralmente a igreja é a referência localizada sempre na frente da Comunidade, tendo do lado o Barracão comunitário, e as festas de santo também a partir da relação com a igreja católica, é o momento em que os comunitários reafirmam sua cultura. (FRAXE, 2011).
Fraxe (2011) também chama atenção para o fato de que apesar dessas comunidades amazônicas possuírem uma serie de peculiaridades por terem passado por um processo histórico semelhante nas suas constituições, ainda sim não se pode afirmar que as mesmas são homogêneas, pois toda comunidade possui certas características próprias. E por isso mesmo concepções generalistas sobre os modos de vida nessas localidades tendem a ser refutados diante do conhecimento local.
É nas Comunidades que a vida ribeirinha ganha um significado simbólico do viver as relações de Comunidade, do participar das tarefas comunitárias, principalmente quando se envolve a organização das festas religiosas e torneios de futebol, onde exige de cada membro comprometimento, envolvimento; são nesses momentos que se caracterizam as relações de ajuda mútua (puxirum), relações de amizade, pertencimento e identidade com o lugar vivido, e o sentido de ser Comunidade nessa logica se concretizam.
E essa lógica está relacionada ao modo de vida ribeirinho no processo de sua identidade do lugar, o ribeirinho tem uma relação muito forte com seu local, e seus hábitos, crenças, e cultura enfim estão relacionados ao lugar, pois segundo Fraxe (2011, p. 123) “a construção de um lugar revela-se com a construção de uma identidade”. E a identidade sendo gerada por um processo de pertencimento ao lugar, é a marca especifica de um ribeirinho.

A comunidade de Santa Luzia do Marauarú: aspectos socioculturais e econômicos.

Comunidade de Santa Luzia do Marauarú está localizada em uma área rural de terra firme no município de Parintins-AM, estando distante a 20 km de distância via fluvial da sede municipal. Possuindo atualmente cerca de 40 moradores e sete famílias residindo no local, sendo que esse vazio demográfico é oriundo do êxodo rural. No inicio da década de 1970 muitas famílias migraram para a capital Manaus, devido à instalação do polo industrial (Zona Franca) em busca de oportunidades de emprego e melhoria de vida.
Os problemas sociais na Comunidade estão geralmente ligados ao abandono do local, abandono este não apenas pelos moradores, como também pela própria gestão municipal, posto que a escola, a igreja e outros setores da comunidade não funcionam mais. A maioria dos habitantes que ainda continuam morando na Comunidade está no local devido o cultivo do guaraná e por já terem criado uma identidade com o lugar.
A plantação e comercialização do guaraná na Comunidade pesquisada é a principal atividade econômica, da qual os moradores locais retiram sua renda. Mas por ser uma renda anual, ao longo do ano os moradores a complementam com outras formas de subsistência, principalmente pelo cultivo de pequenas roças que alguns ainda mantem, que acaba sendo usado como complemento na renda das famílias, principalmente pelas relações de trocas que essa Comunidade ainda mantem com outras comunidades, principalmente trocas de produtos agrícolas, essa renda também é complementada pelo trabalho assalariado, (as diárias1 ) mas é algo que não acontece com muita frequência, outra informação importante é que 70% das famílias recebem o Bolsa Família (programa do Governo Federal), que acaba sendo um importante complemento na renda dessas famílias.
A reflexão neste caso é perceber que apesar do cultivo do guaraná ser a principal forma de renda, no qual os moradores se dedicam exclusivamente, os mesmos ainda praticam o cultivo da roça, mas que é usado mais como uma forma de troca com outras comunidades do quealgo gerador de renda na forma de dinheiro.
Nessa comunidade pelo fato de não haver mais escola, as crianças tem que estudar em outras Comunidades próximas, principalmente na comunidade de Santo Antônio do rio Tracajá.
Quanto à questão dos festejos estes não ocorrem mais na comunidade, e sendo assim os moradores locais acabam participando dos festejos nas comunidades vizinhas, caçam e pescam somente para o consumo próprio e bem pouco, posto que muitas dessas atividades foram abandonadas depois que chegou a racionalidade da produção comercial do guaraná.

O trabalho e a produção comercial do guaraná na Comunidade de Santa Luzia do Marauarú

Marx (1977) foi um dos principais teóricos a discutir a categoria trabalho, que para este autor é atividade humana básica, a qual se constitui a forma como os homens constroem sua historia. Mostrando também que esse é um processo que se constitui primeiramente numa relação direta do homem com a natureza, e depois no capitalismo se torna algo alienado, pois o trabalho acaba se tornando um processo de exploração, que gera o lucro, ou seja, o empregado quanto mais trabalha para o patrão, mais fica pobre e alienado, enquanto que o burguês aumenta sua riqueza, e o proletariado não se vendo como parte do processo, não consegue perceber o grau de exploração que está subordinado, então essa condição na ótica marxistase chama alienação.
O trabalho na comunidade de santa Luzia do Marauarú está principalmente voltado para a produção agrícola e comercial do guaraná, na qual as famílias trabalham em conjunto, plantam juntas e vendem juntas o produto, e dessa forma o guaraná apesar de ser uma atividade apropriada pelo capital, acontece de uma forma onde as famílias agricultoras utilizam das relações de ajuda mutua para a produção da espécie.
De certa forma nesse caso especifico houve algumas perdas no modo de vida associado ao trabalho na comunidade, pois muitos não praticam mais outras formas de obter renda como antigamente, não produzem mais a farinha pra venda, apenas alguns moradores que ainda produzem mais somente para o consumo; a pesca também é praticada pelos moradores, mas somente para o consumo das famílias. Então se percebe que a logica do capitalismo chegou nesse local e de certa forma mudou a vida dos moradores, uma logica que se encaixa em Harvey (2005) quando o mesmo destaca que nesse processo de incorporação a tendência do capitalismo é destruir e absorver modos de produção não - capitalistas, ao mesmo tempo que os utiliza para criar espaço novo para a acumulação do capital.
O cultivo dessa espécie na região ganhou destaque e importância com o aperfeiçoamento de técnicas implantadas por famílias japonesas nos anos 80. Na qual se planta por parcelas separadas na mata, de 100x100 metros quadrados, essa maneira é usada como forma de prevenir pragas para que não destruam de forma completa as plantações.
O guaraná em quatro anos está pronto para o início da colheita, entre os meses de novembro a dezembro. Após a colheita do fruto o mesmo é armazenado e exposto ao sol para que perca a umidade, após esse processo os frutos são posto no pilão para a retirada de sua casca, em seguidaé feita a separação entre casca e semente, esta ultima é torrada e em seguida é ensacada, para ser vendida. A figura abaixo mostra em 1) “quadro” de guaraná, 2) o fruto , 3) semente exposta ao sol e 4) pilação.
No cultivo da espécie é preciso atenção quanto à prevenção contra as pragas que podem destruir as plantações, poresse motivo os moradores visitam semanalmente ou mensalmente as espécies, até mesmo pelo fato de impedir que outras espécies de vegetações cresçam em meio ao guaraná, então é preciso segundo os mesmos está sempre “capinando” a área para evitar esse tipo de problema.
O guaraná geralmente é vendido entre os meses de novembro e dezembro, sendo que existe um comprador certo, que vem de barco no porto da comunidade buscar o produto, que é vendido por preços que variam de 20 a 25R$ o quilo.Outra informação importante é que o comprador apesar de ser de Parintins-AM, o mesmo revende o produto para Santarém-PA.
 Na produção total do guaraná as sete famílias da Comunidade produziram 2,8 toneladas no ano de 2012, totalizados uma media de R$ 56.000/ano (cinquenta e seis mil reais), isso demonstra a importância dessa atividade econômica como forma de renda dos moradores, por outro lado, esses trabalhadores ao produzirem o guaraná (monocultura) para o mercado, ficam reféns da logica capitalista, visto que não produzem outras formas de agricultura, e essa condição funciona como apropriação pelo capital e perda da policultura no sentido de que os moradores não se dedicam mais as outras atividades na obtenção da fonte de renda, como a pesca, a caça, extrativismo e a roça como antigamente, ao invés disso, ficam condicionados a lógica da produção comercial, deixando cada vez mais de lado essas antigas atividades econômicas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na Amazônia as relações sociais, culturais, econômicas e politicas que se estabelecem são extremamente complexas devido à heterogeneidade existente em cada lugar dessa região. Muitas comunidades ribeirinhas da Amazônia vêm nos últimos anos passando por alguns processos de mudança, principalmente a partir de uma imposição da influencia urbana e capitalista. Se pensada do ponto de vista da influencia urbana as imposições da mudança estão principalmente condicionadas pela introdução do Programa Luz para Todos do Governo Federal nas Comunidades rurais, que acaba levando a racionalidade citadina para o modo de vida das populações rurais, e se pensada do ponto de vista da influência capitalista as imposições da mudança estão principalmente condicionadas pela perca das relações de ajuda mutua (puxirum) no trabalho em troca do assalariamento das atividades no trabalho.
Na comunidade de Santa Luzia do Marauarú o sentido de ser comunidade do ponto de vista das instituições do Estado (igreja, poder publico municipal) não funciona mais, porém, existe ainda o sentido de ser comunidade sob a ótica da manutenção de certas relações, como a de ajuda mútua, as relações de parentesco, na relação conjunta de se apropriar dos recursos naturais, como é o caso do cultivo do guaraná. Então no entendimento aqui, Santa Luzia do Marauarú ainda pode ser dita como uma Comunidade Ribeirinha da Amazônia, posto que não se pode significar uma comunidade apenas do ponto de vista das instituições do Estado, o sentido de ser Comunidade vai muito além disso.
A produção comercial do guaraná não apenas é uma forma de trabalho na comunidade, mas é também a principal fonte de renda das famílias, que se dedicam exclusivamente para essa forma de subsistência, porém, que acabam deixando de lado as velhas formas de trabalho, como a roça e a pesca, por exemplo, sendo essa uma situação que neste trabalho é tratado como uma imposição capitalista na forma de trabalho e no próprio modo de vida dos agricultores, que ficam reféns da logica do mercado, produzem somente para um empresário que dita os preços, a quantidade e o dia de compra do produto.
Mas apesar da apropriação capitalista do trabalho na Comunidade, ainda sim, algumas relações conseguem resistir, posto que mesmo estando dentro de uma lógica capitalista, ainda sim praticam formas de ajuda mutua, onde não envolve trabalho assalariado, contudo, a produção é para um mercado altamente capitalista.
Este trabalho se pautou no entendimento da forma como a racionalidade capitalista se apropriou do trabalho agrícola associado ao cultivo do guaraná na comunidade pesquisada. Percebeu-se que as relações capitalistas ao se encontrarem com relações sociais e culturais complexas no local acabarampor tornar sua forma de apropriação contraditória, pois não elimina totalmente as relações não capitalistas, contudo, as mudanças impostas na forma de trabalho e no próprio modo de vida dos moradores locais são significativas, deixando claro que a racionalidade do capitalismo tende a atrofiar tanto do ponto de vista econômico, como do ponto de vista cultural a vida das populações tradicionais nas áreas rurais da Amazônia.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, C. A. Território e desenvolvimento. Campinas: Unicamp, 2007.

CANDIDO, Antônio. Os parceiros do rio bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos meios de vida. São Paulo. Duas cidades; ed. 34, 2001.

CRUZ, M. J. M. Territorialização camponesa na várzea amazônica. Manuel de Jesus Mazulo da cruz. USP, 2007.

FRAXE, T.J. P. Cultura cabocla-ribeirinha: mitos, lendas e transculturalidade. São Paulo: Annablume, 2004.

_____________Comunidades Ribeirinhas Amazônicas: Memória, Ethos e Identidade. Manaus: Reggo edições, 2011.

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.

MARX, Karl. Contribuição á critica da economia politica. São Paulo, Martins Fontes, 1977.

OLIVEIRA, A. U. Modo de Produção Capitalista, Agricultura e Reforma Agrária. São Paulo: Labur Edições, 2007.

1 O trabalho praticado na forma de diária é quando o patrão paga em dinheiro ao empregado por um dia de trabalho.


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