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ABERTURA EXTERNA BRASILEIRA E SEUS IMPACTOS AO LONGO DA DÉCADA DE 90
O processo de abertura comercial e liberalização financeira que caracterizou a estratégia de inserção internacional do país na última década não produziu os efeitos propalados por análises teóricas convencionais e ideólogos dessa estratégia.
De fato, houve um sucesso inconteste no controle inflacionário, como visto anteriormente, quando os índices, que apontavam um patamar de quatro dígitos em 1994, passaram a apresentar dois dígitos em 1995 e apenas um em 1996. A obtenção de superávits nas contas públicas, ainda que apenas no conceito primário, também foi uma meta alcançada com relativo sucesso, dentro do componente de estabilização da estratégia implementada.
Entretanto, observando-se a tabela 1, é indiscutível o caráter pífio dos resultados em termos de crescimento econômico, acumulação de capital e geração de emprego.
Tabela 1 - Indicadores Macroeconômicos do Brasil (1989-2000)
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|
Taxa de crescimento |
Taxa de crescimento per capita |
Investimento (% PIB)1 |
Taxa de crescimento da FBKF2 |
Taxa de desemprego3 |
|
1989 |
3,2 |
1,4 |
- |
- |
3,3 |
|
1990 |
-4,4 |
-5,5 |
- |
- |
4,3 |
|
1991 |
1,0 |
-0,6 |
15,2 |
-1,8 |
4,8 |
|
1992 |
-0,5 |
-2,1 |
14,0 |
-8,6 |
5,7 |
|
1993 |
4,9 |
3,4 |
14,4 |
7,2 |
5,3 |
|
1994 |
5,9 |
4,3 |
15,2 |
12,5 |
5,1 |
|
1995 |
4,2 |
2,8 |
16,7 |
13,7 |
4,6 |
|
1996 |
2,7 |
1,2 |
16,5 |
2,5 |
5,4 |
|
1997 |
3,3 |
1,9 |
17,9 |
12,4 |
5,7 |
|
1998 |
0,2 |
-1,1 |
17,5 |
-1,8 |
7,6 |
|
1999 |
0,5 |
-0,5 |
16,1 |
-7,0 |
7,6 |
|
2000 |
4,4 |
3,1 |
15,7 |
nd |
7,1 |
1-preços de 1980.
2-formação bruta de capital fixo.
3-médias anuais pela PME do IBGE.
Fonte: Banco Central, IBGE e IPEADATA.
Entre 1990 e 1999, a taxa média de crescimento da economia foi de 1,78% ao ano, enquanto que a taxa média em termos per capita atingiu menos de 0,38% ao ano. Se comparado com o período da década de 80, a década perdida, quando a economia brasileira cresceu em média 2,2% ao ano, não seria exagero considerar os anos 90 como a década mais do que perdida. A taxa média de investimento no período 1991-2000 foi de 15,9% do PIB, aos preços de 1980, inferior aos 17,7% médios dos anos 80. Não bastasse essa redução, a composição da taxa de investimento “mostra sensível piora, pois o peso dos bens de capital caiu de 34% em 1990 para cerca de 25% em 1996-1997, aumentando o da construção” (Cano, 2000: 266).
Em termos dos setores produtivos, Cano (2000: 271-274) ainda estima que a taxa média anual de crescimento do setor agropecuário entre 1989 e 1998 foi de 2,1%, mantendo sua participação relativa no PIB em 7,6%. Já a indústria de transformação teve o pior desempenho setorial. Sua taxa média anual de crescimento foi de 0,2%, pior do que os 0,9% da década de 80. A participação deste setor no PIB caiu para 20%, algo similar ao observado ainda na primeira metade da década de 50.
As taxas oficias de desemprego, por sua vez, mais do que duplicaram durante a década de 90, saindo dos 3,3% da PEA (população economicamente ativa) em 1989 para 7,6% em 1999.
No setor externo, apesar do crescimento no volume de exportações , a situação tampouco foi animadora. Cano (2000: 270) constata que a pauta exportadora em 1989 era composta de 27,9% em produtos básicos, 14,5% em semi-manufaturados e 56,8% em manifaturados. Em 1997, essa composição já era, respectivamente, de 27,3%, 16% e 55%. Em relação à pauta importadora, os bens de consumo representavam 14,2% do total em 1989, os bens intermediários 35,3%, e os bens de capital 26,5%. Durante os anos 90, “enquanto estas últimas triplicaram em valor, as de bens de consumo e de intermediários quadruplicaram, colaborando com isso para o debilitamento e desestruturação de parte da agricultura e da indústria nacional” (Cano, 2000: 270)[1].
Mas, afinal, de que forma a estratégia de inserção internacional passiva, respaldada no processo de abertura externa, conseguiu atingir tão medíocre desempenho?
4.1- A VULNERABILIDADE EXTERNA COMO RESTRIÇÃO AO CRESCIMENTO
A própria montagem e execução da abertura comercial e financeira, aliadas à sobrevalorização cambial que caracterizou a segunda metade da década, criaram armadilhas e restrições que impediram o crescimento econômico do país.
O incentivo ao aumento das importações, por conta tanto da abertura comercial como da valorização do câmbio, e o ritmo lento de crescimento das exportações provocaram um substancial déficit comercial. Isso, aliado a um déficit histórico na balança de serviços, agravado pelo aumento das remessas de lucros e dividendos e do pagamento de juros, levou a consideráveis déficits em transações correntes (tabelas 2 e 3). A forma encontrada para financiamento dos déficits externos foi a atração dos capitais forâneos. Para tanto, ampliou-se a taxa de juros doméstica acima da internacional, em níveis que incrementassem a atração de capitais (diretos e de portfolio), o que definiu uma extrema dependência da economia brasileira frente aos movimentos erráticos do capital financeiro internacional, além dos crescentes empréstimos externos também contratados (gráfico 1).
Tabela 2 - Balanço de Pagamentos do Brasil em US$ bilhões: contas selecionadas (1989-1994)
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Conta \ Ano |
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
|
Balança Comercial - Exportações - Importações |
16,1 34,4 18,3 |
10,7 31,4 20,7 |
10,6 31,6 21 |
15,3 35,9 20,6 |
12,9 38,6 25,7 |
10,4 43,5 33,1 |
|
Balança de Serviços - Lucros e dividendos - Juros líquidos - Outros |
-14,8 -2,4 -9,6 -2,8 |
-15,3 -1,6 -9,7 -4,0 |
-13,5 -0,6 -8,6 -4,3 |
-11,3 -0,5 -7,3 -3,5 |
-15,5 -1,8 -8,2 -5,5 |
-14,7 -2,5 -6,3 -5,9 |
|
Saldo em transações correntes |
1,5 |
-3,8 |
-1,4 |
6,1 |
-0,6 |
-1,7 |
|
Movimento de capital - Empréstimos - Investimento de portfolio líquido - Investimento direto estrangeiro líquido - Amortizações pagas e refinanciadas |
-4,1 1,9 0,7 0,1 -14,5 |
-4,7 -0,3 0,1 0,3 -8,6 |
-4,1 0,9 0,5 0,5 -7,8 |
25,2 17,5 1,7 1,1 -8,5 |
10,1 11,6 6,6 0,4 -9,9 |
14,3 53,8 5,0 1,9 -50,4 |
|
Saldo do balanço de pagamentos |
-3,4 |
-8,8 |
-4,6 |
30,0 |
8,4 |
12,9 |
Fonte: Boletim do Banco Central.
Tabela 3 - Balanço de Pagamentos do Brasil em US$ bilhões: contas selecionadas (1995-2000)
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Conta \ Ano |
1995 |
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
|
Balança Comercial - Exportações - Importações |
-3,2 46,5 49,7 |
-5,6 47,7 53,3 |
-8,4 53 61,4 |
-6,5 51,1 57,6 |
-1,2 48 49,2 |
-0,6 55,1 55,7 |
|
Balança de Serviços - Lucros e dividendos - Juros líquidos - Outros |
-18,6 -2,6 -8,2 -7,8 |
-21,7 -2,3 -9,8 -9,6 |
-26,9 -5,6 -10,4 -10,6 |
-30,3 -7,1 -11,9 -11,3 |
-25,2 -4,0 -15,2 -6,0 |
-25,4 -3,3 -14,6 -7,5 |
|
Saldo em transações correntes |
-17,8 |
-24,3 |
-32,4 |
-34,1 |
-25,4 |
-24,3 |
|
Movimento de capital - Empréstimos - Investimento de portfolio líquido - Investimento direto estrangeiro líquido - Amortizações pagas e refinanciadas |
30,9 33,5 4,7 2,9 -11 |
34,2 22,8 6,1 9,2 -14,4 |
26 28,8 5,3 16,2 -28,7 |
15,9 41,6 -1,8 23,7 -33,5 |
13,9 28 3,8 26,9 -42,4 |
19 -8,7 6,9 30,5 -25,8 |
|
Saldo do balanço de pagamentos |
13,5 |
9 |
-7,8 |
-17,2 |
-7,8 |
-2,2 |
Fonte: Boletim do Banco Central.
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Fonte: Boletim do Banco Central.
A dependência extrema em relação aos capitais externos em um mundo de forte instabilidade do sistema financeiro internacional, e a baixa capacidade de resistência da economia brasileira frente a choques externos, definiam, respectivamente, uma fragilidade e uma vulnerabilidade externas, responsáveis pela restrição ao crescimento econômico que caracterizou a década.
Além da restrição externa estrutural, a abertura comercial e financeira criou uma armadilha financeira nas contas externas (Tavares, 1997 e Gonçalves, 1997). Os crescentes déficits em transações correntes, agravados pelo efeito da sobrevalorização cambial sobre o saldo comercial e por outras contas como gastos em viagens internacionais, foram financiados pela maior entrada de capital externo, na forma de endividamento ou de investimento externo. Isso provocou o aumento do passivo externo (dívida e estoque de capital) o que, em um segundo momento, foi traduzido em elevação do déficit na conta de serviços (pagamento de juros e remessa de lucros e dividendos) e, conseqüentemente, do déficit em transações correntes. A armadilha financeira nas contas externas manifestou-se assim em um endividamento externo crescente, tanto pelo crescimento da dívida, como pelo aumento do passivo externo, por conta do círculo vicioso de realimentação financiamento externo – déficits crescentes.
O déficit externo crônico definiu uma obrigação de manter elevadas as taxas domésticas de juros, provocando o “engessamento” da política monetária. Por outro lado, a obrigatoriedade de manter as altas taxas de juros construiu, ainda, uma armadilha fiscal. As altas taxas de juros representaram a elevação dos custos de rolagem da dívida pública, levando à explosão do seu serviço. Dado o compromisso de estabilidade monetária, o governo ainda se viu obrigado a esterilizar o efeito expansionista da entrada de capital externo sobre a oferta monetária, o que terminou por elevar o volume da dívida pública[2]. Apresentaram-se duas opções não excludentes. Ou o governo financiava o endividamento público crescente emitindo novos títulos públicos, em um processo de rolagem, ou promovia fortes processos de ajuste fiscal, incluindo elevação de receitas, cortes nos gastos e ampliação do programa de privatizações. Constituía-se assim o “engessamento” da política fiscal.
A vulnerabilidade externa ainda provocou outra armadilha no que diz respeito ao crescimento econômico. A estratégia de abertura, potencializada pelos efeitos da sobrevalorização cambial da segunda metade da década, levou a um processo de stop and go na trajetória de crescimento do país[3]. Qualquer melhora conjuntural que elevasse a renda nacional provocaria aumento da demanda por importações, agravando o déficit em transações correntes e definindo a necessidade de reduzir esse nível de renda. A variável-chave para isso sempre foi a taxa de juros que, mantida em níveis elevados, conseguiu não só reduzir o nível de renda a patamares condizentes com a restrição externa, mas também manter o fluxo positivo de capitais externos.
A vulnerabilidade externa se manifestou assim, ao longo da década de 90, através de crescentes endividamentos externo e interno, e na incapacidade recorrente que a economia brasileira demonstrou em crescer de forma sustentada. É justamente da inviabilidade estrutural externa e interna, e das manifestações conjunturais da restrição externa ao crescimento que se passa a tratar.
4.1.1-Inviabilidade estrutural externa
O crescimento da dívida externa nos anos 90 é nítido nas tabelas 4 e 5, passando de um total de US$ 115,5 bilhões em 1989 para US$ 241,2 bilhões dez anos depois, um aumento de quase 109% na década. Os gastos com o serviço dessa dívida também mostraram um crescimento considerável de US$ 24 bilhões no final da década de 80 para US$ 62,8 bilhões ao término da década passada. Deve-se ressaltar, entretanto, que o serviço da dívida externa experimentou certo recuo no início da década de 90, muito por causa da renegociação da dívida externa nos moldes do Plano Brady encerrada em 1994. A partir desse momento, a trajetória de crescimento do serviço da dívida acompanhou a elevação do endividamento do país.
Tabela 4 - Dívida Externa: Estoque e Composição em US$ bilhões (1989-1994)
|
|
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
|
Dívida externa total |
115,5 |
123,4 |
123,9 |
135,9 |
145,7 |
148,3 |
|
Dívida externa privada |
31,5 |
28,7 |
29,2 |
42,5 |
55,1 |
60,9 |
|
Dívida externa pública |
84 |
94,6 |
94,6 |
93,4 |
90,6 |
87,3 |
|
Total de curto prazo |
16,2 |
26,8 |
30,9 |
25,1 |
31,4 |
28,6 |
|
Total de médio e longo prazo |
99,2 |
96,5 |
93 |
110,8 |
114,2 |
119,6 |
|
Dívida Externa líquida |
105,8 |
113,5 |
114,5 |
112,2 |
113,5 |
109,5 |
|
Serviço da dívida |
24,1 |
18,9 |
17,3 |
15,4 |
18,6 |
19,1 |
Fonte: Boletim do Banco Central.
Tabela 5 - Dívida Externa: Estoque e Composição em US$ bilhões (1995-2000)
|
|
1995 |
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
|
Dívida externa total |
159,2 |
179,9 |
200 |
234,7 |
241,2 |
236,1 |
|
Dívida externa privada |
71,8 |
95,6 |
123,7 |
139,8 |
141,2 |
125,5 |
|
Dívida externa pública |
87,4 |
84,3 |
76,2 |
94,9 |
100 |
110,6 |
|
Total de curto prazo |
29,9 |
37,7 |
36,7 |
24 |
28,6 |
29,9 |
|
Total de médio e longo prazo |
129,3 |
142,1 |
163,2 |
210,6 |
212,6 |
206,2 |
|
Dívida Externa líquida |
107,4 |
119,8 |
147,8 |
197,2 |
204,7 |
203,1 |
|
Serviço da dívida |
21,6 |
27,2 |
43,2 |
49,5 |
62,8 |
40,4 |
Fonte: Boletim do Banco Central.
Quanto à composição dessa dívida externa é importante salientar dois aspectos. Em primeiro lugar, a maior participação da dívida de médio e longo prazo, em relação aos vencimentos de curto prazo, sempre esteve presente. Este perfil mais alongado da dívida externa permitiu a contínua rolagem do endividamento, em que pese o vultoso crescimento de seu estoque e de seu serviço. Em segundo lugar, na segunda metade da década de 90, a parcela privada da dívida passa a superar a parcela pública, representando 58,5% do total em 1999, quando em 1989 representava apenas 27,3%[4].
A inviabilidade estrutural externa da estratégia brasileira de abertura nos anos 90 pode ser observada, além do endividamento externo crescente, através de indicadores de vulnerabilidade externa apresentados nas tabelas 6 e 7.
Tabela 6 - Indicadores de Vulnerabilidade Externa (1989-1994)
|
Indicador |
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
|
Dívida externa total / exportações |
3,35 |
3,93 |
3,92 |
3,78 |
3,77 |
3,41 |
|
Dívida externa líquida / exportações |
3,3 |
3,6 |
3,6 |
3,1 |
2,9 |
2,5 |
|
Dívida externa total / PIB (%) |
27,7 |
27,6 |
32 |
36,3 |
33,8 |
27,3 |
|
Dívida externa líquida / PIB (%) |
25,4 |
25,4 |
29,6 |
29,9 |
|